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<noinclude><pagequality level="3" user="JppBr98" />{{rh||{{sc|ernesto de tal}}|151}}</noinclude>felicidade das mãos, sem ao menos merecer a sua estima, porque o senhor despreza-me; sem ao menos
saber o que é essa calúmnia para desmentil-a ou desmascaral-a…
— É capaz d’isso? perguntou Ernesto com fogo. É capaz de confundir a calúmnia ?
— Sou, disse ella com um magnifico gesto de dignidade.
Ernesto expoz em resumo a conversa que tivera com o rapaz de nariz comprido, e concluiu dizendo que víra uma carta d’ella. Rosina ouviu callada a narração ; tinha o peito offegante; sentia-se a commoção que a dominava. Quando elle acabou, soltou uma torrente de lagrymas.
— Meu Deus! disse baixinho Ernesto, podem ouvil-a.
— Não importa, exclamou a moça; estou disposta a tudo…
— Diga-me, pode negar o que lhe acabo de contar ?
— Tudo, não; alguma cousa é verdade, respondeu ella com voz triste.
— Ah !
— A promessa de casamento é mentira ; não houve mais que duas cartas, duas apenas, e isso… por sua culpa…
— Por minha culpa ! exclamou Ernesto tão assombrado como se acabasse de ver um dos castiçaes a dansar.
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<noinclude><pagequality level="3" user="JppBr98" />{{rh|152|{{sc|historias da meia noite}}}}</noinclude>— Sim, repetiu ella, por sua culpa. Não se lembra? Tinha-se arrufado uma vez commigo, e eu… foi uma loucura… para metel-o em brios, para vingar-me… que loucura!… correspondi ao namôro d’aquelle individuo sem educação… foi demencia minha, bem vejo… Mas que quer? eu estava despeitada…
A alma de Ernesto ficou fortemente abalada com ésta exposição que a moça lhe fazia dos acontecimentos. Era claro para elle que Rosina negaria tudo, se o seu procedimento tivesse alguma intenção má; a carta, diria que era imitação da sua lettra. Mas não; ella confessava tudo com a mais nobre e rude singellesa deste mundo; somente, — e nisto estava a chave da situação, — a moça explicava a que impulsos de despeito cedêra, mostrando assim, se podemos comparar o coração a um pastel, debaixo do envolucro da {{sic|levianvidade|leviandade}} a nata do amor.
Decorreram alguns segundos de silêncio, em que a moça tinha os olhos pregados no chão, na mais triste e melancholica attitude que jamais teve uma donzella arrependida.
— Mas não viu que esse acto de loucura podia causar a minha morte ? disse Ernesto{{corr|..|.}}
Rosina estremeceu ouvindo éstas palavras que Ernesto lhe disse com a voz mais doce dos seus antigos dias; levantou os olhos para elle e tornou a pousal-os no chão.
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<noinclude><pagequality level="3" user="JppBr98" />{{rh||{{sc|ernesto de tal}}|153}}</noinclude>— Se eu tivesse reflectido nisso, observar ella, não faria nada do que fiz.
— Tem rasão, ia dizendo Ernesto, mas levado de um mau espirito de vingança entendeu que a leviandade da moça devia ser punida com alguns minutos mais de dúvida e recriminação.
A moça ouviu ainda muitas cousas que lhe disse Ernesto, e a todas respondeu com um ar tão contricto e palavras tão repassadas de amargura, que o nosso namorado sentiu quasi rebentarem-lhe os lagrymas dos olhos. Os de Rosina estavam ja mais tranquillos, e a limpidez começava a tomar o lugar da sombra melancholica. A situação era quasi a mesma de algumas semanas antes; faltava so {{corr|consilida-a|consolidal-a}} com o tempo. Entre tanto, disse Rosina:
— Não pense que lhe peço mais do que me cumpre. Meu procedimento alguma punição hade ter, e eu estou perfeitamente resignada. Pedi-lhe que viesse aqui de afim de me explicar o seu silêncio; pela minha parte expliquei-lhe o meu desvario. Não posso ambicionar mais…
— Não póde?…
— Não. Meu fim era não desmerecer a sua estima.
— E porque não o meu amor? perguntou Ernesto. Parece-lhe que o coração possa apagar de repente, e por simples esforço de vontade, a chamma de que viveu longos dias?
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<noinclude><pagequality level="3" user="JppBr98" />{{rh|154|{{sc|historias da meia noite}}}}</noinclude>— Oh ! isso è impossivel! respondeu a moça; e pela minha parte sei o que vou padecer…
— Demais, disse Ernesto, a culpa de tudo fui eu, francamente o confesso. Ambos nós temos que perdoar um a outro; perdoo-lhe a leviandade; perdoa-me o fatal arrufo ?
Rosina, a menos de ter um coração de bronze, não podia deixar de conceder o perdão que o namorado lhe pedia. Foi reciproca a generosidade. Como na volta do filho prodigo, as duas almas festejaram aquella renascença da felicidade, e amaram-se com mais força que nunca.
Tres mezes depois, dia por dia, foi celebrado na egreja de S. Anna, que era então no Campo d’Acclamação, o consorcio dos dous namorados. A noiva estava radiante de ventura; o noivo parecia respirar os ares do paraiso celeste. O tio de Rosina deu um saráu a que compareceram os amigos de Ernesto, excepto o rapaz de nariz comprido.
Não quer isto dizer que a amisade dos dous viesse a esfriar. Pelo contrario, o rival de Ernesto revelou certa magnanimidade, apertando ainda mais os laços que o prendiam desde a singular circumstância que os aproximou. Houve mais ; dous annos depois do casamento de Ernesto, vemos os dous associados n’um armarinho, reinando entre ambos a mais serena intimidade. O rapaz de nariz comprido é padrinho de um filho de Ernesto.
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<noinclude><pagequality level="3" user="JppBr98" />{{rh||{{sc|ernesto de tal}}|155}}</noinclude>— Porque não te casas? pergunta Ernesto ás vezes ao seu socio, amigo e compadre.
— Nada, meu amigo, responde o outro, eu ja agora morro solteiro.
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Era domingo, de tarde, e eu voltava do descaroçador
e da serraria, onde tinha estado a arengar
com o machinista. Um volante empenado e um
dynamo que emperrava. O homem promettera endireitar
tudo em dois dias. Contratempo. Montes
de madeira, algodão enchendo os paioes.
{{--}} Desleixados.
Á beira do riacho, topei a velha Margarida
sentada numa pedra, lavando as cannelas finas
como gravetos.
{{--}} Boa tarde, mãe Margarida.
{{--}} Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo,
respondeu a negra procurando reconhecer-me com
o nariz e com a orelha.
Descobriu-me entre cheiros e ruidos:
{{--}} Ahn!
{{--}} Como vai isso, mãe Margarida? A saude?
{{--}} Aqui vamos dando, meu filho. Melhor do
que mereço a Deus, disse a velha enxugando na
saia de riscado os cambitos das pernas.
{{--}} Falta alguma coisa lá no rancho?
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Era domingo, de tarde, e eu voltava do descaroçador
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dynamo que emperrava. O homem promettera endireitar
tudo em dois dias. Contratempo. Montes
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<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>{{--}} Falta nada! Tem tudo, a sinhá manda
tudo. Um despotismo de luxo: lençoes, sapatos,
tanta roupa! Para que isso? Sapato no meu pé
não vai. E não me eubro. Só preciso uma esteira.
Uma esteira e o fogo.
{{--}} Está direito, mãe Margarida. Passe bem.
E sahi, agastado com Magdalena. Avistei na
outra banda Marciano, que tangia o gado.
{{--}} Espera lá.
Atravessei a pinguela e fui ver o ultimo producto
Limosino-Caracu.
{{--}} Magreirão.
Não estava, mas achei que estava.
{{--}} Não me responda, entupa-se.
A culpada era Magdalena, que tinha offerecido
á Rosa um vestido de seda. É verdade que
o vestido tinha um rasgão. Mas era disparate.
{{--}} Deitasse fóra, foi o que eu disse a Magdalena.
Se estava estragado, era deitar fóra. Não
é pelo prejuizo, é pelo desarranjo que traz a esse
povinho um vestido de seda.
Magdalena respondeu-me com quatro pedras
na mão, e ficámos de venta inchada uma semana.
Eu por mim remoi um rancor excessivo.
O telhado da serraria era uma nodoa vermelha
que as chuvas, aqui e ali, haviam tingido de
preto. Na outra margem do riacho a cabeça curvada
de Margarida mexia-se lentamente por cima
das hastes do capim. E, subindo uma vereda, a
figurinha de Marciano collava-se ás rezes.
{{nop}}<noinclude></noinclude>
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2026-08-15T13:19:57Z
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>{{--}} Falta nada! Tem tudo, a sinhá manda
tudo. Um despotismo de luxo: lençoes, sapatos,
tanta roupa! Para que isso? Sapato no meu pé
não vai. E não me cubro. Só preciso uma esteira.
Uma esteira e o fogo.
{{--}} Está direito, mãe Margarida. Passe bem.
E sahi, agastado com Magdalena. Avistei na
outra banda Marciano, que tangia o gado.
{{--}} Espera lá.
Atravessei a pinguela e fui ver o ultimo producto
Limosino-Caracu.
