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Autor:Luís Vaz de Camões
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| Wikicommons = Luís de Camões
| MiscBio = É considerado o maior poeta de Portugal e dos maiores da humanidade. Das suas obras, a epopeia de ''[[Anexo:Versões/Os Lusíadas|Os Lusíadas]]'' é a mais significativa. {{Audível}}
}}
== Obras ==
* {{ano|1572}}: {{livro digitalizado/ico|Os Lusíadas}} {{Som}}
* {{ano|1595}}: {{livro digitalizado/ico|Rimas (Luís de Camões)|Rimas}}
==== Obras completas de Luis de Camões ====
Edição composta por [[Autor:José Victorino Barreto Feio|José Victorino Barreto Feio]] e [[Autor:José Gomes Monteiro|José Gomes Monteiro]].
* {{Ano|1843}}: {{livro digitalizado|Tomo I|Obras completas de Luis de Camões I (1843) (Corrected).djvu}} {{Som}}
* {{Ano|1843}}: {{livro digitalizado|Tomo II|Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu}} {{Som}}
* {{Ano|1843}}: {{livro digitalizado|Tomo III|Obras completas de Luis de Camões III (1843).djvu}} {{Som}}
=== Canções ===
{{tabela-começo}}
* [[A Instabilidade da Fortuna]]
* [[Com força desusada]]
* [[Fermosa e gentil dama]]
* [[Junto de um seco, fero e estéril monte]]
{{tabela-meio}}
* [[Manda-me Amor que cante docemente]]
* [[Se este meu pensamento]]
* [[Tomei a triste pena]]
* [[Vinde cá, meu tão certo secretário]]
{{tabela-fim}}
=== Teatro ===
* [[Auto de Filodemo]]
==== Sonetos ====
''cerca de 215 sonetos em: [[Anexo:Sonetos de Luís Vaz de Camões]]''
=== Miscelânea ===
* [[Ferro, fogo, frio e calma]]
* [[Verdes são os campos]]
==Fontes==
''Obras de Luiz de Camões: precedidas de um ensaio biographico, no qual se relatam alguns factos não conhecidos da sua vida, Por Luís de Camões, João Antonio de Lemos Pereira de Lacerda Juromenha, Francesco Petrarca, Publicado por Imprensa nacional, 1860''
* [http://books.google.com.br/books?id=tBA2AAAAIAAJ Volume I] (1860) * [http://books.google.com.br/books?id=KxE2AAAAIAAJ Volume II] (1861) * [http://books.google.com.br/books?id=kBE2AAAAIAAJ Volume III] (1862) * [http://books.google.com.br/books?id=3Bk2AAAAIAAJ Volume IV] (1863) * [http://books.google.com.br/books?id=OxI2AAAAIAAJ Volume V] (1864)
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{{desambig}}
'''Rimas''' ou '''Rima''' pode se referir a:
*[[Rimas (Luís de Camões)|''Rimas'']], compilação de poemas de Luís de Camões.
*[[Rimas (Francisco Álvares de Nóbrega)|''Rimas'']], livro de Francisco Álvares de Nóbrega publicado originalmente em 1804.
*[[Horto (1910)/Rimas|''Rimas'']], poema de Auta de Sousa.
*''[[Rima]]'', poema de Raimundo Correia.
*''[[As Rimas de João Xavier de Matos]]'', poema de Sapateiro Silva
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* [[Mulheres e creanças/Capítulo XIII|Capítulo XIII - Victoria Woodhall]]
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Quer-me parecer que caminhamos para outra
realisação do mytho biblico referente á torre de
Babel.
Começa a reinar a confusão da lingua, e os
obreiros da grande torre do progresso, por segundo
castigo de suas audacias, vão dentro em pouco
deixar de se entender.
Philologos da geração presente, tomae notas
acertadas d’esta nova evolução do organismo social,
para formardes mais justas classificações; anatomistas
especiaes da glotte, empregae todo o cuidado
na delicada dissecção, levantando na ponta do
escalpello as ultimas fibras dos musculos, vasos e
nervos.
Ninguem julgue que me vou occupar d’essa barbara invasão de vocabulos, e construcções de phrases, com que a pequice dos tarecos tem {{pt|de-|deturpado }}<noinclude></noinclude>
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Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa
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{| class="toc" style="width:100%; margin-bottom: 1em; background-color: #f9f9f9; border: 1px solid #aaa; padding: 5px;"
|
'''Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa'''<br />
''Autora:'' [[Autor:Ana de Castro Osório|Ana de Castro Osório]]<br />
''Ilustrador:'' Álvaro Duarte de Almeida<br />
''Edição:'' Sociedade de Expansão Cultural (Lisboa, 1952)<br />
''Nota:'' Edição diplomática. Texto fixado segundo a ortografia original de 1952.
|}
== Índice de Histórias ==
* [[/Prefácio|Prefácio]]
* [[/O Homem da moca|O Homem da moca]]
* [[/História do careca|História do careca]]
* [[/A Bela Felicidade|A Bela Felicidade]]
* [[/O porqueiro|O porqueiro]]
[[Categoria:Ana de Castro Osório]]
[[Categoria:Obras em domínio público]]
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Mt516
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/* Índice de Histórias */
559087
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'''Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa'''<br />
''Autora:'' [[Autor:Ana de Castro Osório|Ana de Castro Osório]]<br />
''Ilustrador:'' Álvaro Duarte de Almeida<br />
''Edição:'' Sociedade de Expansão Cultural (Lisboa, 1952)<br />
''Nota:'' Edição diplomática. Texto fixado segundo a ortografia original de 1952.
|}
== Índice de Histórias ==
* [[/Prefácio|Prefácio]]
* [[/O Homem da moca|O Homem da moca]]
* [[/História do careca|História do careca]]
* [[/A Bela Felicidade|A Bela Felicidade]]
* [[/O porqueiro|O porqueiro]]
* [[/O coelho branco|O coelho branco]]
* [[/Branca Flor|Branca Flor]]
* [[/História do Príncipe encantado no palácio de ferro no reino da escuridão|História do Príncipe encantado no palácio de ferro no reino da escuridão]]
* [[/O corvo|O corvo]]
* [[/O Príncipe Bezerro|O Príncipe Bezerro]]
[[Categoria:Ana de Castro Osório]]
[[Categoria:Obras em domínio público]]
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'''Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa'''<br />
''Autora:'' [[Autor:Ana de Castro Osório|Ana de Castro Osório]]<br />
''Ilustrador:'' Álvaro Duarte de Almeida<br />
''Edição:'' Sociedade de Expansão Cultural (Lisboa, 1952)<br />
''Nota:'' Edição diplomática. Texto fixado segundo a ortografia original de 1952.
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== Índice de Histórias ==
* [[/Prefácio|Prefácio]]
* [[/O Homem da moca|O Homem da moca]]
* [[/História do careca|História do careca]]
* [[/A Bela Felicidade|A Bela Felicidade]]
* [[/O porqueiro|O porqueiro]]
* [[/O coelho branco|O coelho branco]]
* [[/Branca-Flor|Branca-Flor]]
* [[/História do Príncipe encantado no palácio de ferro no reino da escuridão|História do Príncipe encantado no palácio de ferro no reino da escuridão]]
* [[/O corvo|O corvo]]
* [[/O Príncipe Bezerro|O Príncipe Bezerro]]
[[Categoria:Ana de Castro Osório]]
[[Categoria:Obras em domínio público]]
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'''Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa'''<br />
''Autora:'' [[Autor:Ana de Castro Osório|Ana de Castro Osório]]<br />
''Ilustrador:'' Álvaro Duarte de Almeida<br />
''Edição:'' Sociedade de Expansão Cultural (Lisboa, 1952)<br />
''Nota:'' Edição diplomática. Texto fixado segundo a ortografia original de 1952.
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== Índice de Histórias ==
* [[/Prefácio|Prefácio]]
* [[/O Homem da moca|O Homem da moca]]
* [[/História do careca|História do careca]]
* [[/A Bela Felicidade|A Bela Felicidade]]
* [[/O porqueiro|O porqueiro]]
* [[/O coelho branco|O coelho branco]]
* [[/Branca-Flor|Branca-Flor]]
* [[/História do Príncipe encantado no palácio de ferro no reino da escuridão|História do Príncipe encantado no palácio de ferro no reino da escuridão]]
* [[/O corvo|O corvo]]
* [[/O Príncipe Bezerro|O Príncipe Bezerro]]
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[[Categoria:Ana de Castro Osório]]
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'''Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa'''<br />
''Autora:'' [[Autor:Ana de Castro Osório|Ana de Castro Osório]]<br />
''Ilustrador:'' Álvaro Duarte de Almeida<br />
''Edição:'' Sociedade de Expansão Cultural (Lisboa, 1952)<br />
''Nota:'' Edição diplomática. Texto fixado segundo a ortografia original de 1952.
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== Índice de Histórias ==
* [[/Prefácio|Prefácio]]
* [[/O Homem da moca|O Homem da moca]]
* [[/História do careca|História do careca]]
* [[/A Bela Felicidade|A Bela Felicidade]]
* [[/O porqueiro|O porqueiro]]
* [[/O coelho branco|O coelho branco]]
* [[/Branca-Flor|Branca-Flor]]
* [[/História do Príncipe encantado no palácio de ferro no reino da escuridão|História do Príncipe encantado no palácio de ferro no reino da escuridão]]
* [[/O corvo|O corvo]]
* [[/O Príncipe Bezerro|O Príncipe Bezerro]]
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[[Categoria:Ana de Castro Osório]]
[[Categoria:1952]]
[[Categoria:Contos portugueses]]
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Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O Homem da moca
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| título = [[../]]
| autor = Ana de Castro Osório
| tradutor =
| seção = O Homem da moca
| anterior = [[../Prefácio/]]
| posterior = [[../História do careca/]]
| notas =
}}
<big>'''O HOMEM DA MOCA'''</big>
HAVIA numa terra, que não vem para aqui dizer o nome, um rapaz dotado duma força tal que nenhum homem se atrevia a lutar com ele. Mas, como era bom e alegre, todos o convidavam e lhe chamavam o Benvindo significando assim o prazer que sentiam com a sua companhia.
Um dia aborreceu-se de viver ali e resolveu ir viajar. Mandou fazer uma grande moca de ferro e, encostando-se a ela, partiu sem destino, ao acaso da sua fantasia.
Passou por um pinhal e viu um homem que arrancava grandes pinheiros com a maior facilidade e os atava em molho como se fossem ramos secos. O ''Homem da moca'' perguntou ao outro o que andava a fazer e, como lhe respondesse que andava ajuntar lenha para o seu lume e tencionava levar duma vez as árvores todas, ficou muito contente de encontrar um homem com tanta força e propôs-lhe serem companheiros, pagando-lhe ele soldada.
O ''Arranca-pinheiros'' aceitou logo e, satisfeitos de serem dois valentes sem medo a coisa alguma, continuaram a jornada. Depois de muito caminharem e de verem inúmeras terras sem nunca encontrarem quem os vencesse, viram no meio dum campo um homem só com uma montanha às costas. Admirados, perguntaram:
— Olá, tu que fazes aí?
— Eu tenho muita força e para me entreter quero mudar esta montanha.
— Deixa-te disso — acudiu ''O da moca'' — vem daí connosco ver terras, que eu pago-te soldada como pago a este.
O ''Revolve-montes'' aceitou e lá. foram os três valentes correr mundo.
Eram a admiração de toda a gente e muitos Reis e Imperadores os quiseram fazer generais dos seus exércitos. Mas o ''Homem da moca'' nada mais desejava do que ver terras, correr mundo e conhecer novas gentes.
Assim foram andando até que uma noite acharam-se num descampado onde havia uma casa. Não vendo más nem boas, para
ali se dirigiram e ficaram verdadeiramente espantados por encontrarem uma boa casa completamente abandonada.
Benvindo, que não era homem para meias medidas, entrou por ali dentro, tomou posse de tudo e disse aos companheiros
que era preciso fazer a ceia e então que fosse um deles ver se encontrava quem lhe desse ou vendesse coisa que pudessem comer.
Saiu o ''Arranca-pinheiros'' e, como visse fogueiras na serra, discorreu que eram os pastores e foi comprar um carneiro e bom leite. Por conversa perguntou de quem era aquela grande casa e porque razão estava assim abandonada. Responderam-lhe os pastores:
— A casa lá de baixo?! Ai senhor, Deus o livre de lá ficar!
— Mas porquê, homenzinhos?! Digam sempre, que nós somos três companheiros invencíveis, sem medo a coisa alguma.
— Pois os senhores serão muito valentes, ninguém diz menos disso (responderam os pastores), mas é que naquela casa anda o Diabo e quem lá ficar morre!
— Vamos a ver se ele é mais forte do que nós!
Foi ter com os companheiros e, contando oque lhe tinham dito os pastores, pediu a Benvindo que se fosse deitar mais o ''Revolve-montes'', que ele ficaria fazendo a ceia.
Assim foi; os dois subiram para os quartos e o ''Arranca-pinheiros'' tratou de esfolar o carneiro e pô-lo a assar no espeto, ao mesmo tempo que deitava o leite num tacho para ferver.
Estava nestes preparativos quando ouviu uns ''miaus'' terríveis. Voltou-se e deu de cara com um gatarrão, preto como o azeviche, que abria uma boca enorme miando desesperadamente. Era tão medonho o animal que o ''Arranca-pinheiros'', apesar da sua valentia, fugiu pela escada acima, chamando os companheiros. Entretanto foi o gato ao lume e levantou tal labareda que o carneiro ficou em carvão e o leite em fervura fugiu todo do tacho. Vieram os companheiros ver o gato famoso que havia afugentado o valente, mas nada encontraram.
O ''Homem da moca'' muito zangado mandou pôr a ceia na mesa, mas a ceia era uma vez!, tiveram que se deitar sem ela.
Ao outro dia quiseram os dois ir-se embora, mas ''O da moca'', tendo empenho de conhecer a coragem dos seus homens, resolveu ficar.
Mandou outra vez comprar um carneiro e leite e nessa noite foi o ''Revolve-monte''s quem ficou a fazer a ceia. Mal o homem tinha posto tudo ao lume, ouvindo o sinistro miar do gato, largou barcos e redes e foi acorrer ter com os companheiros gritando que estava ali o Diabo com forma de gato, a deitar lume pelos olhos! Os outros desceram e não viram nada, mas, como na véspera, tiveram que ficar sem ceia — porque tudo estava reduzido a carvões.
Na noite seguinte mandou ''O da moca'' deitar os dois e ficou ele a cozinhar a ceia, pondo ao pé de si a arma sua fiel companheira. Tinha já a ceia pronta e estava para chamar os outros dois, quando ouviu o gato a miar. Olhou para o lado, viu o bicho e disse-lhe:
— Anda para cá com o teu ''renhau-nhau'', que eu te ensino!
O gato, sem fazer caso, ia-se aproximando do lume; e o homem, sempre com olhos nele, pegou na moca e quando o viu ao alcance levantou-a ràpidamente e arrumou-lhe tamanha pancada que o bicho deu um berro medonho e desapareceu.
— Então não te dizia eu que me havias de pagar!? Deixares-me duas noites sem ceia!? Ora toma lá para não seres esperto! — dizia ele todo contente.
Chamou os companheiros para a ceia, e eles, que já o imaginavam cheio de susto, ficaram envergonhados de o verem a rir muito satisfeito da sua proeza.
Cearam com todo o descanso e apetite, e depois disse ''O da moca'':
— Agora vamos procurar o gato, que ele deve estar por aí escondido em algum canto.
Respondeu o ''Arranca-pinheiros'':
— Então como havemos de o encontrar?
— Procurando-o, meu bruto! Pois tu não vês que deixou rastro de sangue?
''O da moca'', sempre na frente, foi seguindo e, depois de percorrerem lojas, subterrâneos e velhos casarões abandonados, chegaram a um pátio interior onde havia um poço. Terminava ali o rastro de sangue, que ainda se via na borda.
— Bom! (disse Benvindo). Foi por aqui que ele se meteu, e nós vamos lá abaixo procurá-lo.
— Como havemos nós de descer? — perguntaram os outros, sempre atrapalhados.
— Isso já se arranja. Fiquem vocês aguardar a saída, que eu já volto.
Foi à cozinha, onde tinha visto cordas e cestos, escolheu um com quatro asas e trouxe tudo para aborda do poço. Atou as cordas às quatro asas do cesto e fazendo entrar para dentro o ''Arranca-pinheiros'' deu-lhe uma campainha dizendo: Tu vais descer lá ao fundo e ver o que há para vires contar; levas esta campainha, se te vires aflito toca-a com força que nós içamos-te logo.
O ''Arranca-pinheiros'' lá se meteu no cesto e os dois começaram a deixá-lo cair devagarinho.
Estaria por aí a meio do poço, começou a tocar a campainha com tal fúria que os outros o subiram logo. Perguntou ''O da moca'':
— Então para que tocaste? O que viste?
— Ih, Jesus! eram tantos os mosquitos que não era possível romper. Até me iam abafando!
— És um bruto que só tens força e não tens coragem nenhuma. Agora vai tu, ''Revolve-montes''.
Meteu-se este no cesto e foi descendo, mas quando estaria a duas terças partes do caminho desanda a tocar numa tal fúria que não houve mais remédio senão tirá-lo. Chegou acima e disse o mesmo que tinha dito o ''Arranca-pinheiros''.
''O Homem da moca'' ficou tão zangado que ele próprio se meteu no cesto e recomendou que ouvindo tocar não o subissem porque isso apenas queria dizer que precisava descer mais depressa; que só içassem o cesto quando ele abanasse as cordas.
Assim foi. A meio do poço, como eram tantos os mosquitos que já o atabafavam, começou a tocar e os de cima vá de largar corda. Foi um instante enquanto se viu com os pés no chão.
Saiu do cesto e ficou maravilhado. Dos mosquitos nem sinal! E o fundo do poço não era mais que um palácio, todo de cristal, iluminado como se fosse dia.
Começou a percorrer salas e quartos e por toda a parte as riquezas eram tais e tantas que ele se imaginava a sonhar. Assim andou, sem ver ninguém, até encontrar uma Velha que, admirada e compungida, lhe disse:
— Que vens aqui fazer, desgraçado? Pois tu não sabes onde estás?!
— Para o saber é que venho — respondeu ele arrogante — e se tu não mo dizes, com esta moca te esmago já.
Porque é de saber que ele nunca largava a sua arma.
A Velha, vendo-se perdida com semelhante ameaça, disse logo:
— Espera lá, espera lá, que eu tudo te conto. Olha, naquele quarto está a filha mais velha dum grande Rei, guardada por um leão. Se ele te vê, devora-te. No segundo quarto está a segunda filha do mesmo Rei, guardada por uma serpente, a maior que existe no Mundo. Se lhe apareces, decerto que te engole. E no terceiro quarto está a terceira Princesa que, por ser a mais bela de todas, é guardada pelo próprio Diabo.
— Hum! Pois a procurar esse ''figurão'' é que eu vim. Deixa, que ele já provou a minha moca; então vai renovar conhecimentos.
— Não — disse a Velha — não fazes nada com isso. Visto que ele já sabe quanto pesa a tua bengala não há-de querer mais brincadeiras dessas. Naturalmente propõe-te um duelo à espada, e tu aceita logo; mas quando ele vier com as espadas, uma muito nova e brilhante, outra muito ferrugenta, escolhe tu esta que a outra é de vidro.
— Tu estás a enganar-me?
— Não estou, não; previno-te porque assim me vingo dele que me tem presa aqui desde a minha mocidade. Não digas que me viste, é só o que te peço.
O rapaz dirigiu-se logo para a primeira porta, abriu-a e encontrou uma linda menina, sentada num banco de oiro, abanando-se com um leque de rendas preciosas. Quando ela o viu entrar, gritou-lhe:
— Que vem aqui fazer, desgraçado?! Fuja, que é um leão o meu guarda; se o encontra, mata-o logo.
— Pois, minha linda Princesa, eu é que venho para o matar a ele e então já daqui não saio.
Mal isto disse, um rugido medonho fez tremer todo o palácio e o homem não teve senão tempo de se meter atrás da porta, enquanto a Princesa, estarrecida de susto, o encomendava a todos os Santos. Abriu-se a porta com formidável estrondo e o leão rugiu:
— Aqui há humana criatura!...
Mas nem a Princesa teve tempo de responder porque o ''Homem da moca'' descarregou tamanha pancada na cabeça do monstro que ele ficou logo morto.
Depois agarrou na Princesa ao colo e foi a correr metê-la no cesto. Deu um grande puxão à corda, que começou logo a subir, e disse à Princesa que mandasse descê-lo, para irem as irmãs. Ela despediu-se, dando-lhe em sinal de reconhecimento o seu precioso leque.
Vitorioso daquele primeiro inimigo, dirigiu-se ao segundo quarto. Abriu aporta e deparou com uma menina, se era possível, ainda mais linda do que a primeira. Sentada junto duma mesa, tinha na mão um ramo de mil flores feito de pedras preciosas. Mal viu o rapaz, disse-lhe com tristeza:
— Fuja depressa, que a minha guarda é uma serpente, e se aqui o apanha mata-o logo.
— Não fugirei, minha linda Infanta, porque já salvei a sua irmã e aqui estou para a salvar também.
Mal tinham dito estas palavras ouviram um silvo medonho e uma serpente monstruosa apareceu: — Quem está aqui a falar?!
Não respondeu a menina, que Benvindo, rápido como um relâmpago, saiu de trás da porta e deu tal pancada no mostrengo que ele ficou logo ali despedaçado.
A menina, doida de contentamento, saltou-lhe ao pescoço e ele pegou nela ao colo e foi acorrer metê-la no cesto. Sacudindo as cordas fortemente, fez-lhe a recomendação de o mandar descer para ir a terceira Princesa. Ela prometeu, e como prova de reconhecimento deu-lhe também o seu ramo.
Mal o cesto começou a subir, foi a correr ao terceiro quarto, abriu a porta e ficou deslumbrado vendo a terceira Princesa, que era a mais linda de todas. Nada havia no mundo a que a comparar, porque a sua formosura parecia divina.
Sentada num banquinho de marfim, fiava numa roca feita dum só brilhante. Mal deu com os olhos no rapaz ficou muito contente e ao mesmo tempo admirada, porque homens era coisa que nunca vira, tendo sido roubada pelo Diabo logo que nasceu.
