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Hino do município de Quixadá
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2026-08-14T20:21:03Z
Pauloa668
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Hino original
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{{hino
|obra=Hino do município de [[w:Quixadá|Quixadá]]
|melodia por=Manoel Ferreira
|letra por=Edgardo Moraes de Oliveira
|notas=
}}
<poem>
Linda terra rica e querida,
Povo forte, nobre e alterneiro.
Quixadá, tu és minha vida.
Me orgulho em ser brasileiro.
Teus monólitos e fazendas,
Contornando esse imenso sertão,
Mais parecem de Deus oferendas
Aos seus filhos com devoção.
Quantas glórias cidade-menina,
Te contemplam em teu fadário.
És a luz, pura e bela, cristalina,
Nessa festa de teu centenário.
Vou cantando feliz e contente
Tua história com amor e paixão,
Quixadá, grande, forte e valente
viverás sempre em meu coração.
</poem>
[[Categoria:Hinos do Ceará|Quixada]]
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O Rio de Janeiro em 1877/I
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2026-08-15T01:40:34Z
André Koehne
260
/* Cena XXVII */ ajustes
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{{navegar
|obra=O Rio de Janeiro em 1877
|autor=Artur de Azevedo
|anterior=[[O Rio de Janeiro em 1877/Prólogo|Prólogo]]
|posterior=[[O Rio de Janeiro em 1877/II|Segundo ato]]
|seção=Primeiro ato
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}}
==Quadro II==
===Cena I===
(Depois da sinfonia, Um Espectador, que está nUm camarote dirige-se ao público naturalmente.)
Espectador - Parece-me que, desta vez, temos coisa nova. Antes de vir para aqui, tinha dito a Um dos meus amigos que creio deve estar aí na platéia: Palpita-me que vou ter Uma imitação francesa parecida com a da Madame Angu ou Uma tradução, como a da Mulher do Saltimbanco, mais ou menos apropriadas aos acontecimentos passados: mas julgo que me enganei. Errare hUmanUm est. Ainda que me custe a engolir como genuinamente original, aquela esperteza de começar a peça pelo couplet final. Enfim, nihil sub sole novUm. Uma das coisas que nunca falham nUma revista francesa é o Monsieur du parterre, sujeito que finge ser do público, que fala como por acaso... Bem acredito eu nos tais casos... e que, no fim de contas, não passa de Um ator com mais ou menos espírito. Felizmente nesta peça parece-me que estamos livres dele... do ator se entende... porque o espírito é de crer que o haja por atacado e a varejo, apesar da peça não ser do Varejão. Sem querer, falei demais... Não vão agora os senhores pensar que faço parte da peça! Deus me livre, que meu pai não me educou para cômico. Vamos ver o que sai por detrás daquele pano.
(Sobe o pano. Praça, gafanhotos, vaga-lUmes, Gatunos, Moleques, Policiais)
===Cena II===
Gafanhoteos e depois (Ilegível.)
''Coro''
===Cena III===
1º, 2º Gatuno e Zé Povinho
1º Gatuno (Deixando cair Uma carta no chão.) - Lá vai a isca.
2º Gatuno (Agarra a carta na ocasião em que o 1º vai também para lhe pegar, ficando o 2º com ela.) - Largue, que é minha.
1º Gatuno - Não há tal! Esta carta caiu-me da algibeira.
Zé (Que tem visto.) - Caiu, que eu vi.
2º Gatuno - O senhor está combinado com ele!
Zé - Combinado vá ele. Veja se quer exprimentar a peroba. (Ameaça-o.)
2º Gatuno - A carta é minha, e a prova é que tem dentro Uma trancinha.
1º Gatuno - A carta caiu-me da algibeira, e não tem nada dentro.
2º Gatuno - Aposto em como tem Uma trancinha.
Zé - Aposto também eu! Aqui está dinheiro!
1º Gatuno - Também eu aposto. Vamos, feito!
Zé - Quanto val a aposta?
2º Gatuno - Duzentos bicos...
Zé - Case. os meus aqui estão. Vão para a mão deste cavalheiro.
1º Gatuno - Abra a carta.
2º Gatuno (Abrindo a carta e mostrando Uma trancinha.) - Ganhei.
1º Gatuno (Para Zé Povinho.) - Perdemos. (os Gatunos saem.)
===Cena IV===
Zé Povinho só; depois Boato, vestido de urbano; Nota de Duzentos Mil Réis que nada fala
Zé (Meio atordoado.) - Perdemos. É singular este plural. Devia ter dito ganhamos, e perdeu! Querem ver que fui embarrilado? Creio que sim. Pelo sim, pelo não, vou queixar-me à Polícia. (Entra o Boato.) Ó camarada. (Boato não responde.) Ó seu guita! (O mesmo.) Vai a dormir. (Chega-se e grita-lhe no ouvido. O urbano desperta, puxa da espada e põe-se a gritar.)
Boato (Com volubilidade.) - O que é isso? O que é que é? O que há? Quem foi o ladrão? Onde é o fogo? Onde está a carroça? Que número tinha o bonde? Quantas facadas deu ele?
Zé - Uma só... mas foi taluda.
Boato - Onde?
Zé - Aqui. (Mostra o bolso.) Duzentos mil réis, Por sinal foi Uma nota...
Boato - Uma nota de duzentos.
(Passa Uma nota perseguida por Um urbano.)
Zé - Olhe, exatamente como aquela!!
Boato - Como aquela?
Zé - Tal e qual.
(A nota faz negaças ao urbano até sair.)
Boato - Mas aquela é Uma nota falsa! Você parece-me passador de moeda falsa. Venha à presença da autoridade. Está preso em flagrante de delito! HUm... amanhã dirão os jornais: “graças ao zelo da Polícia, foi preso Um dos passadores de notas falsas. A Autoridade segue o rasto de vasta conspiração”.
Zé - Qual conspiração nem qual carapuças. Conspirando está você contra o meu sistema nervoso. O que me parece é que você está a dormir!
Boato - Insultos! Oh! que parte!
Zé - Você quer tomar o peso ao cacete.
Boato - Ameaças! Oh! que parte!
Zé (Levantando a bengala.) - E se não se safa..
Boato (Apita.) - Vias de fato! Oh! que parte!
===Cena V===
Os mesmos e Política
Política - Pára.
Boato - Manda quem pode.
Política - O que foi isto?
Boato - Tomei este uniforme de urbano, e acabo de prender Um passador de moeda falsa, visto que não podemos agarrar mais nenhUm. Agarramos Um, prendemo-lo, processamo-lo, levamo-lo ao júri, absolvemo-lo, apelamos, processamo-lo de novo, levamo-lo de novo ao tribunal, condenamo-lo, mas damos-lhe tempo para deitar sebo nas canelas. (Baixo.) Mas...esse... coitado... não passou: foi passado
Política - Nesse caso, retira-te...
Boato - Para onde?
Política - Vai vestir-te à paisana e assistir às sessões da Câmara.
Boato - Lá vou... lá vou... (Vendo entrar o Capoeira.) E vou em boa Companhia.
===Cena VI===
Os mesmos e Capoeira
Zé (Fugindo para o regulador.)- Ai mau! Ai mau!
Capoeira - Vamos à Câmara?
Boato - Eu vou para lá: vem comigo. (Enlaçam-se.) Trazes a navalha?
Capoeira - Trago. Vamos. É mais perto ir pela estrada do... (Indica à esquerda.)
Boato - ...do que ir pela travessa. (Saem.)
===Cena VII===
Zé Povinho e Política
Zé (Rolando o chapéu nas mãos.) - Eu faltaria ao mais sagrado de Todos os deveres se não lhe agradecesse...
Política - Nada tem que me agradecer. Somos conhecidos velhos.
Zé - Vossa Mercê já andou pela Província?
Política - Eu ando em toda a parte.
Zé - Mas nunca tive o gosto de a encontrar!
Política - Olá! Se tiveste! Sou a Política!
Zé - Qual!
Política - Duvidas?
Zé - Que esperança! Pois se sou Uma vítima de tal víbora! Ainda nas últimas eleições, ela me fez gastar bons cobres! E afinal de contas o Sérgio pulou fora como Um catita! Foi repelido à correia! Não o quiseram lá! Fora mais fácil meter Um prado na Câmara, e não meteram, apesar de vir por obra e graça do Espírito Santo. Mas, apesar disso tudo, em se falando de eleições, sou outro Homem; é defeito que me está na massa do sangue. Apesar da Política lá na terra ser velha e feia como o demônio. Você ao menos é toda chique, toda boa, pra não dizer mesmo toda coxa. A coisa por cá parece que rende.
Política - Qual! Vão-se acabando os privilégios. Já estão inventados Todos os melhoramentos.
Zé - Já eu tenho ouvido falar nisso. Isto por cá vai de vento em popa. É Empresa de Esgotos, Carris de Copacabana.
Política - Isso anda meio entruviscado. Botanical que dividir a Copacabana; quer ficar com a copa e deixar a cabana aos outros.
Zé -Quem ocupa a copa esquipa sob a melhor capa! No copus hic labor est.
Política - Faço como Pilatos, que era Homem asseado, e lavava as mãos mesmo quando estavam limpas...
Zé - As mãos da Política não podem estar muito limpas... Oh! Mas vossemecê traz luvas... e que as não trouxesse! Tinha água da Empresa do Anjo Gabriel... É verdade que a tal água pode untar as suas mãozinhas, em vez de limpá-las... Mas posso saber quem é esse sujeito de quem me livrou?
Política - É Um dos meus mais fiéis aliados: é o Boato.
Zé - O Boato?
Política - O “consta-nos”, o “diz-se”, o “ouvi dizer”, o “somos informados com toda a reserva”. Uma espécie de calúnia de BeaUmarchais...
Zé - E você tem conhecimento com sujeito dessa ordem? Que ordem de sujeito! Está sujeito a ser chamado à ordem!
Política - Está bem: deixa-te de trocadilhos e anda daí a ver a cidade do meu afeto.
Zé - Aceito. Mas receio que minha mulher, Opinião, vendo-me com vossemecê, faça Uma cena dos diabos.
Política - Acharei artes para livrarmos dela. É ciUmenta?
Zé - Uma víbora!
Política - E como é que não está contigo?
Zé - Ficamos de nos encontrar em Botafogo; mas, para aproveitar alguns momentos livre dela, ensinei-lhe o bonde de Vila Isabel.
Política - Pois amanhã o meu fiel Boato te livrará dela.
Zé - Mas nada de intrigas.
Política - Sossega; não há ninguém como a Política para guardar as conveniências.
Zé - E se todo em todo me não pode livrar dela?
Política - Quem não pode, trapaceia...
Zé - Pois também a Política?
Política - Vem daí, ingênuo e primitivo caboclo. (Passam ao fundo dois personagens esgrimindo-se com penas de pato. Um deve ser Padre.)
Zé - O que vão fazendo aqueles dois indivíduos?
Política - São dois amigos meus que estão tratando da Questão religiosa.
Zé - Pois ainda isso dura?
Política - E durará. (Vai ao fundo e aperta a mão dos esgrimadores.)
Zé - O que foi vossemecê lá fazer?
Política - Estavam Um pouco cansados; fui lhes dar novas forças. Vamos! (Saem.)
===Cena VIII===
Opinião, só
Opinião - Ora, Uma destas só a mim acontece! Ah! que se o encontro dou-lhe Uma sova de o deixar em lençóis de vinho. Larga-se Um Homem e mais a sua mulher lá dessas terras por onde Cristo nunca andou, para vir à corte opor-se ao concurso de abastecimento de carne verde à capital, sai-lhe pela proa Um Berlinch e adeus minhas encomendas! Há de dar bons burros ao dízimo! A sua carne verde faz Febre Amarela! Ao menos há patriotismo nas cores! E o tratante do Zé Povinho mal aqui se apanha, foi Uma vez! É capaz de andar rendendo preitos aberta... mente às francesas, e à ida para casa com este sistema, há de ser bonita... Se o apanho...
===Cena IX===
A mesma, o Boato, à paisana
Opinião (Vai sair e encontra-se com Boato.) - Vai cego?
Boato - Irribus! Pisou-me o melhor calo!
Opinião - Para outra vez, veja por onde pisa.
Boato - O que quer? Venho atordoado com o que me contaram.
Opinião - O que foi?
Boato - Dizem que Um pobre Homem, não vi, mas ouvi dizer a pessoa de confiança, tendo-se perdido esta manhã da mulher...
Opinião - O que faz? Valha-me Deus! Mas o marido também se perdeu de mim!
Boato - da senhora?
Opinião - De mim, sim; já lhe disse tintim por tintim.
Boato - Pare lá com o sino! Enfim! E como se chamava ele?
Opinião - Zé Povinho.
Boato - É o mesmo.
Opinião - Mas o que lhe aconteceu? Ah! Conte! Céus! Diga! Estou nUm desespero incrível!
Boato - Pois, minha boa e pobre senhora...
Opinião - Estou viúva?
Boato -Provisoriamente!
Opinião - Explique-se ou o agatanho!
Boato - Seu marido, consta fez as malas e sem amá-la... pôs-se a panos mal a mala. (Sai.)
===Cena X===
Opinião e Espectador
Opinião - Mas isto é horrível! Abandonar-me no meio dUma cidade desconhecida em risco de ser cantada... em alguma “ocorrência da rua”. Em verdade, se fora segunda feira: e em prosa, se for a semana. Isto é ignóbil.
Espectador - É muito mais do que a senhora julga!
Opinião - É porque terá outra amante?
Espectador - Tem, e a pior de todas...
Opinião - Diga-me quem é, porque quero esganá-la!
Espectador - Não fazia nada demais, porque ela tem esmagado a muita gente.
Opinião - Quem é ela?
Espectador - A Política;
Opinião - Ai, que mulher sem-vergonha. Hei de desmascará-la.
Espectador - Olhe que veio a propósito atrás dele! O seu Zé Povinho estava sossegado, como a linda Inês!
Opinião - Então ele não partiu?
Espectador - Qual! A senhora foi vítima da Seca... Ai, da Seca. Oh! Perdão! Vítima do logro.
Opinião - É do que vive aquela sujeita, é de lograr todo o mundo!
Espectador - Se a senhora quer, eu acompanho, até encontrar o Homem.
Opinião - Com todo o gosto
''Dueto''
Lá vou, lá vou, lá vou
sinhá.
pois sim, pois sim, pois sim,
venha cá.
(À parte.) - É bem simpático este moço! Parece-me com a Vale, do Teatro São Luiz. Vou enciUmar o pérfido e assim que lhe deitar as unhas, deito-lhe as ditas e dentes, e ponho-lhe as malas à costas e marcho para Goiás, que é terra de progresso, onde há Um cabriolé ganho com o suor do rosto. (O Espectador desce para o palco.)
Espectador - Pronto.
Opinião - Principiemos a exploração. (Derretida.) Não?
Espectador - Está dito então.
Opinião - Onde vamos?
Espectador - Ver a inauguração do plano inclinado para Santa Teresa!
Opinião - Plano inclinado? Nunca ouvi falar nisso, senão a respeito das nossas finanças.
Espectador - Essas estão em muito bom pé... Agora em boa mão é que não sei... Ouvi falar aí nUma história de dez mil contos, que é Um verdadeiro romance.
Opinião - Mas então o que é o plano?
Espectador - Venha, e depois lho explicarei.
Opinião - Por onde?
Espectador - Metemo-nos no bonde aqui no largo.
==Quadro III==
===Cena XI===
(Vista do plano inclinado de Santa Teresa. Coro de inauguração de gente do povo.)
Espectador e Opinião
Opinião (Abanando-se.) - Ai tanta gente e o Senhor Zé Povinho nem pintado o vejo. Ai! O que é que vem ali? Nunca vi animal semelhante.
Espectador - Vem aqui por causa de sê-lo.
===Cena XII===
Os mesmos e o Correio, montado numa tartaruga
(Correio é cercado e cUmprimentado por Todos os jornais.)
Opinião (À parte.) - Ele anda tão devagar... (Ao Espectador.) Pois o Senhor Diretor é bem ativo e inteligente.
Espectador - Assim é que é o Correio geral! Mais moroso que aquilo só o Telégrafo.
Correio - Agradeço a pontualidade. Vim Um pouco mais tarde, porque tive de fechar a mala para Chapéu d’Uvas. Espero que haveis de ficar contente com a convenção de Berne.
Todos - O quê?
Correio - Quero dizer que haveis de ficar satisfeitos com o plano, e eu, por meu lado, não hei de ficar no primeiro plano.
Espectador - Não falo da carta; refiro-me ao plano.
Correio - Desde que se aperte o freio do novo sistema, já não há perigo que as cartas sejam violadas;
Espectador - Mas a que inviolabilidade se refere?
Correio - À da vida dos que subirem o plano. Já dei ordem para serem carimbados...
Todos - Carimbados?
Correio - Todos os bilhetes. Por estas e outras mereço todo o elogio. Na qualidade de Correio Geral e reconhecendo que Uma carta levava dois dias para chegar da cidade a Santa Teresa, acho excelente a idéia do plano inclinado! O próprio indivíduo pode levar a sua carta, e entregá-la em mão própria em meia hora. (Sente-se o apoio e grande algazarra do povo.)
Todos - É agora. É agora. Vai subir.
Um Moleque - Quer balas, freguês, quer balas?
(Aparece o bonde no plano inclinado. Estão Zé Povinho e a Política.)
Zé - Eu cá estou.
Política - E eu também.
Opinião - (Que está à boca de cena.) - Lá está o pérfido! Acompanhado dUma mulher! Oh! Quero saber quem é!
===Cena XIII===
Os mesmos e Boato
Boato (Ao ouvido da Opinião.) - Consta-me... não sei... mas parece-me que é a Política!
Opinião - Mas o que vai ele ali cheirar?
Espectador - Não se admire: a Política cá na terra mete o nariz em toda a parte.
Opinião - Deus queira que não as meta nas algibeiras do velho. Basta que eu o faça.
Espectador- É limpeza geral!
Zé - A Opinião! Minha mulher! Ó Senhora Política, mande subir até onde há cabo. Ao cabo do mundo que seja, senão acabo! Ela dá cabo de mim.
===Cena XIV===
O Veículo e o Anjo da Humanidade
Veículo (Entrando desaforado com o tílburi na cabeça.) - Maldita invenção do bonde. Até mesmo esta subida já tem condução à noite. Pois bem guerra de Morte! Comecemos por cortar o cabo! (Vai a dirigir-se para o fundo.)
Anjo (Derrubando-o.) - Para trás! As conquistas do Progresso protege-as Anjo da HUmanidade.
Veículo - Ora esta. Não sei o que tenho. Vinho não é, porque só bebi cachaça.
(Aparece na plataforma do bonde o Anjo, que sobe ao som de gerais aclamações, levando a reboque a tartaruga em que vai montado o Correio.)
Opinião - Lá se vai o Homem pela corda acima.
Boato - E dizem que a coisa vai descarrilar!
Opinião - Então lá leva o diabo o velho. (Cai desmaiada nos braços d’alguém.)
(Mutação.)
==Quadro IV==
===Cena XV===
(Um botequim, mesas, cadeiras)
Caixeiro, só, à porta
Caixeiro (À parte.) - Estamos hoje em maré de vazante. Não aparece ninguém... Não admira... os fregueses estão metidos aí em algUm teatro a ouvir algUma Conferência... E o mais é que estas coisas de Conferência têm feito Um mal dos diabos ao comércio. Há estabelecimento por aí que está sempre às moscas, outros estão como Nero. Nem mesmo Uma mosca... Todos os fregueses fugiram... foram naturalmente ser oradores de Conferências. Que também não sei por que se não há de chamar de conferentes a esses oradores. Conferente!... Só o título quanto val! (Ouve-se Um trovão.) Santa Bárbara!... Lá está Um a orar... Ah! É Um trovão. Ora, ó Lopes... Felizmente lá vem Um freguês, mais do que Um... é Uma Companhia.
===Cena XVI===
O mesmo, Diretores da Comanhia de ConsUmo, depois Taberneiros
1º Diretor - O senhor é dono desta casa?
Caixeiro - Por enquanto não, senhor. Sou apenas Um dos interessados... em que ela ganhe dinheiro.
1º Diretor - Pois nós cooperamos o consUmo, e vínhamos saber quantas ações quer que reservemos.
Caixeiro - Para quê?
1º Diretor - Para comer mais barato do que em qualquer outra parte... tudo puro e sem confeição. (os Taberneiros têm estado a espreitar a porta e entram ameaçadores.)
''Coro''
Caixeiro - Mas isto é Uma invasão! Estão por acaso suspensas as garantias?... O que é isto, vivemos nUm império ou nUma republiqueta?
1º Taberneiro - Nós, os secos e molhados... fazemos de guerra de Morte a essa Companhia, que jurou a nossa ruína. Nós somos o monopólio do bacalhau, a composição do vinho, a farinha avariada.os paios em salmoura podre, o azeite rançoso e Todos esses gêneros que fazem tapar o nariz à Junta da Higiene, que emagrecem o povo e nos engordam a nós. Eis o que somos.
Caixeiro - Pois eu, como cá cheiro, não me cheira essa contenda, e ponham-se todo na rua. Rua! Senhores do ConsUmo, não me consUmam a paciência.
Todos - Guerra! Guerra!
(Saem em perseguição uns aos outros pela esquerda.)
===Cena XVII===
Caixeiro, depois, Zé, Política
Caixeiro - Além de se não ter fregueses, ainda em cima me cai em casa Uma praga destas! Onde estão as autoridades? Já não temos constituição, senão na Praça do Rossio. O país está perdido. (Entra Zé e Política.) A nação vai por Um plano inclinado.
Zé - De lá venho eu agora... e gostei. (Entra.)
Caixeiro - Ó coração despaisado... Pois o senhor gosta da desgraça do país?
Zé - Do país? Quem lhe fala nessas coisas? Eu refiro-me ao plano inclinado de Santa Teresa, e eu mesmos estou inclinado a fazer Um plano daqueles lá na terra; mas puxado a burros.
Caixeiro - A burros?! Queira desculpar.
Zé - Não há de quê. (À Política.) Tomas algUma coisa?
Política - Isso não se pergunta, eu tomo sempre.
Zé - Traga-me lá Uma cajuada com groselha. (Sentam-se à mesa.) Pois gostei da tal caranguejola, é obra acabada... agora o que falta é acabar a obra.
Política - Não se há de demorar... Eu interesso-me pelo melhoramento.
Zé - Tu também interessas-te por tudo... és a salvação do Povo...
Política - O Povo é os meus encantos, a minha tetéia... ou em melhor e moderna tradução, o meu bijou... Olha, lá vem Um dos meus amigos.
Zé - Quem? Aquele Homem de capote que vem com aquela criançada toda?
Política - Esse mesmo. Dirige-se para aqui.
Caixeiro - Estamos arranjados... se nos apanha de jeito, é capaz de nos pedir a camisa.
===Cena XVIII===
Os mesmos e o Major
Major - Meus senhores, venho implorar a sua caridade... Qualquer cosa me serve... Umas calças... até Uma casaca me faz conta... mesmo das viradas... se é que há algUmas por aqui...
Zé (Baixo à Política.) - Aquilo parece que é contigo.
Política - Não é, mas faz-me arder..
Major - Querem Uma amostra do pano? Pois aí vai o pano d’amostra. Eu tinha Uma casaca. DUma das abas fiz Um cueiro... vejam. (Mostra Uma criança embrulhada nUma aba da casaca.) Com outra, arranja-se Uma capa como esta. (Vai mostrando o que diz.) O que este tem na cabeça é Uma manga... cujo canhão disparou... quero dizer, desapareceu... a outra manga deu meias calças para este que está a espera d’outra casaca para completar a toalete... e o resto... o casco... desabado... cobre os ombros deste patusco... Vejam pois que as casacas di...abas são casacas Santas... Vamos, meus senhores, qualquer cosa serve.
Zé - Eu só lhe dei Um cheque para o Banco Mauá.
Major - Depois que levou o xeque-mate, é quanto de mau... há.
Zé - Pois se lhe não serve...
(O Caixeiro que tem saído, entra com Uma grande porção de roupa velha com que se vestem os pequenos caricatamente.)
Caixeiro - Aqui tem o que há. Por hoje acabou-se a roupa velha cá em casa.
Zé - É pena, porque o petisco é do gosto.
Política - E olha que não é mau petisco.
Major - Obrigado.
Caixeiro - Quando o senhor sair condecorado, lembre-se de meu padrinho, que é Uma jóia e vende as ditas na Rua Estreita de São Joaquim.
Major - Agora, rapazes, vamos a outra freguesia.
(Dão a volta à roda da cena, ao som da Marcha.)
===Cena XIX===
Caixeiro, Zé, Política, depois Boato
Zé - É original este tipo!
Política - As intenções são boas...
Zé - Já não acontece o mesmo a Todos... (Vai sentar-se nUm banco do que cai a perna.) Veja este banco que peça me armou... estava quebrado... não me preveni... convidou-me a sentar, e depois zás... Uma destas faz perder a confiança nos bancos. (Ouve-se rUmor.)
Política - Que rUmor é este?
Caixeiro - É na... o que lá vai.
Política - O que é?
Boato - Querem saber o que é, não se assustem. Todos os rapazes da Instrução Pública que, em vez de conhecerem os sujeitos da oração... ora... são a atacar Todos os sujeitos que passam.
Zé - Mas então estão incursos nos artigos da Lei.
Boato - São artigos indefinidos ainda.
Zé - Mas isso não tem nome... Se hão de estudar a gramática e respeitar a regência...
Boato - Fazem-se prosas e fazem o inverso.
Política - Eu vou sossegá-los.
Boato - Talvez que o seu verbo ativo...
Zé - ... os faça concordar... Mas eu creio que fazes mal em te ires meter com os pequenos... lembra-te do ditado: Quem se...
Política - Qual, de pequenino é que se torce o pepino.
Boato - E ela quer começar a torcê-los de pequenos. Vá, Dona Política... e veja se tem proposições capazes de fazer a concordância geral e pôr o complemento à questão. Não se ponha com interrogações, e ponha ponto na oração. (Política sai. Boato a Zé.) Enquanto apeamos, quer tomar café, para depois irmos gozar de Uma partida de bilhar?
Zé - A dinheiro vai... jogo o bilhar por Uma partida de café.
Boato - Dizem que tem bom preço este ano?
Zé - Isto é lá com os comissários... Vamos a isto.
===Cena XX===
Os mesmos, Espectador, Opinião, Tubo e Homem Canhão
Espectador - Lá está ele... então o que lhe disse eu... encontramo-lo ou não.
Zé - A Opinião! Estou asseado.
Boato - Coragem.
Opinião - Ora, até que tenho o gosto de lhe por a vista em cima... então, como se entende isto, senhor?... Que procedimento é esse? Quando o senhor subiu ao monte...
Espectador - Foi quando ela subiu a serra!
Opinião - Vamos é arranjar malas e partir.
Zé - Partir?
Opinião - Pois, por que espera?
Zé - Por quê?... Ah! Sim... Quero que ande à roda! Comprei Um bilhete com duas garantias, par a sorte grande ser mais certa!
Opinião - Com a cabeça à roda anda você desde que se apanhou com essas fúrias de cara caiada e de carro à porta! Ah! não sei o que me contou... (Raivosa.) Estou sedenta...
Boato (Muito breve.) - Rapaz, já Um copo d’águia.
Caixeiro - Acabou-se;
Todos - Acabou-se?!
Caixeiro - O Fiscal fechou a torneira pela manhã.
Espectador - Deve haver outras...
Caixeiro - Há, mas são verdes... ou digo, são para os outros.
Todos - Água, água!
Tubo - Pronto. (Mete Um Tubo pelo chão abaixo e sai Um repuxo.)
Todos - Nada, nada.
Tubo - Isto é simples.
Boato - Dizem que não pega... porque é bom!
Tubo - Há de sair...
Boato - Olhe, canta-lhe...Quero dizer, toque-lhe a bomba...
Todos (dando à bomba.) - Ajudemos Todos, (dando Todos à bomba.)
Espectador - Se eu tivesse Um talismã, captava como o Vale , na Pêra de Satanás.
Boato - Eu também.
Espectador - Vá de valetas.
Boato - De valetas. está dito.
''Cantam''
Talismã poderoso, que opera
com o teu alto poder, maravilhas
a nós Todos, que a sede devora
Um pinga vem dar, seja embora
do Cartaxo, do Porto, ou das |ilhas.
(Jorra água por Um lado e vinho do outro.)
Boato - Viva o nosso chafa...
Tubo - ... ris? do progresso?...
Boato - Vivam os Tubos.
Todos - Vivam.
Opinião - Vamos, Juquinha... Agora estou saciada, vamos para a tua terra. (Ouve-se Um grande tiro.) O que é isto? (Passa ao fundo o Homem-canhão.)
Espectador - É o Homem-canhão.
Boato - Homem-canhão... mulheres tenho visto.
Espectador - Um Homem que dispara... e põe logo a andar Uma bala de calibre três mil, oitocentos e cinco...
Zé - Que pena não haver Um batalhão destes no Paraguai.
Boato - Para quê? Para se acabar a guerra nUm dia?
Opinião- E para nos livrar dos impostos para ela, que ainda estamos pagando. (Música fora.)
Todos - O que é isto?
Boato - Isto deve ser... ruim... parece-me que é algUma manifestação qualquer... porquê...
Espectador - Desembuche...
Boato - Lá vai... conta-se... dizem que houve Uma combinação entre o Diretor do Corpo de Bombeiros... eu não vi... mas afirma-se.
===Cena XXI===
Anjo, Zé e Espectador
Anjo - (Aparecendo ao fundo.) - Afirma-se que houve Um tempo em que os incêndios alteravam e destruíam com Uma voracidade assombrosa a propriedade e os bens.
Zé - Bem me lembro. No tempo em que eram circunscritos.
Espectador - Um incêndio deixa sempre o juízo a arder.
Anjo - E que esse tempo, graças à energia, zelo, boa vontade e coragem dUm intrépido e benemérito militar, desapareceu... e que, por esse motivo, as Companhias de Seguro lhe vão oferecer Uma casa para ele habitar... Não é muito que se dê Um lar a quem tantos salvou! (Ouvem-se foguetes e música.)
Zé - Viva o heróis dos fogos!
Todos - Viva! (Saem.)
''Mutação''
==Quadro V==
===Cena XXII===
(Vista da praça, a mesma cena do Quadro II. Vendilhões, pretas, rapazes com Gazetas. Ao fundo, Um grupo de gente dá atenção ao Preto, que canta alguns trechos de Maria Angú.)
''Canção''
===Cena XXIII===
Os mesmos e Opinião
Zé (Entra da esquerda.) - Para fugir à Opinião tive que também que fugir da Política!...Parece sina... Estou em maré de perder de vista as mulheres... Ora, a minha Opinião, isto é coisa que ora está para o Norte, ora para o Sul... Mas a Política? Segundo me informaram, essa senhora quando se pespega no cachaço de qualquer, não é com duas razões que o deixa.
Opinião (Entrando pelo lado. À parte.) - Onde estará encafuado aquele maldito Boato? Se o desalmado corre, que ninguém o pode apanhar... (Vendo Zé.) Ola Seu Zé Povinho, apanhei-o.
Zé - Credo, ela!
Opinião - Com esta não contavas tu, confessa!
Zé - Confesso que estou satisfeito.
Opinião - Vamos, passa adiante!
Zé - Onde diabos queres tu que eu vá?
Opinião - Vamos embarcar.
Zé - Ora esta! Ainda não tomei o gostinho... Nem vi os teatros.
Opinião - As varietées, não?! Ora, passa adiante de mim.
Zé (À parte.) - Se fosse a Política que governasse o Zé Povinho, ainda eu iria, mas da Opinião não me importa. Eu hei de me ver livre dela.
Opinião (Que tem subido a falar com alguém e desce agora.) - Vamos (Saem.)
===Cena XXIV===
A Companhia de ConsUmo do Pão perseguida pelos Professores Públicos, Boato e Anúncio
Professor - Dê cá o pão! Dê cá o pão!
1º da Companhia - Largue o pão! Largue o pão!
Boato - O que é isto? O que é isto?
1º da Companhia - Senhores, nós somos a Companhia do ConsUmo do Pão.
Boato - Ah!!
1º da Companhia - Andamos à cata de acionistas!
Boato - Fazem mal, fiquem descansados em casa, que eles lá irão ter.
1º da Companhia - Precisamos de acionistas como de pão para a boca.
Boato - Isso é o que não aprece.os senhores tem aí para Um exército.
1º da Companhia - Isto é Uma amostra do nosso pão.
Professor - Senhor, nós é os pobre Professor público.
Boato - Nós é... sim, senhor. Está se vendo... está se vendo...
Professor - Nossos vencimento foi reduzido! Nós está com fome. Queremos este pão.
Todos - Queremos este pão!
1º da Companhia- Mas isto é Uma violência. (Frases desencontradas de parte a parte e saem altercando para a direita.)
Boato (Só.) - Dizem que Jesus Cristo, com cinco pães, deu de comer a cinco mil pessoas. Se fossem Todos da Companhia do ConsUmo, não era milagre nenhUm. Aí vem o Anúncio: fujamos deste amolador.
Anúncio (Sombrio.) - Qual é a melhor cerveja nacional? A Cristiana! Dê-se Um prêmio a quem provar o contrário. (Passeia e pára de novo.) O melhor favor que se pode fazer a Uma senhora é indicar-lhe a casa especial de fazendas pretas. (O mesmo jogo.) O rend l’argent a quem comprar por menos. Aux 100.000 Palitots. (Sai majestosamente.)
===Cena XXV===
[Zé Povinho (Só.)]
Zé - Então livrei-me dela ou não? A Opinião nunca está com o Zé Povinho, que é o mesmo que dizer que o Zé Povinho não tem Opinião. O que é aquilo? Que povaréu é aquele?
===Cena XXVI===
O mesmo, Dondon, Operários da Alfândega
Os Recém-chegados - É Um desaforo! É Uma pouca vergonha!
Zé - Vossas Excelências queiram desculpar, mas o que foi que aconteceu?
Dondon - Eu lhe conto, cidadão... Antes que tudo, qual é a sua cor Política?
Zé - O azul.
Dondon - Como o azul? Zomba, cidadão? Olhe que lhe desanco com a musa do povo!
Zé - Perdão, o que foi que perguntou?
Dondon - Perguntei-lhe qual era sua cor Política.
Zé - Pois então desculpe, julguei que me perguntasse qual era minha cor predileta.
Dondon - Política. A que corpo pertence.
Zé - Eu não tenho cor po...lítica.
Dondon - Saiba que aquele senhor, ou por outra, aquele charuto que ali passa ao fundo fez Umas tantas exigências vexatórias e inconseqüentes a esta pobre gente! Fizeram greve...
Zé - Uma greve é grave...
Dondon - Vieram ter comigo, o Tribuno do Povo, o Mimoso das Multidões, o Hirsuto, o Encapotado, e pedirem-me que advogasse a sua causa. Fui a quem de direito... E o que julga o senhor que me respondesse quem de direito?
Zé - Mandou-o pentear monos... ou pentear-se a si mesmo, que bem precisa disso.
Dondon - Nada, cidadão! Disse-me - Por que se meteu nisso:
os OPERÁRIos - É Um desaforo, é Uma pouca vergonha.
Dondon - Hei de me vingar nUm seu colega a quem não cansarei de repetir com toda a força dos meus cabelos: - Larga a pasta. (Aos outros.) Amigos, segui-me e gritemos Todos.
''Coro''
===Cena XXVII===
Política e Zé Povinho
Política (Ouvindo ainda o coro.) - Imbecis, ora querem, ora não querem! (Vendo Zé.) Enfim te encontro.
Zé - Onde andaste?
Política - Então julgas que sou alguma vadia? Estás muito enganado! A Política não tem descanso. Ainda agora andei atrapalhada, apaziguando Uma divergência que se estabeleceu entre Um sujeito e Um marceneiro...
Zé - Por quê?
Política - Porque queria a viva força apoderar-se duma cadeira que estava em sua casa para cobrir de palhinha... e afinal apoderou-se.
Zé - E quem é esse pândego?
Política - Um sujeito velho...
Zé - Desembuche! Quem é esse sujeito velho?
Política - Não posso dizê-lo para evitar censura. Basta de darmos à taramela. Vamos.
Zé - Aonde?
Política - Vamos aí à toa, não nos faltará o que ver. (Saem.)