{{--}} Magreirão.
Não estava, mas achei que estava.
{{--}} Não me responda, entupa-se.
A culpada era Magdalena, que tinha offerecido
á Rosa um vestido de seda. É verdade que
o vestido tinha um rasgão. Mas era disparate.
{{--}} Deitasse fóra, foi o que eu disse a Magdalena.
Se estava estragado, era deitar fóra. Não
é pelo prejuizo, é pelo desarranjo que traz a esse
povinho um vestido de seda.
Magdalena respondeu-me com quatro pedras
na mão, e ficámos de venta inchada uma semana.
Eu por mim remoi um rancor excessivo.
O telhado da serraria era uma nodoa vermelha
que as chuvas, aqui e ali, haviam tingido de
preto. Na outra margem do riacho a cabeça curvada
de Margarida mexia-se lentamente por cima
das hastes do capim. E, subindo uma vereda, a
figurinha de Marciano collava-se ás rezes.
{{nop}}<noinclude></noinclude>
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Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/139
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>{{--}} Estupida! exclamei com raiva.
E pensei no vestido da Rosa, nos sapatos e
nos lençoes da velha Margarida.
{{--}} Desperdicio.
Depois recordei o volante e o dynamo.
{{--}} Estupida!
Está visto que Magdalena não tinha nada com
o descaroçador e a serraria, mas naquelle momento
não reflecti nisso: misturei tudo e a minha colera
augmentou. Uma colera despropositada. Esqueci
os presentes que, ha alguns annos, a Rosa me comeu
(pó de arroz, voltas de conta) e as despesas
que fiz com Margarida, até automovel ao sertão,
até clichés para o jornal do Gondim. O que me
pareceu foi que Magdalena estava gastando à toa.
{{--}} À toa, percebem?
Repeti para convencer-me:
{{--}} À toa. Desperdicio.
Por cima do capim gordura já não se via a cabecinha
branca de Margarida. Num cotovello do
caminho o vulto de Marciano tinha desapparecido.
Com o descambar do sol, o telhado da serraria
estava mais vermelho.
Não seria mau despedir o machinista.
{{--}} Que gente!
Concentrei-me no caso do dynamo, que era o
que me havia predisposto a considerar prodigalidades
os sapatos, os lençoes e o vestido de seda.
Depois tranquillizei-me. Arredar o machinista,
sim senhor, boa solução.
{{nop}}<noinclude></noinclude>
1oyfc03fggwchxbvxa9h77lcpy5l8f0
Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/140
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2026-08-15T13:33:51Z
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>Demorei-me um instante vendo um casal de
papa-capins namorando escandalosamente. Uma
gallinhagem desgraçada. Dentro de alguns dias
aquillo se descasava, cada qual tomava seu rumo,
sem dar explicações a ninguem. Que sorte!
E dirigi-me a casa. No alpendre Magdalena,
Padilha, d. Gloria e seu Ribeiro conversavam.
Com a minha chegada calaram-se.
Puxei uma cadeira e sentei-me longe delles.
Era possivel que a palestra não me interessasse,
mas suspeitei que estivessem falando mal de mim.
Provavelmente. D. Gloria sempre com segredinhos
ao ouvido de seu Ribeiro. E Magdalena escutando
o Padilha. O Padilha, que tinha uma
alma baixa, na opinião della. Para o inferno. Tão
bom era um como o outro. Entretidos, animados.
Conspiração. Talvez não fosse nada. Mas para
quem, como eu, andava com a pulga atraz da orelha!
Aborrecia.
Estavam constrangidos, certamente adivinhando
o que eu pensava. Padilha mastigava com
os dentes estragados o sorriso servil.
Levantei-me, encostei-me à balaustrada e comecei
a encher o cachimbo, voltando-me para fóra,
que no interior da minha casa tudo era desagradavel.
No fim do pateo um moleque passou, com um
bodoque na mão. Estava ali para que servia a escola.
Vadiando, matando passarinhos, num dia de<noinclude></noinclude>
r10k18gz6lxzeha7o4r16zcklb8r3m3
Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/141
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2026-08-15T13:41:59Z
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>descanço, bom para soletrar a cartilha e riscar
papel.
Seis contos de taboas, mappas, quadros e outros
enfeites de parede. Seis contos!
Carrancudo, olhei de esguelha para Magdalena,
que ficou socegada, como se aquillo não tivesse
sido feito por ella.
Accendi o cachimbo, furiosamente, e procurei
distrahir-me. O rancho de Margarida escondia-se
entre as folhas das bananeiras. Marciano sahiu do
estabulo e veio vindo, banzeiro, derreando-se;
diante da casa grande tirou o chapeo e escondeu
o cigarro. A pedreira, lá em cima, estava quasi
invisivel depois que o caminho para ella se tinha
fechado.
A prefeitura não queria mais comprar pedras,
as construcções na fazenda estavam terminadas.
E mestre Caetano, gemendo no catre, recebia
todas as semanas um dinheirão de Magdalena.
Sim senhor, uma panqueca. Visitas, remedios de
pharmacia, gallinhas.
{{--}} Não ha nada como ser entrevado.
Necessitava, é claro, mas se eu fosse sustentar
os necessitados, arrasava-me.
Alem de tudo vestido de seda para a Rosa,
sapatos e lençoes para Margarida. Sem me consultar.
Já viram descaramento assim? Um abuso,
um roubo, positivamente um roubo.
Voltei a sentar-me. Magdalena entrou a falar
com o Padilha, mas não percebi o que diziam. O<noinclude></noinclude>
e7g3t1tqdnp5j6qr7ydjj2qwaslh8rq
Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/142
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>constrangimento foi desapparecendo. Padilha tinha
os olhos baixos.
Porque era que eu não punha o Padilha fóra
de casa, aquelle parasita que me levava cento e
cineoenta mil reis por mez com a tapeação da escola
e estava fuchicando, visivelmente fuchicando?
Virei o rosto e descancei a vista no pateo, muito
alvo, coberto de pedra miuda e areia. Andavam.
ali áquella hora pombos como os diabos, voando
baixo, passeando, emproados, belliscando o chão.
Contei uns cincoenta. Perdi a conta, recomecei sem
resultado. Eram bem duzentos.
Recordei o tempo em que aquillo só tinha mussambês
e lama. O riacho, um pouco de agua turva
num sulco estreito e tortuoso, derramava-se pela
varzea, empapando o solo. E as cercas do Mendonça
avançando.
Que differença! Senti desejo de levantar-me e
exclamar:
{{--}} Vejam isto. Estão dormindo! Accordem.
As casas, a igreja, a estrada, o açude, as pastagens,
tudo é novo. O algodoal tem quasi uma legua de
comprimento e meia de largura. E a mata é uma
riqueza. Cada pé de amarello! cada cedro! Olhem.
o descaroçador, a serraria. Pensam que isto nasceu
assim sem mais nem menos?
Padilha continuava tagarelando eom Magdalena.
Ergui os hombros:
{{--}} Para o inferno, para a casa da peste!
{{nop}}<noinclude></noinclude>
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2026-08-15T13:51:46Z
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>constrangimento foi desapparecendo. Padilha tinha
os olhos baixos.
Porque era que eu não punha o Padilha fóra
de casa, aquelle parasita que me levava cento e
cincoenta mil reis por mez com a tapeação da escola
e estava fuchicando, visivelmente fuchicando?
Virei o rosto e descancei a vista no pateo, muito
alvo, coberto de pedra miuda e areia. Andavam.
ali áquella hora pombos como os diabos, voando
baixo, passeando, emproados, belliscando o chão.
Contei uns cincoenta. Perdi a conta, recomecei sem
resultado. Eram bem duzentos.
Recordei o tempo em que aquillo só tinha mussambês
e lama. O riacho, um pouco de agua turva
num sulco estreito e tortuoso, derramava-se pela
varzea, empapando o solo. E as cercas do Mendonça
avançando.
Que differença! Senti desejo de levantar-me e
exclamar:
{{--}} Vejam isto. Estão dormindo! Accordem.
As casas, a igreja, a estrada, o açude, as pastagens,
tudo é novo. O algodoal tem quasi uma legua de
comprimento e meia de largura. E a mata é uma
riqueza. Cada pé de amarello! cada cedro! Olhem.
o descaroçador, a serraria. Pensam que isto nasceu
assim sem mais nem menos?
Padilha continuava tagarelando eom Magdalena.
Ergui os hombros:
{{--}} Para o inferno, para a casa da peste!
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>constrangimento foi desapparecendo. Padilha tinha
os olhos baixos.
Porque era que eu não punha o Padilha fóra
de casa, aquelle parasita que me levava cento e
cincoenta mil reis por mez com a tapeação da escola
e estava fuchicando, visivelmente fuchicando?
Virei o rosto e descancei a vista no pateo, muito
alvo, coberto de pedra miuda e areia. Andavam.
ali áquella hora pombos como os diabos, voando
baixo, passeando, emproados, belliscando o chão.
Contei uns cincoenta. Perdi a conta, recomecei sem
resultado. Eram bem duzentos.
Recordei o tempo em que aquillo só tinha mussambês
e lama. O riacho, um pouco de agua turva
num sulco estreito e tortuoso, derramava-se pela
varzea, empapando o solo. E as cercas do Mendonça
avançando.