Depois ficou muito triste, dizendo:
— O que vem aqui fazer, infeliz? Não sabe que é o Diabo quem me guarda? Que é ele o senhor deste palácio, que é ele quem aqui tudo manda, e se o apanhar o matará?!
— Pois à procura dele venho eu (disse Benvindo). Até já me está tardando encontrar-me com esse sujeito para o ensinar bem ensinado.
— É que nem o senhor sabe quem ele é; se cá o apanha mata-o logo.
— Veremos isso!...
— Olhe, lá vem ele! — E, muito aflita, pôs-se a menina afiar disfarçadamente, enquanto ''O da moca'' se metia atrás da porta. Nisto sentiu-se um formidável barulho, todo o palácio estremeceu, e, como um furacão, entrou o Diabo a gritar: — Aqui está gente!...
O rapaz ia a descarregar-lhe uma violenta pancada, mas o ''inimigo'', que era mais fino do que fora o leão e do que a serpente; desviou-se para o lado com um salto, dizendo:
— Nada, lá com a moca é que não! Já uma vez me deste com ela que me ias arrebentando. Entre valentes o caso vai doutra
maneira. Havemos de nos bater à espada.
— Pois seja; aceito. Vai lá buscar as espadas. Se tu ficares vencedor, matas-me; se eu te vencer a ti, levo esta menina e tu nunca mais te meterás comigo.
— Está dito! — respondeu o Diabo.
E muito contente foi buscar duas espadas, uma muito reluzente e outra muito ferrugenta. Queria entregar a brilhante ao rapaz, mas ele recordou-se do conselho da Velha, lançou mão da outra, dizendo em ar de graça:
— Nada de cerimónias, amigo; eu não sou para essas delicadezas.
E levantando a espada começou o combate partindo em mil pedaços a que tinha o Diabo e dando-lhe tal cutilada que lhe cortou uma orelha.
Vencedor, nem esperou que voltasse a si da surpresa o seu adversário; apanhou a orelha e meteu-a no bolso. Depois pegou na menina e foi a correr pô-la no cesto, dizendo-lhe que mandasse o descessem, para ele depois subir. A lindíssima Princesa, agradecendo-lhe muito, queria que ele subisse no mesmo cesto, com medo que ainda o Diabo lhe fizesse alguma. Mas o cesto era pequeno para os dois.
Benvindo tratou de a sossegar, e ela, em sinal da sua imensa gratidão, deu-lhe a roca.
Ali ficou Benvindo à espera; e fartou-se de esperar que lhe deitassem o cesto para ele subir. Mas isso é que não podia acontecer porque mal se viram com as Princesas, os falsos foram-se embora com elas, sem quererem saber do companheiro que as tinha ido libertar.
As Princesas não queriam ir, mas não podiam resistir à força deles. Só a mais nova chorou e se afligiu tanto que perdeu a fala.
Dirigiram-se para o Reino do pai das Princesas, o qual ficou tão contente que não se pode dizer mais.
Em sinal de regozijo decretou logo grandes festas e um torneio esplêndido, para solenizar tão grande ventura e, ao mesmo tempo, fazer público o casamento das duas Princesas mais velhas com os que se inculcavam seus libertadores. Só no meio de tanta felicidade havia o imenso desgosto da Princesa mais nova ter perdido a fala.
Por mais que lhe dissessem e fizessem, ela nada respondia e a sua vida era chorar. Por esse motivo resolveu o Rei dar três grandes torneios para reunir na sua capital todos os Príncipes e Cavaleiros do Mundo, a ver se à Princesa lhe voltava a fala e escolhia marido.
<p style="text-align: center;">* * *</p>
''O da moca'', que ficou no fundo do poço, farto de esperar e tornar a esperar, convenceu-se de que tinha sido enganado e jurou vingar-se. Sair dali é que era o principal e também o mais difícil. Andou para um lado e para o outro, percorreu todo o maravilhoso palácio subterrâneo, mas ninguém encontrou.
Passados três dias, já desesperado, voltou ao fundo do poço, lembrou-se que tinha no bolso a orelha do diabo e cheio de raiva esfregou-a com muita força na parede, dizendo:
— Este é que tem a culpa de tudo.
Ouviu logo uma voz gritar:
— Ai, minha rica orelha, dá-me cá a minha orelha!...
— Não dou! Põe-me lá em cima imediatamente, senão ainda farei pior.
Não viu o Diabo mais remédio senão aparecer e dizer-lhe que montasse nos seus ombros, que seria um instante enquanto o levaria. O rapaz subiu e ei-los aí vão pela terra acima.
A meio do poço diz o Diabo:
— Não me apertes tanto, olha que me afogas!
— Nada, não hei-de apertar! O que tu agora querias era largar-me.
E, apertando ainda mais o pescoço do Diabo, num momento se apanhou em cima.
Mal se viu ao ar livre, correu em procura dos companheiros e das Princesas, mas ninguém lhe dava sinais certos da sua passagem. Andando e perguntando, chegou à grande cidade onde eles agora estavam. Logo ali soube as alegrias que iam no Paço, do casamento das duas irmãs mais velhas e dos preparativos que, para o torneio e mais festas, se faziam.
De toda a parte do Mundo tinham já chegado Príncipes e Cavaleiros que tomavam parte no torneio. Mas, ao mesmo tempo que havia todo este regozijo, havia também um desgosto enorme porque a Princesa mais nova tinha perdido a fala e não fazia senão chorar. Por mais carinhos de que a rodeassem tudo era baldado, e o pai só tinha esperança de a ver boa se algum dos nobres Cavaleiros que vinham ao torneio conseguisse tocar-lhe o coração.
Quem estas informações estava dando ao ''Homem da moca'' era um ourives de grande fama, que, pelos vistos, curava mais das vidas alheias que dos afazeres.
Estavam nesta conversa quando lhe vieram dizer que; sem falta, o Rei queria as pinhas no dia seguinte, sob pena de morte. Ficou o homem muito aflito e ''O da moca'' perguntou-lhe o que tinha.
— O que hei-de ter?! Decerto que vou à morte, porque Sua Majestade encomendou-me seis pinhas de oiro para mandar colocar na balaustrada da tribuna real; ora as encomendas têm sido tantas que não pude encontrar oficiais que me ajudassem.
— Não se apoquente (disse Benvindo), que eu também sou ourives, e sei fazer todas as obras, ainda as mais delicadas. Dê-me o senhor a ferramenta, o oiro e o modelo; deixe-me ir só para um quarto bem fechado, e eu me comprometo a fazer-lhe o que deseja.
O ourives deu-lhe tudo quanto ele pediu. O rapaz foi para o quarto, mas, em lugar de trabalhar, meteu-se na cama e dormiu, como um justo, até à noite. À ceia chamaram-no e ele foi logo, comendo com tal apetite que admirava a toda a família da casa. Depois pegou numa luz e foi para o quarto fingir que trabalhava.
Antes de se ir deitar foi o ourives ver o adiantamento da obra, e não vendo nada feito desatou a chorar.
— Ó homem, vá-se deitar e descanse, que há-de ter as pinhas.
— Hei-de ter, hei-de! O senhor fala assim porque não tem a sua vida em perigo. O Rei manda-as buscar amanhã; o que hei-de fazer?!
— Já lhe disse que as venha buscar daqui a pouco, pois estarão prontas.
O ourives, não se fiando em tais palavras saiu do quarto, desanimado.
Mal fechou a porta, ''O da moca'' meteu a mão no bolso e tirando a orelha do Diabo esfregou com ela na parede. Imediatamente o tal sujeito apareceu gritando: — Ai a minha orelha! Dá cá a minha orelha!
— Hei-de dar-ta, descansa, mas só quando não precisar de ti. Conta com isto e vai-te portando bem, se a queres!...
— Então para que me chamaste?
— Para me fazeres seis pinhas de oiro e brilhantes do feitio desta que está aqui.
Sentou-se o Diabo à mesa e, pegando no oiro, imediatamente o transformou em seis pinhas cravejadas de brilhantes, feitas com tal perfeição e arte que nada havia a dizer. O rapaz escondeu cinco numa gaveta e, chamando o ourives, mostrou-lhe uma, dizendo com todo o desassombro:
— Já acabei esta; diga se está boa para assim fazer as outras.
Era tal o seu brilho e beleza que nem o ourives ousou tocar-lhe e, caindo de joelhos, beijou as mãos do artista genial que tinha em sua casa.
Ao outro dia mandaram as seis pinhas.
Estava o Rei com a sua Corte e numerosos hóspedes quando chegou o portador. Aberta a caixa ficaram todos deslumbrados, não havendo elogios que não fizessem ao ourives.
O boato correu logo e, como nas festas que se projectavam todos queriam mostrar o seu gosto e riqueza, foram tantas as encomendas que fizeram ao artista célebre, que ele não tinha mãos a medir. Aceitava-as todas, porque ''O da moca'' encarregava-se de fazer tudo dum dia para o outro. A orelha do diabo é que dessa vez ia ficando em lastimável estado. O ourives ganhava rios de dinheiro, tanto mais que ele quis dividir com Benvindo e este nada aceitou.
Chegou finalmente o primeiro dia de torneio. Estava tudo a postos; o Rei, as Princesas, e toda a Corte nas tribunas; os Cavaleiros armados como se fossem para cruel batalha, prestes a lançarem-se uns contra os outros para mostrarem às suas damas como eram valorosos.
Acabavam os arautos de tocar as suas trompas, dando o sinal de combate, quando um cavaleiro todo vestido de armas pretas, montando um belo animal preto como azeviche, saltou por cima das barreiras, e, vindo parar em frente da tribuna real, fez uma profunda vénia. Voltou-se para os Cavaleiros e gritou-lhes arrogante:
— Para combater-vos vim, senhores! Um a um, dois a dois, dez a dez, ou todos juntos se quiserdes, eu vos receberei na ponta da minha lança.
Despeitadíssimos ficaram todos os reptados e todos à uma correram para o desconhecido, ansiosos de tirar vingança dum tal atrevimento. Mas recuaram logo, envergonhados de tal movimento, pois seria caso nunca visto, entre nobres Cavaleiros, irem tantos contra um.
Só o ''Arranca-pinheiros'' e o ''Revolve-montes'' — que eram agora dois nobres senhores da Corte, futuros genros do Rei — foram para a frente combater ''O da moca'', que outro não era o desconhecido de armas pretas.
Fortes eram eles, mas faltava-lhes a coragem sem a qual a força pouco mais vale do que nada.
Benvindo, que bem os conhecia, correu para eles com ímpeto e derribou-os logo das selas.
Em vista deste feito, saiu dentre os campeões o Príncipe de maior fama que nesse tempo havia e apresentou-se a desafiar ''O da moca''. Este, sem lhe fazer mal, enfiou a lança pela armadura e fê-lo ir cair no meio da arena. As palmas retumbaram de todos os lados, e o Rei mandou ir à sua presença o vencedor do dia.
Quando isto lhe disseram, recusou apresentar-se. Mandou o Rei que logo o prendessem, e ele, com a espada em sarilho, livrou-se de todos, e, chegando defronte da Princesa mais velha, atirou-lhe com o leque para o regaço. Assombrada, gritou amenina:
— Meu pai, meu pai, foi este que nos salvou!
Irritado com a teimosa recusa do desconhecido, ordenou o Rei que de qualquer modo o agarrassem. Nada importou ao Cavaleiro, que, abrindo passagem por entre o povo, fez saltar o cavalo por cima de tudo e desapareceu.
Ficaram desesperados de não terem podido apanhar o famoso Cavaleiro de armas pretas e o seu cavalo, a mais perfeita estampa que todos tinham visto, notando-se-lhe só a falta de uma orelha, coisa que muito dava que pensar.
No dia seguinte havia novo combate, e o Rei, para apanhar o desconhecido, mandou altear as balizas e pôr tropa em volta do campo para o prenderem e lho trazerem, vivo ou morto.
Mal os arautos deram o sinal de combate, viram todos, com assombro, um cavaleiro vestido de vermelho, montando um cavalo da mesma cor, que parecia deitar chamas pelos olhos e pela boca. Saltou por cima de tudo e de todos e veio estacar em frente da tribuna real. Já ninguém tirava os olhos dele, pois tinham a certeza de que era o mesmo da véspera, porque ao cavalo faltava também uma orelha.
Os Cavaleiros, como tinham o apoio do Rei, concordaram em se lançar todos à uma sobre o atrevido campeão, mas o espanto e o desespero foram grandes, vendo-se perdidos diante de tanta coragem e força. Em pouco tempo desarmara todos, sem a nenhum matar.
Tinha o Rei dado as suas ordens e atropa rodeou ''O da moca'' para lhe deitar a mão, mas este com tal destreza e brio se houve que pôde chegar junto da segunda Princesa e atirar-lhe com o ramo para o regaço. A menina, admiradíssima, gritou:
— Meu pai, não o deixe fugir, que foi ele quem nos salvou!
Mas quem podia ter mão em tal senhor?! Saltando por cima de tudo, ia a desaparecer, quando um soldado atrevido atirou um dardo que se lhe foi cravar na perna direita. Sem parar, foi com a mão para o arrancar, mas tão enterrado estava que se partiu. Atirou com o pedaço fora e continuou a fugir.
O soldado deu parte ao Rei do que tinha feito. Foram logo prevenidos todos os cirurgiões da cidade para, sob pena de morte, entregarem o Cavaleiro, se por acaso fossem chamados para o tratar. Mas Benvindo não era homem que se incomodasse com tão pouco. Mal chegou a casa foi para o quarto, acabou de arrancar o ferro, lavou a ferida, e, depois de a ligar, deitou-se e adormeceu.
O ourives andava intrigado com as frequentes saídas do seu oficial, e, vendo-o nesse dia entrar a coxear, foi de mansinho espreitar o que ele fazia. Ficou muito admirado de todo aquele aparato, e, quando o rapaz foi chamado para jantar, entrou-lhe no quarto e viu que era parte de um dardo o que ele tinha arrancado da perna. Compreendeu logo que tinha em sua casa o misterioso Cavaleiro e ficou contentíssimo de tal honra, mas fingiu nada saber.
Era o dia seguinte o último do torneio e o Rei mandou estar tudo a postos, porque, apesar de o saberem ferido, todos esperavam ver chegar o desconhecido campeão.
Mal os arautos tocaram para principiar o combate, viram com espanto um Cavaleiro todo vestido de azul, como sempre de vizeira caída, montando um cavalo também azul e com uma orelha de menos. Saltou por cima de tudo para ir fazer a sua vénia diante da tribuna real. A terceira Princesa — que para nada tinha olhos e que ainda não tinha falado desde que chegara ao palácio — mal ele apareceu ficou outra e nunca mais o perdeu de vista.
O ''Arranca-pinheiros'' e o ''Revolve-montes'' é que andavam desconfiados, e, como eram dois traidores e cobardes, deixaram-se ficar na tribuna.
Nesse dia desceu à liça o próprio Rei, armado de ponto em branco, e desafiou o desconhecido.
— Como te chamas, Cavaleiro?
— Benvindo, Senhor, é o meu nome, mas Cavaleiro não sou. Tenho-me apresentado como tal, e, para combater com outros
senhores, assim me apresentaria sempre; mas nunca para cruzar o meu ferro com o vosso.
Chamai todos os Cavaleiros e dos mais esforçados que a todos vencerei, mas nunca me obrigareis a defender-me da vossa real espada.
Em vista disto, mandou o Rei que vinte homens se defrontassem com o desconhecido, dizendo:
— Tenho tanto empenho em o conhecer que desejo tê-lo vivo e prisioneiro, ou vencido e morto. Aí estão vinte Cavaleiros dos mais valentes, defendei-vos!
É escusado dizer que a todos venceu, ficando ele só no meio da arena e os outros desmontados e sem armas. Depois chegou junto da Princesa mais nova e atirou-lhe com a roca de oiro para o regaço. Mal isto fez, a Princesa, que ainda não tinha falado, gritou:
— Ai, meu pai, que é o nosso salvador!
E tamanha foi a sua alegria que perdeu os sentidos.
O Cavaleiro fugiu. Mas, com o esforço que fez ao saltar por cima das balizas altíssimas, a ferida, mal fechada, abriu-se de novo e deixava um rasto de sangue por onde ele ia passando.
Seguindo este sinal foram os soldados ter a casa do ourives, que os recebeu à porta, dizendo que ali não tinha entrado Cavaleiro algum e só com ele tinha o seu ajudante.
Como se não pôde apurar nada sobre o destino do misterioso Cavaleiro mandou o Rei que se marcasse o dia do casamento das duas Princesas mais velhas com os seus falsos salvadores. A mais nova é que outra vez perdera a fala e não havia quem a pudesse distrair.
No dia marcado para os casamentos foi o ourives ao paço, pedindo para falar imediatamente ao Rei. Chegando junto do Soberano, e, depois de interrogado, disse:
— Venho perguntar se ainda quereis saber quem foi o vencedor do torneio.
— Decerto que quero; é o meu maior empenho. Por acaso sabes tu onde se esconde esse valente; que desejaria cumular de honras?
— Em minha casa está há quatro semanas e foi a minha providência.
Contou então tudo o que lhe tinha acontecido.
O Rei, muito contente, mandou logo chamar o ajudante do ourives, que se apresentou com o seu fato ordinário e encostado à ''moca'', sem nenhuma aparência de grandeza. Perguntou-lhe o Rei:
— Como te chamas?
— Benvindo, Senhor. Também outros me chamam o ''Homem da moca'', por causa desta arma que trago sempre comigo.
— Para que fugias?
— Porque temia desagradar-vos, vindo onde não era chamado.
— Agora me lembro — disse o Rei — as minhas três filhas disseram que eras o seu salvador. Foste realmente quem as salvou?
— Fui eu e só eu!
— Então estes dois?!
E o Rei mostrava os traidores, que, tendo reconhecido ''O da moca'', estavam enfiados e confundidos.
— Esses dois — respondeu ele — eram meus criados e fugiram com as Princesas, que eu tinha salvo, deixando-me no fundo de um poço.
— Mas como provas tu isso? Como podes tu provar que és o Cavaleiro valoroso que apareceu no torneio?
— Em primeiro lugar, com o soldado que me feriu; em segundo, com o testemunho das vossas próprias filhas; em terceiro, com o do meu cavalo, que, esteja onde estiver, em eu chamando por ele logo aparece.
Mandou o Rei chamar o soldado e perguntou-lhe:
— Onde feriste o cavaleiro desconhecido?
— Na perna direita, Senhor.
Levantou o rapaz acalça e mostrou a ferida ainda mal cicatrizada; depois entregou ao Rei metade do ferro que ajustava perfeitamente ao pedaço que lhe trouxera o soldado.
Não de todo convencido, mandou o soldado embora e que chamassem as Princesas. As meninas, mal viram o rapaz, reconheceram-no logo, e, saltando-lhe ao pescoço, começaram a gritar:
— Foi este, foi este que nos salvou!
À mais nova voltou logo a fala e disse ao pai que morreria senão casasse com aquele corajoso rapaz.
Contaram tudo ao Rei, e ele muito contente abraçou-o, chamou-lhe filho, e entregou-lhe os dois mariolas para ele se vingar.
Os miseráveis cairam de joelhos, pedindo mil perdões, e ''O da moca'' disse-lhes:
— Eu nem vos quero tocar para me não sujar; vou entregar-vos ao meu cavalo.
Esfregou na parede a orelha do Diabo e logo todos sentiram um formidável tropel e viram — galgando rios e montes — aparecer o cavalo preto, que diante do dono se pôs quedo e manso.
— Bem, agora montem vocês para cima e agarrem-se bem — disse ele a rir aos dois traidores. E dirigindo-se ao cavalo: — Aqui tens estes figurões que eu te dou de presente, em paga dos teus bons serviços. E aqui tens também a orelha que te prometi; mas tu prometes-me também nunca me fazer mal, nem a mim nem a ninguém que eu estime, não é verdade?
— Sim! — respondeu em pavoroso grito o diabólico animal.
Então, obrigaram os dois a montar, e cavalo e cavaleiros elevaram-se nos ares.
O ''Homem da moca'', ''Benvindo'', ou o ''Cavaleiro Desconhecido'', que todas estas designações tinha, casou com a Princesa mais nova e foi o herdeiro do trono, porque as duas Princesas mais velhas nunca quiseram casar, certas de que não havia no Mundo outro homem tão valente e leal.
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Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/História do careca
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'''<big>HISTÓRIA DO CARECA</big>'''
ERA uma vez um pobre homem que tinha um único filho, que estimava muito. O seu ofício era ser forneiro, mas tão miseràvelmente vivia que nem tinha dinheiro para comprar lenha, indo ele mesmo cortá-la às matas.
Um dia, andando alabutar na sua vida agarrou o pé de uma giesta muito grossa, e tantos esforços fez para a atrancar que caiu para trás. Quando se levantou ficou admiradíssimo vendo diante de si uma senhora muito linda, que tinha saído do buraco deixado pela raiz da giesta.
O homem ficou embasbacado a olhar para ela, sem se atrever a mexer pé nem mão. — Eu sou uma Moira encantada (disse-lhe) e tu vieste perturbar o meu silêncio e abrir a porta do meu palácio.
O homenzinho deitou-se de joelhos e começou a clamar:
— Senhora Moira, eu andava na minha vida arrancando giestas para aquecer o meu forno, que é o meu ganha-pão, e não podia adivinhar que vos incomodava nem tão pouco que esta raiz fosse a porta do vosso palácio. Perdoai o meu crime involuntário, que eu juro guardar este segredo como se estivesse morto.
— Pois bem (respondeu a Moira) vai buscar o teu filho, que eu tomo conta dele, e asseguro-te que hei-de fazê-lo mais feliz do que seria vivendo contigo. E a ti não só te perdoarei como te vou enriquecer pois tudo quanto precisares terás de mim. Em prova da verdade aqui tens já esta bolsa de dinheiro, se prometes trazer-me o teu filho.
O homem prometeu, pois salvava a sua vida e fazia a felicidade do rapaz, segundo a Moira dizia.
Ao outro dia pegou no filho e levou-o ao mesmo sítio. Logo que chegou, a Moira muito linda dirigiu-se para eles e, pegando na mão do pequeno, desapareceram ambos.
Olhou o forneiro para o lado onde tinha preso o seu burro e foi buscá-lo para se ir embora. Mas a sua surpresa foi grande vendo-o arreado de novo, com bons alforjes novos e dentro deles uma farta merenda — boa carne, belos pastéis, pão fresco, doces, e duas garrafas de vinho velho. Na outra bolsa encontrou uma grande quantidade de dinheiro em oiro, novinho e reluzente.