===Cena XXVIII===
Espectador e Boato
Espectador - Nada, não me faça entrar na... para cá... olhe que não sou da peça.
Boato - Não faz mal.
Espectador - O empresário pode escamar-se... e com razão, que diabo. Um Homem que sai do camarote e entra no palco. E o demônio do contra-regra onde tem a cabeça?...
Boato - Venha cá... venha cá...
Espectador - De mais a mais, ó Seu Boato, olhe que isto é maçada... o espetáculo pode acabar depois da meia noite... e depois não há bonde.
Boato - Lá vai Um vapor. (Passa Um vapor.)
Espectador - Agora pergunto-lhe eu: se estando sem vapor fazem tantas vítimas, a vapor com vapor quantas farão? É Uma regra de três.
Boato - Quais são os três?
Espectador - Ora esta! sempre é muito tolo!... Uma regra de três é... é... Eu lhe explico... É Uma regra sem exceção. Você sabe que não há regra sem exceção.
Boato - Quanto ao número de vítimas não se amedronte. Agora há Uma salva-vidas.
Espectador - Mas já está posto em prática?
Boato - Posto em pratos? Em pratos limpos.
Espectador - Em prática!
Boato - Por ora, está apenas posto em teoria.
Espectador - Por força. Nesta terra é sempre assim. Se se tratasse dUm salva-Mortes, já a coisa andava na berra. mas diga-me cá: Você trata ou não de procurar a Dona Opinião?
Boato - Havemos de encontrá-la nas festas do carnaval. (vendo cair Uma pasta, das bambolinas.) Ai!
Espectador - Ai!
Boato - Caiu Uma pasta.
Espectador - Coitada! Donde cairia ela?
Boato - Do poder.
Espectador - Então o poder é lá em cima?
Boato - É sim, senhor: dali é que nasce a corrupção dos povos.
Espectador - É de cima. Sei.
===Cena XXIX===
Espectador e Política
Política - Ah! Cá está a pobre pasta... Que queda!
Espectador - Mas quem a atirou lá de cima?
Política (Misteriosa.) Psiu! Vamos assistir ao carnaval?
(Mutação.)
==Quadro VI==
Sobe o pano do fundo e vêem-se diferentes grupos carnavalescos com as bandeiras das várias sociedades. Tocando a orquestra em surdina Um cancã.
Todos (Gritando.) - Viva a folia!
Febre Amarela (da esquerda.) - Bem, a ocasião é propícia para a ceifa. A Febre Amarela vai tirar o ventre da miséria.
Anjo da HUmANIdaDE (Do outro lado.) - Ainda não há de ser desta vez, peste maldita. Para trás!
(Ficam à boca de cena os personagens últimos e termina o ato com a música do Zé Pereira, e grande algazarra e confusão.)
Fim do primeiro ato.
[(Cai o pano.)]
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1835 18
'''A Justiça''' Cubí nagô escr(avo) de
Joaq(uim) Ant(onio) da Fons(e)ca
Cassimiro.
Preso
J(uizo) de Paz do Primeiro
Cart(ório) do Pillar
Summario
Escr[iv]am Felippe S[antIago] S[ilva] Baldaia
<big>Anno</big>
do Nascimento do Nosso Se
nhor Jesus Christo de mil
oito centos e oitenta e cinco
aos dez dias do mez de
Abril nesta cidade da
Bahia e meu cartório
authoei a Portaria e ma
is papeis que innqueri?
eu Felippe Sant Iago Sil
va Baldaia Escrivam? es
crev?<noinclude></noinclude>
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Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/129
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Wuopisht" /></noinclude>silencios, que ella ia ali deplorar a sorte da sobrinha. Estava sempre ao pé da carteira, amolando.
Magdalena batia no teclado da machina. Seu
Ribeiro escrevia com lentidão tremula, ás vezes se aperreava procurando a regua, a borracha, o frasco de colla, que se ausentavam, porque d. Gloria tinha o mau costume de mexer nos objectos e não os pôr nunca onde os encontrava. Eu me damnava
com essa desordem, fechava a cara, dava ordens seccas rapidamente e sahia para não estourar. Emfim desabafei. Num dia quatro o balancete do mez passado não estava prompto.
{{--}} Porque foi esse atrazo, seu Ribeiro? Doença?
O velho esfregou as suissas, angustiado:
{{--}} Não senhor. É que ha uma differença
nas sommas. Desde hontem procuro fazer a conferencia, mas não posso.
{{--}} Porque, seu Ribeiro?
E elle calado.
{{--}} Está bem. Ponha um cartaz ali na porta prohibindo a entrada ás pessoas que não tiverem negocio. Aqui trabalha-se. Um cartaz com letras bem grandes. Todas as pessoas, ouviu? Sem excepção.
{{--}} Isso é commigo? disse d. Gloria esticando-se.
{{--}} Prepare logo o cartaz, seu Ribeiro.
{{--}} Perguntei se era commigo, tornou d. Gloria
diminuindo um pouco.
{{nop}}<noinclude></noinclude>
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Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/130
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Cacaup" /></noinclude>{{--}} Ora, minha senhora, é com toda a gente.
Se eu digo que não ha excepção, não ha excepção.
{{--}} Vim falar com minha sobrinha, balbuciou
d. Gloria reduzindo-se ao seu volume ordinario.
{{--}} Sua sobrinha, emquanto estiver nesta sala,
não recebe visitas, é um empregado como os outros.
{{--}} Eu não sabia. Pensei que não interrompesse.
{{--}} Pensou mal. Ninguem pode escrever, calcular
e conversar ao mesmo tempo.
D. Gloria sahiu deserevendo um angulo recto:
esgueirou-se da carteira até a parede e, beirando-a,
alcançou a porta, que se abriu e fechou silenciosamente.
Sentei-me e comecei a confrontar o diario
com {{SIC|o|artigo feminino: a}} razão. Seu Ribeiro approximou-se para auxiliar-me.
{{--}} Obrigado.
Seu Ribeiro apromptou, com o canivete e a regua,
um quadrado de papelão. Magdalena levantou-se,
cobriu a machina, trouxe-me as cartas, esperou
que eu terminasse a leitura dellas e retirou-se.
Assignei as cartas e metti-as nos enveloppes.
{{--}} Que é que d. Gloria vem fuchicar aqui, seu
Ribeiro?
{{--}} Nada de importancia, respondeu o guarda-livros.
A senhora d. Gloria é um coração de ouro
e versa differentes themas com proficiencia, mas
eu, para ser franco, não a tenho escutado com a devida
attenção.<noinclude></noinclude>
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{{--}} Ora, minha senhora, é com toda a gente.
Se eu digo que não ha excepção, não ha excepção.
{{--}} Vim falar com minha sobrinha, balbuciou
d. Gloria reduzindo-se ao seu volume ordinario.
{{--}} Sua sobrinha, emquanto estiver nesta sala,
não recebe visitas, é um empregado como os outros.
{{--}} Eu não sabia. Pensei que não interrompesse.
{{--}} Pensou mal. Ninguem pode escrever, calcular
e conversar ao mesmo tempo.
D. Gloria sahiu deserevendo um angulo recto:
esgueirou-se da carteira até a parede e, beirando-a,
alcançou a porta, que se abriu e fechou silenciosamente.
Sentei-me e comecei a confrontar o diario
com {{SIC|o|artigo feminino: a}} razão. Seu Ribeiro approximou-se para auxiliar-me.
{{--}} Obrigado.
Seu Ribeiro apromptou, com o canivete e a regua,
um quadrado de papelão. Magdalena levantou-se,
cobriu a machina, trouxe-me as cartas, esperou
que eu terminasse a leitura dellas e retirou-se.
Assignei as cartas e metti-as nos enveloppes.
{{--}} Que é que d. Gloria vem fuchicar aqui, seu
Ribeiro?
{{--}} Nada de importancia, respondeu o guarda-livros.
A senhora d. Gloria é um coração de ouro
e versa differentes themas com proficiencia, mas
eu, para ser franco, não a tenho escutado com a devida
attenção.<noinclude></noinclude>
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{{--}} Ora, minha senhora, é com toda a gente.
Se eu digo que não ha excepção, não ha excepção.
{{--}} Vim falar com minha sobrinha, balbuciou
d. Gloria reduzindo-se ao seu volume ordinario.
{{--}} Sua sobrinha, emquanto estiver nesta sala,
não recebe visitas, é um empregado como os outros.
{{--}} Eu não sabia. Pensei que não interrompesse.
{{--}} Pensou mal. Ninguem pode escrever, calcular
e conversar ao mesmo tempo.
D. Gloria sahiu deserevendo um angulo recto:
esgueirou-se da carteira até a parede e, beirando-a,
alcançou a porta, que se abriu e fechou silenciosamente.
Sentei-me e comecei a confrontar o diario
com {{SIC|o|artigo feminino: a}} razão. Seu Ribeiro approximou-se para auxiliar-me.
{{--}} Obrigado.
Seu Ribeiro apromptou, com o canivete e a regua,
um quadrado de papelão. Magdalena levantou-se,
cobriu a machina, trouxe-me as cartas, esperou
que eu terminasse a leitura dellas e retirou-se.
Assignei as cartas e metti-as nos enveloppes.
{{--}} Que é que d. Gloria vem fuchicar aqui, seu
Ribeiro?
{{--}} Nada de importancia, respondeu o guarda-livros.
A senhora d. Gloria é um coração de ouro
e versa differentes themas com proficiencia, mas
eu, para ser franco, não a tenho escutado com a devida
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Se eu digo que não ha excepção, não ha excepção.
{{--}} Vim falar com minha sobrinha, balbuciou
d. Gloria reduzindo-se ao seu volume ordinario.
{{--}} Sua sobrinha, emquanto estiver nesta sala,
não recebe visitas, é um empregado como os outros.
{{--}} Eu não sabia. Pensei que não interrompesse.
{{--}} Pensou mal. Ninguem pode escrever, calcular
e conversar ao mesmo tempo.
D. Gloria sahiu deserevendo um angulo recto:
esgueirou-se da carteira até a parede e, beirando-a,
alcançou a porta, que se abriu e fechou silenciosamente.
Sentei-me e comecei a confrontar o diario
com {{SIC|o|artigo feminino: a}} razão. Seu Ribeiro approximou-se para auxiliar-me.
{{--}} Obrigado.
Seu Ribeiro apromptou, com o canivete e a regua,
um quadrado de papelão. Magdalena levantou-se,
cobriu a machina, trouxe-me as cartas, esperou
que eu terminasse a leitura dellas e retirou-se.
Assignei as cartas e metti-as nos enveloppes.
{{--}} Que é que d. Gloria vem fuchicar aqui, seu
Ribeiro?
{{--}} Nada de importancia, respondeu o guarda-livros.
A senhora d. Gloria é um coração de ouro
e versa differentes themas com proficiencia, mas
eu, para ser franco, não a tenho escutado com a devida
attenção.<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
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Se eu digo que não ha excepção, não ha excepção.
{{--}} Vim falar com minha sobrinha, balbuciou
d. Gloria reduzindo-se ao seu volume ordinario.
{{--}} Sua sobrinha, emquanto estiver nesta sala,
não recebe visitas, é um empregado como os outros.
{{--}} Eu não sabia. Pensei que não interrompesse.
{{--}} Pensou mal. Ninguem pode escrever, calcular
e conversar ao mesmo tempo.
D. Gloria sahiu descrevendo um angulo recto:
esgueirou-se da carteira até a parede e, beirando-a,
alcançou a porta, que se abriu e fechou silenciosamente.
Sentei-me e comecei a confrontar o diario
com {{SIC|o|artigo feminino: a}} razão. Seu Ribeiro approximou-se para auxiliar-me.
{{--}} Obrigado.
Seu Ribeiro {{SIC|apromptou|apromptou é um verbo regional, arcaico ou popular, usado em algumas áreas do Brasil, especialmente em linguagem rural antiga. Significa cortar, aparar, acertar as bordas, geralmente com ferramenta simples (canivete, faca, tesoura)}}, com o canivete e a regua,
um quadrado de papelão. Magdalena levantou-se,
cobriu a machina, trouxe-me as cartas, esperou
que eu terminasse a leitura dellas e retirou-se.
Assignei as cartas e metti-as nos enveloppes.
{{--}} Que é que d. Gloria vem fuchicar aqui, seu
Ribeiro?
{{--}} Nada de importancia, respondeu o guarda-livros.
A senhora d. Gloria é um coração de ouro
e versa differentes themas com proficiencia, mas
eu, para ser franco, não a tenho escutado com a devida
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Cacaup" /></noinclude>{{--}} Ora, minha senhora, é com toda a gente.
Se eu digo que não ha excepção, não ha excepção.
{{--}} Vim falar com minha sobrinha, balbuciou
d. Gloria reduzindo-se ao seu volume ordinario.
{{--}} Sua sobrinha, emquanto estiver nesta sala,
não recebe visitas, é um empregado como os outros.
{{--}} Eu não sabia. Pensei que não interrompesse.
{{--}} Pensou mal. Ninguem pode escrever, calcular
e conversar ao mesmo tempo.
D. Gloria sahiu descrevendo um angulo recto:
esgueirou-se da carteira até a parede e, beirando-a,
alcançou a porta, que se abriu e fechou silenciosamente.
Sentei-me e comecei a confrontar o diario
com {{SIC|o|artigo feminino: a}} razão. Seu Ribeiro approximou-se para auxiliar-me.
{{--}} Obrigado.
Seu Ribeiro {{SIC|apromptou|apromptou é um verbo regional, arcaico ou popular, usado em algumas áreas do Brasil, especialmente em linguagem rural antiga. Significa cortar, aparar, acertar as bordas, geralmente com ferramenta simples (canivete, faca, tesoura)}}, com o canivete e a regua,
um quadrado de papelão. Magdalena levantou-se,
cobriu a machina, trouxe-me as cartas, esperou
que eu terminasse a leitura dellas e retirou-se.
Assignei as cartas e metti-as nos enveloppes.
{{--}} Que é que d. Gloria vem fuchicar aqui, seu
Ribeiro?
{{--}} Nada de importancia, respondeu o guarda-livros.
A senhora d. Gloria é um coração de ouro
e versa differentes themas com proficiencia, mas
eu, para ser franco, não a tenho escutado com a devida
attenção.
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Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/131
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Cacaup" /></noinclude>Achei ridiculo interrogar aquelle homem grave
sobre os mexericos de d. Gloria.
{{--}} Excellente senhora, affirmava seu Ribeiro
pautando a lapis o quadrado de papelão.
{{--}} Mais ou menos.
Enderecei a correspondencia e levantei-me:
{{--}} Cuidado com os intrusos.
{{--}} Perfeitamente, respondeu seu Ribeiro.
No salão encontrei Magdalena cahida no sofá,
acabrunhada. Enxugou os olhos á pressa:
{{--}} Porque foi aquella brutalidade?
Magdalena estava prenhe, e eu pegava nella
como em louça fina. Ultimamente dizia-me coisas
desagradaveis, que eu fingia não comprehender.
Via a barriga crescer-lhe. Uma compensação. Sentei-me
e, para não desgostal-a:
{{--}} Foi realmente brutalidade. Brutalidade necessaria,
mas emfim brutalidade. E' uma peste
recorrer a isso.
{{--}} E para que recorre? chasqueou Magdalena.
{{--}} Já você começa. Esses modos não, tenha
paciencia. Detesto picuinhas. Commigo é traz zaz,
nó cego. Subterfugios não..
{{--}} Quem é que está com subterfugios! Foi
uma brutalidade.
{{--}} Necessaria.
{{--}} Desnecessaria. Vê-se bem que você não
gosta de minha tia.
{{--}} Eu? Nem gosto nem desgosto. Pensei que
ella quizesse alguma occupação. A proposito, é<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Cacaup" /></noinclude>Achei ridiculo interrogar aquelle homem grave
sobre os mexericos de d. Gloria.
{{--}} Excellente senhora, affirmava seu Ribeiro
pautando a lapis o quadrado de papelão.
{{--}} Mais ou menos.
Enderecei a correspondencia e levantei-me:
{{--}} Cuidado com os intrusos.
{{--}} Perfeitamente, respondeu seu Ribeiro.
No salão encontrei Magdalena cahida no sofá,
acabrunhada. Enxugou os olhos á pressa:
{{--}} Porque foi aquella brutalidade?
Magdalena estava prenhe, e eu pegava nella
como em louça fina. Ultimamente dizia-me coisas
desagradaveis, que eu fingia não comprehender.
Via a barriga crescer-lhe. Uma compensação. Sentei-me
e, para não desgostal-a:
{{--}} Foi realmente brutalidade. Brutalidade necessaria,
mas emfim brutalidade. E' uma peste
recorrer a isso.
{{--}} E para que recorre? chasqueou Magdalena.
{{--}} Já você começa. Esses modos não, tenha
paciencia. Detesto picuinhas. Commigo é traz zaz,
nó cego. Subterfugios não.
{{--}} Quem é que está com subterfugios! Foi
uma brutalidade.
{{--}} Necessaria.
{{--}} Desnecessaria. Vê-se bem que você não
gosta de minha tia.
{{--}} Eu? Nem gosto nem desgosto. Pensei que
ella quizesse alguma occupação. A proposito, é<noinclude></noinclude>
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Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/132
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Cacaup" /></noinclude>bom você deixar a machina. Aquillo é ruim para
a barriga. Não se sente mal?
{{--}} Não.
{{--}} Em todo o caso uns mezes antes e uns mezes
depois do parto tem ferias.
{{--}} Obrigada.
{{--}} Como ia dizendo, julguei que sua tia quizesse
trabalhar. Até uma vez dei a ella uns conselhos,
no trem. Espinhou-se. Vive ahi com as
mãos abanando, lendo bobagens. Não lhe quero
mal por isso. Agora o que não acho direito é empatar
o serviço dos outros.
{{--}} Escute, Paulo, soluçou Magdalena. Está
enganado. Não tem razão, garanto que não tem
razão. Minha tia é uma criatura digna.
{{--}} Effectivamente, ella tem uma especie de
dignidade, ás vezes, mas a dignidade nella dura
pouco.
Magdalena proseguiu:
{{--}} Não conheço ninguem que trabalhe mais
que d. Gloria.
{{--}} Ora essa! bradei com um espanto que me
levantou do sofá.
{{--}} Vai sahir?
Pensando bem, ereio que não foi o espanto
que me levantou. Provavelmente foi o costume que
eu tinha de me dirigir ao campo todos os dias pela
manhã. É verdade que o meu espirito estava completamente
afastado da lavoura, mas d. Gloria e
Magdalena já me haviam retardado quasi uma hora,<noinclude></noinclude>
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2026-08-14T23:55:33Z
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Cacaup" /></noinclude>bom você deixar a machina. Aquillo é ruim para
a barriga. Não se sente mal?
{{--}} Não.
{{--}} Em todo o caso uns mezes antes e uns mezes
depois do parto tem ferias.
{{--}} Obrigada.
{{--}} Como ia dizendo, julguei que sua tia quizesse
trabalhar. Até uma vez dei a ella uns conselhos,
no trem. Espinhou-se. Vive ahi com as
mãos abanando, lendo bobagens. Não lhe quero
mal por isso. Agora o que não acho direito é empatar
o serviço dos outros.
{{--}} Escute, Paulo, soluçou Magdalena. Está
enganado. Não tem razão, garanto que não tem
razão. Minha tia é uma criatura digna.
{{--}} Effectivamente, ella tem uma especie de
dignidade, ás vezes, mas a dignidade nella dura
pouco.
Magdalena proseguiu:
{{--}} Não conheço ninguem que trabalhe mais
que d. Gloria.
{{--}} Ora essa! bradei com um espanto que me
levantou do sofá.
{{--}} Vai sahir?
Pensando bem, creio que não foi o espanto
que me levantou. Provavelmente foi o costume que
eu tinha de me dirigir ao campo todos os dias pela
manhã. É verdade que o meu espirito estava completamente
afastado da lavoura, mas d. Gloria e
Magdalena já me haviam retardado quasi uma hora,<noinclude></noinclude>
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Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/133
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2026-08-14T23:58:25Z
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Cacaup" /></noinclude>e o movimento que fiz correspondia a uma necessidade
que se tornou clara quando me puz de pé.
{{--}} Vamos?
Magdalena acompanhou-me e em caminho falou
desta fórma:
{{--}} Você, pelo que me disse, principiou a vida.
muito pobre.
{{--}} Sei lá como principiei! Quando dei por
mim, era guia de cego. Depois vendi as cocadas
da velha Margarida. Já lhe contei.
{{--}} Já. Luctou muito. Mas aeredite que dona
Gloria tem desenvolvido mais actividade que você.
{{--}} Estou esperando. Que fez ella?
cou-me.
{{--}} Tomou conta de mim, sustentou-me e edu-
{{--}} Só?
{{--}} Acha pouco E' porque você não sabe o
esforço que isso eustou. Maior que o seu para obter
S. Bernardo. E o que é certo é que d. Gloria não
me troca por S. Bernardo.
Vaidade. Professorinhas de primeiras letras a
escola normal fabricava ás duzias. Uma proprieda-
de como S. Bernardo era differente.
{{--}} Não ha comparação.
{{--}} Moravamos em casa de jogador de espada,
disse Magdalena. Havia duas cadeiras. Se chega-
va visita, d. Gloria sentava-se num caixão de kero-<noinclude></noinclude>
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2026-08-15T00:01:43Z
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Cacaup" /></noinclude>e o movimento que fiz correspondia a uma necessidade
que se tornou clara quando me puz de pé.
{{--}} Vamos?
Magdalena acompanhou-me e em caminho falou
desta fórma:
{{--}} Você, pelo que me disse, principiou a vida
muito pobre.
{{--}} Sei lá como principiei! Quando dei por
mim, era guia de cego. Depois vendi as cocadas
da velha Margarida. Já lhe contei.
{{--}} Já. Luctou muito. Mas acredite que dona
Gloria tem desenvolvido mais actividade que você.
{{--}} Estou esperando. Que fez ella?
{{--}} Tomou conta de mim, sustentou-me e educou-me.
{{--}} Só?
{{--}} Acha pouco? É porque você não sabe o
esforço que isso custou. Maior que o seu para obter
S. Bernardo. E o que é certo é que d. Gloria não
me troca por S. Bernardo.
Vaidade. Professorinhas de primeiras letras a
escola normal fabricava ás duzias. Uma propriedade
como S. Bernardo era differente.
{{--}} Não ha comparação.
{{--}} Moravamos em casa de jogador de espada,
disse Magdalena. Havia duas cadeiras. Se chegava
visita, d. Gloria sentava-se num caixão de kerosene.<noinclude></noinclude>
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Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/134
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2026-08-15T01:26:41Z
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>A saleta de jantar era o meu gabinete de estudo.
A mesa tinha uma perna quebrada e encostava-se
á parede. Trabalhei ali muitos annos. A' noite
baixava a luz do candieiro, por economia. D.
Gloria ia para a cozinha resmungar, chorar, lastimar-se.
O habito que ella tem de cochichar e caminhar
na ponta dos pés vem desse tempo. Dormiamos
as duas numa cama estreita. Se eu adoecia,
d. Gloria passava a noite sentada; quando
não aguentava o somno, deitava-se no chão.
Magdalena calou-se. Impressionado com aquella
pobreza, exclamei:
{{--}} Diabo! Vocês comeram uma cachorra ensossa.
{{--}} Quem não adoecia era d. Gloria, continuou
Magdalena. Eu sahia para a escola e ella punha
o chale, ia cavar a vida. Tinha muitas profissões.
Conhecia padres {{--}} e fazia flores, punha
em ordem alphabetica os assentamentos de baptizados,
enfeitava altares. Conhecia desembargadores
{{--}} e copiava os accordams do tribunal. Á noite
vendia bilhetes no Floriano. E como o padeiro
nosso vizinho era analphabeto, escripturava as contas
delle num caderno de balcão. Está claro que,
dedicando-se a tantas occupações miudas, era mal
paga.
{{--}} Deve comprehender... murmurei vagamente,
olhando os dorsos vermelhos das novilhas
mergulhadas no capim gordura.<noinclude></noinclude>
48n7xurb8iceaohjn7vbyidkk6rl38w
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2026-08-15T01:31:50Z
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>A saleta de jantar era o meu gabinete de estudo.
A mesa tinha uma perna quebrada e encostava-se
á parede. Trabalhei ali muitos annos. A' noite
baixava a luz do candieiro, por economia. D.
Gloria ia para a cozinha resmungar, chorar, lastimar-se.
O habito que ella tem de cochichar e caminhar
na ponta dos pés vem desse tempo. Dormiamos
as duas numa cama estreita. Se eu adoecia,
d. Gloria passava a noite sentada; quando
não aguentava o somno, deitava-se no chão.
Magdalena calou-se. Impressionado com aquella
pobreza, exclamei:
{{--}} Diabo! Vocês comeram uma cachorra ensossa.
{{--}} Quem não adoecia era d. Gloria, continuou
Magdalena. Eu sahia para a escola e ella punha
o chale, ia cavar a vida. Tinha muitas profissões.
Conhecia padres {{--}} e fazia flores, punha
em ordem alphabetica os assentamentos de baptizados,
enfeitava altares. Conhecia desembargadores
{{--}} e copiava os accordams do tribunal. Á noite
vendia bilhetes no Floriano. E como o padeiro
nosso vizinho era analphabeto, escripturava as contas
delle num caderno de balcão. Está claro que,
dedicando-se a tantas occupações miudas, era mal
paga.
{{--}} Deve comprehender... murmurei vagamente,
olhando os dorsos vermelhos das novilhas
mergulhadas no capim gordura.
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Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/135
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>Magdalena interrompeu-me:
{{--}} E nos exames ainda tinha tempo de caba-
lar os examinadores, Deus e o mundo para eu não
ser reprovada. D. Gloria é incançavel. O que ella
não pode é dedicar-se a um trabalho continuado:
consome-se em trabalhos incompletos. E' por isso.
a inquietação em que vive. Aqui não ha os bilhe-
tes do cinema, os accordams do tribunal, os assen-
tamentos de baptizados, o caderno de contas do
padeiro. D. Gloria vê machinas e homens que
funccionam como as machinas. Entretanto d. Glo-
ria procura ser util: vai á igreja, põe flores nos al-
tares e limpa os vidros das imagens na sacristia;
tenta cozinhar e não se entende com Maria das
Dores; offerece-se para ajudar seu Ribeiro; já ex-
perimentou escrever ein machina.
I'm eaminhão rodou em direcção à serraria;
vinham da mata pancadas seccas de machado; car-
ros de bois cliavam para os lados de Bom Successo.
-- Como tenho dito, não concordo com esse es-
banjamento de energia. A gente deve habituar-se
a fazer uma coisa só.
D. Gloria nada ganharia se se aperfeiçoas-
se em vender bilhetes no cinema ou escrever os ba-
ptizados: a paga seria sempre insignificante.
rendoso?
Porque não se empregou em officio mais
Difficil. Demais é necessario haver quem
venda os bilhetes e copie os accordams..<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>Magdalena interrompeu-me:
{{--}} E nos exames ainda tinha tempo de cabalar
os examinadores, Deus e o mundo para eu não
ser reprovada. D. Gloria é incançavel. O que ella
não pode é dedicar-se a um trabalho continuado:
consome-se em trabalhos incompletos. E' por isso
a inquietação em que vive. Aqui não ha os bilhetes
do cinema, os accordams do tribunal, os assentamentos
de baptizados, o caderno de contas do
padeiro. D. Gloria vê machinas e homens que
funccionam como as machinas. Entretanto d. Gloria
procura ser util: vai á igreja, põe flores nos altares
e limpa os vidros das imagens na sacristia;
tenta cozinhar e não se entende com Maria das
Dores; offerece-se para ajudar seu Ribeiro; já experimentou
escrever em machina.
Um caminhão rodou em direcção à serraria;
vinham da mata pancadas seccas de machado; carros
de bois chiavam para os lados de Bom Successo.
{{--}} Como tenho dito, não concordo com esse esbanjamento
de energia. A gente deve habituar-se
a fazer uma coisa só.
{{--}} D. Gloria nada ganharia se se aperfeiçoasse
em vender bilhetes no cinema ou escrever os baptizados:
a paga seria sempre insignificante.
{{--}} Porque não se empregou em officio mais
rendoso?
{{--}} Difficil. Demais é necessario haver quem
venda os bilhetes e copie os accordams.
{{nop}}<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>Magdalena interrompeu-me:
{{--}} E nos exames ainda tinha tempo de {{SIC|cabalar|cabalar=verbo português antigo/regional, hoje praticamente fora de uso na norma padrão. Sentido derivado: vigiar, fiscalizar}}
os examinadores, Deus e o mundo para eu não
ser reprovada. D. Gloria é incançavel. O que ella
não pode é dedicar-se a um trabalho continuado:
consome-se em trabalhos incompletos. E' por isso
a inquietação em que vive. Aqui não ha os bilhetes
do cinema, os accordams do tribunal, os assentamentos
de baptizados, o caderno de contas do
padeiro. D. Gloria vê machinas e homens que
funccionam como as machinas. Entretanto d. Gloria
procura ser util: vai á igreja, põe flores nos altares
e limpa os vidros das imagens na sacristia;
tenta cozinhar e não se entende com Maria das
Dores; offerece-se para ajudar seu Ribeiro; já experimentou
escrever em machina.
Um caminhão rodou em direcção à serraria;
vinham da mata pancadas seccas de machado; carros
de bois chiavam para os lados de Bom Successo.
{{--}} Como tenho dito, não concordo com esse esbanjamento
de energia. A gente deve habituar-se
a fazer uma coisa só.
{{--}} D. Gloria nada ganharia se se aperfeiçoasse
em vender bilhetes no cinema ou escrever os baptizados:
a paga seria sempre insignificante.
{{--}} Porque não se empregou em officio mais
rendoso?
{{--}} Difficil. Demais é necessario haver quem
venda os bilhetes e copie os accordams.
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os examinadores, Deus e o mundo para eu não
ser reprovada. D. Gloria é incançavel. O que ella
não pode é dedicar-se a um trabalho continuado:
consome-se em trabalhos incompletos. E' por isso
a inquietação em que vive. Aqui não ha os bilhetes
do cinema, os accordams do tribunal, os assentamentos
de baptizados, o caderno de contas do
padeiro. D. Gloria vê machinas e homens que
funccionam como as machinas. Entretanto d. Gloria
procura ser util: vai á igreja, põe flores nos altares
e limpa os vidros das imagens na sacristia;
tenta cozinhar e não se entende com Maria das
Dores; offerece-se para ajudar seu Ribeiro; já experimentou
escrever em machina.
Um caminhão rodou em direcção à serraria;
vinham da mata pancadas seccas de machado; carros
de bois chiavam para os lados de Bom Successo.
{{--}} Como tenho dito, não concordo com esse esbanjamento
de energia. A gente deve habituar-se
a fazer uma coisa só.
{{--}} D. Gloria nada ganharia se se aperfeiçoasse
em vender bilhetes no cinema ou escrever os baptizados:
a paga seria sempre insignificante.
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rendoso?
{{--}} Difficil. Demais é necessario haver quem
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os examinadores, Deus e o mundo para eu não
ser reprovada. D. Gloria é incançavel. O que ella
não pode é dedicar-se a um trabalho continuado:
consome-se em trabalhos incompletos. E' por isso
a inquietação em que vive. Aqui não ha os bilhetes
do cinema, os accordams do tribunal, os assentamentos
de baptizados, o caderno de contas do
padeiro. D. Gloria vê machinas e homens que
funccionam como as machinas. Entretanto d. Gloria
procura ser util: vai á igreja, põe flores nos altares
e limpa os vidros das imagens na sacristia;
tenta cozinhar e não se entende com Maria das
Dores; offerece-se para ajudar seu Ribeiro; já experimentou
escrever em machina.
Um caminhão rodou em direcção à serraria;
vinham da mata pancadas seccas de machado; carros
de bois chiavam para os lados de Bom Successo.
{{--}} Como tenho dito, não concordo com esse esbanjamento
de energia. A gente deve habituar-se
a fazer uma coisa só.
{{--}} D. Gloria nada ganharia se se aperfeiçoasse
em vender bilhetes no cinema ou escrever os baptizados:
a paga seria sempre insignificante.
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rendoso?
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venda os bilhetes e copie os accordams.
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Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/136
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<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>{{--}} Calei-me e não senti nenhuma sympathia
á pobre da d. Gloria. Continuei a julgal-a
uma velha bisbilhoteira e de mãos lastimaveis, que
deitavam a perder o que pegavam. Aquellas occupações
espalhadas aborreciam-me. Levantei os hombros.
E, para não descontentar Magdalena:
{{--}} Póde ser que você tenha razão. Eu discordo.
Mas emfim cada qual tem lá o seu modo
de matar pulgas.<noinclude></noinclude>
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á pobre da d. Gloria. Continuei a julgal-a
uma velha bisbilhoteira e de mãos lastimaveis, que
deitavam a perder o que pegavam. Aquellas occupações
espalhadas aborreciam-me. Levantei os hombros.
E, para não descontentar Magdalena:
{{--}} Póde ser que você tenha razão. Eu discordo.
Mas emfim cada qual tem lá o seu modo
de matar pulgas.<noinclude></noinclude>
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Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/137
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>Era domingo, de tarde, e eu voltava do descaroçador
e da serraria, onde tinha estado a arengar
com o machinista. Um volante empenado e um
dynamo que emperrava. O homem promettera endireitar
tudo em dois dias. Contratempo. Montes
de madeira, algodão enchendo os paioes.
{{--}} Desleixados.
Á beira do riacho, topei a velha Margarida
sentada numa pedra, lavando as cannelas finas
como gravetos.
{{--}} Boa tarde, mãe Margarida.
{{--}} Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo,
respondeu a negra procurando reconhecer-me com
o nariz e com a orelha.
Descobriu-me entre cheiros e ruidos:
{{--}} Ahn!
{{--}} Como vai isso, mãe Margarida? A saude?
{{--}} Aqui vamos dando, meu filho. Melhor do
que mereço a Deus, disse a velha enxugando na
saia de riscado os cambitos das pernas.
{{--}} Falta alguma coisa lá no rancho?
{{nop}}<noinclude></noinclude>
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Página:Sebastião Rodolfo Dalgado - Influência do Vocabulário Português em Línguas Asiáticas (1913).pdf/151
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="4" user="Sintegrity" />{{rh|{{sc|54}}|CHAPA CHAPA|}}</noinclude>esta '''chapa''' era como selo se não que era aberta de parte a parte, e punhasse cõ almagre<ref>«Mas no seguinte passo emprega-o no sentido continental: Mandou fazer hum caniço de mastos de naos '''chapados''' com muytas '''chapas''' de ferro». Liv. I, cap. 72. Cf. L.-Hindust. ''chápas''.</ref>. E Bluteau relaciona ''chapado'' com ''chapa'' indiana: «Homem chapado. Que anda como guarnecido com a chapa da sua virtude, do seu esforço, etc. He tomada a metaphora das chapas, ou laminas de metal, em que os Reys da India fazem gravar seus alvarás».
Beames, Thomson, Fallon e muitos outros indianistas não duvidam que o vocábulo seja vernáculo do hindi.
No ''Tombo do Estado da India'', vem «o trellado do contrato que o governador Nuno da Cunha assentou com Nizamafe Zaman sobre Cambaya, o ano de 537», onde ocorrem, alêm do substantivo ''chapa'', o verbo ''chapar'' e o seu particípio ''chapado'', todos empregados em sentidos genuinamente indianos: «Logo perante mim asynou e jurou em seu moçafo de a todo teer e manter, e cumprir este, como nelle he conteudo e o '''chapou''' de sua '''chapa'''» (isto é, «selou com o seu sêlo»)... «E quanto á moeda ser '''chapada''' de sua sita» (''sic'', aliás sica), quer dizer, «cunhada com a sua marca». Diogo do Couto tambêm diz: «Elle lhe passou um formão com letras grandes, e fermosas, '''chapado''' com '''chapa''' de suas armas». Déc. VI, VII, 7<ref>Gaspar Correia, referindo-se a Pedro de Covilhã, diz: «Mostrando a '''chapa''' de cobre, em que hião talhadas letras do nome d'ElRey dom João e do Preste, em caldeu». Liv. III, p. 29.</ref>.