Que differença! Senti desejo de levantar-me e
exclamar:
{{--}} Vejam isto. Estão dormindo! Accordem.
As casas, a igreja, a estrada, o açude, as pastagens,
tudo é novo. O algodoal tem quasi uma legua de
comprimento e meia de largura. E a mata é uma
riqueza. Cada pé de amarello! cada cedro! Olhem
o descaroçador, a serraria. Pensam que isto nasceu
assim sem mais nem menos?
Padilha continuava tagarelando com Magdalena.
Ergui os hombros:
{{--}} Para o inferno, para a casa da peste!
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Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/143
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>Seu Ribeiro approvava com gravidade as tolices
de d. Gloria.
Casimiro Lopes veio sentar-se num degrau da
calçada. Picando fumo com a faca de ponta e preparando
o cigarro de palha, deitava os olhos de cão
ao prado, ao açude, á igreja, ás plantações. Pobre
do Casimiro Lopes. Ia-me esquecendo delle. Calado,
fiel, pau para toda a obra, era a unica pessoa
que me comprehendia. Mandou-me um sorriso triste.
Estirei o beiço, dizendo em silencio:
{{--}} Isto vai ruim, Casimiro.
Casimiro Lopes arregaçou as ventas numa careta
desgostosa.
Os outros continuavam a zumbir. Sebo! Uns
insectos. Não valia a pena prestar attenção a semelhantes
insignificancias. Gente besta.
Ergui-me, bocejando. O que eu estava era
cançado. O dia inteiro no campo, inquirindo, esmiuçando.
Senti as pernas bambas. Cançado.
A noite chegava. Um pretume no interior da
casa. Lembrei-me do dynamo encrencado. Mais
esta. Deixei o alpendre e entrei:
{{--}} Maria das Dores, accenda os candieiros..
O pequeno berrava como bezerro desmammado.
Não me contive: voltei e gritei para d. Gloria e Magdalena:
{{--}} Vão ver aquelle infeliz. Isso tem geito?
Ahi na prosa, e pode o mundo vir abaixo. A criança
esguelando-se!
Magdalena tinha tido menino.<noinclude></noinclude>
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2026-08-15T14:02:07Z
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>Seu Ribeiro approvava com gravidade as tolices
de d. Gloria.
Casimiro Lopes veio sentar-se num degrau da
calçada. Picando fumo com a faca de ponta e preparando
o cigarro de palha, deitava os olhos de cão
ao prado, ao açude, á igreja, ás plantações. Pobre
do Casimiro Lopes. Ia-me esquecendo delle. Calado,
fiel, pau para toda a obra, era a unica pessoa
que me comprehendia. Mandou-me um sorriso triste.
Estirei o beiço, dizendo em silencio:
{{--}} Isto vai ruim, Casimiro.
Casimiro Lopes arregaçou as ventas numa careta
desgostosa.
Os outros continuavam a zumbir. Sebo! Uns
insectos. Não valia a pena prestar attenção a semelhantes
insignificancias. Gente besta.
Ergui-me, bocejando. O que eu estava era
cançado. O dia inteiro no campo, inquirindo, esmiuçando.
Senti as pernas bambas. Cançado.
A noite chegava. Um pretume no interior da
casa. Lembrei-me do dynamo encrencado. Mais
esta. Deixei o alpendre e entrei:
{{--}} Maria das Dores, accenda os candieiros.
O pequeno berrava como bezerro desmammado.
Não me contive: voltei e gritei para d. Gloria e Magdalena:
{{--}} Vão ver aquelle infeliz. Isso tem geito?
Ahi na prosa, e pode o mundo vir abaixo. A criança
esguelando-se!
Magdalena tinha tido menino.<noinclude></noinclude>
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Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/144
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>Fazia dois annos que eu estava casado, e por
isso João Nogueira, padre Silvestre e Azevedo Gondim
jantavam comnosco.
Ora exactamente nesse dia reprehendi Padilha
e elle me gaguejou umas desculpas a que não liguei
importancia, mas que depois de algumas horas
cresceram muito.
{{--}} Oh Padilha, chegue cá, disse-lhe de manhã
no jardim, onde elle colhia flores. Ninguem aqui
está preso. Se o serviço lhe desagrada, é arribar.
{{--}} Porque, seu Paulo? exclamou Luiz Padilha
atordoado.
{{--}} Ora porque! Apanhando flores, homem!
Olhe o relogio.
{{--}} Foi a d. Magdalena que mandou tirar umas
rosas.
{{--}} Você é jardineiro? A d. Magdalena não dá
ordens. Você me anda gastando o tempo com falatorios!
{{--}} Isso não é commigo, defendeu-se Padilha.
Queixe-se della. A moça me pediu umas flores<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude><br><br>{{t2|XXIV}}<br>
Fazia dois annos que eu estava casado, e por
isso João Nogueira, padre Silvestre e Azevedo Gondim
jantavam comnosco.
Ora exactamente nesse dia reprehendi Padilha
e elle me gaguejou umas desculpas a que não liguei
importancia, mas que depois de algumas horas
cresceram muito.
{{--}} Oh Padilha, chegue cá, disse-lhe de manhã
no jardim, onde elle colhia flores. Ninguem aqui
está preso. Se o serviço lhe desagrada, é arribar.
{{--}} Porque, seu Paulo? exclamou Luiz Padilha
atordoado.
{{--}} Ora porque! Apanhando flores, homem!
Olhe o relogio.
{{--}} Foi a d. Magdalena que mandou tirar umas
rosas.
{{--}} Você é jardineiro? A d. Magdalena não dá
ordens. Você me anda gastando o tempo com falatorios!
{{--}} Isso não é commigo, defendeu-se Padilha.
Queixe-se della. A moça me pediu umas flores<noinclude></noinclude>
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Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/145
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2026-08-16T02:34:24Z
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>para enfeitar a mesa, á tarde. Que é que eu havia
de fazer? Havia de negar? E quanto ás conversas,
seu Paulo comprehende. Uma senhora instruida
metter-se nestas bibocas! Precisa uma pessoa com
quem possa entreter de vez em quando palestras
amenas e variadas.
Achei graça. E não prestei mais attenção a
Padilha, que, espetando os dedos nos espinhos, devastou
uma roseira, á pressa, e escapuliu-se. Palestras
amenas!
Mais tarde, no escriptorio, uma idéa indeterminada
saltou-me na cabeça, esteve por lá um instante
quebrando louça e deu o fóra. Quando tentei
agarral-a, ia longe. Interrompi a leitura da carta
que tinha diante de mim e, sem saber porque,
olhei Magdalena desconfiado. Estava de pé, encostada
á carteira, mexia distrahida {{SIC|as folhas do razão|Antes da informatização da contabilidade, o razão era um livro físico, grosso, onde cada conta tinha a sua folha (ou página). Daí a expressão: Folha do razão: a página onde se registam os movimentos de uma determinada conta. E tambem: As folhas do razão: o conjunto dessas páginas.}}
e contemplava pela janella os paus d'arco, distantes.
Machinalmente, assignei o papel; Magdalena
extendeu-me outro, machinalmente. Nisto a idéa
voltou. Movia-se, porém, com tanta rapidez que
não me foi possivel distinguil-a. Estremeci, e pareceu-me
que a cara de Magdalena estava mudada.
Mas a impressão durou pouco.
Embrenhei-me no trabalho e, á tarde, quando
os amigos desceram do automovel, sentia-me perfeitamente
tranquillo.
{{--}} Ora sejam bem apparecidos.
Como não eram de cerimonia, levei-os para o<noinclude></noinclude>
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2026-08-16T03:51:42Z
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>para enfeitar a mesa, á tarde. Que é que eu havia
de fazer? Havia de negar? E quanto ás conversas,
seu Paulo comprehende. Uma senhora instruida
metter-se nestas bibocas! Precisa uma pessoa com
quem possa entreter de vez em quando palestras
amenas e variadas.
Achei graça. E não prestei mais attenção a
Padilha, que, espetando os dedos nos espinhos, devastou
uma roseira, á pressa, e escapuliu-se. Palestras
amenas!
Mais tarde, no escriptorio, uma idéa indeterminada
saltou-me na cabeça, esteve por lá um instante
quebrando louça e deu o fóra. Quando tentei
agarral-a, ia longe. Interrompi a leitura da carta
que tinha diante de mim e, sem saber porque,
olhei Magdalena desconfiado. Estava de pé, encostada
á carteira, mexia distrahida {{SIC|as folhas do razão|Antes da informatização da contabilidade, o razão era um livro físico, grosso, onde cada conta tinha a sua folha (ou página). Daí a expressão: Folha do razão: a página onde se registam os movimentos de uma determinada conta. E tambem: As folhas do razão: o conjunto dessas páginas.}}
e contemplava pela janella os paus d'arco, distantes.
Machinalmente, assignei o papel; Magdalena
{{SIC|extendeu|estendeu}}-me outro, machinalmente. Nisto a idéa
voltou. Movia-se, porém, com tanta rapidez que
não me foi possivel distinguil-a. Estremeci, e pareceu-me
que a cara de Magdalena estava mudada.
Mas a impressão durou pouco.