Satisfeito por se ver tão rico, saltou para cima do burro e dirigiu-se para casa, mas, como esta ainda era um pouco distante e ele desde manhã que andava a girar, foi-lhe de grande conforto a merenda com que a Moira o presenteara.
Chegou à sua velha residência e encontrou-a destruída por um incêndio e bem assim o seu forno. Ficou triste e resolveu sair daquela terra. Foi para uma povoação onde ninguém o conhecia, comprou uma boa casa com quintal, e ali se estabeleceu. Depois, foi sempre comprando propriedades e em breve se tornou o mais rico e influente homem da terra, dando leis naquelas redondezas.
O rapaz, levado pela Moira, achou-se de repente num maravilhoso palácio subterrâneo. Nunca vira coisa semelhante — o que não admirava, pois sempre vivera na pobreza — e nem por sonhos imaginara nunca coisa assim!
Eram galerias majestosas em que as colunas, feitas de brilhantes e rubis e esmeraldas, tinham um tal brilho que cegava. Havia salas feitas de safiras tão azuis como o céu ou como o mar; outra em que todas as pedras preciosas eram combinadas de tal modo que pareciam um jardim de mil flores. Enfim, eram tantas as riquezas e belezas daquele palácio encantado, que não há palavras que as possam descrever!
A Moira entregou-lhe então um molho de chaves, dizendo:
— Aqui tens. Ficas senhor de tudo: do meu tesouro de surpreendente riqueza, como da minha alma; deste palácio subterrâneo, onde cada pedra vale mais que afortuna do mais rico Imperador da terra, como da minha beleza eterna e sobre-humana; dos meus cofres recheados de moedas de oiro do tempo dos Califas e tantas que todos os banqueiros do mundo não seriam capazes de as contar ainda que vivessem mil anos.
«Em paga de tanto que te dou, só exijo uma coisa: é que nunca vás àquele quarto. Estão lá apenas doze barris de oiro em pó. De nada te podem servir, pois que oiro tens aqui aos montes.
«Vê lá! Dou-te a chave para te provar a minha confiança, mas se tocares em qualquer dos barris tudo acabará entre nós! Retiro-te a minha protecção e ficarás abandonado e pobre como eras até aqui.
O rapaz ouviu tudo que a Moira disse, prometeu não tocar em tais barris, e, depois de ver todas as maravilhas do palácio, teve uma farta ceia que a Moira lhe serviu, e foi deitar-se.
Ali esteve muito tempo sem nunca se aborrecer, pois a Moira não se esquecia de lhe dar tudo quanto ele podia ambicionar para ser feliz.
Mas a ideia do quarto fechado e dos doze barris de oiro em pó trabalhava-lhe na cabeça. Nem de noite nem de dia pensava noutra coisa — era uma tentação! Abria a porta do quarto, e, olhando para os barris, dizia consigo: — Mas que terão estes barris, que a Moira não quer que eu lhes toque?! Se fosse oiro não se importava ela, não, porque oiro há aqui aos pontapés. Mas que será?!...
E assim andou algum tempo, sem poder dormir nem descansar. Enquanto a Moira estava ao pé, ainda se esquecia, mas quando ela ia para o fundo do palácio tecer no tear de marfim ou cantar, com a suavíssima voz, as tristezas da sua raça exilada da nobre Terra da Península, ia ele, pé-ante-pé, como um ladrão, espreitar os barris.
Até que um dia não pôde vencer a curiosidade e foi ao primeiro barril e tirou-lhe o batoque, metendo dois dedos para ver o que estava lá dentro.
Sentiu-se logo um formidável abalo de terra. O palácio desmoronou-se estrondosamente, e ele, ficando nas trevas, sentiu que lhe pegavam na mão, e achou-se num volver de olhos, e sem poder explicar como, no meio de um campo.
Viu então a Moira em pé, diante dele, e falando-lhe com uma voz muito triste: — Desobedeceste-me! Dobraste-me o encanto!
Ele, de joelhos, pedia-lhe perdão, chorando a sua curiosidade. A Moira, que bem sabia quanto ele tinha lutado antes de fazer aquela maldade, respondeu:
— Não te quero mal, descansa! Deixarás de me ver, mas eu não deixarei de te proteger. Aqui tens esta varinha de condão. Com ela conseguirás tudo.
Dando-lhe uma varinha de junco, que à vista nenhuma particularidade tinha, desapareceu dizendo adeus ao rapaz, que ficou muito contristado.
Achando-se só, foi andando ao acaso até que chegou a uma fonte. Como levava muita sede, pois o calor apertava, inclinou-se para beber. Sentiu que lhe caia uma coisa pesada da cabeça e ainda imaginou que fosse o chapéu, mas já o tinha tirado para beber.
Muito admirado levou as mãos à cabeça e notou que eram os cabelos que tanto pesavam. Deitou-os para os olhos e viu que eram de oiro. Espantadíssimo com tal coisa, mirou-se na água clara da fonte e viu-se deslumbrante com os seus cabelos doirados.
Ficara assim logo que metera os dedos no barril de oiro, mas só agora o sabia porque só agora tinha espelho para se mirar. Entendeu que não era muito conveniente mostrar ao mundo tanta riqueza, e na primeira terra em que entrou dirigiu-se ao matadouro, comprou uma bexiga de boi, lavou-a muito bem lavada, cortou-a ao meio, encaixou-a na cabeça e arranjou-a de tal modo que lha cobria toda parecendo completamente calvo.
Depois, assim preparado, e com a varinha na mão, seguiu sua jornada.
Por onde passava faziam-lhe muita troça chamando-lhe Careca: — Adeus, ó Careca! Para onde vais, ó Careca?...
Ele não se importava. Foi seguindo sempre àvante, até que chegou a uma grande cidade, opulenta e formosa, povoada por toda a casta de gente que ia ao seu vastíssimo porto para comerciar.
Ninguém reparou que ele fosse careca, e, mesmo que reparassem, não estranhavam porque estava aquele povo muito acostumado a ver indivíduos de todas as raças e feitios que por ali enxameavam.
Eram chineses, de rabicho e olhos em fresta; índios bronzeados e magrinhos; japoneses amáveis; pretos de todas as espécies, uns feios como demónios, outros muito simpáticos, com os seus olhos meigos e os dentes de neve a destacarem-se na face de nanquim. Eram turcos, vestidos de branco, fumando nos longos cachimbos. Eram, enfim, homens de todos os países, não esquecendo o loiro e grave inglês e o elegante francês pondo em voga o último figurino.
O Careca, percorrendo acidade, achou que lhe convinha ficar. Chegando ao palácio real bateu e perguntou se queriam um criado. Como exactamente tinha saido na véspera o jardineiro da Princesa, disseram-lhe que sim. Entrou logo a exercer as suas obrigações.
A família real constava apenas do velho Rei, que estava cego, e da filha que era a mais formosa dama do seu tempo. Quando soube que havia entrado um jardineiro novo, foi falar-lhe para dar as suas ordens, pois de tudo quanto possuia o que mais apreciava eram as flores.
O Careca logo que a viu ficou encantado, pois beleza como aquela não havia no mundo. Como era muito boa e muito bem educada, falava para toda a gente, por mais humilde que fosse sua condição, sempre com uma graça e uma simplicidade encantadoras. No fim de dar as suas ordens ao jardineiro, disse-lhe:
— Trata-me muito bem as minhas flores, porque não há coisa de que eu mais goste! E todas as manhãs quero um ramo bem fresco e bonito.
O Careca inclinou-se reverente, respondendo: — Sim, minha Senhora; farei toda a diligência por lhe agradar.
Ao outro dia de manhã, quando a Princesa se levantou, a primeira coisa que viu foi um lindíssimo ramo de magníficas rosas, atado com um fio de oiro. No outro dia a mesma coisa, e no outro e no outro.
Sempre que se levantava via o seu ramo de rosas, sempre diferentes e cada vez mais lindas, e atadas com o fio de oiro, o que muito dava que pensar à Princesa.
Admirada com tamanha variedade de rosas, que nunca vira no jardim, percorria-o todo a ver se descobria onde o Careca tinha as mais belas, mas não encontrava nenhuma igual às que recebia todas as manhãs.
Um dia foi ter com o jardineiro e disse-lhe:
— Ó Careca, quantas variedades de rosas temos cá no jardim?
— Todas quantas há no mundo — respondeu ele.
A Princesa não disse mais nada, olhou muito séria para o jardineiro e foi para o seu quarto pensar nos melhoramentos que via no jardim, sem que metessem obreiro nem lhe pedisse dinheiro a rodos, como os outros costumavam fazer.
Eram novas ruas de arbustos os mais raros, caramanchões deliciosos, árvores magníficas, e, por fim, até um lago cheio de peixes doirados e de todas cores, e um tanque de mármore para onde a água corria duma cascata enorme e de pequenos repuxos colocados de maneira que as águas se entrelaçavam, fazendo um efeito surpreendente.
A Princesa quando viu tal maravilha ficou extasiada e perguntou ao Careca quem tinha mandado fazer uma coisa tão bela.
Respondeu-lhe ele: — Saiba Vossa Alteza que fui eu. Logo que cheguei, vi que este jardim tinha uma grande falta de água e então mandei-a explorar e canalizar, fazendo talhar todas as pedras fora. Trabalharam muitos operários toda a noite para fazer esta surpresa.
Ela agradeceu, mas não acreditou nem uma palavra de tal história. Já eram muitas as coisas que a admiravam depois que o Careca tinha entrado ao seu serviço. Parecia-lhe bem que ele não era o que queria fingir, mas sim uma pessoa importante disfarçada.
Notou que um dos caramanchões mandado fazer pelo Careca era fechado e todo coberto de trepadeiras. Todos os domingos o via entrar para lá e demorar-se uma boa hora. Disse para consigo: — Deixa estar que eu hei-de ver o que tu fazes.
Um dia, quando o Careca entrou para o caramanchão desceu ao jardim e foi espreitar por um buraco que tinha propositadamente feito.
Qual não foi o seu espanto vendo o jardineiro despir o fato que trazia, e, abrindo um baú, tirar uma camisa de rendas, meias de seda e sapatos com fivelas de diamantes. Depois vestiu um riquíssimo fato de corte, pôs ao lado a espada com os copos cravejados de rubis e o talim bordado de várias pedras preciosas.
Tirou abexiga da cabeça e o cabelo caiu-lhe sobre os hombros como se fosse o resplendor de oiro dum Santo Cavaleiro. No fim, pôs um chapéu de plumas, seguras por uma fivela de esmeraldas e brilhantes, e ficou o mais lindo homem que jamais a Princesa vira.
Fugiu dali, mas tão encantada que não pensava noutra coisa. Nem de noite nem de dia lhe saia da cabeça a imagem do formoso Cavaleiro, que andava disfarçado em seu criado.
Ora o pai da Princesa era cego, como já disse. Tinha cegado de repente, sem saberem como. Consultados todos os médicos, nenhum lhe deu remédio, mas uma Feiticeira dissera: — Que a doença tinha cura, mas só havia um remédio: que era lavar os olhos com leite duma leitoa que existia numa torre, a algumas léguas de distância.
O Rei mandou os seus melhores cavaleiros para matarem a leitoa e trazerem o leite; mas, por mais esforçados que fossem, todos lá ficavam mortos ou tinham que fugir.
Logo que chegavam perto da torre surgiam do chão tantos homens armados, que todas as tropas ficavam desbaratadas. Era
uma coisa impossível, obter tal remédio.
Vendo isto, decretou o Rei grandes torneios na sua capital, mandando convidar todos os príncipes e cavaleiros da Cristandade, não só para a Princesa escolher marido mas também para ver se algum dos mais nobres e corajosos senhores se resolvia a ir matar a leitoa e trazer-lhe o tão desejado remédio.
Apareceram muitos príncipes de todos os reinos, nobres barões e cavaleiros andantes, que vinham disputar a mão da mais formosa dama do seu tempo.
Todos mais ou menos ficaram apaixonados e desejariam desposá-la. Mas o Rei disse-lhes: — Que a Princesa só casaria com o homem que fosse matar a leitoa e lhe trouxesse o leite.
Todos à uma juraram dar morte à leitoa ou morrer.
Combinaram o dia da marcha, e o Careca veio pedir licença ao Rei para acompanhar ao combate aqueles senhores. O Rei, apesar de cego, começou a fazer-lhe troça. E os cavaleiros riam muito, escarnecendo o pobre Careca. Mas a Princesa apareceu e perguntou qual a razão de tantos risos. Disseram-lhe o que era, e, em lugar de se rir, como esperavam, pediu ao pai que consentisse no que lhe pediam.
O Rei fez-lhe a vontade. Mas o pior é que os cavaleiros, pagens e escudeiros eram muitos e já não havia cavalo para ele. Perguntou então se não havia um burro nas cavalariças, que se contentava com isso. Foram ver, e como existisse lá um burro velho, que já não prestava para nada, deram-lho para montar.
No dia da partida lá foi atrás do brilhante exército de cavaleiros montados em soberbos e ricos cavalos. Pelo caminho faziam-lhe muita troça, chamavam-lhe Careca, e diziam:
— Ó Careca, tu ficas para trás? Anda, pica as esporas ao teu cavalo de batalha!...
Ele, sempre a rir, não fazia caso, respondendo:
— Ora! Se eu quiser faço saltar o meu burro por cima dos senhores todos e dos seus belos corcéis.
Eles cada vez se riam mais. Então disse ao burro: — Vamos, meu velho, mostra a estes senhores que vales mais do que eles e os seus cavalos de combate.
Deu-lhe duas chibatadas, o burro endireitou as orelhas e em dois saltos passou adiante de todos. Mas depois, coitado, como era muito vèlhinho, tropeçou e caiu.
Enquanto o Careca ficou a levantar-se, os cavaleiros tomaram tal dianteira que não os via.
Então bateu com a varinha que a Moira lhe tinha dado, no chão, e logo lhe apareceu um bonito e valente cavalo de batalha e tudo que era preciso a um guerreiro.
Montou imediatamente e partiu a galope, passando como um furacão, pelo exército. Em pouco tempo chegou à torre, sempre com a varinha em punho. Bateu com ela à porta e logo esta se abriu, e a leitoa saltou, numa fúria, para o devorar. Mas o Careca tocou-lhe com a varinha e ela ficou logo morta.
Depois apeou-se, ordenhou-lhe o leite todo para um frasco, que já levava para esse fim, rolhou-o muito bem e metendo-o no bolso tornou a montar e partiu. No meio do caminho passou pelos cavaleiros que ainda iam para lá. Chegou ao sítio onde tinha deixado o burro, e tornando a montá-lo ficou outra vez como era.
Os cavaleiros chegando à torre encontraram a leitoa morta e sem leite nenhum; ficaram envergonhados e, vendo um pastor com um rebanho de cabras, compraram-lhe um pouco de leite resolvendo levá-lo ao Rei para não darem o seu braço a torcer.
Perto do palácio encontraram o Careca montado no seu burro velho, e a troça recomeçou: — Então não quiseste acompanhar-nos, ó Careca? Achaste melhor voltar para trás? Vês, é bem feito! Quem manda um jardineiro meter-se com cavaleiros?!...
E ele, muito risonho, respondeu:
— Então, que querem? O meu burro ainda mostrou um nadinha da sua graça, depois não quis mais, e eu voltei para ver a figura que os senhores faziam. Então sempre venceram a leitoa e trazem o leite?
— Forte parvo! Então não imagina ele que príncipes e cavaleiros, como nós, voltariam sem trazer o que fossem buscar! Cá vai o leite.
A Princesa não se tirava da janela, a ver se avistava o Careca, que era oque mais lhe importava.
Com efeito, mal que o exército apareceu, viu o jardineiro que vinha muito mais atrasado. Os príncipes apearam-se e entraram, mas a Princesa não saiu da janela sem ele chegar.
O Careca fez-lhe sinal para descer ao jardim, e então entregou-lhe o frasco dizendo: — Aqui tem Vossa Alteza o leite da leitoa. Fui eu que a matei e lho tirei. Desejo que pelas vossas mãos o Rei, meu Senhor, seja curado. Ide, Senhora, e ouvi o que eles dizem, porque trazem leite de cabra para fingir que é da leitoa, que já encontraram morta por mim. Deixai-os experimentar primeiro, e, como aquilo não é remédio, o Rei ficará na mesma, e então lavareis vós os seus olhos com este leite que vos dou. Veremos quem merece a recompensa!
A Princesa agradeceu-lhe com um sorriso e foi para cima. Quando chegou à sala, ouviu os cavaleiros estarem a contar como tinham morto a leitoa, e não lhes disse nada. Depois lavaram os olhos do Rei, e ele, claro, ficou na mesma.
Então foi a Princesa, lavou os olhos do pai com o leite que o Careca lhe tinha dado, e imediatamente ele ficou bom. Olhou para os príncipes e mais cavaleiros e disse: — Qual de vós matou a leitoa e me trouxe o remédio?
Responderam todos: — Fui eu, fui eu, fui eu!...
Então a Princesa voltou-se para eles e disse: — Enganais-vos; senhores. Quem matou a leitoa e me trouxe o leite foi o Careca!
Grande gargalhada dos príncipes, que não podiam tomar a sério o que ela dizia.
Chamaram o Careca, e ele, diante de todos, voltou-se para o Rei e falou assim:
— Real Senhor, a princesa disse a verdade. Foi eu quem matou a leitoa e trouxe o leite, entregando-o a Sua Alteza. Quando estes senhores lá chegaram e a encontraram morta, envergonharam-se de voltar sem nada e compraram a um pastor leite de cabra.
Todos os cavaleiros gritaram que o Careca mentia. — Nem os tinha acompanhado à torre, quanto mais ser ele quem matara a leitoa! Que era um embusteiro atrevido, pois todos o tinham visto ficar para trás.
O Careca, assim insultado, desafiou-os a todos para combate singular, e, voltando-se para o rei pediu que o armasse Cavaleiro para combater com os príncipes e nobres senhores, pois o tinham desfeiteado.
O Rei não estava muito resolvido, pois nada sabia daquele personagem misterioso, mas a filha pediu muito, contando-lhe o que tinha visto, e ele próprio logo ali, o armou Cavaleiro.
O Careca pediu então licença para se preparar e entrando para o caramanchão do jardim em breve saiu de lá vestido de ponto em branco, como se realmente fosse um Cavaleiro. Os cabelos de oiro, caindo-lhe nos hombros, faziam-no deslumbrante de magestade e formosura. Os adversários, o Rei e toda a corte estavam boquiabertos. Só a Princesa batia as palmas, satisfeitíssima, animando-o com sorrisos.
Logo quatro príncipes, dos mais considerados e esforçados entre os combatentes, se adiantaram e disseram: — Dizei, Cavaleiro, com qual de nós vos quereis bater, porque não é justo um só homem para tantos.
— Venham todos, que a todos farei corpo! — respondeu altivamente o novo Cavaleiro.
Então, ele dum lado e os quatro do outro, mediram-se para a luta. O primeiro recontro foi tão violento que dois príncipes ficaram logo no chão. Na segunda arremetida ficaram os outros dois fora de combate, incapazes de levantar mais a espada.
Todos os outros iam correr para vingarem os companheiros, mas o Rei, entusiasmado com a façanha, bateu as palmas e a corte imitou-o logo, acabando o combate com todas as honras para o antigo jardineiro.
Então a Princesa pediu ao pai que cumprisse a sua palavra, pois muito gostava daquele Cavaleiro e só a ele queria para esposo.
O Rei chamou-o, perguntou-lhe quem era, e ele contou toda a sua vida, o que em nada alterou a consideração em que já o tinham.
Depois fez-se o casamento com grande pompa, e o Rei, que já
estava velho, abdicou nele todos os seus poderes.
Foi sempre muito bom e a Princesa muito feliz se considerava em o ter escolhido.
E aqui está como o filho dum pobre forneiro chegou a ser Rei, governando o seu reino com muito juizo e acerto.
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Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/A Bela Felicidade
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| notas =
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ERA uma vez um Rei que tinha dois filhos. O mais velho, que devia ser o herdeiro do trono, chamava-se Aleixo. Desde criança que só pensava em divertimentos e festas, principalmente em caçadas. Dizia ao irmão mais novo que estudasse bastante para governar o seu Reino, pois disso não queria saber.
Um dia em que ele andava, segundo o seu gosto, numa grande caçada na qual tomavam parte os fidalgos caçadores do Reino, viu passar um belo veado seguido duma enraivada matilha de cães.
Meteu esporas ao cavalo e seguiu-os a toda a brida.
O veado corria muito e os cães iam ficando para trás, sem fôlego.Mas o Príncipe não desanimava. Corria, corria, sem nunca perder de vista o animal.
Assim foram, por montes e vales, até chegarem a um bosque tão embrenhado, tão espesso, que nele o Príncipe viu desaparecer o veado sem saber onde se metera.
Olhou para todos os lados e, achando-se perdido, tocou a trompa de caça que trazia ao lado. Mas por mais que escutasse, a ver se lhe respondiam, nenhum ruído lhe chegava aos ouvidos. Já o sol ia a esconder-se e o Príncipe não estava lá muito satisfeito de se ver só, naquele bosque, sem mesmo ter onde se recolhesse.
Enfim, como era aventuroso e cheio de ânimo, resolveu seguir sempre em frente — Porque (dizia ele a si próprio) seguindo sempre a direito a alguma parte chegarei.
Assim foi. Já alta noite conseguiu sair daquela triste e sombria floresta e achando-se num descampado viu luzir ao longe um pontinho doirado que parecia uma estrela.
Para ali se dirigiu, mais esperançado, mas cheio de fome e de frio. À medida que andava a luz ia crescendo, até que chegando perto viu que era numa casa solitária, que estava no meio do campo.
Bateu à porta, e veio um velha muito velha perguntar quem era e o que queria. Respondeu o Príncipe Aleixo que era o filho mais velho do Rei e que andando à caça com a sua comitiva se tinha perdido. Depois, vira aquela luz muito ao longe, e para ali se dirigira a pedir pousada. A Velha respondeu: — Por mim, de boa vontade lhe dou agasalho. Mas o pior são os meus filhos que estão a chegar e que têm muito mau génio.
O Príncipe, que era valente, não teve nenhum receio com as palavras da mulherzinha e foi entrando, preferindo antes a luta com os filhos da Velha do que passar a noite ao frio, encostado ao cavalo, que nem podia trocar os pés.
Estava o Príncipe sentado à lareira, a conversar com a Velha, quando sentiram fora um barulho furioso.