Convêm notar que na Índia o vocábulo ''chapa'' se encontra tam sómente nas línguas modernas, à excepção, que eu saiba, do tamul e do singalês, que o não teem. ''Chāpa'' em sânscrito é nome do arco. A introdução da imprensa tem-lhe proporcionado novos significados e maior expansão. Yule & Burnell não admitem, contra a opinião de alguns autores, que ''chap'', usado no Extremo Oriente, provenha do chinês, mas manteem que foi levado da Índia.
Quanto à sematologia, a principal diferença consiste em não ter ''chapa'', na Índia, o significado de «lâmina» (sem inscrição ou desenho), para o qual há termos especiais, como ''pātí'', ''tagaḍ'' ou ''lagaḍ'', ''patrém''. Tambêm se não usa no sentido de «chapada, planície».
Há uma coincidência notável, se não houve transmissão. Molesworth regista ''chhápo'' «''a play among children''» (= jôgo de crianças), como termo usado no marata do Concão; e o Sr. Cândido de Figueiredo dá, entre outros significados de ''chapa'',
== Notas ==
<references /><noinclude></noinclude>
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Página:Sebastião Rodolfo Dalgado - Influência do Vocabulário Português em Línguas Asiáticas (1913).pdf/152
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="4" user="Sintegrity" />{{rh||CHAPÉU CHARUTO|{{sc|55}}}}</noinclude>o de «espécie de jogo de rapazes». O ''Dicc. Contemp.'' explica, como o faz Bluteau, a natureza do «jogo da ''chapa'', o dos cunhos e cruzes»<ref>Não consegui saber em que consiste o jôgo do Concão.</ref>.
Parece-me que ''chámp'' ou ''cháp'' (com ''ch'' inaspirado), «cão de espingarda», que aparece em algumas línguas indianas, tem outro étimo, talvez ''chāmpná'' em hindustani, ''chāpṇém'' em marata, «premer, comprimir». Em concani diz-se ''kámv''.
Em conclusão. É quási certo que ''chapa'' não foi de Portugal para a Índia. O argumento de maior pêso é que ''chháp'' ou ''chhapá'' é «termo técnico usado pelos vaixnavas para denotar as marcas sectárias (lódão, tridente, etc.) que desenham nos seus corpos» (''Hobson-Jobson''); e tal termo não pode ser estrangeiro, modernamente importado. E sendo incerta a origem do vocábulo português, não é improvável que seja indiana, não havendo nenhum documento do seu emprêgo, anterior às conquistas orientais. Note-se porêm que Duarte Barbosa (1516) emprega ''chapeado'' no sentido europeu: «Ho preste Joom em outro caro (= carro) ''chapeado'' douro». P. 215.
'''[[:d:Lexeme:L447142|Chapéu.]]''' Conc., Mar. ''chepém''. — Mal. ''chapéu'', ''chapíyu''. — Sund. ''chapéo''. — Mak., Bug. ''chapíyo''. — Nic. ''xapéo''<ref>«Hum '''chapeo''' de guedelha de seda cramezim». Gaspar Correia, I, p. 534.
«Na cabeça hum '''chapeo''' de veludo preto». Diogo do Couto, Déc. VII, IV, 6.</ref>.
Molesworth diz: «''Chepem'' n. R. (Rájápur) W (Wari) (''chepṇem''). A low, flattish hat or cap. Used esp. of the military hat or cap of the Sepoys and their officers». ''Chepṇém'', de que o autor tira erradamente a origem, significa «achatar, comprimir».
''Chèpekàr'', o que usa chapéu; chapeleiro. Concani.
'''[[:d:Lexeme:L448429|Chapinha]]''' («pequena lâmina de metal»). Malayál. ''chappiñña''. — ? Siam. ''cha'ping'', ''ta'ping''.
'''[[:d:Lexeme:L1375286|Charamela.]]''' Conc. ''chermél''. — Mak., Bug. ''charaméle''. — Jap. ''charumera'', ''charumeru''. Term. vern. ''rappa''<ref>«Com muitas '''charamelas''', trombetas». ''Id.'', Déc. VI, IV, 6.</ref>.
'''[[:d:Lexeme:L447879|Charuto.]]''' Tet., Gal. ''sarútu''.
O étimo primordial desta palavra, adoptada por muitas línguas indianas e malaio-polinésias, é o tam. ''churuṭṭu'', «rôlo, torcida, charuto; envolver, enrolar» (Percival). «É pois evidente, diz com muita razão o Sr. Gonçalves Viana, que da Índia, e não de Portugal, passou à língua malaia o termo, como passou à inglesa, e desta ao português»<ref>«Os '''cherutos''' constituindo huma especie distincta, devem ser despachados em caixas, pagando hum direito por milheiro». F. N. Xavier, ''Collecção de Bandos'', I, p. 200.</ref>.
== Notas ==
<references /><noinclude></noinclude>
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Página:Sebastião Rodolfo Dalgado - Influência do Vocabulário Português em Línguas Asiáticas (1913).pdf/153
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="4" user="Sintegrity" />{{rh|{{sc|56}}|CHIRIPOS CHITA|}}</noinclude>'''[[:d:Lexeme:L448432|Chave.]]''' Conc., Mar. ''tsāví''. — Guj. ''chāví''. — Hindi ''chābí''. — Hindust. ''chāví'', ''chābí'', ''chābhí''. — L.-Hindust. ''chāví'', ''chābí'', passador (naut., ingl. ''fid''). — Nep., Or. ''chābí''. — Beng. ''chābi'', ''chábi'', ''sābí''. — Ass. ''chábi'', ''sábi''. — Term. neo-áricos: ''kilí'', ''tālí'', ''kunji'', ''kunz''. — Tam. ''sávi''. Term. vern. ''tir̥appu'', ''tir̥avukól''. — Tel. ''sávi'', ''chevi''. — Can., Tul. ''chávi''. — Indo-ingl. ''chabee''. — Gar. ''chabi''. — Khas. ''shabi''. — Tet., Gal. ''chávi''.
''Tsāvyekár'', chaveiro. ''Tsāvêr'' (''chaveiro'' no português de Goa), molho de chaves. Concani.
'''[[:d:Lexeme:|Chicara.]]''' Conc. ''chíkr''. — Tet., Gal. ''chíkara''.
'''[[:d:Lexeme:|Chinela.]]''' Conc. ''chinel''. ''Chinelkárṇ'', mulher que usa chinelas. — Sing. ''chinélaya''. — Tam. ''chinelei''. — Mal., Sund. ''chinela''. — Jav. ''chinélô'', ''chanélô''. — Mad. ''chinélô''. — Tet., Gal. ''sinela''<ref>«Humas '''chinelas''' de veludo preto». Lucena, liv. IX, cap. 5.</ref>.
'''[[:d:Lexeme:|? Chiripos]]''' («tamancos»). Conc. ''chirpám'' (n. pl.). Term. vern. ''khaḍhāvô''. — Tam. ''cherippu''. — Malayál. ''cherippu''. ''Muṭṭu cherippu'', botas. ''Oruvaka cherippu'', chinelas. — Mal. ''cherpu''.
O ''Dicc. Contemp.'' e o de Cândido de Figueiredo não registam ''chiripos'', talvez por ser desusado o vocábulo. Bluteau, Morais, Vieira, João de Deus e o Dr. Adolfo Coelho dizem simplesmente: «V. ''tamancos''». Parece que é de origem dravídica, levado pelos portugueses para Gôa e Malaca. Usa-se tambêm no português da nossa Índia. Gabriel Rebêlo diz: «Alguns trazem (em Maluco) '''chiripos''' de pão»<ref>''Informação das Cousas de Maluco'', ed. da Academia, p. 158.
O Sr. Cândido de Figueiredo, por mim consultado, respondeu que não registou ''chiripos'', provávelmente porque nada achou que justificasse o termo.</ref>.
'''[[:d:Lexeme:|Chita]]''' (do indo-português). Conc. ''chít''. — Sing. ''chitta''. — Indo-franc. ''chite''. — Mal., Mad. ''chita''. — Sund. ''chita'', ''inchit''. — Jav. ''chîtô''. — Day. ''chita'', ''sita''. — Mak., Bug. ''chí''. — Tet., Gal. ''sita''.
O bengali, o marata e o sindhi teem ''chhít''. O ingl. ''chintz'' é do hindust. ''chint'', donde tambêm procede o persa ''chít''. O étimo primordial é o sânsc. ''chitra''<ref>«Toutes les '''Chites''' qui se font dans l'Empire du Grand Mogol sont imprimées et de différente beauté, tant pour l'impression que pour la finesse de la toile» (1676). Tavernier, ''Voyages'', III, p. 359.
«E eu o presenteei com seis botijas de genebra, seis garrafas de vinho, uma peça de '''chita''' de ramagem, e um collar de coralinas». A. J. de Castro (1845), in ''Bol. S. G. L.'', 2.ª sér., p. 57.
Os antigos escriptores portugueses chamam à fazenda ''pano pintado'', e o vocábulo passou ao indo-inglês.</ref>.
== Notas ==
<references /><noinclude></noinclude>
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Página:Sebastião Rodolfo Dalgado - Influência do Vocabulário Português em Línguas Asiáticas (1913).pdf/154
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<noinclude><pagequality level="4" user="Sintegrity" />{{rh||CIFRA COBRA|{{sc|57}}}}</noinclude>'''[[:d:Lexeme:|Chocolate.]]''' Conc. ''chokolát''. — ? Sing. ''sokalat''. — Tet., Gal. ''chokoláti''. — * Tonk. ''cù-lac''.
'''[[:d:Lexeme:|Chouriço.]]''' Conc. ''chaurís'' (mais us. ''lingis'' = linguiça). — Tet. ''surisa''.
'''[[:d:Lexeme:|Chumbo.]]''' Nic. ''chumbo''.
Os nicobareses receberam o vocábulo directamente dos portugueses, como o nome de ''cabra'' e o de ''sal'', visto que não são usados em nenhuma outra língua asiática.
'''[[:d:Lexeme:|Chumane]]''' (indo-português gáurico; ''chunambo'', indo-português dravídico. ''Chuna'', que he cal, Garcia da Orta). Indo-ingl. ''chunam'', ''chinam''.
O étimo é o malayál. ''chuṇṇámbu'', relacionado com o neo-áric. ''chuná'', sânsc. ''chūrṇa''<ref>«Com muitos pagens, dos quaes um lhe leva o abano, outro a boceta de prata cheia de ''betel'', outro outra boceta com '''chuname''', que é cal». Pyrard, ''Viagem'', II, p. 117.
«Pedimos a vossa senhoria nos mande dar madeira, telha, '''chunambo''' para o concerto». A. Bocarro, Déc. XIII, p. 736.</ref>.
'''[[:d:Lexeme:L447391|Cidade.]]''' Conc. ''sidád''. Term. vern. ''xahár'', ''nagar'', ''pur''. — Tam. ''sīdári''. — Batav., Tet. ''sidádi''.
'''[[:d:Lexeme:|Cidrão.]]''' Sing. ''sideran'', ''sidaran''. Term. vern. ''maharaṭadehi''.
'''[[:d:Lexeme:|Cifra.]]''' Conc. ''síphr'' (us. entre os cristãos). Term. vern. ''púz'', ''xúnaya'', ''bindu''. — Tet., Gal. ''sifra''.
De origem arábica, e do árabe passou imediatamente ao persa, hindi e hindustani.
'''[[:d:Lexeme:|Cigarro.]]''' Conc. ''sígár''. Term. vern. ''viḍí''. — Tet. ''sigáru'' (mais us. ''canudo'', como em indo-português).
'''[[:d:Lexeme:L448609|Cinta]]''' (naut.). L.-Hindust. ''sinta'', ''sit''.
'''[[:d:Lexeme:|Cinto.]]''' Mal. ''cinto'' (Haex).
'''[[:d:Lexeme:|Cinturão.]]''' Conc. ''sinturámv''. Term. vern. ''kamarband''. — Tet. ''sinturã''.
'''[[:d:Lexeme:|Cinzel.]]''' Malayál. ''chiññer'' (= ''chinnher'').
'''[[:d:Lexeme:|Cipai]]''' («soldado indígena»). Indo-ingl. ''sepoy'', ''seapoy''. Indo-franc. ''cipaye''<ref>«Se ordenou que se formassem outras companhias, porém que estas fossem de '''sipaes'''». Cunha Rivara, ''O Chron. de Tissuary'', I, p. 30.</ref>.
Do pers. ''sipāhí''.
'''[[:d:Lexeme:|Citação.]]''' Conc. ''sitsámv''. — Sing. ''sitásiya'', ''sitāsikeríma''. ''Setásiya karaṇavā'', citar. — Mal. ''sita''. ''Surat sita'', mandado de citação.
'''[[:d:Lexeme:|Citar.]]''' Conc. ''sitár-karunk''. — Mal., Ach., Sund., Bug. ''sita''. — Mad. ''nyíta''.
'''[[:d:Lexeme:|? Coa.]]''' Mal. ''coa'' (Haex), ''kua'', coada. ''Coa-anghar'' (lit. «sumo de uvas»), vinho.
'''[[:d:Lexeme:|Cobra, cobra de capelo]]''' (''Naga tripudiens''). Indo-ingl. ''cobra'', ''cobra de capello'', ''cobra capella''. — Indo-franc. ''cobra-de-capello'', ''cobra-capello''. — Mal. ''kobra''<ref>«Algũas serpentes, ha que hos Indios chamaom Nurcas, e nós '''cobras de capelo''', porque fazem huũ sombreiro sobre ha cabeça». Duarte Barbosa, p. 344.
«Vimos tãbẽ aquy grande soma de '''cobras de capello''', de grossura da coxa de hum homem». Fernão Pinto, ''Peregrinação'', cap. 14.
«Ha muytas serpentes, a que chama o vulgo '''cobras de capelo'''; e nós em latim as podemos chamar ''regulus serpens''». Garcia da Orta, ''Col.'' XLII.</ref>.
== Notas ==
<references /><noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="4" user="Sintegrity" />{{rh|{{sc|58}}|COCHONILHA COIFA|}}</noinclude>'''[[:d:Lexeme:|Cobra manila]]''' (''Bungarus caeruleus'' ou ''Daboia Russellii''). Tel. ''maníla-páyu'', ''manyala-páyu'' (''páyu'' é cobra). — Indo-ingl. ''cobra manilla'' ou ''minelle'' (us. no sul da Índia).
O étimo é o marata-conc. ''maṇêr'', do sânsc. ''maṇi'', «joia». O vocábulo telúgu parece importado<ref>«Ha outra sorte de cobras muyto mais peçonhentas, ha que hos Indios chamaom '''Madalis'''». Duarte Barbosa, p. 344.</ref>.
'''[[:d:Lexeme:|Coche.]]''' Conc. ''kôch'', palanquim. — ? Guj., Hindi, Beng. ''kôch'', sofá. — ? Sindh. ''kôchu'', sofá. — ? Sing. ''kôssiya''.
Provávelmente importado do ingl. ''couch'', como o hindust. ''kauch'', atenta a diversidade dos significados.
'''[[:d:Lexeme:|Cocheiro.]]''' Conc. ''kochêr''. Term. vern. ''gāḍīvāló''. — ? Hindust. ''kochbán'' (talvez do ingl. ''coachman''). — Tet. ''kochéiru''. — Term. vern. ''kuchata''.
'''[[:d:Lexeme:|? Cochonilha.]]''' Mal. ''kosnil'' (Heyligers)<ref>«Hum manteo de '''cochonylha''' avalliado em tres myll réys» (1601). A. Tomás Pires, ''Materiaes'', etc., in ''Bol. S. G. L.'', 16.ª sér., p. 715.</ref>.
'''[[:d:Lexeme:L448202|Côco.]]''' Indo-ingl. ''cocoa'', ''cocoa-nut''. — Indo-franc. ''coco'', ''cocotier''<ref>«O mantimento era '''coquos'''». ''Roteiro de Vasco da Gama'', p. 95.
«Não achou mais que '''cocos''' e jagra». Castanheda, I, 25.
Quanto à origem do vocábulo ''côco'', vid. Conde de Ficalho, ''Col.'' XVI; Cândido de Figueiredo, no ''Instituto'' de Coimbra, vol. XLVIII, p. 655, e Gonçalves Viana, ''Apostilas''.</ref>.
'''[[:d:Lexeme:|Codilho.]]''' Mak., Bug. ''dílu''.
'''[[:d:Lexeme:|Côco do mar]]''' («côco das Maldivas», Garcia, ''Lodoicea Seychellarum'')<ref>«Nas ilhas de Maldiva nasce a planta
No fundo das aguas soberana,
Cujo pomo contra o veneno urgente
He tido por antídoto excellente».
''Lusiad.'', X, 136.</ref>. Indo-ingl. ''coco-de-Mer''. — Indo-franc. ''coco de Mer''<ref>«É provável que G. d'Orta foi o primeiro europeu que descreveu esta forma de coco, e os portugueses foram os primeiros que o introduziram na Europa». Dr. D. G. Dalgado, ''Classificação Botanica das Plantas e Drogas'', etc., p. 9.</ref>.
'''[[:d:Lexeme:L31587|Coelho.]]''' Mal. ''kovélu'', ''tarvélu''. — Jav. ''tarvéla'', ''trevela''. — Tet., Gal. ''koêlhu''. Vid. ''cavalo''<ref>«E duas duzias de '''coelhos''' machos e femeas, pera Elrey em suas tapadas, pellos não auer em Cambaya». Diogo do Couto, Déc. VII, III, 1.</ref>.
'''[[:d:Lexeme:L450514|Cofre.]]''' Conc. ''kophr''. — Tet., Gal. ''kófri''.
'''[[:d:Lexeme:|Coifa.]]''' Mal. ''kofíah'', ''kúpia'', barrete<ref>«E na cabeça sobre hũa '''coifa''' de ouro, hũa carapuça de veludo». João de Barros, Déc. II, X, 8.</ref>.
== Notas ==
<references /><noinclude></noinclude>
p8j36nucgq8ajo66lo3vbsxqb1r8l8x
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<noinclude><pagequality level="4" user="Sintegrity" />{{rh||CORJA CORONEL|{{sc|62}}}}</noinclude>indo-português é o malayál. ''koppara'', do hindust. ''khopra'', sânsc. ''kharpara''<ref>«Desque elles (coquos) despedem a casca, ficão secos em pedaços e chamão-lhes '''copra'''». Garcia da Orta, Col. XVI.
«Este miolo de coco depois de secco e avellado, se chama '''copra'''». Fr. João dos Santos, ''Ethiopia Oriental'', I, p. 294.
«O seu pão são cocos secos ao sol, a que na India communmente chamão '''copra'''». Diogo do Couto, Déc. IV, IV, 8.</ref>.
'''[[:d:Lexeme:L477647|Côr.]]''' Conc. ''kôr''. Term. vern. ''rang''. — Tet. ''kôr''<ref>«Não se emprega esta palavra ''côr'', mas só a qualidade d'ella, como: côr branca, ''mútin'', e não ''côr mútin'', etc.». P. Aparício da Silva.</ref>.
'''[[:d:Lexeme:L448008|Coração.]]''' Conc. ''kurāsámv'', jóia do feitio de coração. — Mal. ''korsang'', ''krusang'', ''krungsang'', «sorte d'épingle ou brochette en or servant à fermer l'habillement des femmes par devant». P. Favre. — Jav. ''korsañ''.
'''[[:d:Lexeme:L447397|Corda.]]''' Conc. ''kórd'' (— de instrumentos músicos). — Malayál. ''karaḍa''.
'''[[:d:Lexeme:|Cordame.]]''' L.-Hindust. ''kúrdamí''.
'''[[:d:Lexeme:|Cordão.]]''' Conc. ''kordámv''. — Hindust. ''kardhaní''. — L.-Hindust. ''kurdam''. — Tam. ''kordan''. — Malayál. ''koḍudam''.
'''[[:d:Lexeme:|Corja]]''' («vintena»). Conc. ''kórj''. Malayál. ''kórja'', ''kórchchu''. — Tul. ''kórji''. — Indo-ingl. ''corge'', ''coorge''. — Indo-franc. ''corge'', ''courge''<ref>«Estas sortes de panos prendem eles por '''corjas''', que antre eles he hũu conto de uinte, como qua dizemos duzia». Duarte Barbosa, p. 283.
«A '''corja''' de quotonyas vall cento e corenta ''tangas''». ''Lembranças das Cousas da India'', p. 49.
«Chamamos rubins de '''corja''', que he tanto dizer como comprados 20 a vinte». Garcia da Orta, Col. XLIV.</ref>.
Parece que o étimo é o neo-árico ''koḍí''. Wilson (''A Glossary of Judicial and Revenue Terms'') indica o tel. ''khorjam'', que Yule & Burnell presumem ser corrução do termo comercial.
'''[[:d:Lexeme:|Cornaca.]]''' Indo-ingl., Indo-franc. ''cornac''.
Provávelmente do sing. ''kúravannáyaka'', «maioral da manada de elefantes»<ref>«A molher de vm '''Cornaca''' (que são os que gouernam os alifantes)». Diogo do Couto, Déc. V, VII, 11.
«Os '''cornacas''' são os que domão, e servem de aios aos elefantes». João Ribeiro, ''Fatalidade Histórica da Ilha de Ceilão'', liv. I, cap. 10.
«Estes animaes andão no mato em bandos, e sempre nelles ha hum de maior corpo e respeito que os outros, ao qual chamão ''guarda-bando''». ''Id''., I, cap. 17.</ref>.
'''[[:d:Lexeme:|Côro.]]''' Conc. ''kôr''. — Tet. ''kôru''.
'''[[:d:Lexeme:L558182|Coroa.]]''' Conc. ''kurôv''. Term. vern. ''mukuṭ'', ''táz''. — Tet., Gal. ''korôa''.
Em concani designa tambêm a «tonsura clerical», a que o vulgo chama igualmente ''pharád'' (fem.), do port. ''frade''.
'''[[:d:Lexeme:L620499|Coronel.]]''' Conc. ''kornél''. — Mar. ''karnel''. — Guj. ''karnel''. — Hindi ''karnel''. — Hindust. ''karnail''. — Beng. ''karnel''. — Sing. ''kôrnel''. — Tul. ''karnélu''. — Mal. ''karnel''. — Bug. ''kornéli''. — Tet., Gal. ''koronel''.
Pode ser que em algumas das línguas indianas o termo tenha entrado pelo inglês, e no malaio pelo holandês.
== Notas ==
<references />'''[[:d:Lexeme:L620499|Coronel.]]''' Conc. ''kornél''. — Mar. ''karnel''. — Guj. ''karnel''. — Hindi ''karnel''. — Hindust. ''karnail''. — Beng.
== Notas ==
<references /><noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="4" user="Sintegrity" />{{rh|{{sc|63}}|COSTA COTÃO|}}</noinclude>''karnel''. — Sing. ''kôrnel''. — Tul. ''karnélu''. — Mal. ''karnel''. — Bug. ''koronéli''. — Tet., Gal. ''koronel''.
Pode ser que em algumas das línguas indianas o termo tenha entrado pelo inglês, e no malaio pelo holandês.
'''[[:d:Lexeme:|Corpinho]]''' («veste»). Mal. ''kurpinyu''.
'''[[:d:Lexeme:|Corredor.]]''' Conc. ''kurredór''. — ? Mal. ''koridor'', sacada, varanda.
Em malaio é provável que o vocábulo seja de origem holandesa ou inglesa.
'''[[:d:Lexeme:L662370|Corrente]]''' (subst.). Conc. ''kurrênt'', grilhão. Term. vern. ''sarpaḷí''. — Tet. ''korrénti'', grilheta. Term. vern. ''bési''.
'''[[:d:Lexeme:|Cortesia.]]''' Conc. ''kortési'', mesura. — Tet. ''kortezia''. Term. vern. ''úkur'', ''kuát''.
'''[[:d:Lexeme:L447779|Cortina.]]''' Conc. ''kurtín''. Term. vern. ''paḍḍó''. — Guj. ''kurtaní''. — Tet., Gal. ''kortina''.
'''[[:d:Lexeme:L447779|Corveta.]]''' Conc. ''kurvêt''. — Tet. ''kurveta''.
'''[[:d:Lexeme:L447779|Costa.]]''' Mal. ''kósta'', Costa de Choromândel. ''Sagu sa-Costa'', sagu da Costa (Haex). ''Saputangang kosta'', ou ''supo etangang kosta'', lenço da Costa («lénsu di costa», no crioulo). — Sund. ''kósta''. ''Kain kosta'' ou simplesmente ''kosta'', variedade de fazenda estampada ''Chav kosta'' (lit. «banana da Costa»), espécie de banana<ref>«Aquy (em Malaca) uivem jágora todo ho genero de grosos mercadores mouros e gentios, muytos de Choromandel». Duarte Barbosa, p. 371.</ref>.
Em indo-inglês a palavra ''Coast'' tambêm tinha a mesma significação restrita<ref>«Grande foy o alvoroço e alegria em toda a '''Costa''' com a chegada do seu grande, e santo padre Francisco». Lucena, liv. V, cap. 23.
«Da instrucçam, e regimento, que deu na '''Costa''' aos padres». ''Id''., cap. 25.</ref>.
'''[[:d:Lexeme:|Costado]]''' (do navio). L.-Hindust. ''kustád''.
'''[[:d:Lexeme:|Costume.]]''' Conc. ''kustum'' (p. us.). Term. vern. ''sanvay'', ''váz'', ''tsál''. — Mal. ''costume'' (Haex). Term. vern. ''ádat'', ''resam''. — Tet. ''kostúmi''.
'''[[:d:Lexeme:|Costura]]''' (naut.). L.-Hindust. ''kasturá''.
'''[[:d:Lexeme:|Cotão.]]''' Conc. ''kutámv'', túnica, roupão; corpete de damas<ref>«Especie de baniana [camisola] ou '''cutão''' justa ao corpo». ''O Gabinete Litterario das Fontainhas''.
«Francisco Barreto hia em hum cavallo dos que escaparam da peçonha em Sena, sempre armado em hum '''cottão''' grosso de malha». P. Monclaio (1569), in ''Bol.'' S. G. L., 2.ª sér., p. 550.
«'''Cutão''' ou Jaqueta azul ferrete com canhões escarlates» (parte do uniforme militar em Goa, 1828). ''Bosquejo das Possessões Portuguezas'', I, p. 81.</ref>. — Sing. ''kottama'', jaqueta. — Tam. ''kuttán'', camisola. — ? Mal., Mak., Bug. ''kútang'', justilho, camisola. — ? Sund. ''kutang'', ''kutung''. — ? Jav. ''kotang''.
Não é bem clara a origem desta palavra nas línguas asiáticas. Pode ser o port. ''cotão'', no sentido de
== Notas ==
<references /><noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="4" user="Sintegrity" />{{rh||COTÃO COTÃO|{{sc|64}}}}</noinclude>«vestido de cote, o que se traz todos os dias» (Morais), ou como augmentativo de ''cota'', «cotão de grossa malha» (''Segundo Cerco de Diu'', citado por Morais). Mas tambêm é possível, se não provável, que o étimo seja o mal. ''kútong'', que igualmente se usa no crioulo malaio, levado para a Índia pelos portugueses, junto com ''baju'', outra peça do trajo malaio, trazida por cima do ''kútong''. E ajustaria melhor aos significados indianos, à excepção do primeiro em concani («roupão»), que parece prender-se ao augmentativo ''cotão''.
Note-se porêm que ''kútong'', por seu turno, se pode filiar no persa ''khaftán'', «camisola», já que o Padre Favre supõe que tambêm ''báju'' tem a mesma procedência, sem embargo da diferença dos significados: «''bazu'', nom d'un vêtement pour se bagner et qui s'attache à la ceinture». Há outro vocábulo em persa, ''kattán'' ou ''kuttán'', que significa «fazenda de linho». Segundo Shakespeare, ''qaftán'', em turco, é «veste de honra».
Quanto a ''baju'', o vocábulo pertence ao léxico português. O Sr. Cândido de Figueiredo regista-o como termo de Miranda, e o ''Dicc. Contemp.'' diz que «se chama assim, na provincia do Minho, ás roupinhas usadas pelas mulheres».
João de Sousa deriva ''baju'' do ár. ''badjú'' e define-o «certa especie de roupão que as mulheres muito usavão, e de que algumas ainda usão nas nossas Províncias, aonde lhe dão este nome»; e abona-o com Damião de Góis: «ElRey de Calicut estava vestido com um Baju branco de seda e ouro, sentado em um Catel»<ref>«El Rei... tinha vestido hum '''Baju''' (que he quomo roupeta curta) de pano dalgodão muito fino, com muitos botões douro e perlas, na cabeça huma carapuça de veludo guarnecida de pedraria, e chaparia douro, ho qual trajo he o ordinario de todollos Reis do Malabar, porque nenhuma pessoa traz ho '''baju''', e carapuça se não elles». I, cap. 41.</ref>. Morais, que lhe atribui a mesma origem, diz que é «um vestido, que cobre o corpo, de mangas curtas e fralda até o joelho: na Asia trazem-no homens e mulheres; no Brasil, só estas, e algumas aí lhe chamão bajó». Vieira regista ambas as formas, ''bajó'' e ''bajú'', define-as «vestido asiatico á maneira de jaqueta», abona-as com Castanheda<ref>«Tinha (elrei de Ceilão) vestido um ''bajo'' [não ''bajó''] de seda, que he uma vestidura de feição de jaqueta çarçada».
«Elles (os reis das ilhas de Maluco)... se vestem ao modo malaio e os '''bajús''' são de seda rica com botões d'ouro».</ref>, e observa que o termo é «usado nos Cantos populares do Archipelago Açoriano». Bluteau tem ''baju'' por «palavra da India», e dá-lhe o significado de «camisa de meio corpo».
O autor da ''Chronica dos Reis de Bisnaga'' dá a forma ''bajuris'' e nota «que são como camisas e a
== Notas ==
<references /><noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="4" user="Sintegrity" />{{rh|{{sc|65}}|COTÃO COUVE|}}</noinclude>fralda». No português de Goa emprega-se o termo especialmente na frase ''pano-baju'', designativa de certa espécie de trajo das mulheres, em distinção de ''pano paló'', outro trajo, puramente indígena<ref>«Nos trajos das mulheres christãs do Damão e Diu se encontra a palavra, e até em Goa, com a forma ''saráss'', designando, salvo erro, o ''pano-baju'' das bramanes salsêtanas christãs». Alberto de Castro, p. 172.</ref>.
De entre as línguas indianas só o concani conhece o vocábulo (''bāzú''), e emprega-o no sentido malaio. As mulheres singalesas trazem o ''baju'', a que chamam ''báchchiya''<ref>«Tambem trazem ''bajú'' e pano até a ponta do pé por modo muito grave e honesto.» João Ribeiro, liv. I, cap. XVI.</ref>.
Os dicionários de árabe e de persa que consultei não registam ''badju'' ou ''bazu'' com o significado de «roupão» ou cousa semelhante, nem os arabistas a que recorri puderam esclarecer-me acêrca do assunto. Mas H. N. van der Tuuk opina que o persa ''bāju'', «braço» (sânsc. ''bāhu'') é o étimo do vocábulo, por isso que origináriamente ''bājū'' não era outra cousa senão «''een kleedingstuk met armen'', uma peça de vestido com braços», mangas! Yule & Burnell teem por certo que o étimo do indo-ingl. ''badjoe'' ou ''bajoo'', «jaqueta malaia», é o mal. ''bājū''; e os autores que citam parece que o confirmam<ref>«Over this they wear the '''badjoo''', which resembles a morning gown, open at the neck, but fastened close at the wrist, and half-way up the arm». Marsden. «They wear above it a short-sleeved jacket, the ''baju'', beautifully made, and often very tastefully decorated in fine needle-work». Bird.</ref>. O termo encontra-se nos principais idiomas da Insulíndia, como javanês, batak, dayak, makassarês, búgui.
'''[[:d:Lexeme:|Cotonia.]]''' Conc., Mar. ''kutní'', pano listrado de seda e algodão. — Indo-ingl. ''cuttanee''<ref>«Das toldas das fustas, e algumas velas e '''cotonias''' que comprarão fizerão tendas e emparos». Gaspar Correia, III, p. 617. Vid. ''corja''.
«'''Cotonias''' dalgodam, toadas dalgodam, roupa baixa doutras sortes». A. de Albuquerque, ''Cartas'', t. I, p. 224.
«Com calções de '''cotonia''' a mea perna, saya de malha, e montante nas mãos». Diogo do Couto, Déc. VII, II, 11.
«'''Cotoni''' de soye... '''Cotoni''' de soye et or, et de soye et argent». Tavernier, ''Voyages'', V, p. 202.</ref>.
O étimo é o ár. ''quṭnía''; mas Yule & Burnell sugerem dubitativamente o pers. ''kuttán''.
'''[[:d:Lexeme:|Couve.]]''' Conc. ''kôb''. — Mar. ''kôb'', ''kobí'', ''koí''. Term. vern. ''karam''. — Guj. ''kobí''; ''kobíj'' (= couves). — Hindi ''kobí'', ''gobí'', ''gobhí''. Term. vern. ''karamukallá''. — Hindust. ''kobí''. — Or. ''kobi''. — Beng. ''kobi'', ''kobixák'', ''kopixák'' (''xâk'' = hortaliça). — Sing. ''kóvi''. Term. vern. ''sudumul'', ''góva'', ''gova-geḍiya'' (lit. «fruto de Goa»). — Tam. ''kóvi''. — Malayál. ''góvi'', ''goviṇṇu''. Can. ''kōbísu''. — Tul. ''góbi''.
== Notas ==
<references /><noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="4" user="Sintegrity" />{{rh||CRASSO CRAVO|{{sc|66}}}}</noinclude>— Gar. ''kóbi''. Term. vern. ''mesumasa''. — Tib. ''ko-pi''. Term. vern. ''pe-tshe''. ''Ko-pi metok'', couve-flor. — Khas. ''kubi''. — Mal. ''kóbis'', ''kúbis''. — Jav. ''koubis'', ''kúbis''. — Mad. ''kóbis''. — Tet., Gal. ''kóbi''.
O composto híbrido ''phúl-kobí'' ou ''phúl-gobí'' é o nome de couve-flor em quási todas as línguas indianas. Na Malásia usa-se mais ''kól'', do hol. ''kool''.
'''[[:d:Lexeme:|Cova.]]''' Mal. ''koba'' (termo de jôgo). — Mak. ''kova''.
'''[[:d:Lexeme:|Côvado.]]''' Conc. ''kôbd''. — Indo-ingl. ''covid'' (obsol.). — Tet., Gal. ''kóvadu''.
O termo estava outrora muito vulgarizado no comércio da Índia. Tavernier (1676) refere-se-lhe freqüentemente, e toma-o por vernáculo. «''Bofetas''... sont de 21 '''Cobits''', étant crûs, et étant lavé, de 20 '''Cobits'''. (V, p. 200).
'''[[:d:Lexeme:|Cozido]]''' (subst.). Conc. ''kuzíd''. — Tam. ''kujíd''.
'''[[:d:Lexeme:L1416815|Cozinha.]]''' Conc. ''kuzín''. — Sing. ''kŭssiya''. — Tam. ''kusini''. ''Kusinikáran'', cozinheiro. — Tel. ''kusinikára'', ''kusini-vádu'', cozinheiro. — Can. ''kuxini''. — Tul. ''kusinu'', ''kusini'', ''kusni''. ''Kusnida'', culinário. — Malg. ''kozina''.
* '''[[:d:Lexeme:|Crasso.]]''' Mal., Sund., Jav. ''kras'', ''keras'' (adj. e adv.), forte, vigoroso; fortemente, enérgicamente. Haex e Swettenham tambêm registam a fórma ''dras''.
O Dr. Heyligers admite a procedência portuguesa; mas parece-me que não tem fundamento. ''Crasso'' é termo erudito. Vid. ''grosso''.
'''[[:d:Lexeme:|? Cravado.]]''' Tam., Malayál. ''karuváḍu'', peixe salgado.
A derivação, sugerida por Gundert, é improvável por motivo do significado. ''Karavala'' é «peixe sêco» em singalês, e Percival diz que o tam. «''karuvāttivāli'' é nome duma ave cuja cauda é como a de peixe, — ''Corvus Balicassius''».