Embrenhei-me no trabalho e, á tarde, quando
os amigos desceram do automovel, sentia-me perfeitamente
tranquillo.
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Como não eram de cerimonia, levei-os para o<noinclude></noinclude>
hq5xn3eqz7c994ydq65auaxut6ws6ul
Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/146
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2026-08-16T04:00:26Z
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>interior, fui matar a sede do Gondim, que, quando
chega a S. Bernardo, exige cognac.
Durante o jantar, estiveram todos muito animados.
E até eu, que ignoro os assumptos que elles
debatiam, entrei na dança.
Para começar, Azevedo Gondim, a quem o cognac
tinha tirado as peias da lingua, elogiou a vida
campestre:
{{--}} Isto é que é! Vejam se na cidade, ciscando
no fundo dos quintaes, se criava um peru deste tamanho.
Que bicho fornido! Benza-o Deus.
D. Gloria deu um muchocho e desviou a vista
do centro da mesa, onde, acocorado na travessa, um
peru recebia aquelles louvores despropositados. Padre
Silvestre acompanhou o movimento de d. Gloria
e deu com os olhos nos canteiros do jardim e
nas alamedas do pomar.
{{--}} Realmente deve ser uma delicia viver neste
paraiso. Que belleza!
{{--}} Para quem vem de fóra, atalhei. Aqui a
gente se acostuma. Afinal não cultivo isto como
enfeite. É para vender.
{{--}} As flores tambem? perguntou Azevedo
Gondim.
{{--}} Tudo. Flores, hortaliça, fructa...
{{--}} Está ahi! exclamou padre Silvestre balançando
a cabecinha grisalha e enrugando a testa estreita.
O que é ter senso! Se todos os brasileiros
pensassem assim, não estariamos presenciando tanta
miseria.
{{nop}}<noinclude></noinclude>
9sc2d4m6ljs0kotnlgadg7u6nj595cz
Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/147
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2026-08-16T06:26:23Z
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>{{--}} Politica, padre Silvestre? fez João Nogueira
sorrindo.
Padre Silvestre arregalou os olhinhos baços:
{{--}} Porque não? O senhor ha de confessar que
estamos á beira dum abysmo.
Padre Silvestre é desorientado. Com uma freguezia
trabalhosa, anda no mundo da lua. Damnadamente
liberal.
Padilha metteu o bedelho na conversa:
{{--}} Apoiado.
{{--}} Um abysmo, repetiu padre Silvestre.
{{--}} Que abysmo? perguntou Azevedo Gondim.
O reverendo estudou uma resposta energica:
{{--}} Isso que se vê. É a fallencia do regimen.
Deshonestidades, patifarias.
{{--}} Quaes são os patifes? inquiriu João Nogueira.
Padre Silvestre estirou o beiço inferior e amoitou-se.
As opiniões delle são as opiniões dos jornaes.
Como, porém, essas opiniões variam, padre
Silvestre, impossibilitado de admittir coisas contradictorias,
lê apenas as folhas da opposição. Acredita
nellas. Mas experimenta ás vezes duvidas.
Ellas juram que os homens do governo são malandros,
e elle conhece alguns respeitaveis. Isso prejudica
as convicções que a letra impressa lhe dá.
Necessitando accommodar as suas observações com
as affirmações alheias, acha que os politicos, individualmente,
são criaturas como as outras, mas em
conjuncto são uns malfeitores.
{{nop}}<noinclude></noinclude>
c560erlh7dvwxk0abm8z6vfbs3b1mlh
Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/148
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Wuopisht
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<noinclude><pagequality level="1" user="Cacaup" /></noinclude>{{--}} Ora essa! Não me compete denunciar ninguem.
Os factos são os factos. Observe.
{{--}} É bom apontar, insistiu João Nogueira.
{{--}} Para que? A facção dominante está cahindo
de podre. O paiz naufraga, seu doutor. É o que
lhe digo: o paiz naufraga.
Passei-lhe uma garrafa e informei-me:
{{--}} Que foi que lhe aconteceu para o senhor ter
essas idéas? Desgostos? Cá no meu fraco entender,
a gente só fala assim quando a receita não cobre a
despesa. Supponho que os seus negocios vão bem.
{{--}} Não se trata de mim. São as finanças do
Estado que vão mal. As finanças e o resto. Mas
não se illudam. Ha de haver uma revolução!
{{--}} Era o que faltava. Escangalhava-se esta
gangorra.
{{--}} Porque? perguntou Magdalena.
{{--}} Você tambem é revolucionaria? exclamei
com mau modo.
{{--}} Estou apenas perguntando porque.
{{--}} Ora porque! Porque o credito se sumia, o
cambio baixava, a mercadoria extrangeira ficava
pela hora da morte. Sem falar na atrapalhação politica.
{{--}} Seria magnifico, interrompeu Magdalena.
Depois se endireitava tudo.
{{--}} Com certeza, apoiou Luiz Padilha.
{{--}} Vocês sabem o que estão dizendo?
{{--}} O que admira é padre Silvestre desejar a<noinclude></noinclude>
nvelmapudjy7rqg7a4xgqrcjg40i31f
Página:Júlio Verne - À Roda da Lua (1886).pdf/6
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Erick Soares3
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<noinclude><pagequality level="1" user="Sintegrity" /></noinclude>VIAGENS MARAVILHOSAS
AOS MUNDOS CONHECIDOS E DESCONHECGCIDOS
Por JULIO VERNE
Edição de luxo, em oitavo grande, papel
18 gravuras
superior,
da edicáo franceza
ilustrada com
em numero
de
toda
3:000
Prego em moeda forto dos volumes publicados:
Da terra á lua,
4 vol. com
grav. 3. edicáo...
A roda da lua, L vol. co
A
43
O cataclismo cosmico,
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2.4 parte, Os habitantes
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4
Avoltadomundoem80días,A vol
com 58 gray, 2,2 edicño
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AVENTURAS DO CAPITAO
HATTERAS: 4.2 parte, Os in
ylezes no polo norte, A
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2.1 parte,
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Linco
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O deserto de gelo,
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Viagem ao centro da terra,
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Os naufragos do
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" /></noinclude>{{t2|{{sc|uma noite de cento e cincoenta e quatro horas e meia}}|CAPITULO XIV}}
{{dhr|3}}
No mesmo momento em que se realisava tāo subitaneo aquelle phenomeno, rasava o projectil o pólo norte da Lua a menos
de cincocnta kilometros de distancia. Tinham-lhe bastado alguns segundos para ficar immerso nas trévas absolutas do espaço.
A transiçāo tinha-se realisado tāo rapida, tāo sem matizes,
sem gradaçōes de luz, sem attenuaçāo das ondulaçōes luminosas, que o astro parecia ter-se apagado pela influencia de algam sopro enorme.
— Derreteu-se, desappareceu, a Lna! exclamára Miguel Ardan estupefacto.
E na verdade, nem um reflexo, nem uma sombra sequer.
Dʼaquelle disco ainda ha pouco deslumbrante nada restava já,
nada apparecia. A obscuridade era completa e mais profunda
ainda pelo contraste da irradiaçāo das estrellas. Era «aquella
tréva» de que se impregnam as noites lunares que duram trezentas e cincoenta e quatro horas em cada ponto do disco, comprida noite que é resultado dos movimentos de translaçāo e de<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|136|{{sc|á roda da lua}}|{{sc|viagens maravilhosas}}}}{{rule}}</noinclude>rotaçāo da Lua, um sobre si proprio, outro em volta da Terra.
O projectil immerso no cone de sombra do satellite estava fóra
da acçāo dos raios solares, como se fôra um dos pontos da
parte invisivel.
Por consequencia, no interior da bala reinava completa obscuridade. Ninguem via os companheiros. Havia portanto necessidade de dissipar aquellas trévas, e por muito desejoso que
Barbicane estivesse de poupar o gaz, cuja reserva era tāo minguada, teve que tirar dʼelle a luz artificial, a illuminaçāo dispendiosa que o Sol entāo lhe recusava.
Diabo leve o astro radiante! exclamou Miguel Ardan, que
nos vae obrigar a despezas de gaz, em vez de nos fornecer gratuitamente os seus raios.
— É culpa do Sol! teimava Miguel.
— Da Lua! replicava Nicholl.
Disputa ociosa a que poz termo Barbicane, dizendo:
— Amigos meus, a culpa nem é do Sol nem da Lua. A culpa
é do projectil, que em vez de seguir rigorosamente a trajectoria calculada, se afastou dʼella tāo inopportunamente. Ou, se
ainda quizermos ser mais justos, a culpa é dʼesse malaventarado bolido que tāo deploravelmente nos fez desviar da nossa
direcçāo primitiva.
— Bem! respondeu Miguel Ardan, visto estar a questāo terminada, vamos almoçar. Depois de uma noite inteira de observaçōes, sempre é bom refazer-se a gente um pouco.
A proposiçāo nāo encontrou contradictores. Em poucos minutos tinha Miguel preparado o almoço. Todos comeram porém
por pura necessidade de comer; bebeu-se, mas nem houve
saudes nem hurrahs. Sentiam os ousados viajantes, arrastados
por aquelles espaços obscuros, sem o habitual cortejo de raios
luminosos, como que uma vaga anciedade que lhes opprimia o
coraçāo. Encerrava-os por todos os lados a «horrenda treva»,
tāo cara á penna de Victor Hugo.