Levantou-se a mulher muito aflita e pediu-lhe que se metesse num grande armário porque chegava o seu filho mais velho, que era o Vento Sul. É ele o mais terrível, o mais danoso de todos, aquele que derruba as grandes árvores, que traz as tempestades, que faz naufragar os navios e, trazendo a chuva, tanta miséria faz passar aos pobrezinhos.
O Príncipe escondeu-se no armário ao tempo que batia estrondosamente à porta o vento Sul. A velha foi abrir, e ele mal entrou começou a farejar dizendo: — Cheira-me aqui a carne humana e a sangue real! Respondeu a Velha, com muito boa sombra:
— Olha, filho, esteve aqui o Príncipe Aleixo, que se tinha perdido no caminho, mas eu, como não sabia se tu o quererias receber, disse-lhe que se fosse embora.
— Há muito tempo que isso foi? — perguntou o Vento Sul.
— Foi agora mesmo.
— Fez muito mal em o deixar partir, e então saio outra vez para o trazer a nossa casa. Nunca se deve negar agasalho a ninguém.
A Velha, vendo que seu filho queria receber o Príncipe, foi abrir o armário dizendo que, por não saber se ele o queria em casa, o tinha escondido. O Príncipe apareceu todo contente por se ver bem recebido do terrível Vento Sul.
Este fez-lhe muita festa e disse-lhe que sabia que ele se tinha perdido e que já os seus companheiros, depois de o procurarem por toda a parte, tinham ido, muito tristes, dar a notícia ao Rei e ao Infante, que a essa hora estavam desolados imaginando-o morto.
Nisto sentiram fora um barulho ainda mais forte do que fora o primeiro. E a Velha, muito aflita, foi dizer ao Príncipe que se escondesse numa arca muito grande que ali tinha, porque chegava o Vento Nordeste, que era o seu filho segundo, e vinha tão bravo que ela receava lhe fizesse algum mal.
Escondeu-se o Príncipe Aleixo e a Velha foi abrir. Entrando o Vento Nordeste, começou também a farejar dizendo: — Cheira-me aqui a carne humana e a sangue real!
Respondeu-lhe a mãe o mesmo que tinha dito ao Vento Sul, e o Vento Nordeste queria também ir buscá-lo. Então apareceu Aleixo, que foi muito bem tratado por ele. Depois veio o Sudoeste e aconteceu o mesmo. No fim chegou o Vento Norte que, ao entrar, igualmente começou a farejar dizendo: — Cheira-me aqui a carne humana e a sangue real!
A Velha respondeu o mesmo que tinha dito aos outros seus três filhos, e o rapaz apareceu, sendo da mesma maneira festejado pelo Vento Norte como tinha sido por seus irmãos.
Foi convidado para a ceia, o que aceitou de boamente, pois desde manhã que não comia.
Sentaram-se à mesa onde tinham posto um boi inteiro assado no espeto, afora inúmeros pratos de toda a espécie de comida, não falando no vinho, que estava numa pipa ao meio da casa. Como todos tinham apetite, correu a ceia alegremente. No fim de bem fartos e muito alegres, começou cada um a contar o que tinha feito durante o dia. O primeiro foi o Vento Sul, que disse:
— Eu hoje estive numa feira e fiz lá o demónio! Quebrei os cântaros às raparigas, voltei-lhes as canastras, parti chapéus de chuva, levantei nuvens de pó — fiz andar tudo num rodopio!
Os outros dois ventos disseram também que tinham arrancado árvores, derribado estátuas, destelhado palácios, levantado tempestades de areia... Enfim, tropelias de toda a ordem que estes senhores têm por hábito fazer!
Depois chegou a vez ao Vento Norte, que começou a contar:
— Eu estive junto do palácio da Bela Felicidade, e como a vi sentada na varanda que deita para o jardim, a bordar com sorrisos a teia da fortuna, fiquei ali a contemplá-la, porque é a mais formosa e esquiva dama que existe no mundo. De vez em quando deitava-lhe uma lufada de ar fresco, coisa de que ela parecia gostar muito. Assim estive todo o dia entretido, pois a ver tão bela Senhora tudo se esquece.
O Príncipe, que tinha rido com as histórias do Vento Sul e prestado toda a atenção aos outros dois, quando ouviu o Norte descrever a Bela Felicidade ficou tão perdido da razão que já não pensava noutra coisa nem ouvia mais nada.
Chegou a hora de se irem deitar e começaram todos em consultas a ver com quem dormiria o Príncipe, pois na casa só havia cinco camas, que eram dos quatro Ventos e da mãe. Aleixo pediu licença para escolher e foi deitar-se com o Norte. Mas em toda a noite não pregou olho, sempre a pensar na Bela Felicidade. O Vento, vendo que ele não sossegava, perguntou-lhe se queria alguma coisa, ao que o Príncipe respondeu que não podia mais viver, se não visse a Senhora de quem ele tinha falado.
O Norte, que era já muito amigo do Príncipe Aleixo, respondeu: — Não há nada mais fácil! Durma descansado, que amanhã o levarei lá.
Ficou o Príncipe tão agradecido que nem palavras tinha para dizer a sua alegria.
De manhã deu-lhe o Vento Norte uma capa e um chapéu, que tinham a virtude de o tornar invisível aos olhos de todos e leve qual uma pena. Depois, despediu-se o Príncipe dos outros Ventos mandando por eles dizer ao pai que se não afligisse por sua causa, porque estava vivo e são, indo em busca da Bela Felicidade; e ao Príncipe seu irmão que ficasse com o Reino, porque ele já não queria saber de mais nada.
Depois, pondo o chapéu e a capa, subiu para os ombros do Vento Norte, que lhe disse: — Agarre-se bem, porque embrulhado nessa capa que lhe dei está leve qual uma folha seca, e pondo o chapéu ficará invisível como nós somos.
Dizendo isto saiu a porta da casa e logo se transportou ao palácio da Bela Felicidade.
Então, colocando o Príncipe no jardim, disse-lhe: — Agora aqui ficará enquanto quiser. Eu cá o virei ver, de tempos a tempos, e saberei se precisa de alguma coisa. Com esse chapéu e essa capa poderá andar por toda a parte sem perigo.
Retirou-se o Vento, não sem receber os maiores agradecimentos. Por ali ficou o Príncipe Aleixo a passear no jardim até que se abriu a varanda e pôde contemplar a mais risonha, a mais bela, a mais encantadora mulher que jamais ele tinha sonhado. E a olhá-la esqueceu tudo e não podia desviar-se dali — tal era o embevecimento em que tinha caído.
Assim estaria por toda a eternidade, se a menina não se retirasse da varanda para ir almoçar. Então, sabendo que ninguém o podia ver nem sentir, graças à capa e ao chapéu que o vento Norte lhe tinha dado, dirigiu-se também para a sala de jantar e, sentando-se junto da Bela Felicidade, ia comendo do mesmo prato e bebendo do mesmo copo sem que ela reparasse.
Tudo naquele palácio era risonho e agradável. Não o enchiam grandes riquezas mas tornavam-no encantador a paz e harmonia. Tudo eram flores, risos, músicas, alegria e bem-estar.
Era a Bela Felicidade servida por pequeninos espíritos subtis e tão alegres, tão vivos, que enchiam a casa de animação. Cada qual trazia o nome escrito sobre o peito. Eram a Bondade, a Graça, a Delicadeza, a Tolerância, a Amizade, a Gentileza, a Elegância, a Generosidade. E o chefe de todos era o Amor.
Estava ali o único bem, mas para lá chegar era preciso correr tantos perigos, vencer tanta contrariedade, que nenhum homem ainda se atrevera a ir até ao fim e a Bela Felicidade vivia só desde o princípio do mundo.
O Príncipe Aleixo sentia-se tão bem, que na verdade não sabia se estava vivo ou morto, pois a sua existência decorria como um sonho. Acompanhava sempre a Bela Felicidade, sem que ela o presentisse, graças ao chapéu e à capa do Vento Norte. Assim foram passando os meses sem que desse por isso, tal era o bem-estar que gozava!
Nem de dia nem de noite se separava dela, dormindo aos pés da sua cama, comendo do mesmo prato, seguindo os mesmos passeios.
A Bela Felicidade andava admirada das coisas que lhe aconteciam, sem saber como as explicar. Um dia, por exemplo, disse ela quase falando consigo: — Bebia agora um copo de água bem fresca!
Olhou para o lado e viu um copo com água que vinha pelo ar. Muito admirada, pegou-lhe e bebeu, e em seguida deixou-o cair imaginando que se partiria no chão. Mas qual não foi o seu espanto vendo que, em lugar de cair, foi pelo ar colocar-se ao pé dos outros copos, como se alguém o levasse.
Outra vez, andando a passear no jardim, caiu-lhe o lenço e, quando o ia levantar, viu que se erguia até à altura da mão. Com estas coisas e outras, que já tinha notado, como a falta de comida no prato e assim casos parecidos, andava a Bela Felicidade muito intrigada.
Uma noite de verão estava ela à fresca, no jardim, a pensar no que lhe acontecia havia algum tempo, e nessa meditação levou até mais tarde. Depois foi deitar-se, e o Príncipe, como de costume, ficou aos pés da cama, adormecendo profundamente.
A Bela Felicidade, como se tinha deitado mais tarde, também até mais tarde dormiu. Já era alto dia quando acordou e saltando da cama foi abrir a janela, sem que o Príncipe sentisse. Tornou à cama, sacudiu a roupa e, como Aleixo estava dormindo, caiu-lhe o chapéu da cabeça e logo ficou visível, embrulhado na sua capa.
A Bela Felicidade ficou admiradíssima, e tão enlevada que não se podia dizer mais. Olhando aquele moço tão lindo como na sua vida não pudera imaginar coisa igual, ficou logo perdida de amor.
Perguntava a si mesma como teria ele podido chegar ali, guardada como estava por tantos obstáculos. Depois puxou-lhe pela capa para o acordar. Despertou o Príncipe e, vendo-se descoberto, saltou logo da cama indo ajoelhar diante da menina, contando-lhe tudo o que tinha sucedido.
Ela ficou muito contente por se ver amada de tão gentil cavaleiro. Abraçaram-se cheios de alegria, e o Príncipe pôs logo de parte a capa e o chapéu mágicos e ficou junto da Bela Felicidade gozando do maior e mais verdadeiro bem.
Corria o tempo sem ele dar por isso, servido pelos espíritos que estavam às ordens da sua doce companheira. Os anos pareciam-lhe segundos.
Até que um dia lembrou-se o Príncipe Aleixo dos pais, o irmão, os seus vassalos e Reino e teve saudades de tudo, e desejo de os tornar a ver. Comunicou à Bela Felicidade este desejo e ela respondeu-lhe: — Então há quanto tempo imaginas tu que vives na minha companhia?
— Suponho que estarei aqui há um ano — respondeu Aleixo.
— Não, meu amigo! Aqui passa o tempo sem se perceber. Tu já aqui estás há tantos séculos que dos teus já não vive ninguém. O Mundo está completamente deserto e nada existe fora daqui. Se teimas em ir, não encontrarás nada, e o Tempo, que te procura por toda a parte, pois só tu é que ainda vives, mata-te logo que lhe apareças.
— Não importa! — volveu o Príncipe — quero ir ver se alguma coisa ainda resta, e voltarei logo e não tornarei então mais a sair daqui.
A Bela Felicidade ficou muito triste, mas, não o querendo contrariar, disse:
— Enfim!... visto que assim o queres, faça-se a tua vontade. Vais, mas hás-de ir montado no meu cavalo branco que te levará, onde o teu pensamento quiser. Nunca te apeies, seja sob que pretexto for, vejas o que vires, sintas o que sentires. Vê lá! Olha que logo o Tempo te mataria se tu caisses em pôr pé em terra. Toma bem sentido! Se fizeres o que te digo, voltarás aqui outra vez; senão, nunca mais nos veremos!
Bem; despediram-se com muita mágua. O Príncipe sofria verdadeira pena de deixar a sua boa companheira, mas a curiosidade era mais forte do que esse desgosto. Ao certo queria ele saber o que seria feito do seu Reino e da sua família.
Montou o cavalo branco e logo apareceu na sua terra. Não viu ninguém! Todas as cidades arrasadas, tudo destruído. O Mundo era um deserto.
Em vista disto resolveu o Príncipe Aleixo voltar imediatamente ao palácio da Bela Felicidade, donde nunca devera ter saído.
Ia muito triste de ver tudo morto e, a meio do caminho, encontrou um carro de bois voltado e debaixo um velho a gritar por socorro, parecendo muito aflito. O Príncipe que assim o viu condoeu-se do velho, que imaginou o último habitante da terra, e, desprezando os conselhos da Bela Felicidade, apeou-se e foi livrá-lo do peso do carro.
O Tempo, que outro não era o velho, saltou-lhe em cima com agilidade espantosa e matou-o logo. O cavalo desapareceu, chegando só ao palácio.
Quando a Bela Felicidade o viu ficou muito triste presumindo desgraça, mas sempre ia esperando pelo seu companheiro de tantos séculos. Até que um dia o Vento Norte, passando pelo sítio onde o Príncipe ficara morto, viu-o e disse:
— Coitado! O Tempo andava em tua procura e sempre conseguiu apanhar-te. Para destruir completamente o género humano, faltavas-lhe tu; agora acabou-se tudo! Ao menos não ficarás aqui abandonado. — E pegando no Príncipe Aleixo, de quem fora tão amigo, foi depô-lo no jardim da Bela Felicidade.
Quando ela foi dar o passeio do costume, chamando em vão o seu Príncipe, viu-o ali estendido. Sem saber ainda o que pensar, correu para ele ansiosamente e conheceu então que estava morto.
Ficou muito triste, muito triste, e chamou todos os seus bons servos, que igualmente lamentaram a morte de tão galante e bom rapaz. Abriram-lhe uma sepultura ali mesmo, e a chorar escreveu ela na pedra: — Não há felicidade completa, nem coisa que o Tempo não acabe!
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wikitext
text/x-wiki
{{navegar
| título = [[../]]
| autor = Ana de Castro Osório
| tradutor =
| seção = A Bela Felicidade
| anterior = [[../História do careca/]]
| posterior = [[../O porqueiro/]]
| notas =
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'''<big>A BELA FELICIDADE</big>'''
ERA uma vez um Rei que tinha dois filhos. O mais velho, que devia ser o herdeiro do trono, chamava-se Aleixo. Desde criança que só pensava em divertimentos e festas, principalmente em caçadas. Dizia ao irmão mais novo que estudasse bastante para governar o seu Reino, pois disso não queria saber.
Um dia em que ele andava, segundo o seu gosto, numa grande caçada na qual tomavam parte os fidalgos caçadores do Reino, viu passar um belo veado seguido duma enraivada matilha de cães.
Meteu esporas ao cavalo e seguiu-os a toda a brida.
O veado corria muito e os cães iam ficando para trás, sem fôlego.Mas o Príncipe não desanimava. Corria, corria, sem nunca perder de vista o animal.
Assim foram, por montes e vales, até chegarem a um bosque tão embrenhado, tão espesso, que nele o Príncipe viu desaparecer o veado sem saber onde se metera.
Olhou para todos os lados e, achando-se perdido, tocou a trompa de caça que trazia ao lado. Mas por mais que escutasse, a ver se lhe respondiam, nenhum ruído lhe chegava aos ouvidos. Já o sol ia a esconder-se e o Príncipe não estava lá muito satisfeito de se ver só, naquele bosque, sem mesmo ter onde se recolhesse.
Enfim, como era aventuroso e cheio de ânimo, resolveu seguir sempre em frente — Porque (dizia ele a si próprio) seguindo sempre a direito a alguma parte chegarei.
Assim foi. Já alta noite conseguiu sair daquela triste e sombria floresta e achando-se num descampado viu luzir ao longe um pontinho doirado que parecia uma estrela.
Para ali se dirigiu, mais esperançado, mas cheio de fome e de frio. À medida que andava a luz ia crescendo, até que chegando perto viu que era numa casa solitária, que estava no meio do campo.
Bateu à porta, e veio um velha muito velha perguntar quem era e o que queria. Respondeu o Príncipe Aleixo que era o filho mais velho do Rei e que andando à caça com a sua comitiva se tinha perdido. Depois, vira aquela luz muito ao longe, e para ali se dirigira a pedir pousada. A Velha respondeu: — Por mim, de boa vontade lhe dou agasalho. Mas o pior são os meus filhos que estão a chegar e que têm muito mau génio.
O Príncipe, que era valente, não teve nenhum receio com as palavras da mulherzinha e foi entrando, preferindo antes a luta com os filhos da Velha do que passar a noite ao frio, encostado ao cavalo, que nem podia trocar os pés.
Estava o Príncipe sentado à lareira, a conversar com a Velha, quando sentiram fora um barulho furioso.
Levantou-se a mulher muito aflita e pediu-lhe que se metesse num grande armário porque chegava o seu filho mais velho, que era o Vento Sul. É ele o mais terrível, o mais danoso de todos, aquele que derruba as grandes árvores, que traz as tempestades, que faz naufragar os navios e, trazendo a chuva, tanta miséria faz passar aos pobrezinhos.
O Príncipe escondeu-se no armário ao tempo que batia estrondosamente à porta o vento Sul. A velha foi abrir, e ele mal entrou começou a farejar dizendo: — Cheira-me aqui a carne humana e a sangue real! Respondeu a Velha, com muito boa sombra:
— Olha, filho, esteve aqui o Príncipe Aleixo, que se tinha perdido no caminho, mas eu, como não sabia se tu o quererias receber, disse-lhe que se fosse embora.
— Há muito tempo que isso foi? — perguntou o Vento Sul.
— Foi agora mesmo.
— Fez muito mal em o deixar partir, e então saio outra vez para o trazer a nossa casa. Nunca se deve negar agasalho a ninguém.
A Velha, vendo que seu filho queria receber o Príncipe, foi abrir o armário dizendo que, por não saber se ele o queria em casa, o tinha escondido. O Príncipe apareceu todo contente por se ver bem recebido do terrível Vento Sul.
Este fez-lhe muita festa e disse-lhe que sabia que ele se tinha perdido e que já os seus companheiros, depois de o procurarem por toda a parte, tinham ido, muito tristes, dar a notícia ao Rei e ao Infante, que a essa hora estavam desolados imaginando-o morto.
Nisto sentiram fora um barulho ainda mais forte do que fora o primeiro. E a Velha, muito aflita, foi dizer ao Príncipe que se escondesse numa arca muito grande que ali tinha, porque chegava o Vento Nordeste, que era o seu filho segundo, e vinha tão bravo que ela receava lhe fizesse algum mal.
Escondeu-se o Príncipe Aleixo e a Velha foi abrir. Entrando o Vento Nordeste, começou também a farejar dizendo: — Cheira-me aqui a carne humana e a sangue real!
Respondeu-lhe a mãe o mesmo que tinha dito ao Vento Sul, e o Vento Nordeste queria também ir buscá-lo. Então apareceu Aleixo, que foi muito bem tratado por ele. Depois veio o Sudoeste e aconteceu o mesmo. No fim chegou o Vento Norte que, ao entrar, igualmente começou a farejar dizendo: — Cheira-me aqui a carne humana e a sangue real!
A Velha respondeu o mesmo que tinha dito aos outros seus três filhos, e o rapaz apareceu, sendo da mesma maneira festejado pelo Vento Norte como tinha sido por seus irmãos.
Foi convidado para a ceia, o que aceitou de boamente, pois desde manhã que não comia.
Sentaram-se à mesa onde tinham posto um boi inteiro assado no espeto, afora inúmeros pratos de toda a espécie de comida, não falando no vinho, que estava numa pipa ao meio da casa. Como todos tinham apetite, correu a ceia alegremente. No fim de bem fartos e muito alegres, começou cada um a contar o que tinha feito durante o dia. O primeiro foi o Vento Sul, que disse:
— Eu hoje estive numa feira e fiz lá o demónio! Quebrei os cântaros às raparigas, voltei-lhes as canastras, parti chapéus de chuva, levantei nuvens de pó — fiz andar tudo num rodopio!
Os outros dois ventos disseram também que tinham arrancado árvores, derribado estátuas, destelhado palácios, levantado tempestades de areia... Enfim, tropelias de toda a ordem que estes senhores têm por hábito fazer!
Depois chegou a vez ao Vento Norte, que começou a contar:
— Eu estive junto do palácio da Bela Felicidade, e como a vi sentada na varanda que deita para o jardim, a bordar com sorrisos a teia da fortuna, fiquei ali a contemplá-la, porque é a mais formosa e esquiva dama que existe no mundo. De vez em quando deitava-lhe uma lufada de ar fresco, coisa de que ela parecia gostar muito. Assim estive todo o dia entretido, pois a ver tão bela Senhora tudo se esquece.
O Príncipe, que tinha rido com as histórias do Vento Sul e prestado toda a atenção aos outros dois, quando ouviu o Norte descrever a Bela Felicidade ficou tão perdido da razão que já não pensava noutra coisa nem ouvia mais nada.
Chegou a hora de se irem deitar e começaram todos em consultas a ver com quem dormiria o Príncipe, pois na casa só havia cinco camas, que eram dos quatro Ventos e da mãe. Aleixo pediu licença para escolher e foi deitar-se com o Norte. Mas em toda a noite não pregou olho, sempre a pensar na Bela Felicidade. O Vento, vendo que ele não sossegava, perguntou-lhe se queria alguma coisa, ao que o Príncipe respondeu que não podia mais viver, se não visse a Senhora de quem ele tinha falado.
O Norte, que era já muito amigo do Príncipe Aleixo, respondeu: — Não há nada mais fácil! Durma descansado, que amanhã o levarei lá.
Ficou o Príncipe tão agradecido que nem palavras tinha para dizer a sua alegria.
De manhã deu-lhe o Vento Norte uma capa e um chapéu, que tinham a virtude de o tornar invisível aos olhos de todos e leve qual uma pena. Depois, despediu-se o Príncipe dos outros Ventos mandando por eles dizer ao pai que se não afligisse por sua causa, porque estava vivo e são, indo em busca da Bela Felicidade; e ao Príncipe seu irmão que ficasse com o Reino, porque ele já não queria saber de mais nada.
Depois, pondo o chapéu e a capa, subiu para os ombros do Vento Norte, que lhe disse: — Agarre-se bem, porque embrulhado nessa capa que lhe dei está leve qual uma folha seca, e pondo o chapéu ficará invisível como nós somos.