<sup>1</sup>'''[[:d:Lexeme:L448671|Cravo]]''' (''Caryophyllus aromaticus''). Beng. ''karábu''. — Sing. ''krábu'', ''karábu''. Term. vern. ''lamange'' (sânsc. ''lavaṅga''), ''dēxakusuma'' (sânsc., lit. «flor de Deus»). ''Krábu-gaha'', craveiro. — Tam. ''karámbu'', ''kirámbu''. Term. vern. ''lavangam'', ''ilavangam''. — Malayál. ''karámbu'', ''karayábu'', ''karappa''. — Siam. ''kravhn'' cardamomo.
Gundert diz que ''karappa'' vem do ár. ''qarfah''. Mas ''qarfah'' significa «casca, canela», e ''qaranful'', dado por Belot como vernáculo, é o nome de cravo, como o é em persa, alêm de ''mēkheh'' ou ''mekheh'', «prego pequeno». Shakespear, no seu dicionário hindustani, deriva ''qaranful'' ou ''qaranphúl'' do grego ''karyóphyllon'', que lit. quer dizer «folha de nogueira». «Os vossos Gregos, diz Garcia da Orta a Ruano (Col. XXV), nam falaram neste ''gariofilo''».
É curioso que só o concani tem, que eu saiba, afora de ''lavang'', ''kālāphúl'' ou ''kālāphúr'', que talvez seja corrução de ''qaranful'', se não é, antes, composto do sânsc. ''kāla'',<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="4" user="Sintegrity" />{{rh|{{sc|67}}|CRISTÃO CRUZ|}}</noinclude>«preto», e ''phulla'', «flor». ''Kālāphúr'' é tambêm o nome de uma freguesia de Goa, que em português se chama ''Santa Cruz''<ref>«Mas Orta diz: «O Arabio, o Persio, o Turco, e a mór parte dos Indianos lhe chamam ''calafur''».
«Os medicos Bramanes o conhecem por ''Lauanga'', posto que tambem o nomeão, pelo nome dos mouros». Diogo do Couto, Déc. IV, VII, 9.</ref>.
<sup>2</sup>'''[[:d:Lexeme:L448671|Cravo]]''' («brinco de orelhas»). Conc. ''karáb''. — Sing. ''krábuva'', ''karábuva''. — Malayál. ''krábuva''. — Mal. ''krábu'', ''kerábu''. — Ach. ''kerábu''. — Sund. ''karābu'', ''kurābu''. ''Karábu-ros'' (lit. «cravo-rosa»), «arrecada de muitos ornatos» (Rigg). — Mak., Bug., Tet. ''karábu''<ref>«As orelhas são ornadas com tres pares de '''cravos'''». ''O Gabinete Litterario das Fontainhas''.</ref>.
'''[[:d:Lexeme:|Crescer.]]''' Mal. ''crescer'' (Haex).
'''[[:d:Lexeme:L494116|Criado.]]''' Conc. ''kryád'' (criado, criada). Term. vern. ''tsākar'', ''rāraylalo''; ''rāvaylalém''. — Tet., Gal. ''kriádu''. Term. vern. ''áta máne'', ''klósan''.
'''[[:d:Lexeme:L558248|Criar]]''' («educar»). Mal. ''crear'' (Haex). — Gal. ''kriar''.
'''[[:d:Lexeme:|Crisma.]]''' Conc. ''krízm''. — Beng. ''krisma''. — Tam. ''krismei''. — Tel. ''krismu''. — Tet., Gal. ''krisma''. — Jap. ''kirismo''.
'''[[:d:Lexeme:L448177|Cristão.]]''' Conc. ''kristámv''. — Beng. ''kristáñ''. — Tam. ''kiristavan''. — Malayál. ''kiristānmár''. — Tel. ''kristan-nú'', ''kirastuvánu''. — Can. ''kiristánu''. — Camb. ''kristăng''. — Siam. ''khrĭstăng''. — Jap. ''kirishtan'', ''kirishitan''.
Outras línguas indianas teem ''kristi'', derivado de «Cristo», ou ''kristiyan'', do inglês. As malaio-polinésias teem ''nasaráni'' ou ''saráni'', de «nazareno». É digno de nota que o cambojano conserva a forma portuguesa. O próprio singalês tem ''kristiyáni'', a despeito de ter sido Ceilão duas vezes cristianizada pelos portugueses.
'''[[:d:Lexeme:L448587|Crítica.]]''' Conc. ''kirít'', difamação. ''Kirít marunk'', difamar. — Malayál. ''krittikka'', criticar.
'''[[:d:Lexeme:L500660|Cruz.]]''' Conc. ''khurís''. ''Khurís kāḍhunk'' (lit. «tirar a cruz»), persignar-se). ''Khursár kāḍhunk'' (lit. «tirar sôbre a cruz»), atormentar, martirizar. ''Khursár zaḍunk'', pregar na cruz. ''Khursár mārunk'' (lit. «matar sôbre a cruz»), crucificar. ''Khurís karunk'' (lit. «fazer cruz»), assinar de cruz. Não há termo vernáculo equivalente. ''Tsavó'' significa «cruz de Santo André».
Mar. ''krús''. ''Krusāchí nixāṇi'', sinal da cruz, assinatura de cruz. ''Krusár chaḍhavném'', ''-deṇém'' (lit. «levantar, dar sôbre a cruz»), crucificar. ''Krusāverêl Khristāchi múrtti'' (lit. «a imagem de Cristo sôbre a cruz»), crucifixo.
Guj. ''krus'', ''krús''. ''Krúspar jaḍhavavum'', crucificar.
Hindi: ''krús''. ''Krús-'', ''krussa-'', ''krusiya pratimá'', crucifixo.
Hindust. ''krús''. Term. vern. ''salíb'' (do ár.).
== Notas ==
<references /><noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="4" user="Sintegrity" />{{rh||CURAR CURRAL|{{sc|68}}}}</noinclude>Beng. ''krux''. ''Kruxākṛiti'', ''kruxākár'', cruciforme. ''Kruxe hata-kṛi'' (lit. «fazer morto sôbre a cruz»), crucificar.
Sing. ''kurŭsiya'', ''kurẹsiya''. ''Kurẹsi surẹvama'', crucifixo. ''Kurẹsi ākára'', cruciforme. ''Kurẹsiyé ẹngasa-navá'', crucificar.
Tam. ''kurus''. Term. vern. ''siluvei''. ''Kurusadi'', cruz grande no extremo ou no meio do adro, cruzeiro.
Malayál. ''krúxu'', ''kurixa''. ''Krúxil tarekka'', ''kruxikka'', crucificar. ''Kruxāróhaṇaní'', crucifixão.
Can. ''krúji''. — Tul. ''krussu'', ''kursu'', ''krúji''. — Camb. ''crus'', ''chhú crus''. ''Chhu'' é «madeira». — Tet., Gal. ''kruz''. — Jap. ''kurusu'', ''kurosu''.
'''[[:d:Lexeme:|Cuidado.]]''' Conc. ''kuidád'' (us. em Goa entre os cristãos). — Mal. ''cuidado'', ''cudado'' (Haex). — Tet. ''kuidádu''. Term. vern. ''aládi-diak''.
'''[[:d:Lexeme:L1119437|Cuidar.]]''' Mal. ''cudir'' («''cordi habere'', ''curae esse''». Haex). De ''acudir''? — Tet. ''kúida''. Term. vern. ''hanôin''.
'''[[:d:Lexeme:|Cunha.]]''' Conc. ''kunh'', ''kunj''. Term. vern. ''pátsavém'', ''koyadám''. — Hindust. ''kuñya'', ''kuñiyáñ'', ''koniyá''. Vid. ''bolina''. — Sing. ''kuññaya'', ''kuññeva'', ''kuññe''. — Gal. ''kunha''. — Pers. ''kuhnah'', bucha.
'''[[:d:Lexeme:|Cunhada.]]''' Beng. ''koindó''. — Mal. ''cuniada'' (Haex). Term. vern. ''ipar parampuan''.
'''[[:d:Lexeme:L307425|Cunhado.]]''' Conc. ''kunhád'' (marido da irmã; tratamento honorífico ao preto). — Beng. ''koindú''. — Mal. ''cuniado'' (Haex). Term. vern. ''ipar laki''.
'''[[:d:Lexeme:|Curar.]]''' Conc. ''kurár-karunk''. — Malayál. ''kura'', cortir coiro. — Mal. ''curar'' (Haex).
'''[[:d:Lexeme:|Curral.]]''' Indo-ingl. ''corral'' (us. em Ceilão), recinto para apanhar elefantes bravos. — ? Camb. ''crol''. Pode ser termo vernáculo.
A palavra ''curral'' não aparece nos dicionários de singalês ou de tamul, nem está actualmente em uso, segundo me informam, nem sei se voga no indo-português com êste significado. Devia porêm estar vulgarizada na ilha no tempo do domínio dos holandeses, que a levaram para a África, em forma de ''kral'', «bairro ou aldeia indígena». Vid. Webster, s. v. ''kraal''.
Diz o Conde de Ficalho (Col. XXI): «Parece que a introducção ou a generalisação ali (em Ceilão) d'este methodo de caçar é devida aos portugueses; e o recinto chamado na India ''keddah'', recebe ali o nome de ''korahl'' ou ''corral'', que é evidentemente a palavra portuguesa curral». Mas o método era conhecido e praticado antes do século XVI, conforme o testemunho de Tomé Lopes, que embarcou para a Índia em 1502: «Tem (Cilão) bastantes elefantes selvagens, muito grandes, os quaes domestição fazendo hum grande tapume de estacada forte, com huma ponte levadiça entre duas arvores, dentro da qual põem hum elefante femea domesticado». ''Navegação ás Indias Orientaes'', na col. de Ramúsio, tradução da Academia, cap. XIX.<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="4" user="Sintegrity" />{{rh|{{sc|69}}|DADO DEDAL|}}</noinclude>'''[[:d:Lexeme:|Curva]]''' (nautico). L.-Hindust. ''karvá''.
'''[[:d:Lexeme:|Cuspidor]]''' (ant. por «cuspideira»). Conc. ''kuspidôr''. Term. vern. ''thukpáṭ'', ''pikdāṇí''. — Indo-ingl. ''cuspadoré'' (obsol.)<ref>«Estaua ali hum '''cospidor''' d'ouro». Castanheda, I, cap. 17.</ref>.
Usado na mesma acepção pelos crioulos indianos.
'''[[:d:Lexeme:|Custar.]]''' Conc. ''kustár-zāvunk'', valer; ser difícil. Term. vern. ''lágunk'', ''paḍunk''; ''puró zāvunk''. — Mar. ''kust hoṇém'', ficar maguado. — Tet. ''kústa'' (tambêm «custoso»). Term. vern. ''tós''.
Molesworth não indica a origem da frase marata. Em concani ''kustár'', simplesmente, significa «à custa de».
{{center|{{larger|D}}}}
'''[[:d:Lexeme:L447213|Dado]]''' («peça de jôgo»). Conc. ''dád''. Term. vern. ''phāsó''. — Sing. ''dáduva''. ''Dádu hinkaradíma'', rifa. — ? Siam. ''tau''. Term. vern. ''pō'', ''săká''. — Mal. ''dádu'', ''dadu''. ''Dadu-dádu'', balas de canhão. — Ach., Batt. ''dádu''. — Sund. ''dádu''. ''Mata dádu'', padrão axadrezado. — Jav. ''dadu'', ''ḍaḍu''. ''Adadu'', jogar com dados. ''Andadu'', semelhante ao dado. — Mak., Bug. ''dádu''. Vid. ''jôgo''.
Fonéticamente, ''dado'' pode dar ''tau'' em siamês. ''D'' inicial troca-se por ''t''. Cf. ''tipya'' = sânsc. ''divya'', ''tavipa'' = sânsc. ''dvípa'', ''tasa'' = pali ''dasa''. Pode cair fácilmente o ''d'' para se formar monossílabo. Cf. ''mít'' = ingl. ''mister'', ''Rut'' = Rússia, ''Phrĭk'' = África, ''khrūt'' = sânsc. ''garuḍa''.
'''[[:d:Lexeme:L499943|Dama]]''' («jôgo de damas»). Conc. ''dám''. — Mal. ''dam''.
'''[[:d:Lexeme:|Damasco.]]''' Conc. ''damásk''. — Mar. ''dhumás''. — Guj. ''dhumás'', ''ḍumás''. — Beng. ''damás''. — Tam., Can. ''damásu''. — Tul. ''damása''<ref>«Muy boa seda, de que fazem muyta cantidade de panos de '''damasquo''' de cores». Duarte Barbosa, p. 382.
«Com seis telizes de '''Damascos''' de cores». Diogo do Couto, Déc. VII, III, 1.</ref>.
'''[[:d:Lexeme:L501704|Dança.]]''' Conc. ''dáms'' (mais us. ''náts''). — Mal. ''dánsa'', ''dánsu''. ''Dánsah'', dançar.
'''[[:d:Lexeme:L500978|Decreto.]]''' Conc. ''dekrét''. Term. vern. ''xásan'', ''hukum'', ''pharmaṇ''. — Tet. ''dekretu''.
'''[[:d:Lexeme:|Dedal.]]''' Conc. ''didál''. — Sing. ''didálaya'', ''didále''. — Malayál. ''titaḷ''. Tambêm ''thimbaḷa'', ''tumbala'', do ingl. ''thimble''. — Mal. ''didal'', ''lidal'', ''bídal'', ''deidál''. — Sund. ''bidal''. — Tet., Gal. ''dedál''.
== Notas ==
<references /><noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="4" user="Sintegrity" />{{rh||DEUS DIABO|{{sc|70}}}}</noinclude>'''[[:d:Lexeme:L447936|Degrau.]]''' Conc. ''degráv'' (p. us.). Term. vern. ''pāunḍó'', ''sopaṇ''. — Tet. ''degrau''. Term. vern. ''héin''.
'''[[:d:Lexeme:|Desconfiar.]]''' Conc. ''diskomphyár-závunk'' (p. us.). Term. vern. ''dubhāvonk''. — Tet. ''deskonfía''. Term. vern. ''téan''.
'''[[:d:Lexeme:|Descontar.]]''' Conc. ''diskontár-karunk''. Term. vern. ''bád divunk''. — Tet. ''deskónta''. Term. vern. ''ha sái''.
'''[[:d:Lexeme:L477666|Desgraça.]]''' Conc. ''dizgrás''. Term. vern. ''nirbhág'', ''hál''. — Tet. ''desgrasa''. Term. vern. ''óti''.
'''[[:d:Lexeme:|Desmorecer]]''' (por «esmorecer»). Mal. ''desmorecer'' («animo deficere», Haex).
'''[[:d:Lexeme:|Despacho.]]''' Conc. ''despách''. — Tet., Gal. ''despáchu''.
'''[[:d:Lexeme:|Despensa.]]''' Conc. ''dispens''. — Mal. ''dispén'', ''spens'', ''spen'', ''sepén''. — ''Túkan-sepén'', despenseiro. — Tet., Gal. ''despénsa''.
'''[[:d:Lexeme:L499930|Despesa.]]''' Conc. ''despêz''. Term. vern. ''kharts''. — Tet. ''despeza''.
'''[[:d:Lexeme:|Desprezar.]]''' Conc. ''desprezár-karunk''. Term. vern. ''beparvá karunk'', ''haḷuvāṭunk''. Tet. ''despréza''. Term. vern. ''heunai''.
'''[[:d:Lexeme:|Desterrar.]]''' Mal., Tet., Gal. ''destérra''.
'''[[:d:Lexeme:L447211|Deus.]]''' Beng. ''Devus''. Us. na locução ''Devus bons diyá'', ''Devus bons noiti''. — Mal. ''Deos''. ''Deos tuong'', querendo Deus, se Deus quiser (Haex). — Gal. ''ámu Deus''. ''Ámu'', port. «amo», está por «senhor». — Nic. ''Deuse''. ''Menlúana Deuse'', sacerdote, padre. — Pid.-Engl. ''Joss'', ''Josh'', Deus, ídolo. ''Joss-house'' (lit. «casa de Deus»), igreja. ''Joss-house-man'', padre. ''Joss-pidgin'' (lit. «negócio de Deus»), bonzo; ministro de Deus. — ''Joss-stick'' (lit. «pau de Deus»), pivete.
«E ante delles (mouros) não auia (em Maluco) conta do ano, peso ou medida, e viuião sem conhecimento de hum só Deos, ou noticia de algũa certa religião». João de Barros, Déc. III, V, 5.
«Antigamente os malaios, não tendo tido conhecimento de Deus, não lhe applicaram nenhum vocábulo. Mas no decurso do tempo, tendo recebido dos árabes a mourisma, tomaram juntamente a dicção ''Alla e alla te alla'', a saber, nas ilhas de Amboina, Molucas, etc. Quando os habitantes foram instruídos pelos portugueses na fé católica, adoptaram, por seu turno, o nome de Deus». Haex<ref>«A palavra ''dev'' ou ''deva'', usada em concani e outras línguas indianas, provêm directamente do sânsc. ''deva''.</ref>.
'''[[:d:Lexeme:|Devoção.]]''' Conc. ''devosámv'', ''devaspaṇ''. Term. vern. ''bhakti'', ''bhaktibháv''. — Tet., Gal. ''devosã''.
Em concani: ''devôt'' (adj.) devoto; ''devót'' (subst. n.), serenata religiosa, feita durante a quaresma; «devota», no português de Goa.
'''[[:d:Lexeme:L642148|Diabo.]]''' Conc. ''dyáb'' (p. us. e sómente fig. entre os cristãos). — Malayál. ''diyáb''. — ? Gar. ''diabol''. Talvez do italiano ''diavolo'', introduzido pelos missionários. — Tet. ''diábu''.
== Notas ==
<references /><noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="4" user="Sintegrity" />{{rh|{{sc|71}}|DOBRADO DOMINGO|}}</noinclude>'''[[:d:Lexeme:|Diamante.]]''' Conc. ''dyamánt''. Term. vern. ''vajr'' (sânsc.). — Sing. ''diyamántiya''. Term. vern. ''vajraya'', ''vadura'' (forma ''elu''). — Tet., Gal. ''diamánti''. Term. vern. ''phátuk laka''.
'''[[:d:Lexeme:|Dicionário.]]''' Conc. ''disyonár''. Term. vern. ''kox'', ''xabdakox''. — Tet. ''disionári''.
'''[[:d:Lexeme:L630940|Dinheiro.]]''' Mal., Tet., Gal. ''diné''<ref>«''Dinár'' (Ach.), ''dínārā'' ou ''jíngara'' (Mak.), ''dinara'', ''jínara'', ''jingara'' (Bug.), «moeda de oiro», são do árabe-pers. ''dīnár'', que se prende ao lat. ''denarius''. ''Amarakoça'', dicionário sânscrito do 3.º século, regista ''dīnāra'' como sinónimo de ''nishka'', «moeda de oiro». Mas há ''dinares'' de pouco valor. «Dous fules valem hum ''dynare'', e doze ''dynares'' hũa tanga» (moedas de Lara no Golfo Pérsico). ''Lembranças das Cousas da Ymdia''. «The ''dīnār'' in modern Persia is a very small imaginary coin, of which 10,000 make a ''tomaum''». ''Hobson-Jobson''.</ref>.
«Laurou (Afonso de Albuquerque) duas sortes: a hũa chamou '''dinheiro''', e a outra que continha dez '''dinheiros''', chamou soldo, e a outra de dez soldos bastardos». João de Barros, Déc. II, VI, 6.
'''[[:d:Lexeme:|Dispensa.]]''' Conc. ''dispens''. Term. vern. ''māphí''. — Tet. ''dispensa''.
'''[[:d:Lexeme:L474583|Dobrado.]]''' Conc. ''dobrád''. Term. vern. ''dupêṭ''. — L.-Hindust. ''dubrál'', nó dobrado. — Tul. ''dubrálu'', ''dibrálu'' (subst.), espírito duas vezes destilado.
Em concani tambêm se diz ''tibrád saró'', aguardente três vezes destilada. Vid. ''tresdobrado''.
'''[[:d:Lexeme:|Dôbro.]]''' Conc. ''dôbr'' (p. us.). — Mak., Bug. ''dóbalō'', usado no jôgo de cartas.
'''[[:d:Lexeme:L449761|Doce]]''' (subst.). Conc. ''dôs''. — Sing. ''dôsi'' (tambêm «geleia, conserva»). — Tam. ''dósei'', bôlo de farinha de arroz. ''Dōseikkal'', frigideira. — Malayál. ''dôx''. — Can. ''dôse'', bôlo, filhó. — Tul. ''dôse'', bôlo de farinha de arroz. — Tet. ''dôsi''. Term. vern. ''mídel''.
'''[[:d:Lexeme:|Doirado]]''' (adj.). — Conc. ''daurád'' (p. us.). Term. vern. ''bhāngār kāḍhlaló''. — Bug. ''dorádu''.
'''[[:d:Lexeme:|Dom]]''' (título). Conc. ''dom''. — Sing. ''don''. — Tet., Gal. ''dom''<ref>«Os chefes do sul e oeste perpetuam com orgulho o honorífico título de '''dom''', que lhes foi concedido pelos primeiros conquistadores». Tennent, ''Ceylon''.
«Presentemente muitos indígenas têem '''Dom'''; quando é certo que no principio de instituição do governo só se dava esse titulo aos regulos por serviços prestados e como mercê honorifica, de que pagavam até direitos». José dos Santos Vaquinhas, ''Timor'', in ''Bol.'' S. G. L., 5.ª sér., p. 63.</ref>.
'''[[:d:Lexeme:L450523|Domingo.]]''' Mal. ''domingo'', ''dumingo'' (Haex), ''domingo'' (Castro), ''míngo'', ''míngu''. ''Hári mingo'' (lit. «dia domingo»), domingo. Term. vern. ''ahad'' (ár.), ''hári-ahad''. ''Sátu mingo'' (lit. «um domingo»), semana. Term. vern. ''sátu jema'at'' (ár.), ''tújoh hári'' (lit. «sete dias»). Sund., Mad. ''mingo'', semana. — Jav. ''míngu'' (mais us. ''ahad''). ''Mingon'' (adj.), relativo ao domingo, domingueiro. — Day.
== Notas ==
<references /><noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="4" user="Sintegrity" />{{rh||DONA DONA|{{sc|72}}}}</noinclude>''mingo'', ''mengo''<ref>Cae a primeira sílaba, para se tornar a palavra dissilábica, conforme a índole da família malaia.</ref>. — Jap. ''domingo'', ''domiigo''.
'''[[:d:Lexeme:|Dona.]]''' Sing. ''nónā'', dama, mulher europeia. — Mal. ''nóma'', ''nónya'', ''nyonya'', ''noña'' (= ''nonha''), ''ñóña'' (= ''nhonha''), dama de origem europeia ou chinesa, ou mulher casada com europeu ou chinês. — Ach. ''nona'', filha de europeu e chinesa; donzela. ''Ñoña'', mulher de europeu ou chinês; dama. — Sund. ''nóna'', donzela; ''núnya'', dama europeia ou chinesa. — Jav. ''ñóña''. — Day. ''ñoña'', dama, especialmente europeia. — Mak., Bug. ''nóna'', donzela; ''nhónha'', dama. — Batav. ''ñóña'' ou ''nyónya''. — Tet., Gal. ''dona''.
O P. Favre distingue entre ''ñóña'' e ''nóna'', quanto à sematologia e à etimologia, dando por significado de ''nóna'', sem indicar a sua proveniência, «femme non mariée, demoiselle, fille de qualité», e indicando como étimo provável de ''ñoña'' o port. ''dona'' ou o espanhol ''dueña''.
O Dr. Heiligers tambêm sugere ''dueña''.
O Dr. Fokker diz: Quanto à origem da palavra ''ñoña'', que alguns pronunciam ''ñôña'' (mulher casada com europeu ou chinês), os etimologistas não estão de acôrdo. É mais provável que a palavra venha do chinês, do que do português ''senhora'', com elisão da primeira sílaba, como em ''gareja'', «igreja».
O Sr. Gonçalves Viana entronca, insinuando ao mesmo tempo o processo evolutivo, ''nyóra'', ''nyónya'', ''nónya'' e ''nóna'', com ''senhora''; e o Dr. Schuchardt tem por certíssima essa procedência, por uma forma intermédia, como ''nhonha'', usada em Cabo Verde.
Mas parece que não é tão certo. O vocábulo ''nóna'', como prenome honorífico e ''pronomen reverentiae'', voga nos crioulos portugueses de Ceilão, Cochim, Mahé, Bombaim, Diu, Malaca, Singapura; e em alguns dêles toma o significado adicional de «avó», como ''nono'', no de Ceilão, designa exclusivamente «avô». Ora no crioulo malaio e alguns caboverdianos ''dono'' significa «avô», e ''dona'' «avó», e tais significados são registados por Morais como antiquados em português<ref>«Sabe a razão? É porque '''Dona''' n'aquelle logar é um nome que em creolo se chama «nome de casa», e usa-se nas meninas (creanças). É por esse nome que ellas são chamadas até a maioridade ou até a morte... Agora se quizer saber o que quer dizer '''Dona''', eu lhe digo, em portuguez é avó e '''Dono''' avô». ''Creolo da ilha de Santo Antão'', in ''Bol.'' S. G. L., 2.ª sér., p. 131.</ref>.
A transição de ''dona'' para ''nona'' é muito mais fácil e natural (por assimilação regressiva) do que de ''senhora'' (''sinhara'', ''nhara'', ''siara'' em crioulos), que teria de se sujeitar
== Notas ==
<references /><noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="4" user="Sintegrity" />{{rh|{{sc|73}}|DONA DOURADO|}}</noinclude>ao longo processo de aférese duma sílaba, de assimilação da líquida à nasal palatal e de despalatização singela e dupla. E êste processo não se deu no malaio com ''senhor'', que se modificou em ''sínho'' e ''síyu''. Alêm disto, é possível a influência doutro vocábulo homótropo, ''nona'' = anona (''q. v.''), não só na fonética, mas igualmente na significação deminutiva.
Convêm tambêm notar que as variantes malaias não são de facto sucessivas, mas sincrónicas, com diferença de significados, e que ''dona'' significava antigamente «dama, senhora nobre», e se empregava isoladamente<ref>«A honrada '''Dona''', batendo então nos peytos por sinal de grande espanto». Fernão Pinto, cap. XXXV.
«Nestas vias das cartas que Sua Magestade escreveo a V. S. vay huma lista de despachos que este anno mandou dar a algumas '''donas''', molheres de fidalgos, e outras pessoas que tem servido esse estado» (1597). ''Archivo Port. Or.'', fasc. 5.º, p. 1493.
«Era esta '''Dona''' na idade ainda moça, e mui gentil molher». Diogo do Couto, Déc. V, X, 7.</ref>. Com esta acepção, o vocábulo ainda hoje está em vigor na África Oriental, onde se aplica a certas damas oriundas de portugueses<ref>«'''Dona'''. Titulo que na Africa Oriental se dá ás mulatas mestiças». A. C. de Paiva Raposo, ''Dic. da língua landina'', in ''Bol.'' S. G. L., 18.ª sér., p. 59.
O Sr. Ismael Gracias deu a uma sua interessante publicação o título de «Uma '''Dona''' Portuguesa na Côrte do Grão-Mogol» (Dona Juliana Dias da Costa, dos séculos XVII-XVIII).</ref>.
As formas palatizadas ''nonha'' e ''nhonha'' não implicam necessáriamente a derivação ou a influência de ''senhora''; podem ter resultado da evolução de ''nona'', como em português ''vizinha'' < ''vicina'', ''ponha'' < ''poniat'', ''nenhum'' < ''nem hum'', ''ninho'' < ''nidum'', com prévia assimilação de ''d''. Cf. ''pipínhu'' = pepino, no crioulo malaio. Demais, ''nonha'' (p. us.) no dialecto ceilonense, e ''nhonha'' no macaense teem sentido deminutivo, e são provávelmente formas deminutivas.
Não acho, portanto, improvável a derivação de ''dona'' e o contacto de ''dona'' e ''senhora'' e mútua influência; e parece-me mesmo possível a influência de ''nona'' = anona, e de ''nina'' = menina, que no português macaense faz o deminutivo em ''nhinina'', segundo J. F. Marques Pereira (''Ta-ssí-yang-kuo'', sér. I, vol. I, n.º 1). Vid. ''senhor'' e ''senhora''<ref>«O Sr. Gonçalves Viana diz que língua ''nhonha'' denota «o dialecto crioulo português falado em Macau». ''Apostilas''.</ref>.
'''[[:d:Lexeme:|Dossel.]]''' Conc. ''dosél''. Term. vern. ''sezó'', ''māndví''. — Tet. ''dosel''.
'''[[:d:Lexeme:|Dourado]]''' (subst., «peixe»). Indo-ingl. ''dorado''. Indo-franc. ''dorade''.
Diz-se ''dourada'' no português de Goa.
== Notas ==
<references /><noinclude></noinclude>
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Galeria:Campos-Traduccaoebreve.pdf
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Erick Soares3
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|Título=[[Traducção e breve analyse sobre M. Pasteur e M. Renan]]
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|Autor=[[Autor:Louis Pasteur|Louis Pasteur]], [[Autor:Ernest Renan|Ernest Renan]]
|Tradutor=[[Autor:Joaquim Pinto de Campos|Joaquim Pinto de Campos]]
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Erick Soares3
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" /></noinclude>{{Fine|{{sc|«Senhores: —}} No momento de apresentar-me ante esta illustre assembléa, sinto renascer-se-me aquelle alvoroço de que me
achei possuido no dia em que solicitei os vossos suffragios. A idéa
da minha insufficiencia assoberba-me de novo, e enleiado subiria
a esta cadeira, se não me corresse o dever de attribuir á sciencia em si mesma a honra, por assim dizer impessoal, que me conferistes.}}
{{Fine|«A sciencia opera quotidianos prodigios. Quizestes testemunhar
mais uma vez a impressão profunda que o mundo, os habitos da
vida, e as lettras por sua vez recebem de tamanha accumulação
de descobrimentos. Se vos dignastes de volver olhos sobre a minha
carreira litteraria, estou bem certo de que a indole dos meus trabalhos vos não terá fallado em meu desfavor. Sob alguns aspectos,
elles interessam ás manifestações da vida.}}
{{Fine|«Demonstrando-vos que até este momento a vida não se tem
jamais apresentado ao homem como um producto das forças, que
regem a matería, não tenho feito mais que render homenagem á
doutrina espiritualista, muito esquecida nʼoutras regiões, porém
segura de achar ao menos em vossas fileiras um glorioso refugio.»}}
E antes de examinar a vida de seu predecessor, M. Littré,
o novo academico declara que não admitte a philosophia positiva, dizendo:
{{Fine|«Encontro tanto que louvar, e por tantas formas, na bella vida
de M. Littré, que fio me desculpareis a sinceridade de assignalar
desde já a minha discordancia das suas opiniões philosophicas.»}}
O retrato de M. Littré é fiel, e seductor. A rectidão, o desinteresse, a modestia, o caracter dʼaquelle espirito notavel, são<noinclude></noinclude>
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Página:Diccionario da Lingoa Portugueza.pdf/451
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MLReis
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/* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: ALT foberba, E aquella opinião em tudo altiva. ARR. Dial. 4, 23 Com mofcas e gafanhoros expugnou o Senhor a altiva dureza del Rei Pharaó. Maus. Aff. Afr. 20, 18 Co refluxo, e c'o fluxo, que crefcia Das ondas ora hu- mildes, ora altivas. Mufic. M. NUN. Explan. 74 Cada hum deftes tons compoftos com propriedade tem diverfos effeitos... o fetimo altivo. {{lema|ALTO, A}}. adj. Levantado ou clevado fobre a terra. {{etim|Do Lat. Altus}}. BE...
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="MLReis" /></noinclude>ALT
foberba, E aquella opinião em tudo altiva. ARR. Dial.
4, 23 Com mofcas e gafanhoros expugnou o Senhor a
altiva dureza del Rei Pharaó. Maus. Aff. Afr. 20, 18 Co
refluxo, e c'o fluxo, que crefcia Das ondas ora hu-
mildes, ora altivas.
Mufic. M. NUN. Explan. 74 Cada hum deftes tons
compoftos com propriedade tem diverfos effeitos... o
fetimo altivo.
{{lema|ALTO, A}}. adj. Levantado ou clevado fobre a terra. {{etim|Do Lat. Altus}}. BERNARD. Rin. Menin. 1, 2 Nefte monte
mais alto de todos. Goxs, Chr. de D. Man. 2, 8 O que
feito feguia a fróta viagem de longo daquella terra, de
que a maior parte era mui alta. Can. Luf. 3, 84 Os al-
tos promontorios o choráráo.
Que tem eftatura ou altura mais que ordinaria. Das
peffoas e coufas, Goes, Chr. de D. Man. 1, 90 No ca-
bo desta ponta mandou fazer hum baftilhão, no qual pós
hum pão alto. FERR. Poem. Son. 1, 50 Ifto cortou Alcip-
po n'huma alta faia. VIEIR. Serm. 2, 12, 3. n. 38; Ap-
pareceo Saul, ... e virão rodos, que dos hombros pa-.
ra cima era mais alto que todos.
Levantado ou erguido para cima. MEMOR. DAS PROEZ.
I, 29 Arremetteo com a efpada alta a Pedragonte. Fr.
MARC. Chr. 2, 6 6, 5 Altos os olhos em o céo. Lor. Con-
delt. 9, 82 A lança entre os arções, alta a vileira.
Pofta em cima, que está em lugar Juperior. Azue.
Chr. 3, 100 Os navios, que havião de partir, erão já
todos preftes, e huns tinhão as vergas altas, &c. CAM.
Luf. 4, 104 Não commettêra o moço miferando O al-
to carro do pai, c o ar vazio. SorToM. Ribeir. 2, 7%
Vamos, tornou Galatéa, que vem já o Sol muito alto,
e tangerão no bofque a recolher do monte..
Met. Superior ou excellente. Applicafe ás peffons
muito qualificadas por nafcimento, empregos, talen:os
ou outra diftinta prerogativa. BERNARD. RIB. Menin. 1,5
Cá contão, que ellas erão filhas de hum alto homem,
como fe depois por .tempo fufpeitou. FERR. Poem. Cart.
1, 3 Quanto foi mais fentida, e mais chorada A mor-
te do alto Homero por feu canto, Que a tua, Achil-
les, que elle fez honrada. VIEIR. Sem. 4, 10, 4. n.
349 A natureza a todos os homens fez iguaes, a fortuna
he a que fez os altos e os baixos cos baixiffimos,
quaes são os fervos.
Applicafe aos Soberanos, e particularmente a Deos,
e tambein ás vezes fe lhe ajunta o adverbio Muito.
CAM. Luf. 2, 80 Rei alto e fublimado. ANDRAD. Chr. I,
9 Eu recebo por Senhor e Rei natural o muito alto,
muito excellente, muito poderofo Principe D. João, nof-
fo Senhor. HEIT. PIT. Dial. 1, 2, 3 Quando de fracos
não podião cantar, lançar a voz e oração ao alto Deos.
Applicafe tambem no animo e feus effeitos, ou ás
acções de relevante diftinção. BERNARD. RIB. Menin. 1,
6 Foi de tão alto coração, que não pôde fupportar fer
vencido. CAN. Luf. 4, 10; Quanto melhor nos fora,
Prometheo,
E quanto pera o mundo menos damno,
Que a tua eftatua illuftre não tivera. Fogo de altos
defejos, que a movèra. Cour. Dec. 4, 1, 5 Tão altas
proezas fizerão, &c.
veflava hum donzel pequeno, chorando em altas vozesi
Luc. Vid. 1, 7 Reperinfo palavra em gritos táo
altos, que &c.
Caro, fubido. Applicafe ao preço. Luc. Vid. 7; 25
Em fim aos homens, porque podia fer que fe defaviel-
fem no preço, não lho punhão tão alto, e as mulhe
res polas roubarem de tudo, punhãolho altiffimo. Mer-
Doç. Jorn. 2, 6 Muitos homens havia, aos quaes feus amos
tinhão prezos nas cadeias públicas, por fe cortarem em
alto preço. Sous. DE MAC. Ev. 1, 18, 88. n. 12 Noś
comprou pelo alto preço do feu fangue,
Remoto, afajtado. Applicafe ao tempo. FERR. Poem.
Cart. Que efpantos nos renova a alta memoria
De tantos Gregos e Romács gentios; Senhores do fa-
ber, paz e victoria! Sous. Hift. 1, 1, 14 Querolhes con-
ceder toda a mais alta antiguidade, que pertendem no
ufe das contas.