{{nop}}<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|137|{{sc|á roda da lua}}|{{sc|viagens maravilhosas}}}}{{rule}}</noinclude>Sem embargo, serviu-lhes de assumpto de conversa aquella
mesma noite sem fim de trezentas e cincoenta e quatro horas,
eu perto de quinze dias, que as leis da natureza impozeram aos
habitantes da Lua.
Barbicane deu aos amigos algumas explicações acerea das
causas e das consequencias dʼaquelle curioso phenomeno.
— Curioso é de certo, disse, porque se cada hemispherio da
Lua está privado de luz solar por espaço de quinze dias, aquelle por cima do qual vogámos agora, nem mesmo gosa, durante
a sua longa noite, da vista da terra esplendidamente illuminada. Numa palavra, nāo ha Lua, — applicando agora esta qualificaçāo ao nosso espheroide, — senāo para uma das faces do
disco. Imaginem qual seria o espanto de um europeu que chegasse á Australia, se assim succedesse para a Terra, e se, por
exemplo, da Europa nunca se visse a Lua e esta só fosse visivel dos antipodas?
— Valeria a pena fazer a viagem só para ver a Lua! respondeu Miguel.
— Pois bem, proseguiu Barbicane, está este espanto reservado para os selenitas que habitam a face da Lua opposta á
Terra, face para todo o sempre invisivel para os nossos compatriotas do globo terrestre.
— E que nós veriamos, acrescentou Nicholl, se cá tivessemos chegado na época do novilunio, quer dizer, quinze dias
mais tarde.
— Em compensaçāo, acrescentarei, acudiu Barbicane, que of
habitante da face visivel é singularmente favorecido pela natureza em prejuizo de seus irmāos da face invisível. Este ultimo,
como acabaes de ver, tem noites de trezentas e cincoenta e
quatro horas, e tāo profundas que nenhum raio luminoso lhes
corta a obscuridade.
O outro, pelo contrario, quando se esconde no horisonte o
Sol que o alumiou durante quinze dias, vê nascer no horisonte
opposto um astro esplendido. É a Terra, treze vezes maior que
a pequena Laa que nós conhecemos; a Terra, que se estende
por um diametro de dois graus, e que sobre elle entorna uma<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{c|15<br>{{rule|4em}}}}</noinclude>forme a opinião de M. Pasteur, no genero de estudos de M.
Littré. Nós reproduzimos essa these um tanto paradoxal, segundo a qual os trabalhos de historia, e de erudição teriam
uma tendencia a encerrar o espirito na especialisação dos factos contingentes, ao passo que os estudos scientificos, e experimentaes elevam a intelligencia acima do mundo creado.
{{fine|«Os trabalhos de M. Littré versaram sobre investigações de historia, de linguistica, de erudição scientifica e litteraria. A materia
de taes estudos cifra-se toda em factos pertencentes ao passado,
aos quaes nada se póde acrescentar, nem diminuir. É sufficiente
o methodo de observação que o mais das vezes não poderá dar demonstrações rigorosas. O essencial, pelo contrario, da experiencia,
é não admittir outras.}}
{{fine|«O experimentador, homem de conquistas sobre a natureza,
acha-se de contínuo a braços com factos, que ainda se não manifestaram, e que, pela maior parte, não existem, senão na possibilidade de se tornarem em leis naturaes. O desconhecido no possivel, e não no que tem sido ou foi, eis seu dominio, e, para exploral-o, tem o auxilio dʼaquelle maravilhoso methodo experimental,
de que se póde dizer com verdade, não que elle baste para tudo,
mas que engana raras vezes, e só engana aquelles que dʼelle se
servem mal. Elimina certos factos, provoca outros, interrega a natureza, força-a a responder, e não pára, senão quando o espirito
está plenamente satisfeito. O attractivo dos nossos estudos, o encanto da sciencia, se assim se póde dizer, consiste em que, por
toda a parte, e sempre, podemos dar a justificação dos nossos principios, e a prova dos nossos descobrimentos.}}
{{fine|«O erro de M. Auguste Comte e de M. Littré é confundir esse
methodo com o methodo restricto de observação. Estranhos ambos
á experimentação, dão á palavra experiencia a accepção em que se
toma na conversação commum, e que de fórma alguma tem o mesmo.
sentido que na linguagem scientifica. No primeiro caso, a experiencia não é senão a simples observação das cousas, e a inducção que
conclue, mais ou menos legitimamente, do que foi para o que poderia ser. O verdadeiro methodo experimental vae atéiá prova sem
replica.}}
{{fine|«As condições e o resultado quotidiano do trabalho do homem
de sciencia, habituam, alem dʼisto, o seu espirito a não attribuir
uma idéa de progresso, senão a uma idéa de invenção. Para julgar<noinclude>}}</noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{c|15<br>{{rule|4em}}}}</noinclude>forme a opinião de M. Pasteur, no genero de estudos de M.
Littré. Nós reproduzimos essa these um tanto paradoxal, segundo a qual os trabalhos de historia, e de erudição teriam
uma tendencia a encerrar o espirito na especialisação dos factos contingentes, ao passo que os estudos scientificos, e experimentaes elevam a intelligencia acima do mundo creado.
{{fine|«Os trabalhos de M. Littré versaram sobre investigações de historia, de linguistica, de erudição scientifica e litteraria. A materia
de taes estudos cifra-se toda em factos pertencentes ao passado,
aos quaes nada se póde acrescentar, nem diminuir. É sufficiente
o methodo de observação que o mais das vezes não poderá dar demonstrações rigorosas. O essencial, pelo contrario, da experiencia,
é não admittir outras.}}
{{fine|«O experimentador, homem de conquistas sobre a natureza,
acha-se de contínuo a braços com factos, que ainda se não manifestaram, e que, pela maior parte, não existem, senão na possibilidade de se tornarem em leis naturaes. O desconhecido no possivel, e não no que tem sido ou foi, eis seu dominio, e, para exploral-o, tem o auxilio dʼaquelle maravilhoso methodo experimental,
de que se póde dizer com verdade, não que elle baste para tudo,
mas que engana raras vezes, e só engana aquelles que dʼelle se
servem mal. Elimina certos factos, provoca outros, interrega a natureza, força-a a responder, e não pára, senão quando o espirito
está plenamente satisfeito. O attractivo dos nossos estudos, o encanto da sciencia, se assim se póde dizer, consiste em que, por
toda a parte, e sempre, podemos dar a justificação dos nossos principios, e a prova dos nossos descobrimentos.}}
{{fine|«O erro de M. Auguste Comte e de M. Littré é confundir esse
methodo com o methodo restricto de observação. Estranhos ambos
á experimentação, dão á palavra experiencia a accepção em que se
toma na conversação commum, e que de fórma alguma tem o mesmo.
sentido que na linguagem scientifica. No primeiro caso, a experiencia não é senão a simples observação das cousas, e a inducção que
conclue, mais ou menos legitimamente, do que foi para o que poderia ser. O verdadeiro methodo experimental vae atéiá prova sem
replica.}}
{{fine|«As condições e o resultado quotidiano do trabalho do homem
de sciencia, habituam, alem dʼisto, o seu espirito a não attribuir
uma idéa de progresso, senão a uma idéa de invenção. Para julgar {{pt||do valor do positivismo, o meu primeiro pensamento foi procurar
nʼelle a invenção. Não a encontrei. Não se póde verdadeiramente
attribuir a idéa de invenção á lei chamada dos tres estados do espirito humano, nem tão pouco á classificação hierarchica das
sciencias, que ambas não são outra cousa mais do que umas approximações sem grande alcance. O positivismo, não me offerecendo
nenhuma idéa nova, deixa-me em reserva, e desconfiança.»}}}}
{{nop}}<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{c|16<br>{{rule|4em}}}}
{{fine|</noinclude>do valor do positivismo, o meu primeiro pensamento foi procurar
nʼelle a invenção. Não a encontrei. Não se póde verdadeiramente
attribuir a idéa de invenção á lei chamada dos tres estados do espirito humano, nem tão pouco á classificação hierarchica das
sciencias, que ambas não são outra cousa mais do que umas approximações sem grande alcance. O positivismo, não me offerecendo
nenhuma idéa nova, deixa-me em reserva, e desconfiança.»}}
Em algumas linhas mais adiante, fallando das crenças religiosas, e particularmente da existencia de Deus, e da immortalidade da alma, M. Pasteur acrescenta:
{{fine|«Quanto a mim, que julgo que as palavras progresso e invenção são synonymas, pergunto: Em nome de que descobrimento novo, philosophico ou scientifico, se podem arrancar da alma humana essas altas preoccupações! Ellas me parecem de essencia eterna,
porque o mysterio que envolve o universo, e de que são uma emanação, é o mesmo eterno por sua natureza.»}}
M. Pasteur mostra os erros sociologicos a que a applicação
do positivismo conduziu M. Littré, e dʼisso tira occasião para
fazer uma eloquente e magnifica profissão de fé espiritualista.