Dizendo isto saiu a porta da casa e logo se transportou ao palácio da Bela Felicidade.
Então, colocando o Príncipe no jardim, disse-lhe: — Agora aqui ficará enquanto quiser. Eu cá o virei ver, de tempos a tempos, e saberei se precisa de alguma coisa. Com esse chapéu e essa capa poderá andar por toda a parte sem perigo.
Retirou-se o Vento, não sem receber os maiores agradecimentos. Por ali ficou o Príncipe Aleixo a passear no jardim até que se abriu a varanda e pôde contemplar a mais risonha, a mais bela, a mais encantadora mulher que jamais ele tinha sonhado. E a olhá-la esqueceu tudo e não podia desviar-se dali — tal era o embevecimento em que tinha caído.
Assim estaria por toda a eternidade, se a menina não se retirasse da varanda para ir almoçar. Então, sabendo que ninguém o podia ver nem sentir, graças à capa e ao chapéu que o vento Norte lhe tinha dado, dirigiu-se também para a sala de jantar e, sentando-se junto da Bela Felicidade, ia comendo do mesmo prato e bebendo do mesmo copo sem que ela reparasse.
Tudo naquele palácio era risonho e agradável. Não o enchiam grandes riquezas mas tornavam-no encantador a paz e harmonia. Tudo eram flores, risos, músicas, alegria e bem-estar.
Era a Bela Felicidade servida por pequeninos espíritos subtis e tão alegres, tão vivos, que enchiam a casa de animação. Cada qual trazia o nome escrito sobre o peito. Eram a Bondade, a Graça, a Delicadeza, a Tolerância, a Amizade, a Gentileza, a Elegância, a Generosidade. E o chefe de todos era o Amor.
Estava ali o único bem, mas para lá chegar era preciso correr tantos perigos, vencer tanta contrariedade, que nenhum homem ainda se atrevera a ir até ao fim e a Bela Felicidade vivia só desde o princípio do mundo.
O Príncipe Aleixo sentia-se tão bem, que na verdade não sabia se estava vivo ou morto, pois a sua existência decorria como um sonho. Acompanhava sempre a Bela Felicidade, sem que ela o presentisse, graças ao chapéu e à capa do Vento Norte. Assim foram passando os meses sem que desse por isso, tal era o bem-estar que gozava!
Nem de dia nem de noite se separava dela, dormindo aos pés da sua cama, comendo do mesmo prato, seguindo os mesmos passeios.
A Bela Felicidade andava admirada das coisas que lhe aconteciam, sem saber como as explicar. Um dia, por exemplo, disse ela quase falando consigo: — Bebia agora um copo de água bem fresca!
Olhou para o lado e viu um copo com água que vinha pelo ar. Muito admirada, pegou-lhe e bebeu, e em seguida deixou-o cair imaginando que se partiria no chão. Mas qual não foi o seu espanto vendo que, em lugar de cair, foi pelo ar colocar-se ao pé dos outros copos, como se alguém o levasse.
Outra vez, andando a passear no jardim, caiu-lhe o lenço e, quando o ia levantar, viu que se erguia até à altura da mão. Com estas coisas e outras, que já tinha notado, como a falta de comida no prato e assim casos parecidos, andava a Bela Felicidade muito intrigada.
Uma noite de verão estava ela à fresca, no jardim, a pensar no que lhe acontecia havia algum tempo, e nessa meditação levou até mais tarde. Depois foi deitar-se, e o Príncipe, como de costume, ficou aos pés da cama, adormecendo profundamente.
A Bela Felicidade, como se tinha deitado mais tarde, também até mais tarde dormiu. Já era alto dia quando acordou e saltando da cama foi abrir a janela, sem que o Príncipe sentisse. Tornou à cama, sacudiu a roupa e, como Aleixo estava dormindo, caiu-lhe o chapéu da cabeça e logo ficou visível, embrulhado na sua capa.
A Bela Felicidade ficou admiradíssima, e tão enlevada que não se podia dizer mais. Olhando aquele moço tão lindo como na sua vida não pudera imaginar coisa igual, ficou logo perdida de amor.
Perguntava a si mesma como teria ele podido chegar ali, guardada como estava por tantos obstáculos. Depois puxou-lhe pela capa para o acordar. Despertou o Príncipe e, vendo-se descoberto, saltou logo da cama indo ajoelhar diante da menina, contando-lhe tudo o que tinha sucedido.
Ela ficou muito contente por se ver amada de tão gentil cavaleiro. Abraçaram-se cheios de alegria, e o Príncipe pôs logo de parte a capa e o chapéu mágicos e ficou junto da Bela Felicidade gozando do maior e mais verdadeiro bem.
Corria o tempo sem ele dar por isso, servido pelos espíritos que estavam às ordens da sua doce companheira. Os anos pareciam-lhe segundos.
Até que um dia lembrou-se o Príncipe Aleixo dos pais, o irmão, os seus vassalos e Reino e teve saudades de tudo, e desejo de os tornar a ver. Comunicou à Bela Felicidade este desejo e ela respondeu-lhe: — Então há quanto tempo imaginas tu que vives na minha companhia?
— Suponho que estarei aqui há um ano — respondeu Aleixo.
— Não, meu amigo! Aqui passa o tempo sem se perceber. Tu já aqui estás há tantos séculos que dos teus já não vive ninguém. O Mundo está completamente deserto e nada existe fora daqui. Se teimas em ir, não encontrarás nada, e o Tempo, que te procura por toda a parte, pois só tu é que ainda vives, mata-te logo que lhe apareças.
— Não importa! — volveu o Príncipe — quero ir ver se alguma coisa ainda resta, e voltarei logo e não tornarei então mais a sair daqui.
A Bela Felicidade ficou muito triste, mas, não o querendo contrariar, disse:
— Enfim!... visto que assim o queres, faça-se a tua vontade. Vais, mas hás-de ir montado no meu cavalo branco que te levará, onde o teu pensamento quiser. Nunca te apeies, seja sob que pretexto for, vejas o que vires, sintas o que sentires. Vê lá! Olha que logo o Tempo te mataria se tu caisses em pôr pé em terra. Toma bem sentido! Se fizeres o que te digo, voltarás aqui outra vez; senão, nunca mais nos veremos!
Bem; despediram-se com muita mágua. O Príncipe sofria verdadeira pena de deixar a sua boa companheira, mas a curiosidade era mais forte do que esse desgosto. Ao certo queria ele saber o que seria feito do seu Reino e da sua família.
Montou o cavalo branco e logo apareceu na sua terra. Não viu ninguém! Todas as cidades arrasadas, tudo destruído. O Mundo era um deserto.
Em vista disto resolveu o Príncipe Aleixo voltar imediatamente ao palácio da Bela Felicidade, donde nunca devera ter saído.
Ia muito triste de ver tudo morto e, a meio do caminho, encontrou um carro de bois voltado e debaixo um velho a gritar por socorro, parecendo muito aflito. O Príncipe que assim o viu condoeu-se do velho, que imaginou o último habitante da terra, e, desprezando os conselhos da Bela Felicidade, apeou-se e foi livrá-lo do peso do carro.
O Tempo, que outro não era o velho, saltou-lhe em cima com agilidade espantosa e matou-o logo. O cavalo desapareceu, chegando só ao palácio.
Quando a Bela Felicidade o viu ficou muito triste presumindo desgraça, mas sempre ia esperando pelo seu companheiro de tantos séculos. Até que um dia o Vento Norte, passando pelo sítio onde o Príncipe ficara morto, viu-o e disse:
— Coitado! O Tempo andava em tua procura e sempre conseguiu apanhar-te. Para destruir completamente o género humano, faltavas-lhe tu; agora acabou-se tudo! Ao menos não ficarás aqui abandonado. — E pegando no Príncipe Aleixo, de quem fora tão amigo, foi depô-lo no jardim da Bela Felicidade.
Quando ela foi dar o passeio do costume, chamando em vão o seu Príncipe, viu-o ali estendido. Sem saber ainda o que pensar, correu para ele ansiosamente e conheceu então que estava morto.
Ficou muito triste, muito triste, e chamou todos os seus bons servos, que igualmente lamentaram a morte de tão galante e bom rapaz. Abriram-lhe uma sepultura ali mesmo, e a chorar escreveu ela na pedra: — Não há felicidade completa, nem coisa que o Tempo não acabe!
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Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O porqueiro
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| autor = Ana de Castro Osório
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| seção = O porqueiro
| anterior = [[../A Bela Felicidade/]]
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}}
EXISTIU em tempos remotos um Rei que tinha uma filha. Um dia disse-lhe ela: — Meu pai, ando sempre a ter sonhos tão extraordinários, que não imagina! Este noite tive um em que até faz vontade de rir. Sonhei que meu pai me há-de beijar a mão!
O Rei, que tal ouviu, ficou furioso e respondeu irado:
— O quê?! Pois eu hei-de beijar-te a mão?! Isso nunca poderia acontecer!
— Não (volveu a menina com doçura), nem eu creio que possa ser, mas foi o que sonhei.
O Rei, que era muito orgulhoso, não ficou satisfeito com isto; mandou chamar adivinhos e todos lhe disseram que podia muito bem ser verdadeiro o sonho da Princesa. E, levado pelo seu mau génio e por maus conselheiros secretos, resolveu mandar matar a filha.
Chamou um criado de confiança e deu-lhe ordem de levar a Princesa para longe, de a matar e de lhe trazer o coração como prova de ter obedecido.
Foi o criado com a menina para um bosque, querendo cumprir as ordens do Rei, mas vendo-a tão bonita, tão novinha, tão boa, e tão desgraçada, não teve coragem de a matar. Apareceu por ali um cãozito e ele tirou-lhe o coração para levar ao Rei, como sendo o da filha. À Princesa disse que se escondesse em alguma choupana por essa noite e depois que fugisse para bem longe, de maneira que a imaginassem morta.
Mal a Princesa se viu só, foi andando, andando, mas quanto mais andava mais se enredava na floresta até que lhe anoiteceu, sem ver ninguém a quem perguntasse o caminho ou lhe desse uma sede de água!
Ouvia os animais selvagens uivando pelos matos e tremia de frio e de medo. Assim foi seguindo, com os pés ensanguentados e os vestidos em farrapos, até que viu ao longe, muito longe, uma luzinha.
Bastou isso para lhe encher o coração de esperança e lá se foi arrastando até chegar a uma casa, à porta da qual bateu esperando que lhe dissessem alguma coisa. Como não lhe respondessem, empurrou a porta, vendo o lume aceso, mas ninguém dentro de casa.
Foi entrando, resolvida a esperar os donos para pedir licença de passar a noite em qualquer canto. Mas, como era muito arranjada, vendo a casa por varrer, pegou numa vassoura e limpou-a. Tratou do lume, pôs a panela a ferver, e tinha tudo em ordem quando sentiu um tropel fora da porta. Foi ver o que era e viu um velho que trazia um rebanho de porcos, acomodando-os num curral ao lado.
Entrou na casa, onde a Princesa o recebeu a chorar, perguntando-lhe com muito bom modo o que estava ali a fazer equal a razão de tantas lágrimas. A menina contou-lhe toda a sua vida e terminando pediu que a não abandonasse, que a não levasse ao pai, aliás ele a mataria e ao bom criado que a tinha salvo.
O porqueiro respondeu-lhe que descansasse, que ali ficaria como sua filha, até que aparecesse um esposo a quem a pudesse entregar.
— Por agora (disse-lhe) até me fazes favor em viver comigo, porque eu estava aqui muito só com os meus porcos.
Agradeceu a menina, cheia de alegria, ao bom do velho, e daí em diante ficaram os dois a viver como Deus com os anjos. Nunca houve pai e filha que melhor se entendessem. Fazia gosto vê-los. A Princesa acostumara-se àquela vida sossegada e nenhumas saudades tinha do faustuoso viver que deixara.
É preciso dizer que a mãe lhe morrera, quando ela abria os olhos ao mundo. Por isso sofrera tanto, e teria morrido, se não fosse um humilde criado!
Ora a Princesa era muito linda e muito boa, mas a respeito de sabedoria tinha muito pouca. Naquele tempo nem os reis sabiam escrever, quanto mais as princesas! Mas o porqueiro, que era um grande sábio, não cessava de a ensinar, dizendo-lhe muita vez: — Eu quero um dia apresentar-te a teu pai de tal maneira, que nem ele mesmo te reconhecerá. Mas há-de ser quando tenhas um marido que te ampare e ele não te possa fazer mal.
A menina respondia-lhe sempre que era muito feliz, que estava ali muito bem, e não desejava mais do que viver toda a sua vida assim.
O velho sorria-se e não dava mais explicações. De dia andava ele pelo montado com os seus porcos, e à noite instruia a Princesa em tudo que uma senhora deve saber para que a considerem mais pela sua inteligência do que pela posição, que duma hora para outra pode mudar. Assim foi passando o tempo até que a Princesa chegou aos vinte anos.
Tinha ela o costume de se ir sentar à porta a costurar, enquanto o pai adoptivo andava por fora com os porcos. Ora acontecia que por aqueles sítios passavam muitos fidalgos que andavam à caça; entre eles apareceu um conde de muito galante figura, que se enamorou da filha do porqueiro. Passava e repassava por ali e sempre lhe dizia:
— A menina quer ser minha esposa?
A Princesa não respondia, mas o cavaleiro não desanimava nem perdia ocasião de repetir o mesmo e mostrar por todos os meios quanto era sincero o seu pedido. Tanto andou, tanto disse, que um dia respondeu-lhe a Princesa, discretamente:
— Por mim nenhuma resposta lhe posso dar, cavaleiro. Fale a meu pai.
Volveu logo o Conde, muito animado:
— Primeiro diga-lhe a menina tudo e amanhã dê-me a resposta. O que ele disser é o que se há-de fazer.
O que é verdade é que ele era um lindo rapaz e a Princesa achava-o bastante simpático, mas nada lhe quiz confessar sem o consentimento do bom homem que lhe tinha servido de pai. Quando à noite recolheu, contou-lhe tudo que se tinha passado. O porqueiro ouviu-a atento, respondendo assim:
— Minha filha, é esse cavaleiro muito do meu gosto. Conheço-o bem e sei que te fará feliz. De boa vontade; pois, darei o consentimento que me pedem, se ele aceitar a condição que eu ponho. Dize-lhe tu, minha filha, que te deixo casar de muito boa vontade, se ele no jantar de noivado quiser ter como convivas os meus porcos.
No outro dia, à hora do costume, chegou o cavaleiro ansioso por saber a resposta que lhe daria a menina, que ele julgava uma simples camponeza, filha dum pobre porqueiro. Ela disse-lhe a condição que seu pai apresentava, e o Conde pensou que, à custa desse sacrifício dum dia, teria a felicidade de toda a vida e, como era uma só vez que jantaria com tão feios companheiros valeria bem a pena. Respondeu à menina que sim, que podia combinar com o pai o dia do casamento, que ele estava por tudo.
Ficou a Princesa encantada com uma tão grande prova da sincera afeição do noivo e confessou-lhe como era também grande o amor que lhe dedicava.
Separaram-se esperançados e felicíssimos, e o cavaleiro foi dali fazer-se encontrado com o porqueiro, prevenindo-o este de que no dia do casamento, quando os seus porcos estivessem juntos, ele diria uma coisa que causaria muito espanto. O Conde, como nada tinha de que se acusar, ficou por tudo.
Chegou o dia marcado e na casa do porqueiro se pôs a mesa, estando os porcos todos em volta.
Os parentes e amigos do Conde, que assistiam à festa, não se cansavam de o cumprimentar pelo seu bom gosto, pois a noiva era um encanto de modéstia e discrição, apesar de ser a mais instruída Princesa que nesse tempo se podia encontrar no mundo. E todos concordavam em que valia a pena jantar uma vez na vida com uma ranchada de porcos, para obter uma tão encantadora esposa.
Quando estavam à roda da mesa prontos para jantar, dirigiu-se o porqueiro à filha para que lhe cortasse um dedo com uma faca que lhe entregou.
Ela não queria de maneira nenhuma fazer tal barbaridade, mas, em vista da insistência do pai, não teve remédio: pegou na faca, voltou a cara para o lado, e descarregou-lhe um golpe, de que o sangue começou a correr em fio. Então o velho foi junto de cada porco e deitando-lhe uma pinga do seu sangue na cabeça logo ele se transformava num cavaleiro ricamente vestido. Quando chegou ao último, os convivas do noivo ficaram pasmados vendo-o transformar-se num homem, com todas as insígnias de imperador.
Ao mesmo tempo que isto acontecia, sentiu-se um ligeiro abalo na casa e acharam-se, num abrir e fechar de olhos, no mais sumptuoso palácio. Contou então o porqueiro — que era um bom génio protector dos príncipes infelizes — a história daquele poderoso imperador e seu companheiros, que o menor deles era conde de sangue real.
Era um extenso império o daquele poderoso senhor. Ele e seus companheiros foram um dia numa grande armada à conquista da Terra Santa. Mas, indo dar a uma ilha que uma fada muito má governava, transformou-os em porcos e só aquele bom génio podera moderar a pena, que era eterna, fazendo-a terminar no dia em que um nobre senhor quisesse jantar com eles à mesa.
Tornemos à história do Conde e da Princesa. O imperador e os seus cavaleiros, como lhes deviam a vida humana a que outra vez se viam restituídos, cheios de reconhecimento os juraram futuros herdeiros do seu império, que, passadas as festas do casamento, iriam todos habitar.
No meio da sua grande alegria nem a Princesa já pensava no Rei seu pai, no sonho, e muito menos nas desgraças passadas. Mas estava escrito que o Rei orgulhoso e mau que a mandara matar teria o seu castigo.
Como isto tudo se passava no Reino, soube da estada ali do opulento e nobre imperador vivendo num magnífico palácio com a sua corte de príncipes. Resolveu ir visitá-lo, seguido duma soberba comitiva, para mostrar como ele também era rico e poderoso.
Ficou, apesar disso, maravilhado com o luxo e riqueza que viu no palácio do imperador. Na sala do trono onde este o recebeu rodeado dos seus cavaleiros e pagens, escudeiros e homens de armas, entre muitas e gentis damas estava uma que, sobre todas, brilhava pela sua nunca vista formosura e riqueza de vestido.
O Rei, imaginando que seria a filha do imperador, que sabia viúvo, dirigiu-se para ela e amàvelmente lhe beijou a mão, sem, nem por sombras, lhe passar pela cabeça que fosse a sua própria filha.
Também a Princesa não reconheceu o pai senão quando o porqueiro veio contar diante de todos a história daquele mau e orgulhoso Rei, que mandara matar a sua própria filha só por um sonho, que nada valia.
Tanto numa como na outra corte ficaram indignados e ele tão furioso, por ter beijado a mão à filha, que teve um ataque de desespero morrendo logo ali, sem ninguém ter pena.
Como não tinha mais herdeiros ficaram reis a Princesa e o Conde, combinando dar o primeiro filho que tivessem para herdar o império do piedoso soberano que tinham desencantado. E o segundo filho ficaria herdeiro deles. Assim se fez, como combinaram, tudo na paz e grande amizade que desde então ligam aqueles grandes estados. E, por fim, sempre é bom dizer que viveram muitos anos; que foram o mais felizes que na terra se pode ser, e nunca a Princesa consentiu em separar-se do porqueiro, o bom génio que lhe tinha servido de pai.
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{{navegar
| título = [[../]]
| autor = Ana de Castro Osório
| tradutor =
| seção = O porqueiro
| anterior = [[../A Bela Felicidade/]]
| posterior = [[../O coelho branco/]]
| notas =
}}
'''<big>O PORQUEIRO</big>'''
EXISTIU em tempos remotos um Rei que tinha uma filha. Um dia disse-lhe ela: — Meu pai, ando sempre a ter sonhos tão extraordinários, que não imagina! Este noite tive um em que até faz vontade de rir. Sonhei que meu pai me há-de beijar a mão!
O Rei, que tal ouviu, ficou furioso e respondeu irado:
— O quê?! Pois eu hei-de beijar-te a mão?! Isso nunca poderia acontecer!
— Não (volveu a menina com doçura), nem eu creio que possa ser, mas foi o que sonhei.
O Rei, que era muito orgulhoso, não ficou satisfeito com isto; mandou chamar adivinhos e todos lhe disseram que podia muito bem ser verdadeiro o sonho da Princesa. E, levado pelo seu mau génio e por maus conselheiros secretos, resolveu mandar matar a filha.
Chamou um criado de confiança e deu-lhe ordem de levar a Princesa para longe, de a matar e de lhe trazer o coração como prova de ter obedecido.
Foi o criado com a menina para um bosque, querendo cumprir as ordens do Rei, mas vendo-a tão bonita, tão novinha, tão boa, e tão desgraçada, não teve coragem de a matar. Apareceu por ali um cãozito e ele tirou-lhe o coração para levar ao Rei, como sendo o da filha. À Princesa disse que se escondesse em alguma choupana por essa noite e depois que fugisse para bem longe, de maneira que a imaginassem morta.
Mal a Princesa se viu só, foi andando, andando, mas quanto mais andava mais se enredava na floresta até que lhe anoiteceu, sem ver ninguém a quem perguntasse o caminho ou lhe desse uma sede de água!
Ouvia os animais selvagens uivando pelos matos e tremia de frio e de medo. Assim foi seguindo, com os pés ensanguentados e os vestidos em farrapos, até que viu ao longe, muito longe, uma luzinha.
Bastou isso para lhe encher o coração de esperança e lá se foi arrastando até chegar a uma casa, à porta da qual bateu esperando que lhe dissessem alguma coisa. Como não lhe respondessem, empurrou a porta, vendo o lume aceso, mas ninguém dentro de casa.
Foi entrando, resolvida a esperar os donos para pedir licença de passar a noite em qualquer canto. Mas, como era muito arranjada, vendo a casa por varrer, pegou numa vassoura e limpou-a. Tratou do lume, pôs a panela a ferver, e tinha tudo em ordem quando sentiu um tropel fora da porta. Foi ver o que era e viu um velho que trazia um rebanho de porcos, acomodando-os num curral ao lado.
Entrou na casa, onde a Princesa o recebeu a chorar, perguntando-lhe com muito bom modo o que estava ali a fazer equal a razão de tantas lágrimas. A menina contou-lhe toda a sua vida e terminando pediu que a não abandonasse, que a não levasse ao pai, aliás ele a mataria e ao bom criado que a tinha salvo.