Quando fe falla do poder, jurifdicção, &c. enten-
defe o que fe póde exercer com abfoluto e illimitado
imperio, A's vezes fe lhe contrapõe Baixo. PIN. Chr. de
D. Aff. IV. 65 E que dahi cm diante em todolos luga-
res do Reino, por onde andaffe e eftiveffe, ufaffe do
toda a juridicção e poder alto e baixo. D. HILAR. Voz 3
io Nem inquiras de feu alto poder curiofamente. LEÃO 3
Chr. de D. Duart. 44 Jurdicção civel e criminal, nita é
baixa, mero e mixto imperio.
Grande, enorme, exuberante. Applicafe aos ctimes,
offenfas, &c. Euraos. 5, 8 A mi fe me he fcita a mais
alta ribaldaria, que fe fez a homem. CAM. Luf. 4, 104
Nenhum commettimento alto e.nefando Deixa inten-
tado a humana geração.
Geogr. Situado em maior altura d refpeito de outro.
Aflim fe denominão certos paizes, provincias, e re-
gióes. BARR. Dec. 2, 3, 10 Affentar paz e amizade com
o Prete, Senhor daquellas Regiões da alta Ethiopia. A.
GALV. Tr. 59 Donde fe tornou pela alta Alemanha.
ESPER. Hift. 2, 7, 16. n. 3 Na cidade de Ubeda, da
Andaluzia alta.
Mufic. A. FERNAND. Art. 1, 49 Eftes modos fe
partem em duas partes, quatro altos ou meftres, e qua-
tro baixos ou difcipulos. Sous. DE MAC. Ev. 1, 22, 117
n. 11 Nefte cantico notou hum ouvido de bom gofto...
o alto.
Alto. Profundo, de grande fundo. EurRos. Prol:
Alto vào vai eite. Cam. Lu.6,8 No mais etemo fun
do das profundas Cavernas altas, onde o mar fe efcon-
de. Paiv. Serm. 1, 9 Os Sacerdotes porque. aquelle. fo-
go fanto não foffe profanado, o efconderão em hum po-
ço alto.
Met. BERNARD. RIB. Menin. 1, 19 Na prefença lo-
go fe enxerga, que alguma alta trifteza lhe fogiga o
coração. ARR. Dial. 1,8 Que a da noite commummen-
te he mais accommodada à aguda e alta contemplação
dos que meditáo e eftudão. FERNAND. Halm. 3, 28 Tád
altas tinha as raizes o mal, que lhe queria:
Difficil de fe penetrar e comprehender. Can. Luf. 5,
18 Não foi menos a todos excellivo Milagre, e cou-
fa certo de alto efpanto, Ver, &c. ORIENT. Lufit. 98
A noite foi teftemunha e fecrétaria de tão alto myf
terio. (Falla do Natal.) L. ALv. Céo, 10, 8 Confulta-
vão os Theologos fobre materias e pontos de alta Tbeo-
logia
Applicafe no mefmo fentido a qualquer coufa, em
que fe dà alguma qualidade ou condição vantajofa e mui-
to fobre o ordinario no feu genero. FERR. Poem. Son. I,
6 Outro alto eftado, outra honra, outras riquezas Lhe
deo quem tudo cria. EsTaç. Tr. 1, 23 A geração de alto Alto bordo. Marinh. BARR. Dec. 3,8,7 Com Por-
e claro fangue faz fem duvida nobres aos que delle naf-
cem. BRIT: Chr. 1, 19 Tendo que não feria bon mi
niftro, quem não receava tão alto lugar. (o Sacerdocio)
Hutuguezes e navios de alto bordo não fe pode pelėjar
com as lancharas razas, como eu trago. ANDRAD. Cetc.
8, 36, 4 Achão d'embarcações, gráp quantidade.
mas são d'alto bordo, outras rafteiras. TELL. Chr. 2; 6,
59. n. 5 Afóra outros navios de alto bordo, bem artilha
dos, e providos de Janiferos e foldados velhos.
Poet. Applicafe o céo e as coufas, que lhe perten-
ccm. FERR. Poem. Od. 1, 2 Pois tendes là tão certos os
affentos
Nos altos céos. CAM. Luf. 5, 85 Até que aqui
no teu leguro porto, ... Nos trouxe a piedade do alto Alto dia. Muito depois. de amanhecer. BERNARDE
affento. CORT. R. Cerc. 4, 49 Atroando Os mares,
altos céos com trovões falfos. 10
varicul
Alto. Sublime. Applicafe ao eftilo, ás fentenças,
ás palavras, &c. GORT. R. Naufr. 1, 15 Efcrevelhem
por ella não por palavras De artificio affeitadas, e al-
to effilo. Luc. Vid. 9, 6 Nenhuma de fuas palavras tem
contradicção, nem réplica, que aindaque por altas po-
nhão espanto a quem as ouve, conformafe porém tanto
com ellas toda a boa razão, que &c. VIEIR. Serm. 6,
2, 7. n. 67 Efta he a grande energia e alto penfamen-
to, com que diffe Job, &c. sup.onlades:
De fom forte, e que fe ouve bem. Applicafe a voz;
gritos, &c. BARR. Dec. 1. Ded. Por a pratica fer hum pou
co alta &c. Mon. Palm. 1, 24 Pelo qual valle] atra
Rix, Menin. 1, 2 E ainda não foi alto dia, quando, &c.
BARR. Dec. 1, 1, 10 Quando já chegarão a aldea, era
alto dial
Alta eftofa. met. Peffon de alta eftofa. A que sient
conhecida bondade, on fingular merecimento. HEIT. PINT.
Dial. 1, 2,5 E como os Religiofos de alta estofa...
todaviaisád humanos, &c form
Alta manháa. O mesmo que Alto dia. BARR. Deca
4,8,13 Que era já alta manba: PROY. DA HIST, GENA
3,4 161. p. 308 Devemos mandar que deni, as trom-
betas cedo alta mauhia por tal, que &c.
Alto mar. Largo, em que fe perde a terra de vista
ou diftante da mefma terra. FERR. Poem. Son. I,:48 Af-
fopra o bravo vento, o alto mar genie, CoRT. R. Cerc.<noinclude></noinclude>
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foberba, E aquella opinião em tudo altiva. ARR. Dial.
4, 23 Com mofcas e gafanhoros expugnou o Senhor a
altiva dureza del Rei Pharaó. Maus. Aff. Afr. 20, 18 Co
refluxo, e c'o fluxo, que crefcia Das ondas ora hu-
mildes, ora altivas.
Mufic. M. NUN. Explan. 74 Cada hum deftes tons
compoftos com propriedade tem diverfos effeitos... o
fetimo altivo.
{{lema|ALTO, A}}. adj. Levantado ou clevado fobre a terra. Do Lat. Altus. BERNARD. Rin. Menin. 1, 2 Nefte monte
mais alto de todos. Goxs, Chr. de D. Man. 2, 8 O que
feito feguia a fróta viagem de longo daquella terra, de
que a maior parte era mui alta. Can. Luf. 3, 84 Os al-
tos promontorios o choráráo.
Que tem eftatura ou altura mais que ordinaria. Das
peffoas e coufas, Goes, Chr. de D. Man. 1, 90 No ca-
bo desta ponta mandou fazer hum baftilhão, no qual pós
hum pão alto. FERR. Poem. Son. 1, 50 Ifto cortou Alcip-
po n'huma alta faia. VIEIR. Serm. 2, 12, 3. n. 38; Ap-
pareceo Saul, ... e virão rodos, que dos hombros pa-.
ra cima era mais alto que todos.
Levantado ou erguido para cima. MEMOR. DAS PROEZ.
I, 29 Arremetteo com a efpada alta a Pedragonte. Fr.
MARC. Chr. 2, 6 6, 5 Altos os olhos em o céo. Lor. Con-
delt. 9, 82 A lança entre os arções, alta a vileira.
Pofta em cima, que está em lugar Juperior. Azue.
Chr. 3, 100 Os navios, que havião de partir, erão já
todos preftes, e huns tinhão as vergas altas, &c. CAM.
Luf. 4, 104 Não commettêra o moço miferando O al-
to carro do pai, c o ar vazio. SorToM. Ribeir. 2, 7%
Vamos, tornou Galatéa, que vem já o Sol muito alto,
e tangerão no bofque a recolher do monte..
Met. Superior ou excellente. Applicafe ás peffons
muito qualificadas por nafcimento, empregos, talen:os
ou outra diftinta prerogativa. BERNARD. RIB. Menin. 1,5
Cá contão, que ellas erão filhas de hum alto homem,
como fe depois por .tempo fufpeitou. FERR. Poem. Cart.
1, 3 Quanto foi mais fentida, e mais chorada A mor-
te do alto Homero por feu canto, Que a tua, Achil-
les, que elle fez honrada. VIEIR. Sem. 4, 10, 4. n.
349 A natureza a todos os homens fez iguaes, a fortuna
he a que fez os altos e os baixos cos baixiffimos,
quaes são os fervos.
Applicafe aos Soberanos, e particularmente a Deos,
e tambein ás vezes fe lhe ajunta o adverbio Muito.
CAM. Luf. 2, 80 Rei alto e fublimado. ANDRAD. Chr. I,
9 Eu recebo por Senhor e Rei natural o muito alto,
muito excellente, muito poderofo Principe D. João, nof-
fo Senhor. HEIT. PIT. Dial. 1, 2, 3 Quando de fracos
não podião cantar, lançar a voz e oração ao alto Deos.
Applicafe tambem no animo e feus effeitos, ou ás
acções de relevante diftinção. BERNARD. RIB. Menin. 1,
6 Foi de tão alto coração, que não pôde fupportar fer
vencido. CAN. Luf. 4, 10; Quanto melhor nos fora,
Prometheo,
E quanto pera o mundo menos damno,
Que a tua eftatua illuftre não tivera. Fogo de altos
defejos, que a movèra. Cour. Dec. 4, 1, 5 Tão altas
proezas fizerão, &c.
veflava hum donzel pequeno, chorando em altas vozesi
Luc. Vid. 1, 7 Reperinfo palavra em gritos táo
altos, que &c.
Caro, fubido. Applicafe ao preço. Luc. Vid. 7; 25
Em fim aos homens, porque podia fer que fe defaviel-
fem no preço, não lho punhão tão alto, e as mulhe
res polas roubarem de tudo, punhãolho altiffimo. Mer-
Doç. Jorn. 2, 6 Muitos homens havia, aos quaes feus amos
tinhão prezos nas cadeias públicas, por fe cortarem em
alto preço. Sous. DE MAC. Ev. 1, 18, 88. n. 12 Noś
comprou pelo alto preço do feu fangue,
Remoto, afajtado. Applicafe ao tempo. FERR. Poem.
Cart. Que efpantos nos renova a alta memoria
De tantos Gregos e Romács gentios; Senhores do fa-
ber, paz e victoria! Sous. Hift. 1, 1, 14 Querolhes con-
ceder toda a mais alta antiguidade, que pertendem no
ufe das contas.
Quando fe falla do poder, jurifdicção, &c. enten-
defe o que fe póde exercer com abfoluto e illimitado
imperio, A's vezes fe lhe contrapõe Baixo. PIN. Chr. de
D. Aff. IV. 65 E que dahi cm diante em todolos luga-
res do Reino, por onde andaffe e eftiveffe, ufaffe do
toda a juridicção e poder alto e baixo. D. HILAR. Voz 3
io Nem inquiras de feu alto poder curiofamente. LEÃO 3
Chr. de D. Duart. 44 Jurdicção civel e criminal, nita é
baixa, mero e mixto imperio.
Grande, enorme, exuberante. Applicafe aos ctimes,
offenfas, &c. Euraos. 5, 8 A mi fe me he fcita a mais
alta ribaldaria, que fe fez a homem. CAM. Luf. 4, 104
Nenhum commettimento alto e.nefando Deixa inten-
tado a humana geração.
Geogr. Situado em maior altura d refpeito de outro.
Aflim fe denominão certos paizes, provincias, e re-
gióes. BARR. Dec. 2, 3, 10 Affentar paz e amizade com
o Prete, Senhor daquellas Regiões da alta Ethiopia. A.
GALV. Tr. 59 Donde fe tornou pela alta Alemanha.
ESPER. Hift. 2, 7, 16. n. 3 Na cidade de Ubeda, da
Andaluzia alta.
Mufic. A. FERNAND. Art. 1, 49 Eftes modos fe
partem em duas partes, quatro altos ou meftres, e qua-
tro baixos ou difcipulos. Sous. DE MAC. Ev. 1, 22, 117
n. 11 Nefte cantico notou hum ouvido de bom gofto...
o alto.
Alto. Profundo, de grande fundo. EurRos. Prol:
Alto vào vai eite. Cam. Lu.6,8 No mais etemo fun
do das profundas Cavernas altas, onde o mar fe efcon-
de. Paiv. Serm. 1, 9 Os Sacerdotes porque. aquelle. fo-
go fanto não foffe profanado, o efconderão em hum po-
ço alto.
Met. BERNARD. RIB. Menin. 1, 19 Na prefença lo-
go fe enxerga, que alguma alta trifteza lhe fogiga o
coração. ARR. Dial. 1,8 Que a da noite commummen-
te he mais accommodada à aguda e alta contemplação
dos que meditáo e eftudão. FERNAND. Halm. 3, 28 Tád
altas tinha as raizes o mal, que lhe queria:
Difficil de fe penetrar e comprehender. Can. Luf. 5,
18 Não foi menos a todos excellivo Milagre, e cou-
fa certo de alto efpanto, Ver, &c. ORIENT. Lufit. 98
A noite foi teftemunha e fecrétaria de tão alto myf
terio. (Falla do Natal.) L. ALv. Céo, 10, 8 Confulta-
vão os Theologos fobre materias e pontos de alta Tbeo-
logia
Applicafe no mefmo fentido a qualquer coufa, em
que fe dà alguma qualidade ou condição vantajofa e mui-
to fobre o ordinario no feu genero. FERR. Poem. Son. I,
6 Outro alto eftado, outra honra, outras riquezas Lhe
deo quem tudo cria. EsTaç. Tr. 1, 23 A geração de alto Alto bordo. Marinh. BARR. Dec. 3,8,7 Com Por-
e claro fangue faz fem duvida nobres aos que delle naf-
cem. BRIT: Chr. 1, 19 Tendo que não feria bon mi
niftro, quem não receava tão alto lugar. (o Sacerdocio)
Hutuguezes e navios de alto bordo não fe pode pelėjar
com as lancharas razas, como eu trago. ANDRAD. Cetc.
8, 36, 4 Achão d'embarcações, gráp quantidade.
mas são d'alto bordo, outras rafteiras. TELL. Chr. 2; 6,
59. n. 5 Afóra outros navios de alto bordo, bem artilha
dos, e providos de Janiferos e foldados velhos.
Poet. Applicafe o céo e as coufas, que lhe perten-
ccm. FERR. Poem. Od. 1, 2 Pois tendes là tão certos os
affentos
Nos altos céos. CAM. Luf. 5, 85 Até que aqui
no teu leguro porto, ... Nos trouxe a piedade do alto Alto dia. Muito depois. de amanhecer. BERNARDE
affento. CORT. R. Cerc. 4, 49 Atroando Os mares,
altos céos com trovões falfos. 10
varicul
Alto. Sublime. Applicafe ao eftilo, ás fentenças,
ás palavras, &c. GORT. R. Naufr. 1, 15 Efcrevelhem
por ella não por palavras De artificio affeitadas, e al-
to effilo. Luc. Vid. 9, 6 Nenhuma de fuas palavras tem
contradicção, nem réplica, que aindaque por altas po-
nhão espanto a quem as ouve, conformafe porém tanto
com ellas toda a boa razão, que &c. VIEIR. Serm. 6,
2, 7. n. 67 Efta he a grande energia e alto penfamen-
to, com que diffe Job, &c. sup.onlades:
De fom forte, e que fe ouve bem. Applicafe a voz;
gritos, &c. BARR. Dec. 1. Ded. Por a pratica fer hum pou
co alta &c. Mon. Palm. 1, 24 Pelo qual valle] atra
Rix, Menin. 1, 2 E ainda não foi alto dia, quando, &c.
BARR. Dec. 1, 1, 10 Quando já chegarão a aldea, era
alto dial
Alta eftofa. met. Peffon de alta eftofa. A que sient
conhecida bondade, on fingular merecimento. HEIT. PINT.
Dial. 1, 2,5 E como os Religiofos de alta estofa...
todaviaisád humanos, &c form
Alta manháa. O mesmo que Alto dia. BARR. Deca
4,8,13 Que era já alta manba: PROY. DA HIST, GENA
3,4 161. p. 308 Devemos mandar que deni, as trom-
betas cedo alta mauhia por tal, que &c.
Alto mar. Largo, em que fe perde a terra de vista
ou diftante da mefma terra. FERR. Poem. Son. I,:48 Af-
fopra o bravo vento, o alto mar genie, CoRT. R. Cerc.<noinclude></noinclude>
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/* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: 15, 254 E acrevolta Da gente, que embareavà, en- furdecia O porto e alto mar. Los. Primav. 1, 4 Pro- figa o navegante fua eftrella, E fobre o. fraco lenho no mar alto Ande fempre c'os ventos en cautéla. Alta noite. Muito de noite ou depois de fer noite. FERN. Lor. Chr. de D. J. I. 1, 2 E indo o Conde alta noite defacompanhado &c. MENOR. DAS PROEZ. I, 24 Cuja terra tomárão já alta noite. AvELR. Itin. 71 Eftive- mos todos até alta noite...
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<noinclude><pagequality level="1" user="MLReis" /></noinclude>15, 254 E acrevolta Da gente, que embareavà, en-
furdecia O porto e alto mar. Los. Primav. 1, 4 Pro-
figa o navegante fua eftrella, E fobre o. fraco lenho
no mar alto Ande fempre c'os ventos en cautéla.
Alta noite. Muito de noite ou depois de fer noite.
FERN. Lor. Chr. de D. J. I. 1, 2 E indo o Conde alta
noite defacompanhado &c. MENOR. DAS PROEZ. I, 24
Cuja terra tomárão já alta noite. AvELR. Itin. 71 Eftive-
mos todos até alta noite em boa converfação.
Alta paz. A que he fegura, e fem alteração. Sous.
DE MAC. Ev. 2, 9, 315. n. 16 Huma alta paz geral flo-
refcerá. VIEIR. Serm. 6, 9, 2. n. 263 Salamão foi o Rei,
que em todo o feu reinado gozou da mais alta e fegu-
-ra paz.
Alto Sol. O mefmo que Alto dia. FERNAND. Palm.
5, 38 Andou a maior parte da menháa cm feu, fegui-
mento, até que já Sul alto, ao pé de hum mouite en-
stre huns altos freixos os vio todos feis aptados.
Alto fomno. O que he profundo. BERNARD, RIB. Me-
nin. 1, 8 Foi a fenhora Aonia rijo chamar Lamentor,
que no mais alto fomno dormia. FR. MARC. Chr. 2, 5,
43 Eftava em alto fomno de repoufo. Ana. Dial. 2, 17
A fombra da morte, cm que jazião, os monftros hor-
rendos, que tinha em companhia, e o alto fonino, que
entre elles dormia, &c.
Alto. Ufafe frequentemente como fubft. A parte mais
elevada de alguma coufa. Mon. Palm. 1, 17 & fendo já
de todo no alto da montanha &c. FERR. Poem. Ecl. 8
D'hum alto, que o mar longe defcobria... Lidia c'os
olhos trifte em vão feguia. BRIT. Chr. 1, 8 No alto
defta figura. . . apparecco huma grande claridade.
Comprimento ou extensão para cima. Fx. GASP. DA
CRUZ, T. 14, 5 0 [caixão] affentão fobre dous ban-
quinhos, e lanção do alto até o chão por cima do cai-
A xão hum panno. Luc. Vid. 3, 5. Ja alli havia huma la-
gem de marmore branco de quatro palmos de alto. GA-
sve, Cerc. 2, 7 Os Cavalleiros fobre os baluartes terão
de alto rrinta palmos.
Alto ou o Mui Alto. ant. Denominação, que fe
dá a Deos por antonomafia. .D. FR. BR. DE BARR. Ef-
pelh. 3, 8 O Mui Alto fantificou fua morada com a
avondança das fantas graças. GRAN. Comp. 1, 3 Eu dif-
fe que fois Deofes, e todos filhos do Alto. BRIT. Chr.
, 7 Ifto ordenou affi o Mui. Alto, cujos fegredos são
incomprehenfiveis.
Alto. Profundidade, fundo de alguma coufa. VIEIR.
Serm. 7, 12, 7. n. 407 Baftão as fepulturas] dos que
No alto ou no mais alto da noite. Depois de fer-
muito tempo noite ou no micio della. Los. Peregr. 1, z
E no mais alto da noite fe lhe reprefentou em fonhos
&c. CUNN. Catal. 2, 11 Ouvirãofe naquelle lugar no al-
to da noite por muitas vezes muficas fuaviffimis. VIEIR.
Serm. 2, 6, 1. n. 162 Nenhum efteve mais alerta, e
com os olhos mais abertos, nem no mais alto e profun-
do da noite, nem em noites mais efcuras, e mais cer-
radas.
No alto ou no mais alto dia. Depois de fer dia cla-
ro, ou na fua maior claridade, ou ao meio dia. CEIT. Qua-
drag. 1, 31, 3 Se diz a terceira Miffa no mais alto e
claro do dia Serm. 1, 105, 4 E como o comer ha-
via de fer na hora ordinaria, conjecturamos fer no alto
do dia.
No alto e no baixo. Com jurifdicção abfoluta fobre
Grandes e pequenos. CART. DE JAP. 2, 146, 2 O Capi-
tão Tachibana, que he o que governa no alto e no baixo
rodo o Bungo, fe põe afperamente contra elic.
Por alto. fórm. adv. uf. O mefmo que Por contra-
bando. Ufafe commuminente com os verbos entrar,. met-
ter ou tirar.
Verb. Dar... Milic. O mefmo que Fizer... A-
RAUJ. Succell. 1, 16. Eftar com as velas de... Marinh.
(o mefmio que eftar de verga de...) ALBUQ. Comm. 4, 25.
de verga de... Marinh. (cftar pronto a navegar com
as velas em cim.1.) CORT. R. Cerc. 15, 254. VIEIR. Serm.
6, 6, 2. n. 129. Fazer... Milic. (parar ou fufpender a
marcha à foldadefca.) LOBAT. Palm. 5, 48. Cour. Dec.
4, 6, 9. (dizfe de outra qualquer gente, que, cami-
nha.) LEIT, D'ANDRAD. Mifc. 16, 469. VIEIR. Serm. 9.
do Rof. 3, 6, 126. met. VIEIR. Serm. 12, 8, 3.
n. 196 Vendofe David com Reino, com paz, e com
fuccefsão, parou o defejo, fez alto a fortuna &c. Paffar
alg. c. outra por... mer. (excedela, ferlbe Juperior.) D.
HIL. Voz. 10. Liss. Jard. 6co, 5. alg. alg. c. por...
ou deixala pajar por... met. (não a attender, defprezala.)
BRIT. Mon. 1, 3. c. 3. Feo, Tr. 1, 44, 1. alg. c.
alg. por... met. (não a advertir ou deixar de a entender.)
ORIENT. Lufit. 114 Sous. Vid. 2, 24. alg. ou alg. c.
por dos olhos. a alg. (efcaparlhe da vifta. BARRET.
Eneid. 6, 33,
Alto. fubft. Mufic. O que faz o alto na Musica.
M. Nun. Art. 42 F fe o Tiple tiver clave de C fol faut
na terceira, o alto a terá na quarta Luz, Serm. 1, 117,
1 Nem todos os que eftão á eftante, hão fer tipres
ou altos, ha tambem tenores e baixos. de i
ella [terra] recebe em fere pés de comprimento, e co- Altos. fubft. no pl. Outeiros, ou as partes mais al-
bre com quatro de alto.
Alto. O mar, principalmente já largo, e afaftado
da terra. BARR. Dec. 4, 4, 19 E pera a poder tirar ao
alto [a náo]a nado, alijavão alguns fardos de merca-
edorias. CAM. Ecl. 6, 11 Mancebo era de idade florefcen-
bite,
Pefcador grande do alto. Sous. Vid. 1, 26 Dei-
xando todos aninofamente a pobreza das redes, cafe-
gurança das praias pelos perigos do alto.
Alto. Milic: Foz, de que fe ufa nas tropas para
pararem os fold ados, ou fufpenderem a acção, em quc fe
achão. BUT. Vocab.
Voz, de que ufa o Capitão, quando manda aos fol-
dados, que levantem as picas. Biur. Vocab.
Altobaixos. O mefmo que Altibaixos. M. BERNARD.
Paraif. 36 O corpo todo rifcado de fangue, e com alto.
baixos dos vergoes dos açoutes.
De alto abaixo. fórm. adv. Defde a parte mais al-
ta de alguma coufa até à infima. MENOR. DAS PROEZ. I,
13 Veftião camizas mourifcas lavradas d'ouro d'alto abai-
-xo. Luc. Vid. 7, Não darão a ninguem huma fó
palavra, mas eftimarão fender hum homem d'alto abai-
Luxo. SA DE MEN. Mal. 11, 33 A efpada toma, e de al-
to abaixo o fende. has
Do alto. Por antonomafia fe entende o mefmo que
do céo. Azur. Chr. 3, 43 Grandes louvoresivos fejão
dados a vos, minha Senhora, porque vos prouve de me
virdes vifitar do alto. Maus. Aff. Afr. 3, 46 y Mas Deos,
do alto vio tamanha pena, &c Sous. Hift. 1, 2, 2 É
como o negocio vinha traçado do alto, donde vem to-
do o ben, &c. A
MT21 Emalto. Para cima, ou para a parte fuperior.
mdio, Chr. de D. Aff. IV. 143 y Deo com grande de-
fenvoltura hum tão grande falto em alto, que a todos
fcz maravilhar. Soven. Hiftor. 2; 18 Todos têm as mãos
levantadas em alto. Los. Primav. 3, i Bocca brafgada
en alto graciofa.
tas de algum lugar. SANT. Ethiop. 1, 1, 20 A caça to-
da foge pera os altos. TELL. Chr. I, 1, 19. n. 4 Tratou
de edificar o novo Collegio nos altos della [Coimbra.]
Altos e baixos. As partes altas e baixas de algum
terreno. FERNAND. GALY. Serm. 3, 310, 2 He terra que.
tem altos e baixos, que fo do ceo efpera a chuva &c.
HIST. TRAG. MARIT. I, 76 Nao cellavamos de anda: fem
caminho, nem carreira pelos altos e baixos daquelles ma-
tos..
Met. Defigualdade ou variedade dos fuccefos, &c.
D. F. MAN. Cart. 1, 37 Nem o confidero pequeno [tra-
balho] para metter em armonia a diffonancia das políticas
humanas, cujos altos e baixos guardão pouca proporção.
{{lema|ALTO}}. adv. ou fórm. adv. lug. Em ou para lugar alto.
FERR. Poem: Cart 2, 4 Quem pera effe, fanto, ocio te
... chamou, Te chamará mais alto, vive e efpera. Maus.
Aff. Afr. 1, 14 y Logo mais alto defta efcura cova...
Outra morada jaz de gente nova. VIEIR. Serm. 10. do Rof.
7 4 93 Ainda fubio mais alto [o demonio.]
Adv. mod. Em fom diftincto, e que fe houve bem. Re-
SEND. Chr. 14 E dahi a poucos dias difle al:o c publica-
mente &c. SA' DE MIR Vilbalp. 4, 5 Não tangera e
cantatá tão alto, que &c. FERA. Poem. Caftr. 2 Entre
fonhos t'ouvi chorat tão alto, Que de, medo e d'ef
panto fiquei fria.
Alto e de bom fom: En woz intelligivel, e que fe
ouve em distancia. EUFROS. 3, IE vós, fenhora, mui-
to defapaixonada eftaveislho ouvindo alto e de bom font.
Alto. interj. Eia pois, ou vamos. Yoz, com que
cfe exhorta a principiar ou a dar principio a alguma cou-
fa. MACHAD. Cerc. 2, 46 Alto, cantiga na mão, Que
o trabalho.com cantar, He de melhor defiftáo,
Alto, 30
trabalho, que he hora. F. DE MENDOÇ. Serm. 1, 26, 25
Pois alto: cégos, vede, furdos, ouvi. VIEIR. Serm. 14,
2, 7 n. 70 Pois que remedio? não ha outro fenão fu
gir, alto, deixemos a patria.<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="1" user="MLReis" /></noinclude>A LAT
Altos. Sobrados nas cafas, levantados fobre as lo-
jas, e que formão os differentes andates das mesmas cafas.
BLUT: Vocab.net como mile!
Altos de vazio. Expressão metaphorica para declarar
a falta de juizo de alguma peffoa: como quando fe diz,
que ella paga os altos de vazio, &c. SOVER. Hift. 3, 4
Ainda he mais o que fe conta de Quinto Fulvio Flacco,
Cenfor Romano, que por tirar humas telhas do telhado
do remplo de Jupiter em Locres, fubitamente endoude-
ceo, compenfandofe o que tirára do alto do templo.com
lhe deixarem os altos de vazio.
Altos ou tres altos. Dizfe de certos recidos, co-
mo do brocado, do veludo, &c, que tem tres ordens,
que são o fundo, o lavor, e fobre efta o efcarchado, co-
mo anneiszinhos. GASP. DOS REIS, Rel. 34, 42 Cujas
meias de retrós junto com os altos do veludo carnezin,
de corte luftrofo, faziáo &c. Sous. Vid. 6, 18 Lança-
ráolhe por cima [da eça] hum rico panno de brocado de
tres altos. S. MAR. Chr. 2, 9, 26. n. 12 Deo mais hum
ornamento de brocado de tres pelos ou de tres altos.
Adag. Altas ou baixas em Abril vem as Pafcoas.
DELIC. Adag. 26.
Alto mar, e não de vento, não promette feguro tem-
po. DELIC, Adag. 26.
Alto para váo, baixo para barco. DELIC. Adag, 157.
Come caldo, vive em alto, anda quenre, vivirás longa-"
mente. DELIC. Adag. 122.
Feno ou alto ou baixo em Junho he cegado. DELIC. A-
dag. 7.
Neroa em alto, agoa em baixo. DELIC. Adag. 27.
Quem em mais alto nada, mais prefto fe afoga. DELIC.
Adag. 73.
Quem faz cafa na praça, huns dizem que he alta,
outros que he baixa. DELIC. Adag. 78.
Tu ribeira alta vás, nem te paffarei, nem me levarás.
DELIC. Adag. 36.
{{lema|ALTOR}}. s. m. antiq. e pouc. uf. O mefmo que Altura. MoR.
Palm. 2, 149 E era ramanha, que com a cabeça igua-
lava com o altor dellas o cavallo.
{{lema|ALTO SUS}}. fórm. adv. ant. Voz on exprefsão, com que fe
exhorta a fazer alguma coufa; ou tambem com que fe
manda a alguem deter ou fafpender o paffo, a acção, ou
o difcurfo. PREST. Aut. y Alto fus em hora benta Seja ef.
ra obra começada.
{{lema|ALTRACAR}}. v. a. antiq. O mefino que Altercar. CANCIÓN. 92,.1.
{{lema|ALTRIX}}. [faculdade] Med. Faculdade nutritiva, ou que
alimenta. Lat. Altrix. MADEIR. Meth. 1, 19, 3 E pela
humidade fubftantifica e accrefcenta o humido radical, e
favorece a faculdade altrix, e faz engordar os que della
fua usáo.
{{lema|ALTURA}}. s. f. Elevação de algum corpo fobre a fuperficie
da terra, Goes, Chr. de D. Man. z, 1. E que como a
fortaleza fofle pofta em altura, que fe pudeffe defender
partiffe pera Quiloa. Mor. Palm. 1, 14 O qual [valle]
hia por meio de duas tão altas ferras, que a altura del
las impedia a entrada do Sol o mais do anno. Laño,
Chr. de D. A. Henr. 43 A qual [arvore] começou de
enverdecer, e lançar folhas, e crefcer fobre a terra em
jufta altura.
Cabeço, cume ou parte mais alta dos montes, ferras,
citeiros, c. Tambem fe diz affim no plural. FERR. Poem.
Ecl. Tinhaos por ventura o voffo monte, Ou as al-
turas là do frefco Pindo CAM. Luf. 10, 105 Mas vês
o fermofo Indo, que daquella Altura nace, junto à qual
tambem D'outra altura correndo o Gange vem. CASTR.
0 Ulyff. 3, 25 Ferindo c'os primeiros refplandores Des
impinados montes as alturas.
Distancia da parte fuperior d inferior. BARR. Dec.
1, 1, 11 Entre os quaes vinha hum mancebo, que quan-
do chegou abaixo da altura donde cahio, veio feito em
pedaços. CoxT. R. Cerc. 7, 81 E vem dando, Dal-
li daquella altura grandes faltos. SANT. Ethiop. 1, 1,
22 São de comprimento de duas varas de medir, e de
quarro paimos de altura.
Mer. Coar. R. Nauft. 2, 17. Se imaginava alli
naquella altura
Poder outro lograrvos, me ficava O
fangue frio, a vida mal fegura. Los, Coit. 11, 119 Co-
mo de tanra altura decefte da graça de N. a eftà mife-
ria? VIEIR. Serm. 7, 5, 5. n. 145 Por accrefcentarem
altura à fua Mageftade [da Virgem Santiffima.]
Altura. Profundidade. BARREIR. Chorogr. 57 Hum
poço talhado na pedra viva de mui defcompaffada altu
Ta. BRIT. Chr. 124 Lhe moftrou hum poço redondo mui
largo, e defconpaffado, táo profundo e tenterofo em fua
altura, que o velho fe não atrevia a pôr os olhos nel-
le. LEON. DA Cost. Ecl. 3, 14 . not. Aquelle po
ço, que efta em Cycne... de excefliva altura.
Epith. Admiravel. M. BERN. Floreft. 2, 3, 130,
C. Afperiffima. ARAUI. Succeff. 3, 1. Celefte (o ceo.)
ORIENT. Lufit. 150 y. Clara (o ceo.) FERR. Poem. Carr.
1, 11. Demafiada. L. ALv. Serm. 3, 8, 7 n. 26. Def
compafada. BARREIR. Chorogr. 57. Defcompofta. SA' DE
MEN. Mal. 1, 34. Defmedida. S MAR. Chr. 2, 5; 8.
n. 9. Diffical tofa. ESTIM. Do AM. Div. 3, 17. Elevada.
MATT. Jeruf. 6, 62. Excelfa. ROLL. Noviff. 2. Argum.
Exceffive. LEON DA COST. Ecl. 3, 14 . not. h. Honef-
ta (proporcionada.) FR. GASP. DA CRUZ, Tr. 6, 4. Ima
menfa. CoRT. R. Nauft. 2, 25. Inacceffivel. Viets. Scrm.
7, 3, 7. n. 119. Ingreme. Conr. R. Naufr. 12, 134 .
Innumeravel. Moa. Palm. 2, 120. Maravilhofa. CART
DE JAP. I, 166, 4. Medonha. Sous. Vid. 2, 33. Monf-
truefa. BRIT. Mon. 2, 7. c 4. Notavel. Laño, Defcripg.
9. Peregrina. ARAU. Succeff. 3, 1. Proporcionada. S. Mart
Chr. 2, 7, 22. n. 11. Remontada. M. Bean. Luz e Cal.
2, 1, 268 Summa. ORIENT. Lufit. 8 .
Verb. Eftar alg. c. em tal... (acharfe em tal estado. )
TELL. Chr. 1, 1, 21. 11. 7.alg, em grande...cu cnt
grandes... uf. (eftar muito elevado pelas fuas dignidades,
bens on favor. Por alg. em grandis...(elevalo em for-
tuna, &c.) Luz, Serm. 1, 50, 1. na mor...(en-
grar ccelo, louvalo muito.) ConT. R. Naufr. 6, 67 y.
Altura ou Alturas. pl. O ar on o céo. FERR. Poem.
Cart. 1, 11 Téque voando Vamos deíta baixeza á clara
altura. ARR. Dial. 2, 13 Mas as [aves ] que tem o paf-
to por fufpeito, voão às alturas livres e Talvas. CATHEC.
Rom. 60 No livro da Sabedoria lemos: quem faberá teu
fentido, fe tu não deres fabedoria, e enviares o teu Ef-
pirito Santo das alturas?