Essa pagina não admitte analyse, lè-se:
{{fine|«Em muitas occasiões, diz o orador, M., Littré define assim o
positivismo encarado sob o ponto de vista pratico: Chamo positivismo tudo o que se faz na sociedade para organisal-a segundo a
concepção positiva, isto é, scientifica do mundo. »}}
{{fine|«Estou prompto a acceitar esta definição, com a condição que
dʼella se não faça uma applicação rigorosa; mas a grande, e visivel lacuna do systema consiste em que, na concepção positiva do
mundo, elle não leva em conta as mais importante das noções positivas, a do infinito.»}}
{{fine|«Que ha ao través dʼessa abobada estrellada? Novos ceus estrellados. Seja. E alem? O espirito humano impellido por uma força invencivel não cessará nunca de perguntar: Que ha alem? Quer
parar ou no tempo, ou no espaço? Como o ponto onde elle pára
não é senão uma grandeza finita, maior sómente que as precedentes, apenas começa a encaral-a, eis que surje a implacavel pergunta, e sempre, sem que possa fazer calar o grito de sua curiosidade. Não serve de nada responder: «Alem estão espaços, tem-<noinclude>}}</noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{c|16<br>{{rule|4em}}}}</noinclude>{{pt|do valor do positivismo, o meu primeiro pensamento foi procurar
nʼelle a invenção. Não a encontrei. Não se póde verdadeiramente
attribuir a idéa de invenção á lei chamada dos tres estados do espirito humano, nem tão pouco á classificação hierarchica das
sciencias, que ambas não são outra cousa mais do que umas approximações sem grande alcance. O positivismo, não me offerecendo
nenhuma idéa nova, deixa-me em reserva, e desconfiança.»}}
Em algumas linhas mais adiante, fallando das crenças religiosas, e particularmente da existencia de Deus, e da immortalidade da alma, M. Pasteur acrescenta:
{{fine|«Quanto a mim, que julgo que as palavras progresso e invenção são synonymas, pergunto: Em nome de que descobrimento novo, philosophico ou scientifico, se podem arrancar da alma humana essas altas preoccupações! Ellas me parecem de essencia eterna,
porque o mysterio que envolve o universo, e de que são uma emanação, é o mesmo eterno por sua natureza.»}}
M. Pasteur mostra os erros sociologicos a que a applicação
do positivismo conduziu M. Littré, e dʼisso tira occasião para
fazer uma eloquente e magnifica profissão de fé espiritualista.
Essa pagina não admitte analyse, lè-se:
{{fine|«Em muitas occasiões, diz o orador, M., Littré define assim o
positivismo encarado sob o ponto de vista pratico: Chamo positivismo tudo o que se faz na sociedade para organisal-a segundo a
concepção positiva, isto é, scientifica do mundo. »}}
{{fine|«Estou prompto a acceitar esta definição, com a condição que
dʼella se não faça uma applicação rigorosa; mas a grande, e visivel lacuna do systema consiste em que, na concepção positiva do
mundo, elle não leva em conta as mais importante das noções positivas, a do infinito.»}}
{{fine|«Que ha ao través dʼessa abobada estrellada? Novos ceus estrellados. Seja. E alem? O espirito humano impellido por uma força invencivel não cessará nunca de perguntar: Que ha alem? Quer
parar ou no tempo, ou no espaço? Como o ponto onde elle pára
não é senão uma grandeza finita, maior sómente que as precedentes, apenas começa a encaral-a, eis que surje a implacavel pergunta, e sempre, sem que possa fazer calar o grito de sua curiosidade. Não serve de nada responder: «Alem estão espaços, tem-<noinclude>}}</noinclude>
eylomsd4l9oupofve0ax9d2b09qdori
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{c|16<br>{{rule|4em}}}}</noinclude>{{pt|do valor do positivismo, o meu primeiro pensamento foi procurar
nʼelle a invenção. Não a encontrei. Não se póde verdadeiramente
attribuir a idéa de invenção á lei chamada dos tres estados do espirito humano, nem tão pouco á classificação hierarchica das
sciencias, que ambas não são outra cousa mais do que umas approximações sem grande alcance. O positivismo, não me offerecendo
nenhuma idéa nova, deixa-me em reserva, e desconfiança.»}}
Em algumas linhas mais adiante, fallando das crenças religiosas, e particularmente da existencia de Deus, e da immortalidade da alma, M. Pasteur acrescenta:
{{fine|«Quanto a mim, que julgo que as palavras progresso e invenção são synonymas, pergunto: Em nome de que descobrimento novo, philosophico ou scientifico, se podem arrancar da alma humana essas altas preoccupações! Ellas me parecem de essencia eterna,
porque o mysterio que envolve o universo, e de que são uma emanação, é o mesmo eterno por sua natureza.»}}
M. Pasteur mostra os erros sociologicos a que a applicação
do positivismo conduziu M. Littré, e dʼisso tira occasião para
fazer uma eloquente e magnifica profissão de fé espiritualista.
Essa pagina não admitte analyse, lè-se:
{{fine|«Em muitas occasiões, diz o orador, M., Littré define assim o
positivismo encarado sob o ponto de vista pratico: Chamo positivismo tudo o que se faz na sociedade para organisal-a segundo a
concepção positiva, isto é, scientifica do mundo. »}}
{{fine|«Estou prompto a acceitar esta definição, com a condição que
dʼella se não faça uma applicação rigorosa; mas a grande, e visivel lacuna do systema consiste em que, na concepção positiva do
mundo, elle não leva em conta as mais importante das noções positivas, a do infinito.»}}
{{fine|«Que ha ao través dʼessa abobada estrellada? Novos ceus estrellados. Seja. E alem? O espirito humano impellido por uma força invencivel não cessará nunca de perguntar: Que ha alem? Quer
parar ou no tempo, ou no espaço? Como o ponto onde elle pára
não é senão uma grandeza finita, maior sómente que as precedentes, apenas começa a encaral-a, eis que surje a implacavel pergunta, e sempre, sem que possa fazer calar o grito de sua curiosidade. Não serve de nada responder: «Alem estão espaços, tem{{PT||pos, ou grandezas sem limites. Ninguem comprehende estas palavras. Aquelle que proclama a existencia do infinito, e ninguem
póde a isso escapar, accumula nʼesta affirmação maior dóse de sobrenatural do que a que ha em todos os milagres de todas as religiões; porquanto, a noção do infinito tem o duplo caracter de se
impor e de ser incomprehensivel. Quando esta noção se apodera
do entendimento, não ha senão inclinar-se. Ainda, nʼesse momento
de pungentes agonias, é necessario pedir auxilio á propria rasão:
todas as molas da vida intellectual ameaçam de se afrouxar; o homem sente-se quasi accommettido da sublime loucura de Pascal!
Essa noção positiva e primordial, o positivismo desvia-a gratuitamente; e a desvia conjunctamente com todas as suas consequencias na vida das sociedades.}}}}
{{nop}}<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{c|17<br>{{rule|4em}}}}</noinclude>{{PT|pos, ou grandezas sem limites. Ninguem comprehende estas palavras. Aquelle que proclama a existencia do infinito, e ninguem
póde a isso escapar, accumula nʼesta affirmação maior dóse de sobrenatural do que a que ha em todos os milagres de todas as religiões; porquanto, a noção do infinito tem o duplo caracter de se
impor e de ser incomprehensivel. Quando esta noção se apodera
do entendimento, não ha senão inclinar-se. Ainda, nʼesse momento
de pungentes agonias, é necessario pedir auxilio á propria rasão:
todas as molas da vida intellectual ameaçam de se afrouxar; o homem sente-se quasi accommettido da sublime loucura de Pascal!
Essa noção positiva e primordial, o positivismo desvia-a gratuitamente; e a desvia conjunctamente com todas as suas consequencias na vida das sociedades.}}
{{fine|«Encontro por toda a parte a inevitavel expressão da noção do
infinito no mundo. Por ella o sobrenatural está no intimo de todos
os corações. A idéa de Deus é uma fórma da idéa do infinito. Emquanto o mysterio do infinito pesar sobre o pensamento humano,
templos serão erguidos ao culto do infinito, quer o Deus se chame
Brahma, Allah, Jehovah, ou Jesus. E sobre a lage dʼesses templos
vereis homens ajoelhados, prostrados, abysmados no pensamento
do infinito. Não faz a metaphysica outra cousa senão traduzir dentro de nós a dominadora noção do infinito. A concepção do ideal
não será tambem a faculdade, reflexo do infinito que, em presença da belleza, nos leva a imaginar uma belleza superior? A sciencia e o ardor de comprehender são porventura outra cousa do que
o aguilhão do saber, estimulo que o mysterio do universo põe
em nossa alma? Onde estão as verdadeiras fontes da dignidade
humana, da liberdade, e da democracia moderna, se não na noção
do infinito, ante o qual todos os homens são iguaes?}}
{{fine|«É necessario um laço espiritual na humanidade, diz M. Littré,
sem o qual não haveria na sociedade senão familias isoladas,
hordas, e nada de sociedade verdadeira.» Esse laço espiritual que
elle collocava em uma especie de religião inferior da humanidade,
não pode estar nʼoutra parte que na noção superior do infinito,
porque esse laço espiritual deve ser associado ao mysterio do mundo. A religião da humanidade é uma dʼaquellas idéas de uma evidencia superficial e suspeita, que levaram um psychologo de um espirito eminente a dizer: olla muito que eu penso que aquelle que
não tivesse idéas claras seria seguramente um parvo. As noções
mais preciosas, acrescenta elle, que a intelligencia humana enco-}}
{{nop}}<noinclude></noinclude>
m96i5qdf4is4f2d0hnahor9j3gwy1bi
Página:Urupês 1918 (ed.3, 4º milheiro).pdf/244
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Página:Diccionario da Lingoa Portugueza.pdf/458
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MLReis
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/* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: ALU efpirito, com illusão on impoftura. TELL. Chr. I, 1, 34. n. Ifto deve fer algum embufte ou enredo, ou algum modo de illusão ou alumbramento. {{lema|ALUMEAR}}. v. a. e os feus derivados. Vej. Alumiar. {{lema|ALUMIADAMENTE}}. adv. mod. pouc. uf. Com luz e cla- ridade. No fentido proprio e metaphorico. D. CATH. INF. Reg. 1, 9 E por tanto alumiadamente com o olho da prudencia deve prover o Prclado profundamente em o feu fubdito. {{...