O porqueiro respondeu-lhe que descansasse, que ali ficaria como sua filha, até que aparecesse um esposo a quem a pudesse entregar.
— Por agora (disse-lhe) até me fazes favor em viver comigo, porque eu estava aqui muito só com os meus porcos.
Agradeceu a menina, cheia de alegria, ao bom do velho, e daí em diante ficaram os dois a viver como Deus com os anjos. Nunca houve pai e filha que melhor se entendessem. Fazia gosto vê-los. A Princesa acostumara-se àquela vida sossegada e nenhumas saudades tinha do faustuoso viver que deixara.
É preciso dizer que a mãe lhe morrera, quando ela abria os olhos ao mundo. Por isso sofrera tanto, e teria morrido, se não fosse um humilde criado!
Ora a Princesa era muito linda e muito boa, mas a respeito de sabedoria tinha muito pouca. Naquele tempo nem os reis sabiam escrever, quanto mais as princesas! Mas o porqueiro, que era um grande sábio, não cessava de a ensinar, dizendo-lhe muita vez: — Eu quero um dia apresentar-te a teu pai de tal maneira, que nem ele mesmo te reconhecerá. Mas há-de ser quando tenhas um marido que te ampare e ele não te possa fazer mal.
A menina respondia-lhe sempre que era muito feliz, que estava ali muito bem, e não desejava mais do que viver toda a sua vida assim.
O velho sorria-se e não dava mais explicações. De dia andava ele pelo montado com os seus porcos, e à noite instruia a Princesa em tudo que uma senhora deve saber para que a considerem mais pela sua inteligência do que pela posição, que duma hora para outra pode mudar. Assim foi passando o tempo até que a Princesa chegou aos vinte anos.
Tinha ela o costume de se ir sentar à porta a costurar, enquanto o pai adoptivo andava por fora com os porcos. Ora acontecia que por aqueles sítios passavam muitos fidalgos que andavam à caça; entre eles apareceu um conde de muito galante figura, que se enamorou da filha do porqueiro. Passava e repassava por ali e sempre lhe dizia:
— A menina quer ser minha esposa?
A Princesa não respondia, mas o cavaleiro não desanimava nem perdia ocasião de repetir o mesmo e mostrar por todos os meios quanto era sincero o seu pedido. Tanto andou, tanto disse, que um dia respondeu-lhe a Princesa, discretamente:
— Por mim nenhuma resposta lhe posso dar, cavaleiro. Fale a meu pai.
Volveu logo o Conde, muito animado:
— Primeiro diga-lhe a menina tudo e amanhã dê-me a resposta. O que ele disser é o que se há-de fazer.
O que é verdade é que ele era um lindo rapaz e a Princesa achava-o bastante simpático, mas nada lhe quiz confessar sem o consentimento do bom homem que lhe tinha servido de pai. Quando à noite recolheu, contou-lhe tudo que se tinha passado. O porqueiro ouviu-a atento, respondendo assim:
— Minha filha, é esse cavaleiro muito do meu gosto. Conheço-o bem e sei que te fará feliz. De boa vontade; pois, darei o consentimento que me pedem, se ele aceitar a condição que eu ponho. Dize-lhe tu, minha filha, que te deixo casar de muito boa vontade, se ele no jantar de noivado quiser ter como convivas os meus porcos.
No outro dia, à hora do costume, chegou o cavaleiro ansioso por saber a resposta que lhe daria a menina, que ele julgava uma simples camponeza, filha dum pobre porqueiro. Ela disse-lhe a condição que seu pai apresentava, e o Conde pensou que, à custa desse sacrifício dum dia, teria a felicidade de toda a vida e, como era uma só vez que jantaria com tão feios companheiros valeria bem a pena. Respondeu à menina que sim, que podia combinar com o pai o dia do casamento, que ele estava por tudo.
Ficou a Princesa encantada com uma tão grande prova da sincera afeição do noivo e confessou-lhe como era também grande o amor que lhe dedicava.
Separaram-se esperançados e felicíssimos, e o cavaleiro foi dali fazer-se encontrado com o porqueiro, prevenindo-o este de que no dia do casamento, quando os seus porcos estivessem juntos, ele diria uma coisa que causaria muito espanto. O Conde, como nada tinha de que se acusar, ficou por tudo.
Chegou o dia marcado e na casa do porqueiro se pôs a mesa, estando os porcos todos em volta.
Os parentes e amigos do Conde, que assistiam à festa, não se cansavam de o cumprimentar pelo seu bom gosto, pois a noiva era um encanto de modéstia e discrição, apesar de ser a mais instruída Princesa que nesse tempo se podia encontrar no mundo. E todos concordavam em que valia a pena jantar uma vez na vida com uma ranchada de porcos, para obter uma tão encantadora esposa.
Quando estavam à roda da mesa prontos para jantar, dirigiu-se o porqueiro à filha para que lhe cortasse um dedo com uma faca que lhe entregou.
Ela não queria de maneira nenhuma fazer tal barbaridade, mas, em vista da insistência do pai, não teve remédio: pegou na faca, voltou a cara para o lado, e descarregou-lhe um golpe, de que o sangue começou a correr em fio. Então o velho foi junto de cada porco e deitando-lhe uma pinga do seu sangue na cabeça logo ele se transformava num cavaleiro ricamente vestido. Quando chegou ao último, os convivas do noivo ficaram pasmados vendo-o transformar-se num homem, com todas as insígnias de imperador.
Ao mesmo tempo que isto acontecia, sentiu-se um ligeiro abalo na casa e acharam-se, num abrir e fechar de olhos, no mais sumptuoso palácio. Contou então o porqueiro — que era um bom génio protector dos príncipes infelizes — a história daquele poderoso imperador e seu companheiros, que o menor deles era conde de sangue real.
Era um extenso império o daquele poderoso senhor. Ele e seus companheiros foram um dia numa grande armada à conquista da Terra Santa. Mas, indo dar a uma ilha que uma fada muito má governava, transformou-os em porcos e só aquele bom génio podera moderar a pena, que era eterna, fazendo-a terminar no dia em que um nobre senhor quisesse jantar com eles à mesa.
Tornemos à história do Conde e da Princesa. O imperador e os seus cavaleiros, como lhes deviam a vida humana a que outra vez se viam restituídos, cheios de reconhecimento os juraram futuros herdeiros do seu império, que, passadas as festas do casamento, iriam todos habitar.
No meio da sua grande alegria nem a Princesa já pensava no Rei seu pai, no sonho, e muito menos nas desgraças passadas. Mas estava escrito que o Rei orgulhoso e mau que a mandara matar teria o seu castigo.
Como isto tudo se passava no Reino, soube da estada ali do opulento e nobre imperador vivendo num magnífico palácio com a sua corte de príncipes. Resolveu ir visitá-lo, seguido duma soberba comitiva, para mostrar como ele também era rico e poderoso.
Ficou, apesar disso, maravilhado com o luxo e riqueza que viu no palácio do imperador. Na sala do trono onde este o recebeu rodeado dos seus cavaleiros e pagens, escudeiros e homens de armas, entre muitas e gentis damas estava uma que, sobre todas, brilhava pela sua nunca vista formosura e riqueza de vestido.
O Rei, imaginando que seria a filha do imperador, que sabia viúvo, dirigiu-se para ela e amàvelmente lhe beijou a mão, sem, nem por sombras, lhe passar pela cabeça que fosse a sua própria filha.
Também a Princesa não reconheceu o pai senão quando o porqueiro veio contar diante de todos a história daquele mau e orgulhoso Rei, que mandara matar a sua própria filha só por um sonho, que nada valia.
Tanto numa como na outra corte ficaram indignados e ele tão furioso, por ter beijado a mão à filha, que teve um ataque de desespero morrendo logo ali, sem ninguém ter pena.
Como não tinha mais herdeiros ficaram reis a Princesa e o Conde, combinando dar o primeiro filho que tivessem para herdar o império do piedoso soberano que tinham desencantado. E o segundo filho ficaria herdeiro deles. Assim se fez, como combinaram, tudo na paz e grande amizade que desde então ligam aqueles grandes estados. E, por fim, sempre é bom dizer que viveram muitos anos; que foram o mais felizes que na terra se pode ser, e nunca a Princesa consentiu em separar-se do porqueiro, o bom génio que lhe tinha servido de pai.
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Página:Júlio Verne - À Roda da Lua (1886).pdf/152
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|144|{{sc|á roda da lua}}|{{sc|viagens maravilhosas}}}}{{rule}}</noinclude>metro de escoadouro, do systema Walferdin, que dá os ''minima''
de temperatura excessivamente baixos.
Antes de se começar a experiencia, comparou-se o intrumento com um thermometro ordinario, e Barbicane dispoz-se a
usar dʼelle.
— Como se ha de fazer? perguntou Nicholl.
— Nada mais facil, respondeu Miguel Ardan, que nunca achava embaraços. É abrir rapidamente a vigia e lançar fóra o instrumento; como este ha de acompanhar o projectil com exemplar docilidade, um quarto de hora depois tira-se.
— Com a māo? perguntou Barbicane.
— Com a māo, sim, respondeu Miguel.
— Pois meu caro amigo, nāo te mettas nʼessa, respondeu
Barbicane, porque quando tirasses a māo achaval-a transformada nʼum coto gelado e deformado por esses horrorosos frios.
— Sim?
— Soffrerias sensaçāo igual á de uma queimadura, tāo horrivel como a do ferro em braza, porque, quer o calor saia, quer
entre brutalmente na nossa carne, o caso é exactamente o
mesmo. Demais, tambem nāo sei ao certo se os objectos
lançados agora fóra do projectil continuariam a fazer-nos sequito.
— Porque? disse Nicholl.
— Porque, se é que vamos atravessando uma atmosphera
qualquer, por pouco densa que seja, ha de retardar esses objectos. E a obscuridade impede-nos de ver se os de ainda agora continuam a vogar de conserva comnosco. Por consequencia, para nos nāo arriscarmos a ficar sem o nosso thermometro,
o melhor é atal-o, e assim tamb em melhor se puxa outra vez
cá para dentro.
Seguiram-se os conselhos de Barbicane. Pela vigia que rapidamente se abriu, lançou Nicholl o instrumento suspenso de
uma corda muito curta, para se poder recolher com rapidez.
Apenas estivera aberta por espaço de um segundo a vigia, e
este segundo fóra tadavia bastante para que um frio violento
penetrasse no interior.
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|145|{{sc|á roda da lua}}|{{sc|viagens maravilhosas}}}}{{rule}}</noinclude>— Com mil diabos! exclamou Miguel Ardan, faz um frio capaz de gelar ursos brancos!
Barbicane esperou que passasse meia hora, tempo mais que
sufficiente para que o instrumento podesse descer ao nivel da
temperatura do espaço. Passado este intervallo, recolheu o thermometro rapidamente. Calculou a quantidade de espirito de vinho que escorréra para o pequeno reservatorio soldado á parte
inferior do instrumento, e disse:
— Cento e quarenta graus centigrados abaixo de zero!
Pouillet tinha, pois, rasāo contra Fourier, que tal era a temerosa temperatura do espaço sideral! Tal é, talvez, a dos continentes lunares, quando o astro das noites tem perdido pela
irradiaçāo todo aquelle calor que lhe fornecem quinze dias de
sol!
{{nop}}<noinclude>
{{right|10}}</noinclude>
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Página:Júlio Verne - À Roda da Lua (1886).pdf/154
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" /></noinclude>{{t2|{{sc|hyperbole de parabola}}|CAPITULO XV}}
{{dhr|4}}
Talvez alguem se admire de ver que Barbicane e os companheiros tāo pouco se inquietavam do futuro que lhes reservava
aquella prisāo de metal arrastada pelos infinitos do ether, e de
que em vez de inquirirem da propria intelligencia onde iriam
dar por aquella fórma, passassem o tempo a fazer experiencias
como se estivessem tranquillamente installados nos seus gabinetes de estudo.
Poderia responder-se a isto, que homens de tāo robusta tempera estavam acima de taes cuidados, que se nāo inquietavam
com tāo pequenas cousas, e que tinham mais que fazer do que
estarem a preoccupar-se com a sua futura sorte.
Mas a verdade é que os tres viajantes nāo eram senhores do
projectil que os arrastava, e que nem podiam tolher-lhe a marcha, nem modificar-lhe a direcçāo.
O homem do mar muda á sua vontada o rumo do navio; o
aeronautá póde imprimir ao seu balāo movimentos verticaes.
Mas os nossos viajantes, pelo contrario, nāo possuiam nenhuma
especie de acçāo sobre o respectivo vehiculo. Manobra alguma<noinclude></noinclude>
m0p2qblszar3ayqw0wjeiaja8ew1daa
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Erick Soares3
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text/x-wiki
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Talvez alguem se admire de ver que Barbicane e os companheiros tāo pouco se inquietavam do futuro que lhes reservava
aquella prisāo de metal arrastada pelos infinitos do ether, e de
que em vez de inquirirem da propria intelligencia onde iriam
dar por aquella fórma, passassem o tempo a fazer experiencias
como se estivessem tranquillamente installados nos seus gabinetes de estudo.
Poderia responder-se a isto, que homens de tāo robusta tempera estavam acima de taes cuidados, que se nāo inquietavam
com tāo pequenas cousas, e que tinham mais que fazer do que
estarem a preoccupar-se com a sua futura sorte.
Mas a verdade é que os tres viajantes nāo eram senhores do
projectil que os arrastava, e que nem podiam tolher-lhe a marcha, nem modificar-lhe a direcçāo.
O homem do mar muda á sua vontada o rumo do navio; o
aeronautá póde imprimir ao seu balāo movimentos verticaes.
Mas os nossos viajantes, pelo contrario, nāo possuiam nenhuma
especie de acçāo sobre o respectivo vehiculo. Manobra alguma<noinclude></noinclude>
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Á Roda da Lua (5ª edição)/XIV
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[[Ajuda:SEA|←]] nova página: <pages index="Júlio Verne - À Roda da Lua (1886).pdf" from=143 to=153 header=1/> {{Modernização}} {{DP-3}} [[pl:Podróż Naokoło Księżyca/XIV]] [[ru:Вокруг_Луны_(Верн;_1869)/ДО#ГЛАВА_XIV._Ночь_въ_триста_пятьдесятъ_четыре_съ_половиной_часа.]] [[cs:Cesta kolem měsíce/Kapitola čtrnáctá]] [[en:Around the Moon/Chapter XIV]] [[fr:Autour de la Lune/14]]
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[[pl:Podróż Naokoło Księżyca/XIV]]
[[ru:Вокруг_Луны_(Верн;_1869)/ДО#ГЛАВА_XIV._Ночь_въ_триста_пятьдесятъ_четыре_съ_половиной_часа.]]
[[cs:Cesta kolem měsíce/Kapitola čtrnáctá]]
[[en:Around the Moon/Chapter XIV]]
[[fr:Autour de la Lune/14]]
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Página:Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano, Tomo XI (1904).pdf/118
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rh|104|REV. DO INST. ARCH. E GEOG. PERN.||borda_inferior=sim}}</noinclude>um punhado de farinha o alimento que exigem quando vem ao
porto.
Ao entardecer, não havendo cavallos para alugar, tomamos alguns de emprestimo aos nossos amigos inglezes e francezes, e nos dirigimos a Olinda pelo extenso isthmo arenoso
que a liga ao Recife; foi este mesmo isthmo que Sir John
Lancaster fortificou com uma estacada durante a sua estada no
Recife, que saqueou. A praia é defendida por duas fortalezas
sufficientemente poderosas considerada a sua situação ; dum
lado as vagas quebraram-se furiosamente contra as suas bases
e do outro dilata-se um vasto estatuario terminando alem em
terrenos baixos, de sorte que não podem ser dominadas. A
areia acha-se em parte coberta de arbustos, um dos quaes era
bellissimo com folhas espessas e flores purpurinas em forma de
campanhia; alguns assemelhavam-se aos do Oriente, outros
eram inteiramente novos para mim.
Surprehendeu-me a extrema belleza de Olinda, ou antes
dos seus restos, pois acha se agora num triste estado de ruinas.
Todos os habitantes mais abastados deixaram-na pelo Recife.
Sendo as rendas do bispado agora reclamadas pela corôa e estando os conventos supprimidos na maioria, nem mais existe o
facticio esplendor das pompas ecclesiasticas. O proprio seminario em que os rapazes recebiam alguma instrucção, comquanto imperfeita, está quasi em ruinas <ref>Foi primitivamente o Collegio dos Jesuitas fundado sob a
administração do admiravel Padre Nobrega e seu companheiro De.
Gram. Ali, aos dozoito aunos de idade, o celebre Vieira leu rhetorica
e compoz os commentarios sobre alguns dos classicos, infelizmente
perdidos no decurso das guerras civis.{{right|N. da A.}}</ref> e rara é a casa de
qualquer tamanho ainda de pé.
Olinda assenta sobre algumas pequenas collinas, cujas
fraldas em alguns pontos descem a pique, apresentando o mais
abrupto e pittoresco scenario de rochas; acham-se cercadas
de bosques escuros que parecem contemporancos da propria
terra : tufos de esbeltas palmeiras, aqui e ali a ampla fronde
duma velha mangneira ou os galhos gigantescos da {{illegível}}
elevam-se acima das demais arvores, irrompendo do seio da
floresta; no meio della os conventos, a cathedral, o palacio
episcopal e as igrejas, duma architectura nobre senão elegante,<noinclude>{{rule|6em|align=left}}
{{smallrefs}}</noinclude>
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porto.
Ao entardecer, não havendo cavallos para alugar, tomamos alguns de emprestimo aos nossos amigos inglezes e francezes, e nos dirigimos a Olinda pelo extenso isthmo arenoso
que a liga ao Recife; foi este mesmo isthmo que Sir John
Lancaster fortificou com uma estacada durante a sua estada no
Recife, que saqueou. A praia é defendida por duas fortalezas
sufficientemente poderosas considerada a sua situação ; dum
lado as vagas quebraram-se furiosamente contra as suas bases
e do outro dilata-se um vasto estatuario terminando alem em
terrenos baixos, de sorte que não podem ser dominadas. A
areia acha-se em parte coberta de arbustos, um dos quaes era
bellissimo com folhas espessas e flores purpurinas em forma de
campanhia; alguns assemelhavam-se aos do Oriente, outros
eram inteiramente novos para mim.
Surprehendeu-me a extrema belleza de Olinda, ou antes
dos seus restos, pois acha se agora num triste estado de ruinas.
Todos os habitantes mais abastados deixaram-na pelo Recife.
Sendo as rendas do bispado agora reclamadas pela corôa e estando os conventos supprimidos na maioria, nem mais existe o
facticio esplendor das pompas ecclesiasticas. O proprio seminario em que os rapazes recebiam alguma instrucção, comquanto imperfeita, está quasi em ruinas <ref>Foi primitivamente o Collegio dos Jesuitas fundado sob a
administração do admiravel Padre Nobrega e seu companheiro De.
Gram. Ali, aos dozoito aunos de idade, o celebre Vieira leu rhetorica
e compoz os commentarios sobre alguns dos classicos, infelizmente
perdidos no decurso das guerras civis.{{right|N. da A.}}</ref> e rara é a casa de
qualquer tamanho ainda de pé.
Olinda assenta sobre algumas pequenas collinas, cujas fraldas em alguns pontos descem a pique, apresentando o mais abrupto e pittoresco scenario de rochas; acham-se cercadas de bosques escuros que parecem contemporancos da propria terra : tufos de esbeltas palmeiras, aqui e ali a ampla fronde duma velha mangneira ou os galhos gigantescos da {{ilegível}} elevam-se acima das demais arvores, irrompendo do seio da floresta; no meio della os conventos, a cathedral, o palacio episcopal e as igrejas, duma architectura nobre senão elegante,<noinclude>{{rule|6em|align=left}}
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porto.
Ao entardecer, não havendo cavallos para alugar, tomamos alguns de emprestimo aos nossos amigos inglezes e francezes, e nos dirigimos a Olinda pelo extenso isthmo arenoso
que a liga ao Recife; foi este mesmo isthmo que Sir John
Lancaster fortificou com uma estacada durante a sua estada no
Recife, que saqueou. A praia é defendida por duas fortalezas
sufficientemente poderosas considerada a sua situação ; dum
lado as vagas quebraram-se furiosamente contra as suas bases
e do outro dilata-se um vasto estatuario terminando alem em
terrenos baixos, de sorte que não podem ser dominadas. A
areia acha-se em parte coberta de arbustos, um dos quaes era
bellissimo com folhas espessas e flores purpurinas em forma de
campanhia; alguns assemelhavam-se aos do Oriente, outros
eram inteiramente novos para mim.
Surprehendeu-me a extrema belleza de Olinda, ou antes
dos seus restos, pois acha se agora num triste estado de ruinas.
Todos os habitantes mais abastados deixaram-na pelo Recife.
Sendo as rendas do bispado agora reclamadas pela corôa e estando os conventos supprimidos na maioria, nem mais existe o
facticio esplendor das pompas ecclesiasticas. O proprio seminario em que os rapazes recebiam alguma instrucção, comquanto imperfeita, está quasi em ruinas <ref>Foi primitivamente o Collegio dos Jesuitas fundado sob a
administração do admiravel Padre Nobrega e seu companheiro De.
Gram. Ali, aos dozoito aunos de idade, o celebre Vieira leu rhetorica
e compoz os commentarios sobre alguns dos classicos, infelizmente
perdidos no decurso das guerras civis.{{right|N. da A.}}</ref> e rara é a casa de
qualquer tamanho ainda de pé.