Nefte fentido fe diz: Deos das alturas, Gir. Vic.
Obr. 1, 65 Adorai montanhas O Deos das alturas.
Aftron. Altura do Pólo. O arco do meridiano compre-
hendido entre o horizonte de algum lugar e o polo do fer
hemisferio. VAL DE SA' Regim. 2 A altura do Polo, ou
largura do lugar, que he o mefmo, são os graos, que
elle éftiver levantado fobre o horizonte, em qualquer par-
te, aonde nos acharmos, e eftes fempre são iguaes aos
gráos, que a Equinoccial eftá apartada do noffo Zenith.
AVELL. Report, z, 84 A altura do Polo... aproveita
muito pera faber a latitude da região, que chamão altu
ra da rerra, que he o que eftamos apartados da linha c-
quinoccial LAVANH. Regim. 24 Altura do Polo são os
gráos, que elle eftá levanrado fobre o noffo Horizonte,
e fempre são igunes em numero aos que o noflo Verti-
ce, ou nós cftamos apartados da Equinoccial, de manei-
ra, que fe rivermos 40 gráos de altura do Polo, por el-
le eftar levantado fobre o noflo Horizonre, outros tantos
eftaremos apartados da Equinoccial, o qual apartamento
fe chama largura.
Altura do Sol. CAM. Luf. 5, 2 Porém eu c'os pi-
loros na arenofa Praia, por vermos em que parte ef
Me detenho em romar do Sol a altura. MARIZ,
Dial. 4, 10 Os quaes de muitas confiderações, e efpe-
culações marhematicas achárão efta maneira de navegar
pela altura do Sol.
Tomafe abfolutamente nefte fentido. BARR. Pancg.
13, 313 Endireitão as derrotas, diminuem ou accrefcen-
to os grãos, e emendão as alturas. BARREIR. Chorogr.
Ded. Os quaes de melhor vontade rodearão a terra, pe
ra alcançar a noticia de uma planta ou herva 2 que
pera faber os fitios e alturas dos lugares. Corr. R. Naufre
7, 68 Quando fagaz piloto inveftigando O curfo das
eftrellas, determina Saber certo a que rumo córta, c
leva A náo encaminhada, e em qual ettura.
Met. Los. Cort. 16, 158 E fabereis que de cer-
to não ha hum Letrado, que não traga cafcavel, par
onde lhe conheçais a altura, em que anda, como fo-
rão. D. F. MAN. Cart. 2, 99 Ora ficamos em huma mef-
ma altura V. M. e eu. VIEIR. Serm. 6, 7, 6. n. 213 E
com o aftrolabio tomando S. Pedro] as alturas havia
de achar igualmente que [Chrifto] de nenhum [Apof-
tolo] eftava mais perto com a prefença, nem mais lon-
ge com a aufencia.
{{lema|ALVA}}. s. f. Madrugada, a primeira laz do dia. Chamafe aflim, porque fe divifa no ar como alva ou branca.
Ufafe abfolutamente ou fe diz Alva do dia. BARR. Cla-
rim. Começou a luz da alva mui graciofa e rofa-
da a cfclarecer as terras. Gons, Chr. de D. Man. 163<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="1" user="MLReis" /></noinclude>ALV
Nifto fe paffou toda aquella noite até a alva do dia.
ALBUQ, Comm. I, 28 E dalli a pouco fe começou a al-
va a levanrat, on
Met. GIL Vic. Obr. 1, 29 Filha e Madre do
Senhor dos céos, Alva do dia com mais refplandor.
TELL. Hift. 6, 4, 657. Aqui, na cabeça do mundo,
Roma, teve a alva do feu oriente fermofa luz [o P.
Bruno Bruni].
Subft. Eftrella d... (eftrella de. Venus, vulgar-
mente chamada bozira, que aponta fobre o herizonte pouco
antes de amanhecer.) Sous. Hift. 2, 3, 5. BARRET. Eneid.
2, 190. Misa d... (a que fe celebra de madrugada, ou
antes de nafeer 0 Spl.) BARREIR. Chorogr. 31. CART. DE
JAP. 1, 138, 1. Quarto da ultima das tres partes,
em que fe divide a noite para as centinelas) ALBUQ.
Comm. 1, 30. MEND. PINT. Heregr. 33. Féla d (o
mefmo que Quarto d..) GOES, Chr. do Princ. 62.
Verb. Levantarfe a (começar a amanhecer.)
ALBUQ. Comm. 1, 50. Romper a...(o mefmo que Levan-
tarfe a BARR. Dec. 4, I, II. Maus. Aff. Afr. 1, 3.
Ao romper da... Ao amanhecer. LosAT. Palm. 5,
39. BRIT. Mon. 2, 6. c. 23.
Alva. Certa vestidura on tunica talar de panno bran-
co, que os Sacerdotes, Diaconos, e Subdiaconos põe fobr
o veftido proprio co amico, para celebrar a fanto facrifi-
cio da Miffa, e cutros officios divinos. FR. MARC. Vid. 1,
2 E na Mila levantando ambas as mãos juntas o céo,
cahindo abaixo as mangas da alva, ficáriolhe os braços
defcobertos. Gouv. Jorn. 2, 15 Veftimentas, frontaés,
corporacs, alvas. Barr. Chr. 1, 11 As alvas e amiros
[mandou fazer] de linho puro, fem outra curiofidade.
Certa vestidura de panno branco, que levão, para o
patibulo, os que vão a padecer a pena ultima. PINT. PER.
Hill. 2, 20, 55 Mindando enforcar de noite fecreta-
mente à vifta das eftancias alguns Mouros brancos...
mettidos em alvas cerradas. AvEIR. Itin. 87 A, outra juf-
tiça foi que degollárão vinte e cinco homens veftidos em
fuas alvas de eftopa. Sous. Hift. 1, 2 38 Notavamos a
forca, e o pendurado em fua alva veftido, e rofto co-
berto, e pés eftirados... d
Alva do olho. MARIZ, Dial. 4, 11 Os olhos pre-
tos e graciofos, e nas alvas delles tinha algumas veias de
fangue. Gavi, Cerc. 18, 89 Quando tomava alguma pai-
xão, fe lhe fazião humns veias fanguinas nas alvas dos
olhos, que o fazião temerofo. Barr. Mon. 2, 5. tit. 2
Os olhos pretos, e as alvas delles muito accezas.
Alva de cáo. Pharmac. Pos de jafmim, feitos de ex-
cremento de cão, ou efte mefmo excremento. CABREIR. Comp.
- Tomem marroios, e alva de cão, e atem as cm hum
panno. CURV. Polyanth. 2, 16, 122. n. 51 Tres oitavas
-de pó fubtiliffimo de alva de cão.
{{lema|ALVAÇÃO}}. s. m. antiq. CANCION. 131, 1 Meu capuz par-
or do frizado, Alvação, De veludo bem bordado
{{lema|ALVAÇARIA}}. s. f. EsTag. Antig. 41, 1 [Efcrit. da Era
de 1380] Foi pofta a Cruz na alvaçaria de Guimares.
{{lema|ALVACENTO, A}}. adj. Efvranquiçado, que tira para bran-
Co. JER. CARDOS. Dict. BAREOS. Dict. BENT. PER. Thef.
{{lema|ALVADIO, A}}. adj. uf. O mefimo que Alvacento. Applicafe particularmente ao panno de la defta côr.
{{lema|ALUADO, A}}. adj. Lunatico, que está fugciso aos influxos
da Lua, e ás fuas mudanças; ou a que fe augmenta ou
diminue a melancolia cu loucura fegundo os crefcentes ou
mingoantes defte Planeta. Onr. Colloq. 43, 164 Dizem
fer [a pedra de cevar ] veneno, e que faz o homem a-
luado. PREST. Aut. 172 Não fei fe lhe deo o ar
De peplexia aluado Esta noite o embuçado. Fɛo, Tr.
Quadr. 1, 125; 2 Quando à Chrifto trouxerão aquelle
endemonhiado entre as coufas, que differão delle a
Chrifto foi huma que o Demonio lhes tinha mettido em
cabeça, convén a faber, que era alundo.
{{lema|ALVADO}}. s. m. Parte do ferro da lança ou outra femelban-Met. Patv. Serm. 1, 8y y. Dirvoshei com verda-
te arma, em que fe encaixa o páo. CASTANH. Hift. 2,
6 Tomando a lança por junto do alvado do ferro..BARR.
Dec. 3, 7, 11 E o ferro de huma lança, e hum peque-
no de pão mettido no alvado della. MEND. PINT. Pere-
gr. 18 E com ifto me deo huma carta com hum pre-
iente de feis azagaias com os alvados de ouro.
{{lema|ALVAIADADO, A}}. adj. Tinto ou pintado com alvalade. JER. CARDOS. Dict. BENT. PER. Thef.
{{lema|ALVATADE}}. s. m. Chim. Certa materia branca como cal,
extrabida do chumbo por meio do vinagre, que ferve, ap-
plicado exteriormente, para diverfos ufos medicos e nas artes. Do Arab. albiade. Derivale do verbo baiada, branquear.
SABELL. Eneid. 22, 18 Era dado [Sardanapalo] a tanta
malicia, que fendo já velho, fe enfeitava com alvalade
e folimão, como fazem as moças. GIL Vic. Obr. 3, 188
Emerqueilhe d'hum Judeo D'huns torrões que hi ha,
Não fei que nome: he o feu, Alvalade creo eu,
Que o lelles chamáo cá. MADEIR. Meth. 2, 2, 4 A qual
[decoada de cinza, bebida] outro fi aproveira aos que to-
inário alvaiade, veneno tambem calido e rodenre.
Met. HET. PINT. Dial. 2, 5, 23 O alvaiade e
as tintas da eloquencia dos homens não lhe convém.
Adag. Soccorrer ao correr com, alyaiade, que feis-
centos annos não le vão debalde. HERN. Nun. Refran.
118.
{{lema|ALVAIADO, A}}. adj. Omafmo que Alvaiadado. BARBOS. Dict.
{{lema|ALVALA}}. s. f. antiq. O mefimo que Alvará GIL-Vic, Obr. 3, 186.b to sam
{{lema|ALVANEL}}. s. m. Pedreiro, official, que trabalha com pedra e cal, be na fabrica das cafas e outras fimelhantes obras. ant. Alvaner, Alvener. Do Arab. allannai, Sous.
Hift. 1, 4, 14 E edificando pera fi, criavão outro edifi-
acio mais alto e importante nos animos do povo, que a-
cudia em bandos a ver... taes alvaneres. S. ANN. Chr.
21, 13 47; Muitas vezes fendo elle o primeiro, fervião
aos Meftres da obra e alvaneres no que cumpria. PIMENT.
Meth. 2, 21 Suppomos por noticias e informações,
que dous officiaes pedreiros, como nós lhe chamamos
em Lisboa, e albanez na Provincia do Alemtéjo, fazem
cada dia em paredes muito groffas... quarro braças &c.
{{lema|ALVANIR}}. s. m. O mesmo que Alvanel. CARDOS. Agiol. 3, 403 Acarretou a pedra aos hombros... como qual-
quer alvanir. of
{{lema|ALVAR}}. adj. de huma term. Efbranquiçado, de cor bran-
ca. Dizfe determinadamente de certas arvores, fructos ou
aves. D. M. DE PORTUG. Obr. 15, 404 Aguia do meu
fructo, que. eftendendo O colo, e a bocca erguendo por
travar D'hum efpinheiro alvar nos tenros gomos. LEÃO,
Defcrip. 33 Outras [ameixas] brunhos alvares. FERNAND.
FERR. Art. 1, 8. Picanços alvares e negraes.
Met. Atoleimado, falso de talento ou de preftimo.
Tambem fe acha tomado em boa parte, por fincero,
fem refolho. CEIT. Serm. 2, 15, 1 E não devia de fer
tão alvar o Joab, Capitão, como o era o Urias, ma-
..rido da mulher. Quadrag. 1, 60, 1 E como a, in-
nocencia feja mui alvar e confiada, alto, dizem elles &c.
{{lema|ALVARA}}. s. f. Carta, Cédula, ou Diploma Real, porque
fe concede alguma mercê ou fe dd providencia a alguma
coufa. Differençafe dos Decretos e Cartas de Lei na for-
malidade, na fubftancia, e nos effeitos. Do Arab. alba-
rat. Alvaraes. pl. ant. ANDRAL. Chr. 1, 6 Dizião, fe
provião d'alvarás fecretos de coufas, que importavão à
fua honra. FERNAND. GALV. Serm. 3, 189, z Chama [S.
Gregorio Nazianzeno] fidalgos de papel, que por mer-
cê e alvará do Rei alcançárão o ferem nobres, e não
por fua virtude e merecimento. PINT. RIB. Iujuft. Suc-
ceff. 3, 71 Elta união dos povos com o Rei refpeitava
tambem o cítilo dos noffos Reis expedirem feus alvarás
por Nós el Rei.
Não fó os Tribunaes paísão Alvarás em nome del-
Rei, mas tambem alguns Magiftrados e Peffoas da pri-
meira grandeza tem autoridade para os paffarem em fleu
proprio nome. ORDEN. DE D. MAN. I, 1 E bem affi man-
darà [o Regedor] pagar por feus alvaracs a Carcerei-
ro, Guardas da cadea &c. DIAS, Vid. 23 Aos que te-
nho dado alvarás de cafamento.
Defpacbo, licença, recibo, efcritura, ou outro algum
inftrumento público, pelo qual confta alguma cousa. On-
DEN. D. MAN. 1, 16 Em tal cafo nom haverá mefter [o
Alcaide] alvará, fomente quando o houver de prender.
3,16 Em que maneira fe procederà contra os de-
mandados por efcrituras públicas, ou alvaraes, que tem
força de eferitura pública, ou reconhecidos pela parte.
de, que hoje fe vos apregoa aqui hum alvard affinado
pela mão propria de Deos. HEIT. PINT., Dial. 1, 3, 1
Affi na virtude, pera fer virtude, o entendimento ha de
fazer o alvará e a vontade aflinar. FERNAND. GALV.
Serm. 3, 264, 4 Ninguem fe metta nas occafióes, ef-
perando que Deos o livrará, porque eftes cafos são par-
ticulares, e pera elles he neceffario privilegio, e alvará
de fóra."
Differençãofe os Alvarás, fegundo o fim para que
são dados; e aflim fe diz:
Alvará de correr. ESTAT. DA UNIV. 2, 26, 6.
Alvará de edicos. Edital, porque fe citão as peffoas.<noinclude></noinclude>
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Página:Diccionario da Lingoa Portugueza.pdf/455
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/* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: A L V aufentes para comparecerem em juízo dentro de certo tempo. ORDEN. DE D. MAN. 3, 1. Alvará de fiança. O mefmo que Alvará de feguro. PAEZ, Serm. 2, 369, 2. PINT. Ris. Luftr. 1, 71. SERR. Difc. Prol. Alvará de lembrança. Carta on Cédula folemne, em que o Soberano promette lembrarfe de alguem para lhe fa- zer merce. CASTANH. Hift. 1, 29. PAIV. Serm. 2, 349. MARIZ, Dial. 4, 11. Alvará de feguro. Carta ou falvoconducto paffado em nome...
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<noinclude><pagequality level="1" user="MLReis" /></noinclude>A L V
aufentes para comparecerem em juízo dentro de certo tempo.
ORDEN. DE D. MAN. 3, 1.
Alvará de fiança. O mefmo que Alvará de feguro.
PAEZ, Serm. 2, 369, 2. PINT. Ris. Luftr. 1, 71. SERR.
Difc. Prol.
Alvará de lembrança. Carta on Cédula folemne, em
que o Soberano promette lembrarfe de alguem para lhe fa-
zer merce. CASTANH. Hift. 1, 29. PAIV. Serm. 2, 349.
MARIZ, Dial. 4, 11.
Alvará de feguro. Carta ou falvoconducto paffado
em nome do Rei ao que be accufado de algum crime, pa-
a delle fe defender fóra da prizão; ou porque o nejmo
Rei fegura a vida a alguma peloa. CHRON. DO CONDEST.
71. 1.
{{lema|ALVARADA}}. s. f. ant. Talvez o mefino que Alvorada. CAN-38, 3.
{{lema|ALVARAZ}}. s. m. ou
{{lema|ALVARAZO}}. s. m. pouc. uf. Efpccie de impigem, bustella
- ou mancha branea, afpera e efcamofa, que fahe na pelle
das bestas cavallares. Ufafe commummente no pl. Do
Arab. albarás. Derivafe de baraga, padecer lepra. (pl.
28 Alvarazes, e Alvarazos) LEIS EXTRAV, Addig. 38, As
mais prejudiciaes [doenças dos cavallos ] são quartos
fallos alvarazes, cafquiffeccós, &c. PINT. PACHEC.
Tr. 37 Se tem alvarazes [os cavallos] lhos tingen.com
tinra, ou cortiça queimada com azeite. REG. Summul. 38
Os alvarazos he hum achaque, que fe põe nas orelhas
pela parte de dentro, e tambem nos narizes, olhos,
beiços, fello, verilhas, e em fim em todas as partes,
que estão faltas de pelo.
Tambem fe diz do corpo humano. BENT. PER. Thef.
{{lema|ALVARAZES}}. s. m. pl. antiq. O mefmo que Alvarás. pl. PROV. DA HIST. GR. 4, 6, 92: p. 2. ann. 1520 O dito
Senhor [Duque de Bragança ] tinha promettido por car-
tas e alvarazes &c.
{{lema|ALVARES}}. s. m. O mefmo que Chicharo. BARBOS. Dict.
{{lema|ALVARICOQUE}}. s. m. O mefmo que Albriquoque. BAR-
Bos. Dict. BENT. PER. Thef.
{{lema|ALVARICOQUEIRO}}. s. m. ant. O mefmo que Albricoquei-
ro: BARBOS. Dict. BENT. PER. Thef.
{{lema|ALVARINHO, A}}. adj. dim! pouc. ul. Esbranquiçado, de
cor alva. Dizfe das peffons. MORAT. Luz, 5, 1 Sangrão
os meninos fortes, e não os de peito fracos, e alvarinhos,
que adoecem de cruezas e lombrigas.
{{lema|ALVARRADA}}. s. f. ant: O mefino que Albarrada. JER. CAR-
Dos. Dict. BENT. PER. Thef.
{{lema|ALVARRAL}}. (peneira) Vej. Pereira. BLUT. Vocab.
{{lema|ALVASIL}}. s. m. ant. O mesmo que Guazil ou Aguazil,
He officio público entre os Mouros. Do Arab. vafil ou
vafir, accrefcentado o articulo al. BRIT. Mon. 2, 7. c. 9
E elle a levou diante do Alvafil, para que mandaffe fa-
zer delle o que a lei difpunha della... Mas o Alvafil
mandou então que queimaffem a Ariovigildo. ( Affim tra-
duz huma efcritura do ann. de J. C. 791; porém expon-
do o melmo fucceffo com palavras fuas, nomeia Agoa-
zil o que havia na traducção nomeado Alvafil.)
Alcaide de Caftello on Fortaleza entre os Chriftãos.
BRIT. Mon. 2, 7. c. 30. [Efcrit. do ann. de J. C. 1088.]
BRAND. Mon. 2, 7. c. 30. (Nas Cortes de Lamego,
onde em Latim fe acha repetidas vezes, ora traduz Al-
caide, ora Agoazil.)
Vereador da Camera. BRAND. Mon. 4, 13, 24.
[Efcrit. de D. Aff. II.] Nas firmas defta Efcritura fe
affignão: Practor de Santarem, Alvafiles et Tabell. et
Practor Ulixb. Alvafiles e Tabell. Praetor Colimb. A-
vafiles et Tabell. &c. [Efcrit. 11, 268. Provisão de
D. Aff. 11.] Alfonfus Dei gratia Portug.. Rex Praetori
de Santarem et Alvafiliis, &c. traduz 4, 13, 22 Af-
fonfo pela graça de Deos, Rei de Portugal ao Alcaide
de Santarem, Auguafis, &c. Prov. DA HIST. GEN. I,
135. [Feft. de Tarcja Annes do ann. de 1350.] E man-
do que depois das mortes do dito Conde, e Pero Efte-
ves, que os Alvafis, que em cada hum anno forem do
Concelho de Lisboa, &c. EsrER. Hift. 2, 6, 35. 1. 2
Diogo Fernandes Efteves, e Vafco Martins, Vereado-
res, que então fe chamavão Alvafis, e todo o mais Con-
celho &c.
{{lema|ALVEARIO}}. s. m. pouc. uf. Colmeal. Do Lat. Alvearium.
BLUT. Vocab:
20 Met. M. FERNAND. Alm. 2, 1 28. n. 39. Por if-
fo Santo Agostinho chamava a efta chaga [do lado] al-
vcario de mel; pera o qual efte mefmo Santo: convida
70eftas abelhinhas celeftes.
{{lema|ALVEDRIO}}. s. m. Vej. Alvidrio..
{{lema|ALVEJADO, A}}. p. pde Alvejar. JER. CARDOS. Dict.
{{lema|ALVEJAR}}. v. n. Branquejar, moftrarfe ou parecer alvo. SABELL. Encid. I, 2, 9 A cabeça do monte no meio do
eftio eftava alvejando de neve. Leão, Defcripç. 23 Cha
farizes e fontes, que eflão alvejando, BARRET. Eneid.
12, 9. Cos offos todo o campo em roda alveja
{{lema|ALVEITAR}}. s. m. O que tem por officio curar as enfermi-
dades das beftas. Do Arab. albeitar, ferradur, official,
que ferra as beftas. Derivale do verbo de quatro letras
baitara, ferrar huma befta. F. ALv. Inform. 103 E. hia
pera conhecer os cavallos hum Pero Affonfo, alveitar.
ORT. Colloq. 7, 23 Os Medicos veterenarios, a que cha-
mamos alveitares. D. F. MAN. Apol. 11 Encommendárão-
me a hum alveitar, que vivia junto de mim.
Met. FERR. de Vasc. Ulyflip. 4, 4 Vedelo aqui
que foi o maior xaftre, e o melhor alveitar de mulhe-
res, que podeis ver daqui até o Cairo.
Adag. Cavallo foueiro á porta do alveitar, ou do
bom cavalleiro. DELIC. Adag. 39
Que fifo de alveitar! Mulla morta, mandaa fangrar.
DELIC. Adag.
{{lema|ALVEITARIA}}. f. Arte de curar as enfermidades das bef-
tas. OBT. Colloq. 2, 5. De modo que o que diz Sc-
rapia por autoridade de Alcamzi, fe deve entender, que-
pera albitaria, e chagas, fe póde ufar com menos dám-
no do [aloes] caballino. PINT: PACHEC. Tr. y Eftas regras
são as ordinarias, que os livros e Alveitaria enfinão. M.
BERNARD. Floreft. 4, 1, 295 Sabia bem da alveitaria.
Met. EUFROS. 2, 7 Que mal peccado, todos fabe-
mos hum pouco de alveitaria. FERR. DE VASC. Uly flip.
24 Ora effai quedo, e vereis coino fou deftro neffa
alveitaria.
{{lema|ALVELA}}. s. f. O mefmo que Minhoto. GL Vic. Obr. 2,
92 Então canta o tintilhão, E bate a alvela o rabo.
BARBOS. Dict. Alvela, ave de rapina. Milvus, i, vel,
Milvius, ii., BENT. PER. Thef. Alvela, ave de rapina.
Milvus, ou Milvius.
{{lema|ALVELOA}}. s. f. Certa ave pequena, pintada de preto e
branco, com o bico fino, pernas altas, e delgadas, e a
cauda comprida, e fempre em movimento. Habita nas mar-
gens dos rios, nos prados, e curraes, à caça de mof-
cas e infectos, que apanha no chão e no ar. SABELL.
Eneid. 1, 2, 11 Amizidade tem antre fi eftas aves; cs
pavócs com as pombas, as rollas com os papagaios, a
gralha com a alvcloa. EurRos. 3, 2, Porque fempre os
vi contraminados do mefmo amor, que he hum rapaz muito
tredo, e rirado de rapazes, que o cftomentão, e não
The efperão a tiro, como alveloa. FERR. DE VASC. Ulyf-
fip. 37 Parecia alveloa por aquelles telhados.
Adag. Quem mata alveloa, fabe mais que ella.
DELIC. Adag. 23-
{{lema|ALVENEL}}. s. m. ant. ou
{{lema|ALVENER}}. s. m. ant. Vej. Alvanel:
{{lema|ALVENARIA}}. s. f. Arte ou officio de fabricar cafas, ou
outras obras que exercitão os pedreiros. (Alvanaria) Sous.
Hift. 2, 1, 2 Que até aos officiaes de alvenaria mettia
medo o que gattaria de tempo &c.
Pedia quebrada e não cortada, nem lavrada, que
ferve para fazer paredes, &c. SABELL. Eneid. 2, 4, 59
E os muros, que erão primeiro feitos d'alvanaria, foi
elle o primeiro, que os começou de pedras grandes la-
vradas de cantaria. ALño, Antig. 19 Daqui le tirou, c
tira a pedra pera as obras, que fe fazem nefta fanta ca-
fa, que he a melhor pera alvenaria, cal e pedraria la-
vrada, que ha daqui muito longe. Liss. Jard. 370, 4
São ellas paredes] de alvenaria, c não de cantaria.
{{lema|ALVEO}}. s. m. Madre, bojo on leito do rio, por onde cor-
rem as agoas entre as fuas ribanceiras. Do Lat. Alveus.
BARREIR. Chorogr. 109 Por caufa das areas vermelhas
occuparem o feu alveo, por onde correm.
{{lema|ALVERCA}}. s. f. ant. Tanque pequeno,, onde Je recolhe e
ajunta a agoa, que fe tira dos pocos e noras para regar
as bortas, e para outros ufos comniummente he feito de pe-
dra ou de ladrilbo, e cal. Segundo Covarrubias he voz
tomada do Arab. berque, ou fegundo o P. Alcalá de berg,
que fignifica o mefmo, accrefcentado o articulo al. FR.
SIN. COELH. Chr. 2, 21, 196 E he ido de maneira,
que pelas muitas follas e alvercas, que delle [rio Euphra-
tes] fe titáo, dá vão em muitas partes aos que o que-
rem paffar. FR. BERNARD. DA SILv. Defenf. 1, 14 E
huma alverca de peixes, em que cabião vinte mil quar-
tas d'agoa.
{{lema|ALVERGUE}}. s. m. ant. e os feus derivados. Vej: Albergue.<noinclude></noinclude>
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/* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: ALAU {{lema|A LUFADAS}}. Form. adv. Vej. Lufada. {{lema|ALUGADO, A}}. p. p. de Alugar. BARR. Dec. 2, 5, 9. MEND. PINT. Pereg. 68. Sous. Vid. 1, 20. {{lema|ALUGADOR}}. s. m. O que aluga. RESEND. Mifc. 1, 68 Vemos tudo levantar, Mantimentos mãos de achar, Officiaes, mercadores, Logreiros, alugadores, Tudo mui caro cuftar. Leão, Report. 5 Aingador da cafa, co- mo a requererá ao fenhor, querendoa por mais tempo. FR. NIC. DE OLIV. Grande...
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<noinclude><pagequality level="1" user="MLReis" /></noinclude>ALAU
{{lema|A LUFADAS}}. Form. adv. Vej. Lufada.
{{lema|ALUGADO, A}}. p. p. de Alugar. BARR. Dec. 2, 5, 9.
MEND. PINT. Pereg. 68. Sous. Vid. 1, 20.
{{lema|ALUGADOR}}. s. m. O que aluga. RESEND. Mifc. 1, 68
Vemos tudo levantar, Mantimentos mãos de achar,
Officiaes, mercadores, Logreiros, alugadores, Tudo
mui caro cuftar. Leão, Report. 5 Aingador da cafa, co-
mo a requererá ao fenhor, querendoa por mais tempo.
FR. NIC. DE OLIV. Grandez. 4; 8 Alugadores de camas
trinta e oito.
Met. PAEX, Serm. 1, 174 Diffe... S. Chryfofto-
mo, que os appetites, goftos, e paffatempos do mundo
tinhão moradores, e alugadores.
{{lema|ALUGAMENTO}}. s. m. Acção e effeito de alugar. Best. PER. Thef.
{{lema|ALUGAR}}, v. a. Tomar alguem, ou alguma coufa albeia
para ufo ou fervico proprio por tempo prefixo, e com cfti-
pulação de preço. Do Lat. Locare. TENKEIR. Itin. 4 As
mullas dos recoveiros, que alugamos em Lara. FER.
Poem. Cart. 2, 4 Depois recebetás por hun duzentos
Do jufto pagador, que hi te alugou, E as obras vê
de cima e os penfamientos. VIEIR. Serm. 6, 14, 7. n.
435 Quando o pai de familias chegou à praça, ja os
jornaleiros alli eltavão esperando por quem os aluga.
Met. FERNAND. GALV. Serm. I, 121, 3, Aflim ef-
tes alugavão cftas virtudes fingidas aos olhos dos homens.
Dar alguma coufa propria para ufo on ferviço de
outro por tempo determinado, e preço convencionado. BARK.
Dec. 2, 6, 9 Era o lavrador tão caridofo, que nem os
quiz agafalhar, nem alugar huma befta, TENREIR. Itin.
25 Então me bufcou hum Chriftão, que me alugon hu-
ma mulla. Var. FERNAND. Report. E tinhão por inui an-
tigo coftume de tributar e alugar os cidadãos fuas cafas.
Com pron. peff. Afalariarfe, affoldadarfe. Leão,
Chr. de D. Fern. 220 Porque como a gente, que fe põe a
foldo pera a guerra, he pola mór parte mal coftumada, e
de pouca conciencia, pois fe alugio para matar homens,
&c. TELL. Hift. 1, 16, 43 As quaes [mulheres] fe alu-
gavão pera follemnizarem eftes chóros, que &c. D. F.
MAN. Carc. 1, 85 Bem he verdade, que não feria o pri-
meiro, que havendofe perdido a fi, fe alugaffe para guiar
a outros.
Adag. Quem fe aluga pelo S. Miguel, não fahe
fóra, quando quer.
{{lema|ALUGUEL}}. s. m. Acção de tomar ou dar alguma confa
por preço determinado, e tempo certo. ant. Aluguer. ORLEN.
DE D. MAN. I, I Nem mande requerer poufadas, que
fe podem dar de apoufentadoria a feus donos, das cafas
cafas
nem as tome delle pot aluguer. SAAT. Ethiop. 1, 2, 8
Andão os Caftes a este ganho por aluguer, como bef-
tas de carga. TELL. Chr. 1, 1, 19. n. 4 Tomou logo hu-
mas cafas de aluguel no fundo da que chamavão fua
nova del Rei.
Preço, que fe dá pelo fo de uma ccufa alheia por
determinado tempo. Aveia. Itin. 84 Porque já tinhão os
alugueres gaftados com tantas detenças. MED. PINT. Pe-
regr. 68 Ein tanto, que muitos mercadores são ricos fó
dos alugueres deftas coufas. CEIT. Serm. 1, 256, 2 A
cafa do barbeiro a mandava bufcar [a navalha] e mais
cuftandolhe feu aluguer.
Verb. Andar alg. ou alg. c. ao ganho por... SANT,
Ethiop. 1, 2, 8. Dar... a alg. c. CEIT. Quadrag. 2, 412, 1.
alg. c. de... CONSг. Do Fusch. 28, 1. Ganbar alg.
ou alg. c. fcu
FERNAND, GALV. Serm, I, 121, 3.
Pagar... de alg. c. Lise. Jard. 68, 9. L. ALv. Serm. 2,
1, 4. n. 11.a alg. GiL. Vic. Obr. 4, 231 y. PAEZ,
Serm. 1, 175. Tomar alg. c. de... Sous. Vid. 5, 30.
TELL. Chr. 1, 1, 19. 11. 4. por... de alg. ORDEN.
DE D. MAN. 1, I.
Pl. ant. Alugués. Esraç. Antig. 50, z Mandando-
the elle pagar muito bem feus alugues.
{{lema|ALUGUEIRO}}. s. m. antiq. O mefino que Aluguel. PROV.
DA HIST. GEN. 2, 4, 1. p. 2. ann. 1449 E fação pa-
gar peira, finta... e ciradega, alugeiro, portages, &c.
{{lema|ALVIÃO}}. s. m. Certo inftrumento de ferro, com cabo de pão,
o qual tem corte por buma das partes, como enxada, e por
outra bico, como picareta. Serve tanto para arrancar pedra,
como para tirar terra, cavando. EvrROS. I, I E paffar a
isha, dos extremos por huma gentil fenhora, mais fer-
rugenta que alvião achado em pardieiro. PER. Elegiad.
5, 62 Enxadas, alviões, ferras, machados, Fouces,
devancas, e marrões pezados. CUNH. Catal. 1, 14 E to-
mando logo hum alvião, idevos aquella fonte, que eftá
mais vizinha, e a poucas enxadadas achareis hum thefou-
ro riquiffimo.
{{lema|ALVIÇARA}}. s. f: Premio, que fe dá ao que traz alguma
boa nova. Do Arab. albexará. Derivafe do verbo bdxxara,
.annunciar, dar boas novas, evangelizar. ant. Alvicera
cás vezes com dous fl, ou com hum fó em lugar do ç
FERN. Lor. Chr. de D. J. I. 2, 21 Que lhe promettia,
que fe affi foffe, que lhe deffe hum bom cavallo de al-
viçara. CORT. R. Naufr. 1, 2 y Ouvefe juntamente hum
tenro choto,. E huma contente voz, que diz; alviffe-
ra. Leño, Chr. de D. Aff. IV. 146 ElRei com rofto
talegre lhes difle, que a alviffara fora mui pequena.
Ufafe ordinariamente no plural. BARR. Paneg. 74,
339 Não foi [a Magdalena] a que pedio aos Apoftolos
alviçaras. Luc. Vid. 5, 12 Por haverem ou darem as pri-
meiras alviçaras. Cour. Dec. 4, 1, 6 E prometteo a
Jorge Cabral aquella capitania de alviçaras.
Alviçaras. abf. Voz de huma peffoa, que annuncia
algum fucceffo feliz. Pin. Chr. de D. Afr. IV. 5 Lhe dif-
fe com o gefto prazenteiro e alegre, alviçaras, alvica-
ras, que a Rainha com a graça de Deos e faude já pa-
rio hum filho. GUERREIR. Kel. 5, 4, 3 Alvigaras, Pa-
dre, que tem Voffa Reverencia Padres do Reino. VIEIR.
Serm. 1, 1, 1. col. 7 Alviçaras, peccadora, enxuga as
lagrinias.
Epith. Alegres. M. THоx. Inful. 3, 118. Boas. Goes,
Chr. de D. Man. I, 37. Groffas BRIT. Mon. I, 3. c.
22.. Liberacs. GIL. Vic. Obr. 3, 158. Primeiras. Luc. Vid.
5 12.
Verb. Dara alg. de alg. c. SA DE MIR. Vilhalp.
5, 7. TENREIR. Itin. 39. por alg. c. Leão, Chr. de
D. J. I. 95. alg. c. de... PINT. PER. Hift. 2, 53,
156. LoB. Condeft. 18, 54. Ganbar... ou as... CEIT.
Serm. 1, 38, 2. VIEIR. Serm. 6, 4, 3. n. 112. Haver
as... CHR. DO CONDEST. 54. Luc. Vid. 5, 12. Levar
as... de alg. c. BARR. Clarim. 1, 23. L. ALV. Serm. 3,
16, 6. n. 22. Pedir... abf. CEIT. Quadrag. 2, 39, I.
SOUS. DE MAC. Ev. 2, 51, 476. n. 5. ... ou as a
alg. Paiv. Serni. 1., 289. MEND. PINT. Peregr. 67. de
alg. c. Lon. Peregi. 2, 1. FR. LEño, Bened. 1, 2., 3.
c. 6. alg. c. por... de cutra. TELL. Chr. 2, 5, 38.
n. 11. L. ALv. Serm. 2, 6, 6. n. 18. Prometter... a alg.
Goes, Chr. dc D. Man. I, 38.alg. c. de... a alg.
Cour. Dec. 4; 1,6. Querer... SA' DE MIR. Vilhalp. 5,
7. Requerer as... D. F. MAN. Muf. 228. Viol. de Thal.
Decim. 50. Ter....Sous. DE MAC. Ev. 2, 39, 435. n. 7
alg. c. por.... TELL. Chr. 1, 3, 29. n. 6.