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<noinclude><pagequality level="1" user="MLReis" /></noinclude>ALU
efpirito, com illusão on impoftura. TELL. Chr. I, 1, 34.
n. Ifto deve fer algum embufte ou enredo, ou algum
modo de illusão ou alumbramento.
{{lema|ALUMEAR}}. v. a. e os feus derivados. Vej. Alumiar.
{{lema|ALUMIADAMENTE}}. adv. mod. pouc. uf. Com luz e cla-
ridade. No fentido proprio e metaphorico. D. CATH. INF.
Reg. 1, 9 E por tanto alumiadamente com o olho da
prudencia deve prover o Prclado profundamente em o
feu fubdito.
{{lema|ALUMIADO, A}}. p. p. de Alumiar. SA DE MIR. Cart. 3,
29. BARR. Dec. 3, 3, 1. Luc. Vid. 3, 6.
{{lema|ALUMIADOR, ORA}} adj. Que alumia. HEIT. PINT. Dial.
2, 4, 21 O Sol alumiador do mundo. Ros. Vid. 2, 160,
3 E no Efpirito Santo alumiador e confolador de todos
os juftos. BRIT. Mon. 2, 7. c. 8 Em nome de Deos Pa-
dre, que gerou, e de feu Filho unigenito, e tambem
do Efpirito Santo alumiador.
Subft. VIT. CHRIST. 1, 5, 15 E em quanto ef-
trella ou alumeador tem femelhança dos contemplativos.
MONTEIR. Art. 25, 27 Na luz fe moftra alumiador de
bons, na quentura caftigador de mãos. VILIR. Serm. 6.
Exhort. 2, 5, 473 Ainda eftava efcondido no ventre da
mãi, mas aflim e condido, e antes de nacer, alumiou
tambem antes de nacer ao maior dos nacidos: o alumia-
dor e o alumiado ambos por meio das máis.
O que lança o cavallo á egoa. BENT. PER. Thef.
{{lema|ALUMIAMENTO}}. s. mn. ant. Acção e effeito de alumiar.
VIT. CHRIST. 3, 24, 61 De que fe moftra, que tal
alumiamento foi maravilhofo. D. HILAR. Voz, 16, 99
Chamalhe [Deos Padre a Chrifto Jefu, feu filho] ori-
ente polo minifterio do alumiamento, que nos fez.
Met. Illuftração, illuminação fobrenatural do efpiri-
to..D. FR. BR. DE BARR. Efpelh. 3,8 E por ranto rece-
be maior alumiamento. D. HILAR. Voz, 8, 44 Eu vi cm
meus dias, quem tomou pera morrificação da carne, c
alumiamento de feu efpirito tão eftreitos jejuns, e rão
comprida abftinencia, que &c. FR. MARC. Exerc. 28, 130
Sem o voflo alumiamiento a vaidade me parece verda-
de, a malicia juftiça, o vicio virtude.
Acção de dar vista a bum cégo. VIT CIRIT. 2, 70
E per alumiamento de tal cégo he neceffario haver rres
coufas. D. CATH. INF. Regr. 1, 1 Depois do alumiamento
dos cégos. FR. G. DA SILV. Vid. 6, 10 E conheceo o
fanto homem en efpiřiro a cura e alumiamento d'hum
moco, que era de todo cégo. ant. e
{{lema|ALUMIANTE}}. p. a. de Alumiar. ant.
e pouc. ul. Vir.
CHRIST. 4, 21, 121 Depois que forem empuxadas as
trévas, e efcuridades dos peccados per a graça aliani-
ante.
{{lema|ALUMIAR}}. v. a. Dar luz e claridade. Do Sol, Lua, e Eftrellas, ou do fogo, e outros córpos luminofos. (A-
lumear) CAM. Luf. 6, 77 A noite negra e feia fe, alu-
mia Cos raios, em que o pólo todo ardia. HEIT. PINT.
Dial. 1, 1, 5 Com o refplendor da fua luz alumeia [o
Solo univerfo. VIEIR. Serm. 6, 7, 6. n. 214 Efti he
a igualdade, com que o Sol nos alumia e aquenta.
Met. FERR. Poem. Son. 2, 42 Com teu raio de luz
refplandecente O mundo efcuro e trifte alumiafte. BRIT.
Chr. 1, I Duas tochas, que com o refplendor da fua fan-
tidade, o alumidrão [o mundo] quaes forão o gloriofo Pa-
triarca S. Bento, e fua irmãa Santa Efcolaftica. PINT.
RIB. Rel. 1, 24 He a Justiça hum fogo, que alumeia
e purifica hum Reino; e fe fe defconcerta e altera, o
abrazą rodo.
Alumiar. Efclarecer, tornar claro algum lugar, dan-
dolhe ou pondolhe luz. BARR. Dec. 3, 7, 11 E que feu pai
e feu avô, fendo gentios, tinhão cuidado de alumiar
aquella cafa. SorтON. Ribeir. 5, 150 Levavão na mão
tres fachas accezas, com o que alumiavão o caminho.
LEON. DA COST. Ecl. 7, 29 y. not. i Nos lugares onde
ha abundancia deftas arvores, fe alumeão com a lenha
dellas em lugar de candèas.
Accender, fazer arder, para dar luz e claridade,
GOES, Chr. de D. Man. 1, 64 E affi ordenou, que fe
compraffem rendas em Galliza pera fe efta alampada a-
lumiar. FERR. Poem. Od. 2, 5 Olho claro do céo, vida
do mundo, Luz, que a Lua e.eftrellas alumias. BRIT.
Mon. 2, 5. c. 5 Pera do azeire dellas [azeitonas] fe
alumiar a alampada, que pendia ante o feu altar,
Met. Fazer patente e claro o que estava efcuro, pou
co intelligivel, on mal ordenado. D. CATH. INF. Regt. 2,
3. Até que venha o Senhor, que alumiard as coufas ef-
condidis, e manifeftará os confelhos dos corações. BARR.
Dec. 1, 2, 2 Fez ainda Gomez Eanes outra obra no
rombo defte Reino, que alumiou as coufas delle, que
forão os livros do regiftro. A. GALV. Tr. 76 Por fer já
perdida a memoria de Sayavedra, que afli faz tudo, o
que não alumeia a efcritura.
Illuftrar, enfinar, ou dar a conhecer a outro o que
ignorava, duvidava ou não alcançava. Sous. Hift. 1,,
2 Difcorria que poderia fazer da fua parte em ferviço
d'aquelles proximos, que foffe de momento pera os alu-
miar. Feo, Tr. Quadt. 1. Prol. As divinas Efcrituras li-
das e entendidas de nós, alumião os entendimentos. SE-
VER. Prompt. 26, 1, 84 A lição dos livros fantos inftrue
e alumia o entendimento.
Aluminar ou illuftrar o efpirito fobrenaturalmente, e
por virtude divina. ORDEN. DE D. MAN. I, I Afli por fua
infinda bondade os alumie [Deos] e esforce, pera con-
feguir todo o bem. AVEIR. Itin. 31 Meu Senhor Deos,
que quer que todos fe falvem, e nenhum peteça, os -
lumee, e traga ao feu gremio. BAIT. Chr. 2, 17 De
induftria refiftis ao efpiriro e graça divina, que defeja
por meio de fuas amoeftações alumiar volla alina.
Dar vifta ao cégo. Reg. alg. abf. ou alg. nos olhos cu
os olhos e cegueira de alg. VIT. CHRIST. 2., 71 Senhor
Jefu Chrifto, que alumeafte os olhos do cégo de fua naf-
cença, alumeia, eu te peço, os olhos de meu coraçom.
BRIT. Mon. 2, 5. rir. I Alumiou 'dous cégos, pondolbe
as mãos fobre os olhos. TELL. Chr. 1, 3, 23. n. z.Ti-
nha feito maiores milagres na Igreja de Deos, do que
fe alumiára cégos, e reffufcitára mortos.
Met. FERR. Poem. Caftr. 2 Senhor, que eftás nos
céos, e vês as almas... Alumia minha alma, não fe
cégue No perigo, em que eftá. Bair. Chr. 1, 8 Ro-
gandolhe, que fe lembraffe delle diante de Deos, pera
o alumiar nos olhos] do efpirito. VIEIR, Serm. 6, 8,9.
n. 256 A Virgem... com hum raio de viva té alumie
a cegueira e ignorancia de noffos entendimentos.