Olinda assenta sobre algumas pequenas collinas, cujas
fraldas em alguns pontos descem a pique, apresentando o mais
abrupto e pittoresco scenario de rochas; acham-se cercadas
de bosques escuros que parecem contemporancos da propria
terra : tufos de esbeltas palmeiras, aqui e ali a ampla fronde
duma velha mangneira ou os galhos gigantescos da {{ilegível}}
elevam-se acima das demais arvores, irrompendo do seio da
floresta; no meio della os conventos, a cathedral, o palacio
episcopal e as igrejas, duma architectura nobre senão elegante, {{PT||surgem em posições que un Clande ou um Poussin não poderiam ter mais bem escolhido; algumas erguem-se á borda
das encostas empinadas, outras assentam em grammados que
descem para a praia em suave pendor ; a sua côr é cinzenta
ou amarello pallido, com telhas avermelhadas, excepto aqui e
ali alguma cupola adornada de azulejos. No momento em
que attingimos o ponto mais elevado da cidade, olhando atravez do valle arborisado em volta do qual se agrupam as collinas, avistamos a fumaça de uma das guardas avançadas. Os
soldados estavam de pé ou deitados en volta, com as armas
ensarilhadas; cobria-os a sombra das grandes arvores ao fundo,
atravez de cujos troncos os raios esparsos do sol no occaso derramava una meia luz tal que o proprio Salvator Rosa a não
desdenharia.}}
{{nop}}<noinclude>{{rule|6em|align=left}}
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Página:Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano, Tomo XI (1904).pdf/119
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{{c|'''''Rua da Cruz em 1821'''''}}
{{c|''(Duma gravura de E. Finden. APUD Mrs. Maria Graham-{{sc|journal of a voyage to brazil. londres.}}, 1824).''}}
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Página:Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano, Tomo XI (1904).pdf/121
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das encostas empinadas, outras assentam em grammados que
descem para a praia em suave pendor ; a sua côr é cinzenta
ou amarello pallido, com telhas avermelhadas, excepto aqui e
ali alguma cupola adornada de azulejos. No momento em
que attingimos o ponto mais elevado da cidade, olhando atravez do valle arborisado em volta do qual se agrupam as collinas, avistamos a fumaça de uma das guardas avançadas. Os
soldados estavam de pé ou deitados en volta, com as armas
ensarilhadas; cobria-os a sombra das grandes arvores ao fundo,
atravez de cujos troncos os raios esparsos do sol no occaso derramava una meia luz tal que o proprio Salvator Rosa a não
desdenharia.}}
Os mesinos soldados, porém, circumscreveram o nosso
passeio ; pretendiamos regressar pela estrada do interior, mas,
não nos permittiram seguil-a, porquanto pelo menos parte
della está em poder dos patriotas, pelo que fomos forçados a
voltar pelo mesmo caminho da vinda.
No lugar em que a presente guarda está postada, e onde
de facto é necessaria uma forte guarda, o rio de Beberibe
lança-se no estuario que foi outrʼora o porto de Olinda. Um
dique foi construido atravez delle, com portas dʼagua que
são occasionalmente abertas ; sobre o dique ha uma bonita
arcada aberta, onde os habitantes das visinhanças costumavam, em tempos pacificos, passar a tarde comendo, bebendo
e dançando.
Desta repreza procede a melhor agua nsada no Recife,
para onde é diariamente transportada em canôas que atracam
junto ao dique chamado Varadouro e são enchidas por vinte
e tres torneiras collocadas de forma a despejarem directamente nas candas, sem mais trabalho. Vimos vinte e sete
destas pequenas canôas carregadas vogarem rio abaixo em direcção á cidade. Un só remo, usado antes como leme do que
como tal, guia a embarcação para o meio da corrente que a
conduz ao seu destino.
O sol escondera-se muito antes de alcançarmos o primeiro dos fortes de volta para a cidade. Os cães já haviam
começado a sua abominavel tarofa ; vi um arrastar o braço<noinclude>
{{right|14}}</noinclude>
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Rimas (Luís de Camões)
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{{documento|título=Rimas de Luis de Camões|data=1607|autor=Pedro Crasbeeck}}
{{Lista de documentos final}}
==Referências==
* https://literaturabrasileira.ufsc.br/documentos?id=244835
[[Categoria:Luís Vaz de Camões| ]]
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<noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />148</noinclude>''Outro'' ou é a traducção de {{lang|la|''alius''}}; (outro em relação a muĩtos) ou a traducção de {{lang|la|''alter''}}; (outro em relação a dous) e n{{'}}este caso póde tambem ser traduzido como ''segundo''.
«No valor e felicidade foi ''outro'' Cesar». — N{{'}}esta, bem como em phrases analogas, posto que o adjectivo — ''outro'' — é traducção de {{lang|la|''alter''}}, e equivale a ''segundo'', ainda assim não empregam os classicos o adjectivo articular — ''um'' — precedendo a — ''outro'' —; não se deve pois dizer nem n{{'}}esta hypothese é — ''um outro'' Cesar. Embora seja n{{'}}este exemplo — ''outro'' Cesar o mesmo que ''segundo'' Cesar; é ''outro'', é diverso, não mesmo na sua realidade pessoal; e por consequencia ainda ha uma idéa de opposição, não obstante possuir o tal individuo muitos ponctos de semelhança com Cesar.
Prevejo a irritação que ha de este reparo produzir nos ''tarelos'', como çhamava {{a|Filinto Elísio|Filinto Elysio}} aos que eu denomino ''francophilos'' talvez alguns dos taes, como crianças teimosas e malcreadas, esperneiem e bradem que ''hão de, hão de continuar'' a dizer e a escrever o gallicismo; é provavel que outros á guisa de garotos ridicularizem estas reflexões, como é costume dos mais velhacos para disfarçar a ignorancia; o que é certo é que todos esses, quanto mais pretendem tirar-me, mais me
dão; o que é indubitavel é que para minha completa
satisfacção bastam-me a acquiescencia dos<noinclude></noinclude>
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Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/193
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<noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />{{d|149}}</noinclude>animos desprevenidos, e ''o voto dos que sabem ler, e escrever''.
Depois d{{'}}esta leitura observe cada qual as vezes, em que terá de ouvir e ler — ''um outro, uma outra;'' e reflectindo sobre as razões apresentadas reconhecerá ''que é sempre possivel sem prejuizo do sentido'' supprimir o adjectivo articular — ''um'' —, dizendo e escrevendo ''outro, outra'', e não, nunca ''um outro, uma outra''.<noinclude>{{traço}}</noinclude>
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Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/194
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text/x-wiki
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Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/Um outro, uma outra
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[[Ajuda:SEA|←]] nova página: <pages index="Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf" from=187 to=193 header=1 />
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text/x-wiki
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Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O coelho branco
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[[Ajuda:SEA|←]] nova página: {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O coelho branco | anterior = [[../O porqueiro/]] | posterior = [[../Branca-Flor/]] | notas = }} '''<big>O COELHO BRANCO</big>''' EM tempos que já lá vão, havia um Rei que tinha uma única filha. Chamava-se ela Clarinda e ele o Rei Poderoso, tão vastos e ricos eram os seus estados, tão fortes e bem equipados os seus exércitos. O Rei...
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text/x-wiki
{{navegar
| título = [[../]]
| autor = Ana de Castro Osório
| tradutor =
| seção = O coelho branco
| anterior = [[../O porqueiro/]]
| posterior = [[../Branca-Flor/]]
| notas =
}}
'''<big>O COELHO BRANCO</big>'''
EM tempos que já lá vão, havia um Rei que tinha uma única filha. Chamava-se ela Clarinda e ele o Rei Poderoso, tão vastos e ricos eram os seus estados, tão fortes e bem equipados os seus exércitos.
O Rei estimava muito a filha, fazia-lhe todas as vontades, e decerto não havia no Mundo outra princesa tão feliz como aquela. E linda, boa e amável era Clarinda como nenhuma outra.
Ora um dia foi esta Princesa passear para o seu jardim, que era o mais belo de quantos jardins havia naquele tempo. Sentou-se junto duma fonte e, despregando os seus abundantes cabelos, começou a penteá-los com um riquíssimo pente de ouro cravejado de diamantes.
Enquanto prendia o cabelo no alto da cabeça com ganchos de pérolas, veio um coelhinho branco muito lindo, tão lindo e tão branco que só parecia uma bola de neve a caminhar, e roubou-lhe o pente que ela tinha posto sobre as guardas da fonte.
A Princesa achou muito engraçado o coelhinho e correu atrás dele, mas por mais que procurasse, não o tornou a ver naquele dia.
Na manhã seguinte veio muito cedo sentar-se junto da fonte, e, como toda a noite não dormira a pensar no coelhinho branco, sentiu que o sono ia invadi-la e tirou do pescoço um colar de rubis que lhe apertava alguma coisa.
Mal tinha fechado os olhos aparece o coelhinho branco e rouba-lhe o colar. A princesa Clarinda, acordada em sobressalto, correu atrás dele, procurou-o em todo o jardim, chamou criados e pagens, mas, por mais que procurassem, tal coelho não apareceu. Se não fosse faltar o colar e o pente, imaginaria a Princesa que tinha sonhado.
Vem o terceiro dia e a bela Clarinda logo de manhã saltou do leito, vestiu o mais rico vestido do seu guarda-roupa, calçou burzeguins de fino coiro, pôs as suas mais artísticas jóias, e foi a correr para o jardim. Sentou-se junto da fonte à espera do coelhinho branco, porque a todo o custo o queria possuir.
Já a Princesa estava cansada de esperar, quando se lembrou de meter as mãos na água muito clara, que caía num doce murmúrio na bacia de jaspe em forma de concha. Tirou dos dedos os anéis e pô-los na borda do tanque. Imediatamente vem o coelho a correr, e rouba-lhe um anel de esmeraldas, o mais lindo de quantos ela tinha, e foge numa corrida tal que a Princesa nem viu para que lado ele se meteu.
Chamou toda a gente do palácio, procuraram, viram tudo, mas de tal coelhinho nem novas nem mandados! Imaginavam todos que a Princesa tinha querido brincar e fizera aquele reboliço sem ter visto nenhum coelho.
Ao outro dia voltou ela ao jardim e no outro e no outro também, mas do coelhinho nunca mais soube. Teve a Princesa Clarinda um tal desgosto com isto, que perdeu a fala. O pai quando assim a viu, ia endoidecendo de desgosto. Mandou chamar todos os médicos do seu Reino e do estrangeiro, mas com a cura da Princesa ninguém acertou! E ela, deitada na cama, nem comia nem falava.
O bom do Rei Poderoso oferecia tudo quanto tinha a quem lhe salvasse a vida da filha. Todos os seus vastos domínios lhe pareceriam uma miséria se lhos pedissem em troca da saúde da bela Clarinda.
Mandou um arauto apregoar pelo mundo fora que daria a Princesa em casamento ao homem que lhe desse fala, fosse ele quem fosse. E, se alguma mulher conseguisse tal milagre, sob palavra de rei lhe prometia tudo quanto quisesse.
É claro, foi toda a gente ao palácio, mas nada se conseguiu.
Estavam as coisas neste ponto — e a Princesa cada vez pior e o Rei cada vez mais aflito — quando uma lavadeira se apresentou à porta do paço pedindo para falar à Princesa.
Como havia ordem de deixar entrar toda a gente também a lavadeira entrou, desembaraçada, mãos na cinta, faladora e alegre. Chegou ao quarto onde a linda Princesa ia morrendo de saudade a cada hora, e vendo-a tão magrinha, tão diferente do que fora, nem a boa mulher pôde suster as lágrimas.
Clarinda não dava por coisa alguma, mas a lavadeira não desanimou. Fez sair toda a gente do quarto, sentou-se à cabeceira do leito, e, pegando com as suas rudes mãos calosas na mãozinha branca da Princesa, começou a contar:
— Olhe, minha menina, quando ontem à tarde recolhia a casa, já com a minha tarefa acabada, vi diante de mim um burro com umas cangalhas carregadas de barris, e ouvi uma voz que dizia: ''Arre, burro, para nossa casa!''
— Olhei para todos os lados e não vi ninguém; mais adiante a mesma voz a falar! Admirada com isto, resolvi seguir o burro. Fomos andando, andando, ele sempre adiante e eu atrás, seguindo a voz que repetia: ''Arre, burro, para nossa casa! Arre, burro para nossa casa!...''
— Assim fui andando até chegar a um grande bosque. No meio havia um magnífico palácio, mil vezes mais lindo e mais rico do que este.
— De repente vi que os barris saíam de cima do burro, mas não sei quem lhe pegava, e ele foi meter-se na estrebaria. Eu, como estava cansada e vi luz dentro do palácio, fui entrando sem encontrar ninguém até chegar à cozinha. Aí vi um grande fogão cheio de caçarolas, frigideiras e panelas com diversos manjares, e havia por toda a parte um mexer de coisas como se muitos cozinheiros tratassem dum grande banquete. Mas, por mais que olhasse, não via ninguém.
— Como estava ali só, fui-me chegando para o fogão a ver se comia um dos bolos muito loirinhos, muito apetitosos, que da frigideira iam saltando para uma travessa que estava ao lado. Mal lhe toquei, senti uma pancada na mão e a voz que dizia: «Olha a lavadeira o que é de atrevida!».
A lavadeira contava a sua história, mas a Princesa nada parecia ouvir. Tinha os olhos fechados e estava tão imóvel como se estivesse dormindo. A mulherzinha não desanimou e foi sempre contando:
— Olhe, Princesa, isto foi assim até à meia-noite; depois, à última badalada das doze horas, abriram-se alçapões e portas com muito estrondo e eu escondi-me a um canto. Ouviu-se um grande barulho e entrou na cozinha uma quantidade de coelhos de todas as cores; entre eles vinha um todo branco; tão lindo, tão lindo, que eu fiquei encantada. Nunca vi um coelho assim!
Mal que a Princesa ouviu isto, abriu os olhos e sentou-se na cama. A lavadeira, contentíssima com tal resultado, foi continuando:
— Trouxeram uma bacia de prata cheia de água e puzeram-na no meio da cozinha. Então o coelhinho branco meteu-se dentro, espanejou-se muito, e, saltando para fora da bacia, fez-se num Príncipe ricamente vestido e tão belo que não espero ver outro que o iguale. Depois foi a um armário, e, pegando num cofre de cristal, tirou de dentro um pente de oiro cravejado de brilhantes, um colar de rubis e um anel de esmeraldas, e disse:
«Pente, colar, anel da minha Senhora: vejo-te a ti, não a vejo a ela. Ai de mim, que morro por ela!» — E, achorar que fazia pena, tornava:
«Pente, colar, anel da minha Senhora: vejo-te a ti, não a vejo a ela. Ai de mim, que morro por ela!».
E depois repetiu ainda, antes de fechar o cofre:
— «Pente, colar, anel da minha Senhora: vejo-te a ti, não a vejo a ela. Ai de mim, que morro por ela!».
Arrumou tudo como estava antes, tornou a meter-se na bacia, espanejou-se muito e ficou outra vez feito em coelho branco.
Quando a lavadeira acabou a história, já a Princesa estava em pé no meio do quarto. Abraçou-a como a uma amiga e agradeceu-lhe as boas novas que lhe dava do seu querido coelhinho branco, combinando ir essa tarde com ela para o ver.
Foi logo chamado o Rei e pedida a necessária licença para a Princesa sair. O pobre pai tão contente ficou ao ver a filha quase boa, que consentiu em tudo que lhe pediram, para a ter como era antes da doença.
À tarde veio a lavadeira buscar a Princesa e lá foram as duas para o rio, encontrando o mesmo burro com as cangalhas e ouvindo a voz que dizia: ''Arre, burro, para nossa casa! Arre, burro, para nossa casa!''
A Princesa caminhava ao pé da lavadeira, e ninguém diria que tinha estado doente, pelo desembaraço que levava.
Assim foram seguindo até chegar ao palácio; entraram, e, como na véspera, foi a lavadeira para cozinha e a menina com ela. Havia a mesma faina do dia anterior, e a mulher, para experimentar, fingia mexer nos guisados, e logo uma pancada na mão e a voz que gritava: — Olha a lavadeira o que é de atrevida! — Ia a Princesa, mexia em tudo, e não lhe faziam nenhum mal nem diziam nada. Assim estiveram até que o relógio deu as doze horas. Então, sentindo o mesmo barulho da véspera, esconderam-se as duas e logo viram chegar uma quantidade de coelhinhos e entre eles o branco, que a Princesa tanto amava.
Veio a bacia, e ele, metendo-se dentro, espanejou-se muito e saiu um belo cavaleiro.
Clarinda por sua vontade teria saído logo do esconderijo, mas a lavadeira não a deixou.
Então foi o Príncipe ao armário, abriu o cofre, e, tirando as jóias da Princesa disse: — «Pente, colar, anel da minha Senhora: vejo-te a ti; não a vejo a ela. Ai de mim, que morro por ela!» — E repetiu isto segunda e terceira vez.
CONTINUA PAGINA 80 (86 pdf)
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<noinclude><pagequality level="3" user="JppBr98" />{{c|{{--}} 234 {{--}}}}</noinclude>ha fugir sob pena de gravissimas consequencias
futuras, daria um in-folio d’alto folego ao Romero bastante operoso que se propuzesse a consolidal-o.
Num parto difficil nada tão efficaz como engulir tres caroços de feijão mouro, de passo que
a parturiente veste pelo avesso a camisa do marido e põe na cabeça o seu chapeu, tambem pelo
avesso. Falhando esta sympathia, ha um derradeiro recurso: collar no ventre encruado a imagem de S. Benedicto.
Nesses momentos angustiosos outra mulher que
não penetre no quarto sem defumar-se ao fogo,
nem traga na mão caça ou peixe: a criança morreria pagan.
A omissão de qualquer destes preceitos fará
chover mil desgraças na cabeça do chorincas recemnascido.
A posse de certos objectos confere dotes sobrenaturaes. A invulnerabilidade ás facadas ou cargas de chumbo é obtida graças á flôr da samambaia. Essa planta, conta Geca, só floresce uma
vez por anno, e só produz em cada samambaial
uma flôr. Isso á meia noite no dia de S. Bartholomeu. E’ preciso ser muito mofino para colhel-a,
porque tambem o diabo lhe anda á cata. Quem
consegue pegar uma ouve logo um estoiro, e
tonteia ao cheiro do enxofre, mas livra-se de faca e chumbo para o resto da vida.
Todos os volumes do Larousse não bastariam
para catalogar-lhes as crendices e como não ha
linhas divisorias entre estas e a religião, {{hífen|confun|confundem-se}}<noinclude></noinclude>
5ncv5ac3qdqe20f54kl2ur78ow9asiv
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<noinclude><pagequality level="3" user="JppBr98" />{{c|{{--}} 235 {{--}}}}</noinclude>{{hífen-fim|dem-se|confundem-se}} ambas n’uma emaranhada anastomose.
Não ha distinguir onde uma pára e outra começa. A ideia de Deus e dos santos torna-se
caboclocentrica. São elles os graúdos lá de cima,
os coroneis celestes, debruçados no azul para espreitar-lhes a vidinha e intervir nella, ajudando
um e castigando outro, tal qual como os mettediços deuses de Homero. Uma torcedura de pé,
um estrepe, o feijão entornado o pote que rachou,
o bicho que arruinou, tudo são diabruras da côrte celeste para castigo de más intenções ou actos.
Dahi o fatalismo. Se tudo movem cordeis lá de
cima, para que luctar, reagir? Deus quiz. A maior
catastrophe é recebida com esta exclamação, muito parenta do Allah Kébir do beduino.
E na arte? Nada.
A arte rustica do camponio europeu é rica a
ponto de constituir preciosa fonte de suggestões
aos artistas de escól. Em nenhum paiz o povo.
vive sem recorrer a ella para um ingenuo embellezamento da vida. Já não se fala do camponez
italiano ou teutonico, filhos de alfobres mimosos,
propicios a todas as florações estheticas. Mas o
russo, o hirsuto mujik, a meio atolado em barbarie crassa. Oş vestuarios nacionaes da Ukrania, nos quaes a côr viva e o sarapantado da
ornamentação indicam a ingenuidade do primitivo, as isbas da Lithuania, sua ceramica, os bordados, os moveis, os utensilios de cosinha, revelam no mais rude dos camponios o sentimento
nativo da arte.
No Samoyeda, no pelle-vermelha, no abexim,<noinclude></noinclude>
ih0qxtqfscqx4l1cpol4p4yhtvocyq7
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="JppBr98" />{{c|{{--}} 236 {{--}}}}</noinclude>no papúa, um arabesco ingenuo costuma ornar-lhes as armas como lhes ornam a vida canções repassadas de rythmos suggestivos. Que nada é isso,
sabido como já o homem prehistorico, companheiro do urso das cavernas, entalhava perfis de
mamutes em chifres de renna.
Egresso á regra, Geca não denuncia traço remoto d’um sentimento nascido com o troglodyta.
Esmerilhemos o seu casebre: que é que denota ali a existencia do mais vago senso esthetico?
Uma chumbada ao cabo do relho e uns ziguezagues a canivete ou fogo pelo roliço do guatambú: é tudo.
A’s vezes surge n’uma familia um genio musical cuja fama esvoaça pelas redondezas. Eil-o
na viola: concentra-se, tosse, cuspilha o pigarro,
fere as cordas e «tempera». E fica nisso, no tempero.
Dirão: a modinha?
A modinha, como as demais manifestações de
arte popular existentes no paiz, é obra exclusiva
do mulato, em cujas veias o sangue recente do
europeu, rico de atavismos estheticos, borbulha
de mistura com o sangue selvagem, alegre e são
do negro.
O caboclo é soturno. Não canta senão rezas
lugubres. Não dança senão o batuque aladainhado. Não esculpe o cabo da faca como o Kabyla. Não compõe sua canção como o fellah do
Egypto. Triste como o curiango, nem sequer assobia.
No meio da natureza brasilica, tão rica de {{hífen|for|formas}}<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" /></noinclude>{{T2|ENVELOPPE}}{{traço}}{{ch|I}}
São as palavras o traje do pensamento; é por
meio daquellas vestes que se apresentam as idéas;
e quanto mais artistica e perfeitamente são talhadas
essas roupas, tanto melhor sobresahe o pensamento.
Quem tem roupa sua, de boa fazenda e bem
talhada, de certo não precisa de andar com a
alheia, que só pode bem servir ao seo domno, e
nunca ao estranho, sendo principalmente differentes
as dimensões do corpo de cada um.
Applicando estas considerações ao indesculpavel
abuso de enxertar em nossa linguagem vocabulos
exoticos, quando os temos vernaculos e
correspondentes áquelles, bem quizera eu que me
demonstrassem a necessidade de empregar-se, por
exemplo, a palavra franceza — ''enveloppe'' — para significar
a capa que envolve uma carta.
Qual teria sido o poderoso monarcha, que da lingua portugueza baniu o expressivo vocabulo — ''sobrecarta?''...
{{nop}}<noinclude></noinclude>
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São as palavras o traje do pensamento; é por
meio daquellas vestes que se apresentam as idéas;
e quanto mais artistica e perfeitamente são talhadas
essas roupas, tanto melhor sobresahe o pensamento.
Quem tem roupa sua, de boa fazenda e bem
talhada, de certo não precisa de andar com a
alheia, que só pode bem servir ao seo domno, e
nunca ao estranho, sendo principalmente differentes
as dimensões do corpo de cada um.