{{lema|ALVIÇAREIRO, A}}. adj. Que dd on promette alviçaras.
D. F. MAR. Muf.. 228 Viol, de Thal. Decim. 5 Meu Con-
de, fc ando lampeiro, Vós tendes a culpa de tudo,
Pois em fim d'homem fefudo Déftes em alvicareiro.
{{lema|ALVIDEJECTORIO, A}}. adj. Med. Que evacua o ven-
tre por baixo. Applicafe aos medicamentos purgantes.
CURV. Obferv. 30, 3 Porque fe tiver alguma coufa def-
tas, o matará quem o fangrar, fem primeiro lhe limpar
o estomago com buma purga vomitiva ou alvidejectoria.
{{lema|ALVIDRADO, A}}. p. p. de Alvidrar. TELL. Hift. 5, 25.
{{lema|ALVIDRADOR}}. s. m. O que alvidre. VIT. CHRIST. I, 2,
11 Nem efperava que homem fofle alvidrador ou jul-
gador de fua mente, mas Deos fó. ORDEN. DE D. MAN.
3, 82 Dos alvidradores, que quer tanto dizer, como a-
valiadores ou eftimadores. Gors, Chr. de D. Man. 4, 86
E que rebatido o que os alvidradores diffeffem, &c.
{{lema|ALVIDRAMENTO}}. s. m. Acção e effeito de alvidrar. OR-
DEN. DE D. MAN. 3, 82 Havida a determinação [dos Jui-
zes Ordinarios] procederão [os alvidradores] em feu al-
vidramento, fegundo lhe bem parecer. Leño, Report. 5
Alvidramento em. que defcordão os Juizes. Sous.
Hift. 1, 1, 21 Dará a fatisfação, que jufto för a juizo
e alvidramento de D. Sueiro.
{{lema|ALVIDRAR}}. v. a. Avaliar, eftimar, julgar como arbitro,
ou por estimativa. Dizfe particularmente dos falarios, premios, &c. Do Lat. Arbitrari. ORDEN. DE D. MAN. 1, 67
E diffo que alli alvidrarem, pagarão ametade aos ditos
orfáos. CEIT. Quadrag. 1, 72, 1 Pedindo conta, e alvi-
drando pena. Sous. Vid. 4, 22 Alvidrárão ao fanto Ve-
lho hum curto eftipendio, como fe foffe hum pobre Vi-
fitador ordinario.
{{lema|ALVIDRIO}}. s. m. Determinação e refolução da propria
razão; acção livre, procedida fó da vontade fem Jujeição
on dependencia de cutra alguma coufa. (Alvedrio) ant.
Arvedrio. Do Lat. Arbitrium. CART. DE JAP. 1, 277, 2
E quanto a fe baptizar, iffo fica no alvedrio de cada
hum. BRIT. Chr. 1, 6 E recebidas as letras do Senhor
Papa nas quaes commettia tudo a nós, e a noffa.<noinclude></noinclude>
owdvywtqen96h1rtjp54fylk3nafmth
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MLReis
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<noinclude><pagequality level="1" user="MLReis" /></noinclude>A L V
difpofição e alvedrio. Sous. Hift. 3, 2, 22 E o mandei
com cenfuras e penas Ecclefiafticas, que a voffo alve-
drio fulminareis.
Met. PER. Elegiad. 6, 72 Sigamos o furor. do fero
Oefte E a feu alvedrio naveguemos. MENDOÇ. Jorn.
2, 1 Não póde fempre o valor humano ter ligado a for-
tuna a feu alvedrio. Arr. GUERREIR. Feft. 36 O poder
da fama eftà fubjecto ao alvedrio do tempo.
Ordinariamente fe lhe ajuntão para diftinção do fi-
gnificado os adjectivos livre, humano, proprio. Me-
MOR. DAS PROEZ. I, 8 O homem nacco livre... è foi-
lhe dado pera repairo e arma defenfiva e offenfiva o
livre alvedrio. BARRET. Eneid. 6, 82 E irás além por teu
proprio alvedrio. VIEIR. Serm. 9. do Rof. 5, 4, 184 São
precisamente neceffarios aquelles dous concurfos. da
parte de Deos o da graça divina, e da parte do homem
o de alvedrio bumano.
Faculdade de obrar, fegundo o que mais agrada.
PINT. RID. Rel. 1, 24 Ninguem fe defapega do feu al-
vedrio c razão. VIEIR. Serm. I, 1, 3. col. 26 Não triun-
far dos alvedrios hoje a palavra de Deos... não he por
culpa e indifpofição dos ouvintes. CHAG. Obr. 1, 15, 15
A quem govemma o alvedrio, armão as virtudes, e foc-
corre Deos.
Epith. Depravado. VIEIR. Serm. 9. do Rof. 5, 7,
209. Furiofo. VIEIR. Serm. 9. do Rof. 5, 3, 182. Huma-
no. VIEIR. Serm. g. do Rof. 5, 4, 184. Irracional. VIEIR.
Serm. 9. do Rof. 5, 4, 188. Livre. D. FR. BR. DE BARR.
Efpelb. 1, 2. CORT. R. Naufr. 14, 154 y. Natural. Vi-
KIR. Cart. 1, 11, Proprio. BARRET. Eneid. 6, 82. VIEIR.
Serm. 6, 11, 4. n. 324. Rebelde. VIEIR. Serm. 9. do Rof.
* 5, 3, 182.
Verb. Cativar o... ou o livre... TELL. Chr. 2,
5, 35. n. 3. Vicia. Serm. 4, 14, 2. n. 496. Domar o...
VIEIR. Serm. 9. do Rof. 5, 3, 183. Perder o... VIEIR.
Serm. 4, 14, 2. n. 496. Pofto no... FERNAND. GALV. Serm.
I, I, 4.
{{lema|ALVIDRO}}. adj. [Juiz] Juiz on louvado, em que as par-
tes concordes põe a decisão de algum pleito on ponto duvi-
.dofo. SABELL. Eneid. 1, 6, 67 Porque fendo feito Juiz
an alvidro antre feu pai e Hercules, julgou o preço a Her-
cules. ORDEN. DE D. MAN. 3, 81 Antre os Juizes alvidros
e os alvidradores ha hi differença. CASTANH. Hift. 7, 48
Nomeȧráo... as peffoas, que havião de fer Juizes al-
vidros da differença, que havia.
Subft. Leão, Report. 5 y Alvidros e alvidradores
como differem.
{{lema|ALVIDRO}}. s.m. antiq. O mefimo que Alvidrio. VIT. CHRIST.
2, 67 Todo homem foi creado livre, e pofeo Deos em
livre alvidro, mas elle fe fez fervo. D. CATH. INF. Re-
gr. 1, 1 Nem fe commetta ao alvidro de qualquer. OR-
DEN. DE D. MAN. 1, 67 E tornando elle [prodigo] em
algum tempo a bons coftumes, e temperança de fua def-
peza, por fua fama, e alvidro e juizo de feus parentes,
.amigos e vizinhos, &c.
{{lema|ALVIDUCO, A}}. adj. Med. Purgante, que facilita o ventre.
...Do Lat. Alvum e ducere. Cuxv. Polyanth. I, 4, 16 Os
*purguei com purgas alviducas.
{{lema|ALVINEO}}. s. m. O mefmo que Alvanel. BLUT. Vocab.
{{lema|ALVINHO, A}}. adj. dim. de Alvo. GIL. Vic.. Obr. 3, 54.
SLEIT. D'ANDRAD. Mifc. 19, 603.
{{lema|ALUIR}}. v. n. Bolir com força para abalar coufa firme. BARR.
Dec. 2, 9, 1. Acertou de achar alli os pãos não muito fir-
mes, e tanto efteve aluindo nelles que fez entrada.
Arruinarje, desfazerfe à força de fe abalar, ou de fe
bolir. M. BERN. Serm. I, 1, 7 Não fó não ha de cahir
[a terra] como dizia o Ecclefiaftes, fenão que não ha
de aluir ou inclinar inteiramente.
{{lema|ALVISSIMO, A}}. fuperl. de Alvo. LEIT. D'ANDRAD. Mifc.
ala, z. Cor. R. Cerc. 16, 192. Sous. Hift. 1, 3, 5.
{{lema|ALVITANA}}. s. f. Efpecie de rede mais larga, que ferve. no
-trefmalho, e com que fe pefca em rio. BLUT. Vocab. Suppl.
{{lema|ALVITANADO, A}}. adj. Feito á maneira de rede alvita-
- ma. FERNAND. FERR. Art. 5, 3 E com hum molde, a-
-alametade menos do da rede, fe farà huma malha, allim na
parte, que ha de cftar de cima, como na debaixo,
xo, que
als fique alvitanado, que quer dizer a malha mais pequena
quafi metade, e feita com os mesmos, nós.
{{lema|ALVITE}}. s. m. T. dos Mouros, GALY. Ch
essidando feus alvites, que elles [Mouros] entre fi hão, por
homens de fanta vida, que foffem pregar e requerer da
parte de Mafamede, que accorreffem a terra, que cftaya
sem ponto de fe perder.
{{lema|ALVITRE}}. s.m. Tropoficão ou confelbo de hum meio extraordinario para fe confeguir algum fim. Do Lat. Arbitrium.
FERR. DE VASC. Ulyflip. 5, 1 A voffa [mulher] cuidou
que hia com grande alvitre à minha. Berr. Mon. 1, 4.
c. 18 Eftimou Didio em muito aquelle alvitre. VIEIR.
Sermi. 12, 6, 2. n. 215 Eftas duas coufas [dar pão, e
dar muito pão] que Chrifto fez raquelle milagre, são as
que vos prometti fem milagrè: alvitre para ter pão: al
vitre para ter muito pão
Epith. Aprazivel. SovER. Hift. Prol. Bom. Luc. Vid.
3, 9. Falfa. EsPER. Hift. 2, 8, 28. n. 1. Gentil. Lo-
BAT. Palm. 5, 20: Grande. Luz, Serm. 1, 56, 1. Im-
portante. Gouv. Rel. 3, 13. Novo. FERNAND. GALV. Serm.
2, 77, 1. Occulto. PAEZ, Serm. 2, 175, 2.
Verb. Acceitar. Leão, Defcripç. 86. Cuidar... CEIT.
Quadrag. 1, 227, 3. Dar...abf. L. BRAND. Medit. 1,
3, 96. p. 578. à alg. PAv. Serm. 3, 123 . TELL.
Chr. 1, 1, 4. n. 2.alg. c. por... TELL. Chr. 2,
6, 47. n. 5. S., MAR. Chr. I, 4, 5. n. 16. Inventar...
VIEIR. Serm. 4, 1, 3. n. 7. It & alg: com... FERR. DE
VASC, Ulyflip. 5. TELL. Chr. 2, 5, 3. n. 5. Levar
... á alg. Czir. Quadrag. 1, 124, 4. Sous. Vid. 4,
7. Offerecer... à alg. Viers. Serm. 8, 383. Pagar...
VIEIR. Scrm. 4, 1, 3. n. 7. Trazer... á alg. BRIT.
Mon. 7, 7. c. 19. CEIT. Serm. 1, 99, 2.alg.c. por
GAVI, Cerc. 1, 4 y. Vir com... FERR. DE VASC.
Ulyflip. 2, 4. LOBAT. Palm. 5, 20.
Alvitre. Nova, noticia, novidade, principalmente a-
gradavel cu de proveito. Gavi, Cerc. i, 4 E junta-
mente trazia [o Mouro] como por alvitre a vinda do Xa-
rife ao Cerco. Fro, Tr. 2, 283, 4 E me di alvitre que
fe vende huma pedra preciofa, em que fe intereffa mui-
to. Sous. Vid. 4, 7 Veio à noticia do Arcebifpo o que
pallava por dito de quem por ventura cuidou que levava
alvitre de gofto.
Tributo, contribuição, finta, principalmente fe fe lan-
çou de commum confenfo e voto de loivados. HisT. TRAG.
MARIT. I, 226 Aconteceo ... irem dar os trabalhadores
com huns fardos de anil, de hum alvitre, de que el Rei
Dom João fazia cada anno efmóla, e mercé para as o-
bras da Igreja de Noffa Senhora da Graça de Lisboa.
CEIT. Serm. I, 121, 4 Qual ha de vós, que não de
graças a Deos, que a criou [a agoa] e que a não met-
teo em mão de rendeiros, nem em o rol dos alvitres dos
calaceiros? Sous. Hift. 3, 3, 15 Applicandolhe algumas
efmólas em dinheiro, e alguns alvitres de importancia.
{{lema|ALVITREIRO, A}}. adj. Que dá ou coftuma dar alvitres.
M. FERNAND. Alm. 3, 2, 6. n. 71. p. 435 El Rei ven-
do que lhe tardava a noticia do caleiro, mandou ... ao
pagem alvitreiro com recado ao calciro, que &c.
{{lema|ALVITREIRO}}. s. m. que dá alvitres, o que coftuma offerecelos, e be amigo de os dar. PINT. RIB. Ularp. 16 Ven
do porém que lhe refpondia [o tributo] como fe efpera-
va, e os alvitreiros promettião &c. VIEIR. Serin. 2, 4,
7. n. 114 Primeiramente me parece, que são merecedo-
res do hum Não muito claro, e muito fecco certo ge-
nero de alvitreiros &c.
{{lema|ALVITRISTA}}. s. m. O mefmo que Alvitreiro. Liste. Fug.
6, 11, 187. col. 1 E eftando David. com tantos mere-
cimentos defterrado e perfeguido: o traidor alvitrifta el-
tava pofto no lugar, que fó a elle fe deviá. D. F. MAN.
Apol. 64 Não fez affim aquelle Grão Turco... quando
em noffos tempos mandou efpetar o Judeo alvitrifti.
{{lema|ALUMBRADO, A}}. adj. Aluminado on illuftrado espiritual.
mente. Só fe diz em mão fentido, quando ha illusão ou
impoftura. M. FERNAND. Alm. 1, 5, 3. n. 5; Eftas [Si-
byllas forão tidas por mulheres efpiritadas e alumbra-
das. M. BERN. Floreft. 4; 12, 79 O Conde lançando o
cafo a zombaria lhe perguntou fe era alumbrado, ou fe
queria efmóla.
{{lema|ALUMBRADOS}}. s. m. pl. Certos Herejes, que fe defcobrirão
em Sevilha pelos annos de 1623, e forão penitenciados
pela Inquifição da mefma Cidade no anno de 1627. Além
de outros muitos erros, que abraçavão, admittião por
unico
principio de toda a prefeição o contemplar e orar,
com, o que por illuminação do Efpitito Santo fe extinguia
de todo no homem o fomes, que provoca ao mal, de
maneira que não tinhão neceflidade de refrear as paixões.
Defta illuminação procedeo o nome Caftelhano, que fe
the deo. TELL. Chr. 1,
13 Man-
34. n. 2 Não fe nos criem
aquí alguns alumbrados. S. ANN. Chr. 1, 29, 161 Se re-
folveo de accufar à Inquifição as Religiofas, principal-
mente a Priorela e a Santa, dizendo que tinhão coufas
de Alumbrados.
{{lema|ALUMBRAMENTO}}. s. m. Illuminação ou illuftração do<noinclude></noinclude>
p9bi4jdvd8octw51g6casfh0bibcsxb
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Erick Soares3
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|132|{{sc|á roda da lua}}|{{sc|viagens maravilhosas}}}}{{rule}}</noinclude>nha de montanhas, que se destacavam alumiadas em cheio. Á
direita, pelo contrario, abria-se um buraco negro, como que
enorme poço, insondavel e obscuro, que tivessem excavado no
solo lunar.
Este buraco era o Lago Negro, era Platāo, circo profundo,
que se póde estudar convenientemente da Terra, entre o ultimo quarto e o novilunio, quando as sombras se projectam de
oeste para leste.
Este colorido negro é raro de encontrar na superficie do satellite. Até hoje apenas foi observado nas profundezas do circo
de Endimiāo, a leste do Mar do Frio, no hemispherio norte, e
no fundo do circo de Grimaldi no Equador, na proximidade do
bordo oriental do astro.
Platāo é uma montanha annular, situada a 51º de latitude
norte por 9º de longitude leste. O circo dʼesta montanha tem
noventa e dois kilometros de comprimento por sessenta e um
de largura.
Barbicane sentiu nāo passar a prumo por cima dʼesta enorme abertura, onde havia um abysmo para sondar, e talvez algum mysterioso phenomeno a prescrutar. Nāo podia, porém, modificar-se a marcha do projectil, que os observadores tinham
de soffrer por força de rigorosa necessidade. Encerrado entre
as paredes de um balāo ou de um projectil ninguem póde dirigil-o.
Por volta das cinco da manhā tinham os viajantes a final transposto o limite septentrional do Mar das Chuvas. As montanhas La Condamine e Fontenelle estavam-lhes uma pela direita, outra pela esquerda. A partir do sexagesimo grau, aquella
parte do disco era absolutamente montanhosa. Representavam-nʼa as lunetas a uma legua, distancia inferior á que se mede
do nivel do mar ao cume do Monte Branco.
Aquella regiāo era semeada de picos e de circos. Na proximidade do septuagesimo grau erguia-se altivo Philolaus, com
uma altura de tres mil e setecentos metros, abrindo uma cratéra elliptica de dezeseis leguas de comprimento por quatro de
largura.
{{nop}}<noinclude></noinclude>
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Erick Soares3
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|133|{{sc|á roda da lua}}|{{sc|viagens maravilhosas}}}}{{rule}}</noinclude>O disco, visto entāo aquella distancia, apparentava um aspecto notavelmente singular. As paizagens appareciam á vista
do observador em condiçōes muito differentes das da Terra,
mas tambem muito inferiores.
Como a Lua nāo tem atmosphera, esta ausencia de envolucro gazoso tem consequencias já demonstradas.
Nāo ha crepusculo na superficie da Lua, a noite segue-se ao
dia e o dia á noite com a subitaneidade de uma lampada que
se apaga on se accende em meio de profunda obscuridade. Nāo
ha tambem ali transiçāo do frio para o calor, que a temperatura desce nʼum instante do grau de agua a ferver para o dos
frios do espaço.
Ha outra consequencia dʼesta ausencia do ar, que é a seguinte: Na Lua, onde nāo chegam os raios do Sol, reina a treva
absoluta. O que na Terra se chama luz diffusa, materia luminosa como que em suspensāo no ar, que cria os crepusculos
e as alvoradas, que produz as sombras e penumbras, e toda a
magia do claro-escuro, nāo existe na Laa.
Dʼahi vem uma brutalidade de contrastes que nāo admitte
outras côres senāo o preto e o branco. Se um selenita abrigar
os olhos dos raios solares, apparecer-the-ha o céu absolutamente negro, brilharāo para elle as estrellas como brilham para
nós nas noites mais escuras.
Imagine-se por isto qual seria a impressāo produzida em
Barbicane e nos dois amigos por aquelle aspecto estranho. A
vista perturbava-se-lhes por forma que nem já percebiam a
distancia respectiva dos differentes planos. Nenhum paizagista
terrestre poderia representar convenientemente aquellas paizagens lunares, cuja dureza o phenomeno do claro-escuro nāo
mitiga. Sāo borrōes de tinta nʼuma pagina em branco, nada
mais.
Nāo se modificou este aspecto mesmo quando o projectil chegado ás alturas do nonagesimo parallelo, distava apenas da
Lua uns cem kilometros. Nem mesmo quando, por volta das
cinco da manhā, o projectil passou a menos de cincoenta kilometros da montanha de Gioja, distancia esta que as lunetas re-<noinclude></noinclude>
bfo0o3ohwul8dx0ghddgd48amwwa8ar
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Erick Soares3
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|134|{{sc|á roda da lua}}|{{sc|viagens maravilhosas}}}}{{rule}}</noinclude>duziam a meio quarto de legua. Parecia entāo que se podia chegar á Lua com a māo.
Parecia impossivel que a bala nāo fosse dentro em pouco
dar de encontro ao astro, ao menos no pólo norte dʼeste, cuja
aresta scintillante se destacava com violencia no fundo negro:
do céu. Miguel Ardan queria até abrir uma das vigias e precipitar-se na superficie lunar. Queda de doze leguas de altura !
Mas isso, para elle, que era ? A tentativa seria aliás inutil, porque se o projectil nāo tinha de alcançar um ponto qualquer do
satellite, tambem Miguel, que ia arrastado pelo movimento
commum, o nāo alcançaria.
Nʼaquelle momento eram seis horas, e apparecia o pólo lunar. O disco apresentava apenas entāo aos viajantes um semi-hemispherio violentamente illuminado; o outro occultava-se nas
trevas.
Subito o projectil transpoz a linha limite entre a luz intensa
e a sombra absoluta, e ficou repentinamente immerso nʼuma
noite profunda.
{{nop}}<noinclude></noinclude>
rq5wlfvok78usjbxn4t836op1hbmueu
Á Roda da Lua (5ª edição)/XIII
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Erick Soares3
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[[cs:Cesta kolem měsíce/Kapitola třináctá]]
[[en:Around the Moon/Chapter XIII]]
[[fr:Autour de la Lune/13]]
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Erick Soares3
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{c|12<br>{{rule|6em}}}}</noinclude>ali traçados com naturalidade, e vigor. M. Littré percorreu o
campo tão vasto dos conhecimentos humanos. Poucos assumptos deixaram de ser tocados por sua laboriosa penna. Seus
numerosos artigos no jornalismo ou nas mais sabias revistas,
seu diccionario de medicina, suas obras de philosophia, de
linguistica, de litteratura, bem como seu diccionario da lingua
franceza, não bastaram ainda á sua actividade intellectual, e é
com pesar que dizia antes de morrer:
{{Fine|«Que de cousas não tenho revolvido em meu espirito?... Se minha velhice tivesse sido mais forte, se a molestia não me tivesse
acabrunhado, eu teria posto mão, com alguns collaboradores, em
uma historia universal, cujo plano havia traçado. »}}
No numero de seus collaboradores, cumpre collocar em primeira plana sua boa mulher, e sua filha. M. Pasteur descreve, com uma simplicidade encantadora, esse sanctuario do
trabalho, e esse remanso intimo de familia:
{{Fine|«Teria Horacio acaso escripto o seu ''Hoc erat in votis'', se a sua
casa de campo se assimilhasse áquella que M. Littré possuia em
Mesnil? Lá se não vê nem o regato de agua viva, nem as frondes
do bosque, nem nada que se parecesse com a abastança, que Horacio havia phantasiado. Só o mais singelo presbyterio da mais
mesquinha das aldeias póde dar uma idéa dʼessa casa, onde tudo
reflecte uma vida de isolamento, de labor e de abnegação. M. Littré tinha o culto da austeridade. Um piedoso respeito deixou todas
as cousas em seu logar, como se devesse elle, de um momento
para outro, ali voltar, e encontrar em seu gabinete livros abertos,
e apontamentos esparsos. Acolá uma mesasinha, onde sua mulher
e sua filha trabalhavam junto dʼelle, e em cima da qual apparece
(visivel testemunho da profunda tolerancia de M. Littré), uma imagem de Christo.).}}
A tolerancia de M. Littré provinha de que seu coração não
participou jamais da perversão do espirito. Os intimos — porque M. Littré não recebia se não intimos — repetem a amenidade de seu trato, o encanto de suas relações, a franqueza de
seu caracter, o extremo de sua dedicação. Os enfermos sobretudo tinham direitos privilegiados aos seus serviços, visto como<noinclude></noinclude>
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Erick Soares3
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{c|12<br>{{rule|4em}}}}</noinclude>ali traçados com naturalidade, e vigor. M. Littré percorreu o
campo tão vasto dos conhecimentos humanos. Poucos assumptos deixaram de ser tocados por sua laboriosa penna. Seus
numerosos artigos no jornalismo ou nas mais sabias revistas,
seu diccionario de medicina, suas obras de philosophia, de
linguistica, de litteratura, bem como seu diccionario da lingua
franceza, não bastaram ainda á sua actividade intellectual, e é
com pesar que dizia antes de morrer:
{{Fine|«Que de cousas não tenho revolvido em meu espirito?... Se minha velhice tivesse sido mais forte, se a molestia não me tivesse
acabrunhado, eu teria posto mão, com alguns collaboradores, em
uma historia universal, cujo plano havia traçado. »}}
No numero de seus collaboradores, cumpre collocar em primeira plana sua boa mulher, e sua filha. M. Pasteur descreve, com uma simplicidade encantadora, esse sanctuario do
trabalho, e esse remanso intimo de familia:
{{Fine|«Teria Horacio acaso escripto o seu ''Hoc erat in votis'', se a sua
casa de campo se assimilhasse áquella que M. Littré possuia em
Mesnil? Lá se não vê nem o regato de agua viva, nem as frondes
do bosque, nem nada que se parecesse com a abastança, que Horacio havia phantasiado. Só o mais singelo presbyterio da mais
mesquinha das aldeias póde dar uma idéa dʼessa casa, onde tudo
reflecte uma vida de isolamento, de labor e de abnegação. M. Littré tinha o culto da austeridade. Um piedoso respeito deixou todas
as cousas em seu logar, como se devesse elle, de um momento
para outro, ali voltar, e encontrar em seu gabinete livros abertos,
e apontamentos esparsos. Acolá uma mesasinha, onde sua mulher
e sua filha trabalhavam junto dʼelle, e em cima da qual apparece
(visivel testemunho da profunda tolerancia de M. Littré), uma imagem de Christo.).}}
A tolerancia de M. Littré provinha de que seu coração não
participou jamais da perversão do espirito. Os intimos — porque M. Littré não recebia se não intimos — repetem a amenidade de seu trato, o encanto de suas relações, a franqueza de
seu caracter, o extremo de sua dedicação. Os enfermos sobretudo tinham direitos privilegiados aos seus serviços, visto como<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{c|13<br>{{rule|6em}}}}</noinclude>no ardor que o levava a investigar «noções de tudo» converteu toda a sua vida nʼum campo de estudos de predilecção:
a medicina.
{{Fine|«Era elle em Mesnil, diz M. Pasteur, o medico de consulta de
toda a aldeia. Prolongando suas vigilias até tres horas da manhã,
a claridade de sua alampada brilhava ao longe durante a noite,
como um phanal, que animava os enfermos. Sabiam que ao primeiro chamado, M. Littré abriria mão de seu trabalho, para ir levar-lhes os desvelos a toda a parte aonde elles estivessem.»}}
Tal foi a vida de M. Littré; vida toda de trabalho, intimidade
e dedicação. Dʼonde vem pois, pergunta M. Pasteur, que fosse
esse homem desconhecido, e mal comprehendido até o ponto
de ser calumniado? A resposta é facil. Ha nas grandes vocações grandes mysterios que escapam ao alcance das turbas
ignaras. O illustre recepiendario continúa depois:
{{Fine|«Sendo as suas opiniões philosophicas o causal dʼisso, é chegado para mim o momento de examinal-as. Não porei outro cuidado
senão o de conservar a minha propria liberdade de pensar.»}}
Antes de seguir M. Pasteur nʼeste exame, cumpre protestar contra a parte indigna que uma certa imprensa attribue
ao clero nos ataques de que M. Littré foi victima. Sem duvida
era dever dos catholicos refutar a philosophia positivista, e
negar as consequencias materialistas de um tal systema.
As obras de M. Littré, ácerca dʼesta materia, eram sujeitas
á critica que, é necessario confessar, lhe não faltou ; mas
houve sempre todo o esmero em não confundir o philosopho
com o homem sabio, e honesto: este foi sempre acatado.
Quando Monsenhor Dupanloup julgou da sua dignidade de bispo
dever deixar a academia franceza por occasião de nʼella entrar
M. Littré, o digno prelado dirigiu-lhe logo uma carta, que se
tornou publica nʼaquelle anno, com o fim de estabelecer clara
e francamente, que, retirando-se dʼaquella illustre corporação,
obedecia a um principio, e que de nenhuma sorte envolvia o
menor desapreço para com o caracter da pessoa, a quem muito
respeitava. M. Littré tinha pelo contrario numerosas sympa-<noinclude></noinclude>
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Erick Soares3
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{c|13<br>{{rule|4em}}}}</noinclude>no ardor que o levava a investigar «noções de tudo» converteu toda a sua vida nʼum campo de estudos de predilecção:
a medicina.
{{Fine|«Era elle em Mesnil, diz M. Pasteur, o medico de consulta de
toda a aldeia. Prolongando suas vigilias até tres horas da manhã,
a claridade de sua alampada brilhava ao longe durante a noite,
como um phanal, que animava os enfermos. Sabiam que ao primeiro chamado, M. Littré abriria mão de seu trabalho, para ir levar-lhes os desvelos a toda a parte aonde elles estivessem.»}}
Tal foi a vida de M. Littré; vida toda de trabalho, intimidade
e dedicação. Dʼonde vem pois, pergunta M. Pasteur, que fosse
esse homem desconhecido, e mal comprehendido até o ponto
de ser calumniado? A resposta é facil. Ha nas grandes vocações grandes mysterios que escapam ao alcance das turbas
ignaras. O illustre recepiendario continúa depois:
{{Fine|«Sendo as suas opiniões philosophicas o causal dʼisso, é chegado para mim o momento de examinal-as. Não porei outro cuidado
senão o de conservar a minha propria liberdade de pensar.»}}
Antes de seguir M. Pasteur nʼeste exame, cumpre protestar contra a parte indigna que uma certa imprensa attribue
ao clero nos ataques de que M. Littré foi victima. Sem duvida
era dever dos catholicos refutar a philosophia positivista, e
negar as consequencias materialistas de um tal systema.
As obras de M. Littré, ácerca dʼesta materia, eram sujeitas
á critica que, é necessario confessar, lhe não faltou ; mas
houve sempre todo o esmero em não confundir o philosopho
com o homem sabio, e honesto: este foi sempre acatado.
Quando Monsenhor Dupanloup julgou da sua dignidade de bispo
dever deixar a academia franceza por occasião de nʼella entrar
M. Littré, o digno prelado dirigiu-lhe logo uma carta, que se
tornou publica nʼaquelle anno, com o fim de estabelecer clara
e francamente, que, retirando-se dʼaquella illustre corporação,
obedecia a um principio, e que de nenhuma sorte envolvia o
menor desapreço para com o caracter da pessoa, a quem muito
respeitava. M. Littré tinha pelo contrario numerosas sympa-<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{c|14<br>{{rule|4em}}}}</noinclude>thias no clero. Honrava-se da amisade do reverendo abbade
Huvelin, que o preparou, e dispoz para uma morte christã,
assim como vivia em intimas relações com o padre Millériot, a
respeito de cujo fallecimento escreveu ao superior dos jesuitas
este bello, e tocante elogio funebre! «É viver alguns dias de
mais o viver para ver morrer homens taes como o padre Millériot! Tinha elle para commigo uma bondade angelica. Amava-me sem que houvesse em mim predicado algum que
podesse justificar aquella affeição que eu não merecia, mas
que gosava como uma graça de que lhe sou muito reconhecido. Vós sabeis melhor do que eu, meu caro padre, que a
graça nos é dada, sem que nós a mereçâmos.» A graça que
almas amadas haviam merecido para M. Littré foi a da conversão, e estamos seguros que é elle feliz de ter por successor
na cadeira academica um sabio ainda mais illustre que elle,
que tem a coragem de lhe estigmatisar uma doutrina, que
foi o erro da sua vida, para exaltar crenças, que foram a consolação da sua morte.
M. Pasteur expõe em alguma palavras a philosophia positivista ; philosophia que tem o triste privilegio de ser hoje seguida por muitos, que, por isso mesmo que a não comprehendem, a acham excellente! Corneille havia dito, ha dois seculos, a um amigo, que lhe indicava quatro versos sonoros, mas
obscuros: Deixae-os como estão: aquelle que os não comprehender, admiral-os-ha por esse mesmo motivo. ''Laisses: qui ne''
''les comprendra pas, les admirera.''
{{Fine|«O principio fundamental de Auguste Comte, diz M. Pasteur, é
pôr de lado toda a investigação metaphysica sobre as causas primeiras e finaes; é reduzir a factos todas as idéas e todas as theorias, e não attribuir o caracter de certeza senão ás demonstrações
da experiencia. Este systema comprehende uma classificação das
sciencias, e uma pretensa lei da historia, que se resume nʼesta affirmação: Que as concepções do espirito humano passam successivamente por tres estados: o estado theologico, o estado metaphysico, o estado scientifico ou positivo.»}}
M. Littré havia-se tornado o apostolo sincero, e perseverante
do positivismo. A primeira causa dʼessa convicção está, con-<noinclude></noinclude>
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Galeria:Enciclopédia Brasileira de Alarico Silveira (1958).pdf
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<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />210 HISTORIAS DA MEIA NOITE</noinclude>VI
Á MESMA.
Côrte, 27 de Novembro.
A sua carta chegou quando estavamos almoçando, e
foi bom tel-a lido depois, porque se a leio antes não
acabava de almoçar. Que história é essa, e quem lhe
metteu na cabeça semelhante cousa? Eu, namorada do
Alberto! Isso é cassoada de mau gôsto, Luiza! Se
alguem lhe mandou dizer tal, teve certamente intenção
de me envergonhar. Se voce o conhecesse, não era
necessário este meu protesto. Ja lhe disse as boas quali¬
dades d'elle, mas os seus defeitos são para mim
superiores ás qualidades. Voce bem sabe como eu sou;
para mim a menor nodoa destroe a maior alvura. Uma
estatua... estatua é o termo proprio, porque o tal Alberto
tem certa rigidez esculptural.
Ah! Luiza, o homem que o ceu me destina ainda
não veiu. Sei que não veiu porque ainda não senti
dentro de mim aquelle estremecimento sympathico que
indica a harmonia de duas almas. Quando elle vier,fique
certa de que sera a primeira a quem eu confiarei tudo.
Dir-me-ha que, se eu sou assim fatalista, devo admit-
tir a possibilidade de um marido sem todas as condições
que exijo.<noinclude></noinclude>
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Á MESMA.
Côrte, 27 de Novembro.
A sua carta chegou quando estavamos almoçando, e
foi bom tel-a lido depois, porque se a leio antes não
acabava de almoçar. Que história é essa, e quem lhe
metteu na cabeça semelhante cousa? Eu, namorada do
Alberto! Isso é cassoada de mau gôsto, Luiza! Se
alguem lhe mandou dizer tal, teve certamente intenção
de me envergonhar. Se voce o conhecesse, não era
necessário este meu protesto. Ja lhe disse as boas quali¬
dades d'elle, mas os seus defeitos são para mim
superiores ás qualidades. Voce bem sabe como eu sou;
para mim a menor nodoa destroe a maior alvura. Uma
estatua... estatua é o termo proprio, porque o tal Alberto
tem certa rigidez esculptural.
Ah! Luiza, o homem que o ceu me destina ainda
não veiu. Sei que não veiu porque ainda não senti
dentro de mim aquelle estremecimento sympathico que
indica a harmonia de duas almas. Quando elle vier,fique
certa de que sera a primeira a quem eu confiarei tudo.
Dir-me-ha que, se eu sou assim fatalista, devo admit-
tir a possibilidade de um marido sem todas as condições
que exijo.<noinclude></noinclude>
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Á MESMA.
Côrte, 27 de Novembro.
A sua carta chegou quando estavamos almoçando, e
foi bom tel-a lido depois, porque se a leio antes não
acabava de almoçar. Que história é essa, e quem lhe
metteu na cabeça semelhante cousa? Eu, namorada do
Alberto! Isso é cassoada de mau gôsto, Luiza! Se
alguem lhe mandou dizer tal, teve certamente intenção
de me envergonhar. Se voce o conhecesse, não era
necessário este meu protesto. Ja lhe disse as boas quali¬
dades d'elle, mas os seus defeitos são para mim
superiores ás qualidades. Voce bem sabe como eu sou;
para mim a menor nodoa destroe a maior alvura. Uma
estatua... estatua é o termo proprio, porque o tal Alberto
tem certa rigidez esculptural.
Ah! Luiza, o homem que o ceu me destina ainda
não veiu. Sei que não veiu porque ainda não senti
dentro de mim aquelle estremecimento sympathico que
indica a harmonia de duas almas. Quando elle vier,fique
certa de que sera a primeira a quem eu confiarei tudo.
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Á MESMA.
Côrte, 27 de Novembro.