Alumiar. Conceder parto feliz à mulher, fazela pa-
rir com bom fucceffo. GoEs, Chr. de D. Man. 14 Ha-
via já alguns dias, que a Infante Dona Beatriz fua mai
andaya, com dores fem poder parir, e quiz noffo Senhor
alumicala com o Santo Sacramento, BRIT. Mon. 2, 7. c.
24 Concebeo aos 24 de Fevereiro hum filho
de que
Deos à alumion aos 26 de Novembro. CUNH, Caral. 2,
19 Pedindolhe que a primeira [mulher] que lhe levaffe
novas, que Deos alumiára a Rainha, The deffe grandes
alviçaras.
Agric. Defafogar ou defembaraçar a vide ou cepa da
terra, que fe lhe bavia arrimado para eftar abrigada.
Particularmente fe diz da vinha plantada de pouco, pa-
ra que o podador
cab.
rveja e reconheça a vide: BLUT. Vo-
Alumiar as letras. Dar fogo as letras de betume,
que fe abrem nos letreiros de pedra, para que affim fiquem
negras. BLUT. Vocab.
Aluniar. neutt. Dar luz ou claridade. LoB. Primav.
3.8 A Lua alumea Sobre o Tejo claro. Fɛo, Tr.
1, 128, z A véla acceza não póde eftar fem alumiar,
ou aqui ou alli, e em alumiando a huma parre, deixa
de alumiar em outra. L. ALv. Céo, 16, 1 Effes dous
Planeras de dia, e de noite vigião, e rondão alumiando.
Alumiar o trabalho em alguma obra. Luzir on me-
drar nella o trabalho. BARR. Dec. 1, 10, 2 Vendo que
os Cafres com cobiça de premio acudião bem ao trába.
lho, que alumisva na obra. Covт. Dec. 4, 7, 12 A pe-
dra trazida pera os muros, que alumion muiro na obra,
que hia crecendo a olho.
Adag. O ignorante e a candèa a fi queima, e a
outros alumea. DELIC. Adag. 10.
{{lema|ALUMINADO, A}}. p. p. de Aluminar. FR. MARC. Chr.
2, 8, 36. CEIT. Serm. 1, 210, 2.
{{lema|ALUMINAR}}. v. a. Alumiar, illuminar, illuftrar. Ufafe
em fentido metaphorico. PINT. PER. Hift 2,6, 17 Ra-
zões que podem aluminar pera fazerem [os pruden-
tes e fabedores] mais acertado juizo nas materias. FEO,
Tr. Quadr. 2, 1, 3 Alaminando noffas cegueitas [da al-
ma] M. BERN. Medit. 10, 3 Efte he o que ha de alu-
minar o mundo.
Pintur. Dar luz aos quadros, pondo fombras pela
parte contraria daquella, por onde vem a luz. A. DE VASC.
Anj, 2, 4, 7. part. 8. p. 212 Se applique mui de propo-.
pelo mais fubido da fua arte.
fito a formar as perfeiçoes, e aluminar as cores e matizes
{{lema|ALUMINOSO, A}}. adj. Que tem miftura de pedra hume. Do Lat. Aluminofus. MADEIR. Meth. 1, 8, 2 Aluminofa [a-
goa] fe faz defte modo &c, MORAT. Pratic. 3, 32.<noinclude></noinclude>
7vpmh2a2od8pgw39j22tyughtpxled0
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/* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: VELHA PRAGA Andam todos, em nossa terra, por tal forma estonteados pelas proezas infernaes dos bellacissimos «vons» allemães, que não sobram olhos para enxergar males caseiros. Venha, pois, uma voz do sertão dizer ás gentes da cidade que, se por lá fóra o fogo da guerra lavra implacavel, fogo não menos destruidor devasta as nossas mattas com furor não menos germanico. Em agosto, por força da excessiva secca do inverno «von Fogo» lam...
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<noinclude><pagequality level="1" user="JppBr98" /></noinclude>VELHA PRAGA
Andam todos, em nossa terra, por tal forma
estonteados pelas proezas infernaes dos bellacissimos «vons» allemães, que não sobram olhos para
enxergar males caseiros.
Venha, pois, uma voz do sertão dizer ás gentes
da cidade que, se por lá fóra o fogo da guerra
lavra implacavel, fogo não menos destruidor devasta as nossas mattas com furor não menos germanico.
Em agosto, por força da excessiva secca do inverno «von Fogo» lambeu montes e valles, sem um momento de treguas durante o mez inteiro.
Vieram em começos de Setembro chuvas leves,
chuvinhas de apagar poeira, e, breve, novo «verão
de sol» se estirou por Outubro a dentro, dando
azo a que se torrasse tudo quanto escapára á sanha de Agosto.
A serra da Mantiqueira ardeu como uma aldeia
belga arde, e é hoje um cinzeiro immenso, entremeiado, aqui e acolá, de manchas de verdura —<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="JppBr98" />{{c|{{--}} 240 {{--}}}}</noinclude>as restingas humidas, as grotas frias, as nesgas
salvas a tempo pela cautella dos aceiros. Tudo
mais é crepe negro.
A’ hora em que escrevemos, fins de Outubro,
chove. Mas que chuvinha sordida! Que miseria
d’agua! Emquanto caem do ceu pingos homeopathicos, medidos por conta-gottas, o fogo, amortecido mas não dominado, amoita-se insidioso
nas piúcas, a fumegar imperceptivelmente, prompto para rebentar em chammas mal se limpe o
ceu e o sol lhe dê a mão.
Preoccupa a toda gente o conhecer em quanto
fica, por dia, em francos e centimos, um soldado
em guerra: mas ninguem cuida de calcular os
prejuizos de toda a ordem, provindos de uma
assombrosa queima destas. As velhas camadas
de humus destruidas; os saes preciosos que, breve, as enxurradas deitarão fóra, rio abaixo, via
oceano; o rejuvenescimento florestal da terra paralysado e retrogradado; a destruição das aves
silvestres e o possivel advento de pragas insectiformes; a alteração para peior do clima, pela aggravação crescente das seccas; os vedos e aramados perdidos; o gado morto ou depreciado
pela falta de pastos; as mil e uma particularidades que dizem respeito a esta ou aquella zona,
e, dentro della, a esta ou aquella situação agricola…
Isto, bem sommado, daria algarismos de apavorar; infelizmente, no Brasil subtrahe-se; sommar ninguem somma.
{{nop}}<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="0" user="JppBr98" />{{c|{{--}} 249 {{--}}}}</noinclude><noinclude></noinclude>
riisaabwuh937ht6v2ba6olvcoqbocs
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="0" user="JppBr98" />{{c|{{--}} 251 {{--}}}}</noinclude><noinclude></noinclude>
nm2clgcfduwslwlm0lv9sdxrq2qycnl
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="0" user="JppBr98" />{{c|{{--}} 252 {{--}}}}</noinclude><noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="0" user="JppBr98" />{{c|{{--}} 253 {{--}}}}</noinclude>Stanford University Libraries
Stanford, California
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MAR
+1995
OCT 14 1977<noinclude></noinclude>
7xfu6i4q2vwox7m8usruwga11oismcr
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="0" user="JppBr98" />{{c|{{--}} 254 {{--}}}}</noinclude><noinclude></noinclude>
nnnlrprixdw1uvb1do62cb0dbfm2p22
Página:Urupês 1918 (ed.3, 4º milheiro).pdf/247
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<noinclude><pagequality level="3" user="JppBr98" />{{c|{{--}} 241 {{--}}}}</noinclude>E’ peculiar de Agosto, e typica, esta desastrosa queima de mattas; nunca, porém, assumiu
tamanha violencia e alcançou tal extensão como
neste tortissimo 1914 que, benza-o Deus, parece
aparentado de perto com o celebre anno mil de
macabra memoria. Tudo nelle culmina, e vae logo
ás do cabo, sem conta nem medida. As queimas
não fugiram á regra.
Razão sobeja, para, desta feita, encarar seriamente com o problema e resolvel-o de vez. Do
contrario a Mantiqueira em pouco tempo será
toda um sapeseiro sem fim erysipelado de samambaia — esses dois pontos finaes á uberdade
das terras montanhosas.
Qual a causa da renitente calamidade?
E’ mister um rodeio para chegar lá.
A nossa montanha é victima de um parasita,
um piolho da terra, peculiar ao solo brasilio como
Argas o é aos gallinheiros e o «Sarcoptes mutans»
á perna das aves domesticas.
Poderiamos, analogicamente, classifical-o entre
as variedades do «porrigo decalvans», o parasita
do couro cabelludo productor da «pellada», pois
que, onde elle assiste, se vae despojando a terra
de sua coma vegetal até cahir em morna decrepitude, nua e descalvada. Em quatro annos, a
mais ubertosa região se despe dos jequetibás e
perobeiras millenarias, seu orgulho e grandeza,
para, em achincalho crescente, cahir em capoeira, passar desta á humildade da vassourinha,
e, decahindo sempre, encruar definitivamente na
desdita do sapeseiro, — sua tortura e vergonha.
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