A sua carta chegou quando estavamos almoçando, e
foi bom tel-a lido depois, porque se a leio antes não
acabava de almoçar. Que história é essa, e quem lhe
metteu na cabeça semelhante cousa? Eu, namorada do
Alberto! Isso é cassoada de mau gôsto, Luiza! Se
alguem lhe mandou dizer tal, teve certamente intenção
de me envergonhar. Se voce o conhecesse, não era
necessário este meu protesto. Ja lhe disse as boas quali-
dades d'elle, mas os seus defeitos são para mim
superiores ás qualidades. Voce bem sabe como eu sou;
para mim a menor nodoa destroe a maior alvura. Uma
estatua... estatua é o termo proprio, porque o tal Alberto
tem certa rigidez esculptural.
Ah! Luiza, o homem que o ceu me destina ainda
não veiu. Sei que não veiu porque ainda não senti
dentro de mim aquelle estremecimento sympathico que
indica a harmonia de duas almas. Quando elle vier,fique
certa de que sera a primeira a quem eu confiarei tudo.
Dir-me-ha que, se eu sou assim fatalista, devo admit-
tir a possibilidade de um marido sem todas as condições
que exijo.<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />PONTO DE VISTA 217</noinclude>
Engano.
Deus que me fez assim, e me deu ésta percepção
intima para conhecer e amar a superioridade, Deus me
ha de deparar uma creatura digna de mim.
E agora que me expliquei deixe-me ralhar-lhe um
poucQ. Por que motivo dá tão facilmente ouvidos a
uma calúmnia contra mim? Voce que me conhece ha
tanto devia ser a primeira a pôr de quarentena esses
ditos sem senso commum. Porque o não faz ?
Gastou voce duas páginas para defender a Mariqui¬
nhas. Eu não a accuso ; deploro-a. Pode ser que o
noivo venha a ser um excellente marido, mas não creio
que-Bst(| na altura d’ella. E é n’este sentido que eu a
deploro. •
A nossa divergência tem natural explicação. Eu sou
uma moça solteira, cheia de caraminholas, sonhos,
ambições e poesia; voce é já uma dona de casa, es¬
posa tranquillae feliz, mãe de familia dentro de pouco
tempo ; ve a cousa por outro prisma.
Sera isto ?
Parece que a companhialyrica não vem. A cidade
está hoje muito alegre; andam bandas de musica nas
ruas; chegaram boas notícias do Paraguay. Natural¬
mente sahiremos hoje; não tem saudades de ca?
Meus.
Lembranças de todos a seu marido.
Rachel.<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />PONTO DE VISTA 217</noinclude>
Engano.
Deus que me fez assim, e me deu ésta percepção
intima para conhecer e amar a superioridade, Deus me
ha de deparar uma creatura digna de mim.
E agora que me expliquei deixe-me ralhar-lhe um
pouco. Por que motivo dá tão facilmente ouvidos a
uma calúmnia contra mim? Voce que me conhece ha
tanto devia ser a primeira a pôr de quarentena esses
ditos sem senso commum. Porque o não faz?
Gastou voce duas páginas para defender a Mariqui-
nhas. Eu não a accuso; deploro-a. Pode ser que o
noivo venha a ser um excellente marido, mas não creio
que esteja na altura d’ella. E é n’este sentido que eu a
deploro.
A nossa divergência tem natural explicação. Eu sou
uma moça solteira, cheia de caraminholas, sonhos,
ambições e poesia; voce é já uma dona de casa, es-
posa tranquilla e feliz, mãe de familia dentro de pouco
tempo; ve a cousa por outro prisma.
Sera isto?
Parece que a companhia lyrica não vem. A cidade
está hoje muito alegre; andam bandas de musica nas
ruas; chegaram boas notícias do Paraguay. Natural-
mente sahiremos hoje; não tem saudades de ca?
Adeus.
Lembranças de todos a seu marido.
Rachel.<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />218 HISTORIA DA MEIA NOITE</noinclude>VIII
Á MESMA
Côrte, 20 de Dezembro.
Tem razão; pareço ingrata. Ha quasi um mez que
lhe não escrevo, apezar de ter recebido ja duas cartas.
Seria longo explicar ésta démora, e eu infelizmente
não tenho tempo para tanto, porque estão aqui, alguns
dias, as primas Alvarengas.
Como que então, voce confessa que apenas me quiz
experimentar? Eu logo vi que ninguém lhe poderia
dizer semelhante cousa a respeito do Dr. Alberto.
O casamento da Mariquinhas está marcado para ves-
pera de Reis. Iremos assistir ao sacrifício. Desculpe-me,
Luiza; bem sabe como sou sarcastica, e ás vezes...
Desculpe-me, sim?
E todavia, quer saber uma cousa? Mudei de opinião
a certos respeito. Hoje penso que antes o pae que o
filho. Que espirito frívolo! que sujeito superficial e
tolo é o tal Alberto! O pae é grave e sabe ser ama-
vel; e é amavel sem deixar de ser grave. Tem uma
distincção própria, uma conversa animada, é enge-
nhoso e sagaz.
Mil vezes o velho... para ella.<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />PONTO OE VISTA 219</noinclude>Pergunta-me o que farei eu no caso de nunca en-
contrar o ideial que procuro? Ja lhe disse: n’esse caso
fico solteira. O casamento é uma grande cousa, é a
flor dos estados, concordo; mas é mister que não seja
um captiveiro, e captiveiro é tudo o que não realisa as
nossas aspirações íntimas.
Agradeço os seus conselhos, mas quer que lhe diga?
Voce falla como quem é feliz; parece-lhe que o casa-
mento, quaesquer que sejam as condições, é um ante-
gôsto do paraiso.
Creio que nem sempre ha de ser assim.
Verdade é que, dependendo as cousas das impres-
sões de cada um, a Mariquinhas póde ser feliz, visto
que o marido que escolheu parece fallar-lhe ao cora-
ção. Não o nego; mas, n’esse caso, continúo a lasti-
mal-a, porque (repito) não comprehendo a união de
uma flor com uma carapuça. E não escrevo mais por
não dizer mal della. Perdoe-me voce éstas tolices, e
creia que sou amiga, agora e sempre.
Rachel.
VIII
Á MESMA
Côrte, 8 de Janeiro.
Casou-se a Mariquinhas. Festa íntima, mas brillian-
te. A noiva estava explendida, risonha, orgulhosa. O<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />220 HISTORIAS DA MEIA NOITE</noinclude>mesmo se póde dizer do noivo, que parecia ainda mais
moço do que me parecera uma vez no theatro, a ponto
de me fazer desconfiar da velhice d’elle. A cada ins-
tante cuidava que o homem tirava a mascara e con-
fessava ser irmão do filho.
Perguntar-me-he voce se eu não tive inveja?
Confesso que sim.
Não sei bem se era inveja; confesso porêm que sus-
pirei quando vi a nossa formosa Mariquinhas com o
seu veu e a sua grinalda de flores de laranja, derra-
mar um olhar tão celeste em torno de si, feliz por se
despedir d’este mundo de futilidades como é a vida
de uma moça solteira.
Suspirei, é verdade.
Se n’aquella mesma noite eu podesse escrever o
que senti, acredite voce que teria uma página de
litteratura digna de figurar nos jornaes.
Hoje tudo passou.
O que não passou, entretanto, porque existia
antes e existirá sempre, porque nasceu commigo e
cammigo morrerá, é este sonho de uns amores que
eu nunca vi na terra, uns amores que eu não
posso exprimir, mas que devem existir visto que
eu tenho a imagem d’elles no espirito e no cora-
ção.
Mamãe, quando me ve aborrecida e devaneadora,
costuma perguntar-me se estou respirando as nuvens.
Ella ignora |talvez| que exprime com essa palavra<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />PONTO DE V1STA 221</noinclude>o estado do meu espirito. Pensar n’estas cousas
não é ir respirar as nuvens la tão longe da terra?
Acabo de reler o que escrevi, e riscaria tudo
se tivesse mais papel para escrever. Infelizmente
não tenho, é meia noite, e ésta carta ha de seguir
amanhã cedo. Risque pois o que ahi fica escripto;
não vale a pena guardar tolices.
Novidade não ha que mereça a pena de men-
cionar. Esquecia-me dizer-lhe que achei uma ver-
dadeira qualidade no Dr. Alberto. Adivinha? Dansa
admiravelmente. Ma lingua! dirá voce. E para que
não diga mais nada, aqui me fico.
Rachel.
IX.
Á MESMA
Isto é apenas um bilhetinho. Dou-lhe notícia de
que vamos ter aqui uma apresentação familiar, como
faziiamos no collegio. O Dr. Alberto foi encarregado
de escrever a comédia; affianção-me que ha de sahir
boa. Representa commigo a Carlota. Os homens
são o primo Abreo, o Juca e o Dr. Rodrigues.
Ah! se voce ca estivesse!<noinclude></noinclude>
5lf6hmbeazg9ba2vdlz0g8lz2ib3zpl
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<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />222 HISTORIAS DA MEIA NOITE</noinclude>X.
D. Luiza a D. Rachel.
Juiz de Fóra, 15 de Janeiro.
Meu marido quer ir á côrte no fim do mez que
vem. Ver-nos-hemos emfim depois de alguns mezes
de separação. Escrevo apenas para lhe dar ésta
notícia que voce ha de estimar de certo.
E ao mesmo tempo o meu fim é prevenil-a, afim
de que procure disfarçar na presença aquillo que
me disfarça no papel.
Adeus.
Luiza.
XI.
D. Rachel a D. Luiza
Côrte, 20 de Janeiro.
0 que é que eu disfarço no papel? Estou a
meditar, a esquadrinhar, e nada descubro. Podia
imaginar que voce se refere ao assumpto do Al-
berto; mas depois do que eu lhe escrevi seria
demasiada insistência...
Explique-se.<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />PONTO DE VISTA 223</noinclude>Quanto á noticia que me dá de que vem ca, é
para mim a sorte grande. Por mais que eu queira
explicar no papel o prazer que sinto com isto,
não posso. Não sei escrever; não me acodem as
palavras proprias. 0 Dr. Alberto (o tal!) dizia
outro dia que a lingua humana é cabal para dizer
o que se passa no espirito, mas incapaz de dizer
o que vem do coração. E accrescentou ésta sen-
tença que é engenhosa, mas velha. Com os lábios
falla a cabeça, com os olhos o coração.
Voce pôrem adivinhará o que eu sinto e apres-
sará a sua vinda. E o nenê?
Rachel.
XII
Á MESMA
Côrte, 28 de Janeiro.
Faz um calor insupportavel; mas como eu abri a ja-
nella que dá para o jardim, estou a ver o ceu «todo
recamado de estrêllas» como dizem os poetas, e o es-
pectáculo compensa o calor. Que noite, minha Luiza!
Gósto immensamente destes grandes silêncios, por que
então ouço-me a mim mesma, e vivo mais em cinco mi-
nutos de solidão do que em vinte horas de bulicio.
A Mariquinhas Rocha esteve ésta noite ca em casa<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />224 HISTORIAS DA MEIA NOITE</noinclude>com o marido. Ambos parecem felizes, ella ainda mais
do que elle, o que se me afigura completa inversão das
leis naturaes.
Não se admira de me ouvir fallar em «leis natu-
raes?» A ideia não é minha, é do proprio enteado, o
Dr. Alberto. Conversamos os dous a respeito das boas
e santas qualidades de' Mariquinhas, e eu dizia o que
ella foi sempre desde creança.
— Creança é ainda ella, observou elle sorrindo. Não
posso chamar madrasta a uma creatura que parece
antes minha irmã mais moça.
— Na edade, sim, tornei eu; mas na circumspecçâo
e na compostura é positivamente mais velha que o
senhor.
Elle sorriu, mas de um sorriso amarello, e con-
tinuou:
— Meu pae é feliz; minha madrasta parece ainda
mais feliz que meu pae. Não é isto uma inversão das
leis naturaes?
Critique se lhe parece, a opinião do filho, mas
aproveito a occasião para dizer que na sua última
carta ha duas linhas em que parece ter um resto de
suspeita. Mande-me dizer como quer que a convença
de que elle é para mim uma creatura egual a tantas
outras?
Ande, confesse que é cruel commigo, e disponha-se
a um sermão na primeira occasião em que estivermos
juntas.<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />PONTO DE VISTA</noinclude>Sabe quem eu vi hoje? Dou-lhe um doce se adivi-
nhar. O Garcia, aquelle Garcia que a nam.... Não,
não, paremos aqui.
Rachel.
XIII
D. LUIZA A D. RACHEL
Juiz de Fóra, 10 de Fevereiro.
Não confesso nada; não fui cruel. Tive uma suspeita
e preferi dizel-a a guardal-a. A amisade manda isto
mesmo. Porque razão deixaríamos nós aquella fran-
queza e confiança do tempo do collegio?
Acredito que realmente nada ha, mas acredito tam-
bem outra cousa. Estou a ver que é alguma figura
grotesca, e que voce foi antes offendida na vaidade que
no coração. Va, confesse isso.
Sabe voce uma cousa? Está-me parecendo mais
poeta do que era, mais romanesca, mais cheia de cara-
minholas. Bem sei que a edade explica muita cousa;
mas ha um limite, Rachel; não confunda o romance
com a vida, ou viverá desgraçada....
. . . Um sermão! ahi começava eu a fazer-lhe um
sermão chocho e insulso, e sobretudo ineFficaz. Ve-
nhamos a cousas mais de prosa. Meu marido quer
entrar na política. Não se arrepia com esta palavra?
Política e lua de mel, que duas cousas tão inimigas!<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />PONTO DE VISTA 225</noinclude>Sabe quem eu vi hoje? Dou-lhe um doce se adivi-
nhar. O Garcia, aquelle Garcia que a nam.... Não,
não, paremos aqui.
Rachel.
XIII
D. LUIZA A D. RACHEL
Juiz de Fóra, 10 de Fevereiro.
Não confesso nada; não fui cruel. Tive uma suspeita
e preferi dizel-a a guardal-a. A amisade manda isto
mesmo. Porque razão deixaríamos nós aquella fran-
queza e confiança do tempo do collegio?
Acredito que realmente nada ha, mas acredito tam-
bem outra cousa. Estou a ver que é alguma figura
grotesca, e que voce foi antes offendida na vaidade que
no coração. Va, confesse isso.
Sabe voce uma cousa? Está-me parecendo mais
poeta do que era, mais romanesca, mais cheia de cara-
minholas. Bem sei que a edade explica muita cousa;
mas ha um limite, Rachel; não confunda o romance
com a vida, ou viverá desgraçada....
. . . Um sermão! ahi começava eu a fazer-lhe um
sermão chocho e insulso, e sobretudo ineFficaz. Ve-
nhamos a cousas mais de prosa. Meu marido quer
entrar na política. Não se arrepia com esta palavra?
Política e lua de mel, que duas cousas tão inimigas!<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />226 HISTORIAS DA MEIA NOITE</noinclude>Mas sera o que Deus quizer. Lembranças delle e mi-
nhas a sua mamãe e a voce. Até breve.
Luiza.
XIY
D. RACHEL A D. LUIZA
Côrte, 15 de Fevereiro.
Engana-se quando suppõe que o Dr. Alberto é uma
ligura grotesca; ja lhe disse que é rapaz elegante;
e até aquelle ar compassado e esculptural que eu lhe
achava, até isso parece ter desapparecido desde que
tem intimidade comnosco.
Não foi pois a minha vaidade que se offendeu; não
foi tambem o meu coração. Senti que voce não me
acreditasse, nada mais.
Eu podia fazer-lhe agora uma dissertação a respeito
do amor; mas retraio a penna por me lembrar que iria
ensinar o padre-nosso ao vigário.
Seu marido quer entrar na política? Vae voce admi-
rar-se da minha opinião a este respeito, que não pa-
rece opinião de uma devaneadora, como voce me
chama. Eu penso que a política para voce tem uma
onça de inconvenientes e uma libra de vantagens.
A politica hade ser uma rival, mas pesadas as cousas
antes essa que outra. Essa ao menos occupa o espirito<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />226 HISTORIAS DA MEIA NOITE</noinclude>Mas sera o que Deus quizer. Lembranças delle e mi-
nhas a sua mamãe e a voce. Até breve.
Luiza.
XIV
D. RACHEL A D. LUIZA
Côrte, 15 de Fevereiro.
Engana-se quando suppõe que o Dr. Alberto é uma
ligura grotesca; ja lhe disse que é rapaz elegante;
e até aquelle ar compassado e esculptural que eu lhe
achava, até isso parece ter desapparecido desde que
tem intimidade comnosco.
Não foi pois a minha vaidade que se offendeu; não
foi tambem o meu coração. Senti que voce não me
acreditasse, nada mais.
Eu podia fazer-lhe agora uma dissertação a respeito
do amor; mas retraio a penna por me lembrar que iria
ensinar o padre-nosso ao vigário.
Seu marido quer entrar na política? Vae voce admi-
rar-se da minha opinião a este respeito, que não pa-
rece opinião de uma devaneadora, como voce me
chama. Eu penso que a política para voce tem uma
onça de inconvenientes e uma libra de vantagens.
A politica hade ser uma rival, mas pesadas as cousas
antes essa que outra. Essa ao menos occupa o espirito<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />PONTO DE VISTA 227</noinclude>e a vida; mas deixa o coração livre e puro. Demais, eu
nem sempre sou a scismadora quem tens na cabeça;
sinto um grãosinho de ambição commigo, a ambição de
ser... ministra. Ri-se? Eu tambem me rio, o que prova
que o meu espirito anda despreoccupado e livre, livre
como a penna que me corre agora no papel, produzindo
uma lettra que não sei se entenderá. Adeus.
Rachel
XV
O Dr. Alberto a Rachel
18 de fevereiro.
Perdoe-me a audacia; peço-lhe de joelhos uma res-
posta que os seus olhos teimam em me não dar. Não
lhe digo no papel o que sinto; não o poderia exprimir
cabalmente. Mas o seu espirito hade ter comprendido o
que se passa no meu coração, hade ter lido no meu
rosto aquillo que eu nunca me atreveria a dizer de viva
voz.
Alberto.
XVI
D. Rachel a D. Luiza
21 de fevereiro.
Mamãe estava com disposições de ir visital-a ; mas eu
infelizmente não me acho boa, e adiamos a viagem.<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />228 HISTORIAS DA MEIA NOITE</noinclude>Quando desempenha voce a sua palavra vindo passar
alguns dias na côrte? Conversaríamos muito.
Rachel.
XVII
Á MESMA
5 de março.
Não é carta; ó apenas um bilhetinho. Não me dira
o que é o coração humano? Um logogrypho. Mysterio!
exclamará voce ao ler estas linhas. Pois sera.
Rachel.
XVIII
Alberto a D. Rachel
8 de março.
Oh! não sabe como lhe agradeço a sua carta! Enfim
veio! Foi um raio de luz entre as sombras da minha
incertesa. Sou amado? Não me illude? Tambem sente
ésta paixão que me devora o peito, capaz de levar-me
ao ceu, capaz de levar-me ao inferno?
Tem razão quando me pergunta se o não percebera
ja nos seus olhos. É verdade que eu julguei 1er n’elles
a minha felicidade. Mas podia illudir-me; suppuz que
a suprema felicidade não era tão prompta, e se me
illudisse, não sei se viveria....<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />PONTO DE VISTA 229</noinclude>Por que razão duvida de mim? por que motivo
receia que o meu amor seja um passatempo de sala?
Que mortal haveria n’este mundo que brincasse com a
coroa de gloria trazida á terra nas mãos de um anjo?
Não, Rachel.. perdão se lhe chamo assim! Não, o
meu amor é immenso, casto, sincero, como os verda-
deiros amores.
Uma so palavra sua e podemos converter ésta paixão
no mais doce e delicioso estado de bemaventuraça. Quer
ser minha espôsa? Diga, responda essa palavra.
Alberto.
XIX
D. LUIZA A D. RACHEL.
Juiz de Fóra, 10 de março
O coração é um mar, sujeito á influencia da lua e
dos ventos. Serve-lhe ésta definição? Pena foi que o
bilhetinho não tivesse mais quatro linhas: saberia
agora tudo. Ainda assim adivinho alguma cousa; adivi-
nho que ama.
Luiza.
XX
Á MESMA
Juiz de Fóra, 17 de março
A 10 deste mez escrevi-lhe uma carta de que ainda
não obteve resposta.<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />230 HISTORIAS DA MEIA NOITE</noinclude>Porque ?
Ja me lembrou se estaria doente; mas creio que se
assim fosse ter-me-hiam mandado dizer.
Èsta carta vae por mão propria; o portador não volta
ca, mas sendo por mão propria tenho certeza de que
lhe sera entregue. E quero que me responda imme-
diatamente.
Va; um esfôrço.
Adeus.
Luiza.
XXI
D. LUIZA A D. RACHEL
Juiz de Fóra, 24 de março.
Nada até hoje! Que é isso, Rachel?
O portador da minha carta anterior mandou-me dizer
que lhe havia entregue em mão propria; não estava
doente; porque razão este esquecimento? Ésta é a
última; se me não escrever, acreditarei que outra
amiga lhe merece mais, e que voce esqueceu a confi-
dente do collegio
Luiza.
XXII
D. RACHEL A D. LUIZA
Côrte, 30 de março.
Esquecer-me de voce? Está louca ! Onde acharia eu
melhor amiga nem tão boa? Não tenho escripto, é ver-<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />230 HISTORIAS DA MEIA NOITE</noinclude>Porque?
Ja me lembrou se estaria doente; mas creio que se
assim fosse ter-me-hiam mandado dizer.
Èsta carta vae por mão propria; o portador não volta
ca, mas sendo por mão propria tenho certeza de que
lhe sera entregue. E quero que me responda imme-
diatamente.
Va; um esfôrço.
Adeus.
Luiza.
XXI
D. LUIZA A D. RACHEL
Juiz de Fóra, 24 de março.
Nada até hoje! Que é isso, Rachel?
O portador da minha carta anterior mandou-me dizer
que lhe havia entregue em mão propria; não estava
doente; porque razão este esquecimento? Ésta é a
última; se me não escrever, acreditarei que outra
amiga lhe merece mais, e que voce esqueceu a confi-
dente do collegio
Luiza.
XXII
D. RACHEL A D. LUIZA
Côrte, 30 de março.
Esquecer-me de voce? Está louca ! Onde acharia eu
melhor amiga nem tão boa? Não tenho escripto, é ver-<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />PONTO DE VISTA 231</noinclude>dade, por mil rasões, a qual mais justa, sendo a prin-
cipal dellas, ou antes a que as resume todas, uma
razão... Não sei como lhe diga isto.
Amor?
Ah! Luiza, o mais puro e ardente que póde imagi-
nar, e o mais inesperado tambem. Aquella devanea-
dora que você conhece, a que vive nas nuvens, viu la
mesmo das nuvens o esperado do seu coração, tal
qual o sonhára um dia e desesperára de achar
jamais.
Não lhe posso dizer mais nada; não sei. Tudo o que
eu poderia escrever aqui estaria abaixo da realidade.
Mas venha, venha, e talvez leia no meu rosto a felici-
dade que experimento, e no ''delle'' o signal característico
daquella superioridade que eu ambicionei sempre e tão
rara é na terra.
Emfim, sou feliz !
Rachel.
XXII
D. LUIZA A D. RACHEL
Juiz de Fóra, 8 de abril.
Chegou emfim uma carta, e chegou a tempo, por
que eu ja estava disposta a esquecer-me de voce. Ainda
assim não lhe perdoava, se não fôsse a razão... Ceus!
que razão! Ama emfim? achou o homem... quero
dizer, o archanjo que procurava a minha scismadora?<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />232 HISTORIAS DA MEIA NOITE</noinclude>Que figura tem? é bonito? é alto? é baixo? Va, di-
ga-me tudo.
Agora vejo que estive a pique de fazel-a perder a sua
felicidade. Tanto lhe fallei no tal Dr. Alberto, que, era
bém possivel, como ás vezes acontece, vir a namo-
rar-se delle, e então quando o oütro chegasse... era
tarde.
E diga-me; sera elle velho como- o da Mariquinhas
Rocha? Não se zangue, Rachel, mas o peixe morre
pela boca, e era possivel que voce fosse castigada por ter
fallado della. Pela minha parte, não acharia que dizer,
uma vez que elle a amasse e fosse homem digno de
casar com a minha Rachel. Em todo o caso, antes
um moço.
Não me atrevo a pedir-lhe o retrato; mas meu ma-
rido pede-lh’o. Não se zangue, eu contei tudo, e elle
manda-lhe muitos parabéns. Os meus, irei eu mesma
leval-os.
Luiza.
XXIV
D. RACHEL AO DR. ALBERTO
10 de abril.
Estou müito zangada por não teres vindo hontem;
cedo começas a esquecer-me.
Vem hoje ou eu fico zangada. Ao mesmo tempo<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />PONTO DE VISTA 233</noinclude>quero que me tragas um retrato dos teus; é um
segredo.
Hontem perdeste muito; esteve aqui a G., e natural-
mente sentiu a tua falta. Sentes isso, não? Pobre da
Rachel! Adeus.
Rachel.
XXV
O DR. ALBERTO A D. RACHEL
40 de abril.
Perdoa-me se não fui hontem la; em compensação
pensei muito em ti.
Teu pae pediu-me que eu fosse jantar hoje com a
família; espera-me cedo.
Levarei nessa occasião o meu retrato, sem saber
para que é; mas espero que não sera para cousa ma.
Quanto á G... eu ja não sei como te heide de dizer
que é uma delambida de quem não faço caso; se
queres, limitar-me-hei a comprimental-a apenas. Que
mais desejas?
Adeus, minha desconfiada. Crê que eu te amo muito,
muito e muito, agora e sempre.
Teu
Alberto.<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />234 HISTORIAS DA MEIA NOITE</noinclude>XXVI
D. RACHEL A D. LUIZA
17 de abril.
Uma grande noticia! Fui hontem pedida a papae, e
vou casar. Se soubesse como sou feliz! .. Quizera que
estivesse aqui para dar-lhe muitos e muitos beijos. Mas
hade vir ao casamento, não? Se não vier, declaro que
não caso.
Naturalmente adivinha que o retrato que vae dentro
desta carta é o do meu noivo. Não é bonito? Que dis-
tincção! que intelligencia! que espirito!... A alma,
sobretudo, não creio que Deus mandasse a este mundo
nenhuma outra que se lhe compare. Creio que eu não
merecia tanto.
Venha depressa; o casamento hade ser em maio. Dê
a notícia a seu marido.
Rachel.
XXVII
D. LUIZA A D. RACHEL
Juiz de Fóra, 22 de abril.
Que cabeça! disse tudo menos o nome do noivo!
Luiza.<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />PONTO DE VISTA 235</noinclude>XXVIII
D. RACHEL A D. LUIZA
Corte, 27 de abril
Tem razão; sou uma cabeça no ar. Mas a felicidade
explica ou desculpa tudo. O meu noivo é o Dr. Alberto.
Rachel.
XXIX
D. LUIZA A D. RACHEL
Juiz de Fóra, 1° de maio.
! ! !
Luiza.
FIM DO PONTO DE VISTA<noinclude></noinclude>
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/* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: VIAGENS MARAVILHOSAS AOS MUNDOS CONHECIDOS E DESCONHECGCIDOS Por JULIO VERNE Edição de luxo, em oitavo grande, papel 18 gravuras superior, da edicáo franceza ilustrada com em numero de toda 3:000 Prego em moeda forto dos volumes publicados: Da terra á lua, 4 vol. com grav. 3. edicáo... A roda da lua, L vol. co A 43 O cataclismo cosmico, AA 2.4 parte, Os habitantes 5900 AN 4 Avoltadomundoem80días,A vol com 58 gray,...
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<noinclude><pagequality level="1" user="Sintegrity" />{{rvh|Adv|{{sc|á roda da lua}}|{{sc|viagens maravilhosas}}}}{{rule}}</noinclude>VIAGENS MARAVILHOSAS
AOS MUNDOS CONHECIDOS E DESCONHECGCIDOS
Por JULIO VERNE
Edição de luxo, em oitavo grande, papel
18 gravuras
superior,
da edicáo franceza
ilustrada com
em numero
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toda
3:000
Prego em moeda forto dos volumes publicados:
Da terra á lua,
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<noinclude><pagequality level="3" user="Sintegrity" />{{rh|58|{{uc|Contos infantis}}|58}}{{lh}}</noinclude>XXIII
'''Mimi ou a cabrinha cinzenta'''
N ’uma aldeia solilaria, entre montanhas, vi-
via n’um casebre arruinado e tosco uma fami-
lia pobre. 0 homem lidava no campo, a mulher
acompanhava-o na faina deixando em casa a
amammentar o filhinho uma cabra cinzenta, que
era o seu descanço e toda a sua fortuna.
O menino crescia gordo, nédio, bem tratado;
a cabrinha, a bôa cabrinha, que dava pelo nome
de Mimi, acariciava-o, tinha para elle todos os
desvellos! Passou a primavera, passou o verão,
passou o outomno, chegou emfim o inverno. Os
campos não davam sustento; veio o tempo da
cruel necessidade!
Os pobres trabalhadores voltaram para debai-
xo das telhas do seu cazebre, por onde entrava
o frio gemendo n'uns soluços, que lhes feriam<noinclude></noinclude>
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'''Mimi ou a cabrinha cinzenta'''
N ’uma aldeia solitaria, entre montanhas, vi-
via n’um casebre arruinado e tosco uma fami-
lia pobre. 0 homem lidava no campo, a mulher
acompanhava-o na faina deixando em casa a
amammentar o filhinho uma cabra cinzenta, que
era o seu descanço e toda a sua fortuna.
O menino crescia gordo, nédio, bem tratado;
a cabrinha, a bôa cabrinha, que dava pelo nome
de Mimi, acariciava-o, tinha para elle todos os
desvellos! Passou a primavera, passou o verão,
passou o outomno, chegou emfim o inverno. Os
campos não davam sustento; veio o tempo da
cruel necessidade!
Os pobres trabalhadores voltaram para debai-
xo das telhas do seu cazebre, por onde entrava
o frio gemendo n'uns soluços, que lhes feriam<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" /></noinclude>{{t2|POSER, POSE}}{{traço}}{{t3|XXI}}
Não sei como a Policia me consente ainda
andar livremente pelas ruas d’esta cidade!... Estes
neologismos têm, contra a minha expectativa, alvorotado
o Municipio Neutro, (que n’este assumpto
não se mostrou ''neutro'') e até algumas provincias do
Imperio, aquellas, d’onde por mais proximas da
capital, me hão çhegado noticias. Clero, nobreza,
e povo, tudo está em revolução!... A imprensa
diaria, e periodica (não se tome por ''preconnicio'' o
que estou dizendo) — puzeram-se do meo lado. —
Matei o {{lang|fr|''pince-nez''}}, mandando dar-lhe um tiro de
bala por um bravo soldado, de nome — ''Nasoculos'':
os jornaes têm annunciado este grande feito em
caracteres colossaes. — Nos bailes em noute çhuvosa
as formosas damas pedem, ao sahir, o ''focale;''
porque o {{lang|fr|''cache-nez''}} morreu de ''morte natural''.
Eu tenho estado em maré de inaudita felicidade!
Recebi de presente um rico lampeão, e no bilhete,
que acompanhava o mimo, liam-se estas palavras:
«Este lampeão com o seo ''lucivelo'' offerece-o o<noinclude></noinclude>
iws5062l6epbc80gzogpiuw76avk78j
Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/112
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />68</noinclude>abaixo assignado ao auctor dos neologismos, etc.»
Tive tambem um delicado convite para um ''convescóte''
(o fallecido {{lang|en|''pic-nic''}}) nas Paineiras, e á mesa
juncto de cada prato estava impressa em lindo papel
a lista das viandas, com o titulo ''Chardapio''
(antigo {{lang|fr|''menu''}}) em lettras douradas. De volta estive
em um saráo (a {{lang|fr|''soirée''}} foi-se), em que ouvi quasi
todas as moças repetirem alegres o nome ''choribel''
(o velho, e commercial {{lang|fr|''carnet''}}) como para mostrarem
que tinham acceitado o neologismo.
A orchestra era excellente, e começou tocando
uma linda ''Protophonia'' (aquelle insupportavel gallicismo
''ouvertura'').
N’esse baile, por observar e admirar tamanha
mudança na linguagem, dizia a outro um rapaz,
que não era nenhum ''plutenil''; ({{lang|fr|''parvenu''}} d’outros
tempos) mas um ''ludambulo'' de bom gosto (os ''britannelhos''
diriam {{lang|en|''tourist''}}):
— Elle tem feito neologismos innegavelmente
bons; ha porém palavras em francez intraduziveis,
por exemplo, {{lang|fr|''poser''}}.
— É verdade; accudiu o outro; é verdade;
{{lang|fr|''poser''}}, que os francezes empregam, quando querem
exprimir que o pintor colloca convenientemente,
em posição artistica, a pessoa, que vae ser retratada.
A proposito d’essa conversa fiz então o presente
neologismo para traduzir o tal — {{lang|fr|''poser''}}.
{{nop}}<noinclude></noinclude>
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Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/113
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />{{d|69}}</noinclude>{{lang|fr|''Poser''}} é verbo francez; vem do substantivo
{{lang|fr|''pose''}}, que quer dizer ''attitude, postura'', legitimo significado de {{lang|fr|''pose''}}.
Ora, tendo os francezes formado do substantivo
{{lang|fr|''pose''}} (postura) o verbo {{lang|fr|''poser''}}, façamos nós
tambem a mesma cousa: do substantivo ''postura''
creemos um verbo.
De ''cura'' formou-se o verbo ''curar''; de ''dura durar;'' de ''escriptura escripturar;'' de ''figura figurar;'' de ''mistura misturar;'' de ''moldura moldurar;'' de procura procurar; de ''tortura torturar;'' porque não se fará de ''postura posturar?''
Seja portanto ''posturar'' traducção de {{lang|fr|''poser''}},
verbo activo transitivo; e tenha como significação
''dar postura, collocar na postura''.
{{lang|fr|''Poser''}} não indica simplesmente ''pôr''; mas ''pôr'' em {{lang|fr|''pose''}} (posição artistica); analogamente ''posturar'' não é simplesmente ''pôr'', porém ''pôr em uma posição artistica'' (postura).
E creio que os dous mocinhos do baile, quando lerem este artigo, dar-se-hão por satisfeitos; e sinão, que lhes façam muĩto bom proveito o seo {{lang|fr|''poser''}}, e a sua {{lang|fr|''pose''}}.<noinclude>{{traço}}</noinclude>
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Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/I/XXI
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<pages index="Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf" from=111 to=113 header=1 />
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/* Sem texto */
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="0" user="Trooper57" /></noinclude><noinclude></noinclude>
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/* Sem texto */
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="0" user="Trooper57" /></noinclude><noinclude></noinclude>
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Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/119
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/* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: {{t2|CHARIVARI}}{{traço}}{{t3|XXIII}} Para tractar do neologismo, que deve substituir a palavra franceza Charivari, não posso deixar de historiar o termo. Designavam outr’ora os francezes pelo nome de Charivari um divertimento, que consistia em reunir-se maior ou menor numero de pessoas juncto á casa de uma velha viuva, quando esta contrahia novas nupcias. Essa reunião era á noute, e os gaiatos munidos de caçarolas, frigideiras, sinos...
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>{{t2|CHARIVARI}}{{traço}}{{t3|XXIII}}
Para tractar do neologismo, que deve substituir
a palavra franceza Charivari, não posso deixar de
historiar o termo.
Designavam outr’ora os francezes pelo nome
de Charivari um divertimento, que consistia em
reunir-se maior ou menor numero de pessoas juncto
á casa de uma velha viuva, quando esta contrahia
novas nupcias.
Essa reunião era á noute, e os gaiatos munidos
de caçarolas, frigideiras, sinos, timbales, e
tachos batiam e rebatiam a poncto de ensurdecer,
fazendo ao mesmo tempo algazarra descommunal,
assuadas, emfim uma matinada insupportavel.
Foi a palavra Charivari formada do celtico
Chari (jogo, divertimento), e vari (pena, incommodo);
porque esse diabolico concerto instrumental
e vocal só tinha por fim affligir, e incommodar
os noivos.
{{nop}}<noinclude></noinclude>
gjb3zxpob5ugj8ljsy3migxb6z3ldjn