Applicando estas considerações ao indesculpavel
abuso de enxertar em nossa linguagem vocabulos
exoticos, quando os temos vernaculos e
correspondentes áquelles, bem quizera eu que me
demonstrassem a necessidade de empregar-se, por
exemplo, a palavra franceza — {{lang|fr|''enveloppe''}} — para significar
a capa que envolve uma carta.
Qual teria sido o poderoso monarcha, que da lingua portugueza baniu o expressivo vocabulo — ''sobrecarta?''...
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<noinclude><pagequality level="3" user="JppBr98" />{{c|{{--}} 237 {{--}}}}</noinclude>{{hífen-fim|mas|formas}} e cores, onde os ipés floridos derramam feitiços no ambiente, e a infolhescencia dos cedros, ás primeiras chuvas de Setembro, abre a dança dos tangarás, onde ha abelhas de sol, esmeraldas vivas , cigarras, sabiás, luz cor, perfume, vida dionisiaca em escachôo permanente, o caboclo é o sombrio urupê de pau podre, a modorrar silencioso no recesso das grotas.
Só elle não fala, não canta, não ri, não ama.
Só elle, no meio de tanta vida, não vive.
{{nop}}<noinclude>{{dhr|1000%}}
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<noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />88</noinclude>Si temos, como não padece duvida, em portuguez o termo — ''sobrecarta'' —, por que se ha de pedantescamente empregar o barbarismo {{lang|fr|''enveloppe''}}?
O termo francez {{lang|fr|''enveloppe''}} significa tudo o que envolve, tudo o que embrulha; corresponde ás palavras portuguezas — ''envoltorio, involucro;'' — é, portanto, um termo generico.
''Sobrecarta'', porém, encerra sentido restricto, exprime unica e exclusivamente a capa de uma carta.
Qual será, pois, a razão da preferencia dada á palavra franceza?
Sem duvida, a desgraçada mania de desprezar o que é nosso e bom, só para tomarmos do estranho até o que não presta.
Poucos reflectem em que este desprezo do que nos pertence, revela desamor ás cousas patrias: desprezam-se as palavras, desprezam-se os costumes, e o resultado é o entibiamento do patriotismo.
{{lang|fr|''Enveloppe''}} é palavra desnecessaria, absolutamente inutil em portugnez; nós possuimos vocabulo genuino e muito mais expressivo; digamos, portanto, d{{'}}ora em diante, e sempre, não {{lang|fr|''enveloppe''}}, mas sobrecaria.
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O termo francez {{lang|fr|''enveloppe''}} significa tudo o que envolve, tudo o que embrulha; corresponde ás palavras portuguezas — ''envoltorio, involucro;'' — é, portanto, um termo generico.
''Sobrecarta'', porém, encerra sentido restricto, exprime unica e exclusivamente a capa de uma carta.
Qual será, pois, a razão da preferencia dada á palavra franceza?
Sem duvida, a desgraçada mania de desprezar o que é nosso e bom, só para tomarmos do estranho até o que não presta.
Poucos reflectem em que este desprezo do que nos pertence, revela desamor ás cousas patrias: desprezam-se as palavras, desprezam-se os costumes, e o resultado é o entibiamento do patriotismo.
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<noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />88</noinclude>Si temos, como não padece duvida, em portuguez o termo — ''sobrecarta'' —, por que se ha de pedantescamente empregar o barbarismo {{lang|fr|''enveloppe''}}?
O termo francez {{lang|fr|''enveloppe''}} significa tudo o que envolve, tudo o que embrulha; corresponde ás palavras portuguezas — ''envoltorio, involucro;'' — é, portanto, um termo generico.
''Sobrecarta'', porém, encerra sentido restricto, exprime unica e exclusivamente a capa de uma carta.
Qual será, pois, a razão da preferencia dada á palavra franceza?
Sem duvida, a desgraçada mania de desprezar o que é nosso e bom, só para tomarmos do estranho até o que não presta.
Poucos reflectem em que este desprezo do que nos pertence, revela desamor ás cousas patrias: desprezam-se as palavras, desprezam-se os costumes, e o resultado é o entibiamento do patriotismo.
{{lang|fr|''Enveloppe''}} é palavra desnecessaria, absolutamente inutil em {{corr|portugnez|portuguez}}; nós possuimos vocabulo genuino e muito mais expressivo; digamos, portanto, d{{'}}ora em diante, e sempre, não {{lang|fr|''enveloppe''}}, mas ''sobrecarta''.
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/* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: 152 turpado nosso magestoso idioma: não, não ha diques, nem paradeiros, que obstem à caudal torrente; o remedio portanto é nos consolarmos com a sentença Levius fit patientia quidquid corrigere nefas. De poucos annos para cá surgiu em Portugal, e principalmente na culta Lisboa, um certo modo de falar, que, em falta de melhor classificação, chamarei-Solecismo alfeninado. Nas altas regiões aristocraticas, nos circulos da mais estreme soc...
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<noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>152
turpado nosso magestoso idioma: não, não ha
diques, nem paradeiros, que obstem à caudal torrente;
o remedio portanto é nos consolarmos com
a sentença Levius fit patientia quidquid corrigere
nefas.
De poucos annos para cá surgiu em Portugal,
e principalmente na culta Lisboa, um certo modo
de falar, que, em falta de melhor classificação,
chamarei-Solecismo alfeninado.
Nas altas regiões aristocraticas, nos circulos
da mais estreme sociedade, nas gazetas, nos folhetins,
nos romances, nas composições dramaticas,
finalmente, em toda essa farragem litteraria, que
atulha e tafulha as pacientes estantes das bibliothecas,
lá está em toda a plenitude de seo desenvolvimento
o microbio devorador da formosa pupilla
de Camões e do Vieira os estragos são já consideraveis!
Medicos sectarios da escola parasitaria, pedi a
algum illustre Pasteur da philologia, um antidoto
para extinguir esse cryptococus sui generis.
A endemia litteraria não se limitou ao paiz
onde nasceu; atravessou o Atlantico, e sem encontrar
cordão sanitario, que se lhe oppuzesse, veio
acclimar-se no Brazil!
Estamos todos, digo mal, está tambem entre
nós grande numero de pessoas affectado de solecismite
alfeninada.
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<noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />152</noinclude><noinclude>turpado</noinclude> nosso magestoso idioma: não, não ha
diques, nem paradeiros, que obstem á caudal torrente;
o remedio portanto é nos consolarmos com
a sentença: {{lang|la|''Levius fit patientia quidquid corrigere nefas''}}.
De poucos annos para cá surgiu em Portugal,
e principalmente na culta Lisboa, um certo modo
de falar, que, em falta de melhor classificação,
chamarei — ''Solecismo alfeninado''.
Nas altas regiões aristocraticas, nos circulos
da mais estreme sociedade, nas gazetas, nos folhetins,
nos romances, nas composições dramaticas,
finalmente, em toda essa farragem litteraria, que
atulha e tafulha as pacientes estantes das bibliothecas,
lá está em toda a plenitude de seo desenvolvimento
o ''microbio'' devorador da formosa pupilla
de Camões e do Vieira: os estragos são já consideraveis!
Medicos sectarios da escola parasitaria, pedi a
algum illustre Pasteur da philologia, um antidoto
para extinguir esse {{lang|la|''cryptococus sui generis''}}.
A endemia litteraria não se limitou ao paiz
onde nasceu; atravessou o Atlantico, e sem encontrar
cordão sanitario, que se lhe oppuzesse, veio
acclimar-se no Brazil!
Estamos todos, digo mal, está tambem entre nós grande numero de pessoas affectado de ''solecismite alfeninada''.
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/* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: 153 Omal vae lavrando com intensidade aterradora, e si não houver juncta hygienica que decrete efficazes processos de desinfecção e especificos heroicos para a completa extincção d’aquelle, ai da misera pupilla!... Affigura-se-me que o espectro de Filinto Elysio levantando indignado a lousa do sepulchro: Na tersa phrase, que jamais perdera Graves solta do peito estas palavras: «Lingua, que tanto honrei, que tão castiça «No mundo, quan...
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<noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>153
Omal vae lavrando com intensidade aterradora,
e si não houver juncta hygienica que decrete
efficazes processos de desinfecção e especificos heroicos
para a completa extincção d’aquelle, ai da
misera pupilla!...
Affigura-se-me que o espectro de Filinto
Elysio levantando indignado a lousa do sepulchro:
Na tersa phrase, que jamais perdera
Graves solta do peito estas palavras:
«Lingua, que tanto honrei, que tão castiça
«No mundo, quando vivo, te fallára,
«Breve teo fim terás!... Giria, vasconço
Has de em breve tornar-te!... »
CASTRO LOPES.-Resurreições.
Mas quaes os indicios da doença terrivel?
qual o seo symptoma pathognomonico? Eis o que
importa conhecer para cuidadosamente d’ella nos
preservarmos.
Quando, amigo leitor, virdes, ou ouvirdes as
palavras si, comsigo, de si, para si, etc., que bem
sabeis serem as variações do pronome reflexivo se,
cuidado!... acautelae-vos!...
Si o auctor ou interlocutor, que vos occupa a
attenção, empregar as taes variações de modo que
ellas não se refiram ao agente grammatical da
oração, ahi tendes diante de vós um enfermo affectado
de solecismite alfeninada.
Citizen y
Google<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />{{d|153}}</noinclude>O mal vae lavrando com intensidade aterradora,
e si não houver juncta hygienica que decrete
efficazes processos de desinfecção e especificos heroicos
para a completa extincção d{{'}}aquelle, ai da
misera pupilla!...
Affigura-se-me que o espectro de Filinto
Elysio levantando indignado a lousa do sepulchro:
Na tersa phrase, que jamais perdera
Graves solta do peito estas palavras:
<poem>«Lingua, que tanto honrei, que tão castiça
«No mundo, quando vivo, te fallára,
«Breve teo fim terás!... Giria, vasconço
«Has de em breve tornar-te!...»
::::::{{sc|Castro Lopes}}. — Resurreições.</poem>
Mas quaes os indicios da doença terrivel?
qual o seo symptoma pathognomonico? Eis o que
importa conhecer para cuidadosamente d{{'}}ella nos
preservarmos.
Quando, amigo leitor, virdes, ou ouvirdes as
palavras ''si, comsigo, de si, para si'', etc., que bem
sabeis serem as variações do pronome reflexivo ''se'',
cuidado!... acautelae-vos!...
Si o auctor ou interlocutor, que vos occupa a
attenção, empregar as taes variações de modo ''que ellas não se refiram ao agente grammatical da oração'', ahi tendes diante de vós um enfermo affectado de ''solecismite alfeninada''.
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/* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: 154 Em tal caso a melhor resolução, que tomareis é fugir, fugir immediatamente; e para vos abstergerdes da impureza de tal contagio, observae com toda a confiança a receita do grande especialista das molestias litteratias da glotte, o já citado Filinto, cuja fórmula é a seguinte: «Abra-se a antiga, veneranda fonte Dos genuinos classicos, e soltem-se «As correntes da antiga e sà linguagem.» > Esta doença tem sido causa de mais de um ga...
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>154
Em tal caso a melhor resolução, que tomareis
é fugir, fugir immediatamente; e para vos abstergerdes
da impureza de tal contagio, observae com
toda a confiança a receita do grande especialista
das molestias litteratias da glotte, o já citado Filinto,
cuja fórmula é a seguinte:
«Abra-se a antiga, veneranda fonte
Dos genuinos classicos, e soltem-se
«As correntes da antiga e sà linguagem.» >
Esta doença tem sido causa de mais de um
galante qui-pro-quo.
Certo litterato, victima da solecismite, indo á
casa de um amigo, dava à mulher d’aquelle a seguinte
noticia a Felicito à V. Ex. pela boa
compra, que fez hoje seo marido.-Qual foi? -Um
chapéo, que comprou para si, e que em si ha de
ficar ás mil maravilhas. Foi um desperdicio; por
que ainda hontem comprou elle o chapéo, com
que hoje sahio. Mas, perdoe-me V. Ex.*, o chapéo
não foi para elle, mas para si. Á vista da instancia
a senhora começou a suspeitar que o illustre litterato
estava com o juizo a arder, e por causa das
duvidas não entrou em mais explicações.
Apresentava um poderoso patrono a um ministro
um candidato; e depois do conveniente
exordio dizia:
«Á vista das innumeras habilitações do meo
cliente, o que desejo e peço a V. Ex. é que arranje
сту
Google<noinclude></noinclude>
8d59pdwir2oxv4663xr3dae27jr31c9
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<noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />154</noinclude>Em tal caso a melhor resolução, que tomareis
é fugir, fugir immediatamente; e para vos abstergerdes
da impureza de tal contagio, observae com
toda a confiança a receita do grande especialista
das molestias litteratias da glotte, o já citado Filinto,
cuja fórmula é a seguinte:
<poem>«Abra-se a antiga, veneranda fonte
«Dos genuinos classicos, e soltem-se
«As correntes da antiga e sã linguagem.»</poem>
Esta doença tem sido causa de mais de um
galante {{lang|la|''qui-pro-quo''}}.
Certo litterato, victima da ''solecismite'', indo á
casa de um amigo, dava á mulher d{{'}}aquelle a seguinte
noticia: «''Felicito'' á V{{abv|ossa}} Ex{{abv|a|cellencia}} pela boa compra, que fez hoje seo marido. — Qual foi? — Um çhapéo, que comprou ''para si'', e que ''em si'' ha de ficar ás mil maravilhas. — Foi um desperdicio; por que ainda hontem comprou elle o chapéo, com que hoje sahio. — Mas, perdôe-me V{{abv|ossa}} Ex{{abv|a|cellencia}}, o chapéo não foi para elle, mas ''para si''. A' vista da instancia a senhora começou a suspeitar que o illustre litterato estava com o juizo a arder, e por causa das duvidas não entrou em mais explicações.
Apresentava um poderoso patrono a um ministro um candidato; e depois do conveniente exordio dizia:
«A' vista das innumeras habilitações do meo cliente, o que desejo e peço a V{{abv|ossa}} Ex{{abv|a|cellencia}} é que arranje<noinclude></noinclude>
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/* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: 155 um logar para si. O ministro, que era bom grammatico, e que já tinha idéa da nova doença, respondeu gracejando: * Por esse lado não se inquiete, que já está arranjado.» Adoecêra do seo achaque rheumatico um velho de genio impaciente: manda chamar o medico, mas este, por infelicidade, estando tambem adoentado, responde por escripto dando-lhe essa noticia, e declarando que iria dentro em pouco tractar de si. Ao ler uma tal resposta,...
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<noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>155
um logar para si. O ministro, que era bom grammatico,
e que já tinha idéa da nova doença, respondeu
gracejando:
* Por esse lado não se inquiete, que já está
arranjado.»
Adoecêra do seo achaque rheumatico um velho
de genio impaciente: manda chamar o medico,
mas este, por infelicidade, estando tambem adoentado,
responde por escripto dando-lhe essa noticia,
e declarando que iria dentro em pouco tractar de si.
Ao ler uma tal resposta, o velho enche-se de
colera, e manda-o despedir, quando poucas horas
depois o medico se annunciou.
É longa a lista das equivocações, que a tal
solecismite alfeninada póde occasionar.
Recebe do seo protector o seguinte bilhete
um individuo, que pretendia um emprego: «Amigo
e senhor. Não falei ao ministro sobre a sua pretenção,
porque o Dr. F. me disse que já tinha
pedido ao ministro esse logar para si, e que o
obtivera.»
O Dr. F. era intimo amigo do pretendente,
não precisava do emprego, nem este de modo
algum lhe podia convir por ser logar subalterno.
Á vista porém do bilhete o pretendente levado
por um assomo de indignação, escreve ac
Dr. F., exprobra-lhe o seo procedimento, e protesta
romper a antiga amizade.
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<noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />{{d|155}}</noinclude>um logar ''para si''. O ministro, que era bom grammatico,
e que já tinha idéa da nova doença, respondeu
gracejando:
«Por esse lado não se inquiete, que já está arranjado.»
Adoecêra do seo achaque rheumatico um velho
de genio impaciente: manda chamar o medico,
mas este, por infelicidade, estando tambem adoentado,
responde por escripto dando-lhe essa noticia,
e declarando que iria dentro em pouco tractar ''de si''.
Ao ler uma tal resposta, o velho enche-se de
colera, e manda-o despedir, quando poucas horas
depois o medico se annunciou.
E' longa a lista das equivocações, que a tal
''solecismite alfeninada'' póde occasionar.
Recebe do seo protector o seguinte bilhete
um individuo, que pretendia um emprego: «Amigo
e senhor. — Não falei ao ministro sobre a sua pretenção,
porque o Dr. F. me disse que já tinha
pedido ao ministro esse logar ''para si'', e que o
obtivera.»
O Dr. F. era intimo amigo do pretendente,
não precisava do emprego, nem este de modo
algum lhe podia convir por ser logar subalterno.
A' vista porém do bilhete o pretendente levado por um assomo de indignação, escreve ao Dr. F., exprobra-lhe o seo procedimento, e protesta romper a antiga amizade.
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/* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: 156 O Dr. F., que outra cousa não tinha feito, sinão interessar-se muito pelo pretendente, para quem obteve o emprego, fica perplexo e sem saber o que concluir de tal embroglio, até que se resolve a entender-se pessoalmente com o amigo injustamente queixoso. Chegam ambos então a conhecer que toda aquella desordem procedeo do maldicto — si― erroneamente empregado!.. Mais um para rematar a serie dos factos burlescos da solescimite alf...
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O Dr. F., que outra cousa não tinha feito,
sinão interessar-se muito pelo pretendente, para
quem obteve o emprego, fica perplexo e sem saber
o que concluir de tal embroglio, até que se resolve
a entender-se pessoalmente com o amigo injustamente
queixoso.
Chegam ambos então a conhecer que toda
aquella desordem procedeo do maldicto — si― erroneamente
empregado!..
Mais um para rematar a serie dos factos burlescos
da solescimite alfeninada.
— Sr. A., sabe que o Visconde de ***, já
riquissimo, tirou hontem a sorte grande? —O meo
compadre e amigo? -Sim; e saiba mais que me
disse ser sua intenção gastal-a toda comsigo.
É porque é um egoista sem igual. — Ao
contrario; só vejo n’isso uma prova da maior e
mais estupenda generosidade.
Os dous se entreolharam, e cada um disse
de si para si, e falando comsigo: -Parece que estamos
em uma casa de orates; este homem não
está em si.
Agora verá o leitor que, não obstante haver eu
empregado, nas ultimas linhas precedentes, as variações
do pronome-se-(de si para si, comsigo,
em si) não estou infeccionado da molestia, porque usei
d’ellas, como todos os que sabem grammatica usam,
isto é, fazendo-as referirse ao agente grammatical
Эфес у
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<noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />156</noinclude>O Dr. F., que outra cousa não tinha feito,
sinão interessar-se muito pelo pretendente, para
quem obteve o emprego, fica perplexo e sem saber
o que concluir de tal ''embroglio'', até que se resolve
a entender-se pessoalmente com o amigo injustamente
queixoso.
Chegam ambos então a conhecer que toda
aquella desordem procedeo do maldicto — ''si'' ― erroneamente
empregado!...
Mais um para rematar a serie dos factos burlescos
da ''solescimite alfeninada''.
— Sr. A., sabe que o Visconde de ***, já
riquissimo, tirou hontem a sorte grande? — O meo
compadre e amigo? — Sim; e saiba mais que me
disse ser sua intenção gastal-a toda ''comsigo''
— E' porque é um egoista sem igual. — Ao
contrario; só vejo n{{'}}isso uma prova da maior e
mais estupenda generosidade.
Os dous se entreolharam, e cada um disse
''de si para si, e falando comsigo'': — Parece que estamos
em uma casa de orates; este homem não
está ''em si''.
Agora verá o leitor que, não obstante haver eu
empregado, nas ultimas linhas precedentes, as variações
do pronome — ''se'' — (de ''si'' para ''si'', ''comsigo'', ''em si'') não estou infeccionado da molestia, porque usei
d{{'}}ellas, como todos os que sabem grammatica usam,
isto é, ''fazendo-as referirse ao agente grammatical''<noinclude></noinclude>
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/* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: 157 da oração; e não á pessoa, a quem, e com quem falamos; o que é attentado contra a logica, construcção abominavel, monstruosa locução, ridicula affectação do dizer e do escrever, cinca imperdoavel, torpe solecismo, erro palmar, emfim, vicio grammatical digno da ferula dos Orbilios! ! Reflecti que taes variações do pronome reflexivo são tambem reflexivas. Uma supplica á mocidade seja o fecho d’este desabafo: Jovens, que em philo...
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<noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>157
da oração; e não á pessoa, a quem, e com quem
falamos; o que é attentado contra a logica, construcção abominavel, monstruosa locução, ridicula
affectação do dizer e do escrever, cinca imperdoavel,
torpe solecismo, erro palmar, emfim, vicio grammatical digno da ferula dos Orbilios! !
Reflecti que taes variações do pronome reflexivo são tambem reflexivas.
Uma supplica á mocidade seja o fecho d’este
desabafo:
Jovens, que em philosophia estaes fascinados
pelos falsos clarões de perigosas doutrinas; vós que
com os vossos predilectos mestres apenas concedeis
o favor de não negar nem affirmar a existencia de
Deos; que eivados de louca presumpção não
admittis a perpetuidade da sobrevivencia individual; que no delirio de concepções impossiveis
negando a Divindade divinizaes a materia; vós,
que por effeito de taes theorias tendes já pervertido o sentimento do bello em todas as ordens da
natureza; vós, que em litteratura tocastes á ultima
depravação do gosto; vós, para quem os archétypos
classicos são velharias despreziveis, porque lhes
ignoraes as riquezas, que o douto pó de seculares
camadas occulta aos vossos versateis olhares; vós,
que pareceis querer arrancar o trigo para plantar
o joio; respeitae ao menos a fórma da expressão:
não seja o vosso grito «Delenda grammatica!»<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />157</noinclude>''da oração''; e não á pessoa, a quem, e com quem
falamos; ''o que é attentado contra a logica, construcção abominavel, monstruosa locução, ridicula affectação do dizer e do escrever, cinca imperdoavel, torpe solecismo, erro palmar, emfim, vicio grammatical digno da ferula dos Orbilios!!''
''Reflecti'' que taes variações do pronome ''reflexivo''
são tambem ''reflexivas''.
Uma supplica á mocidade seja o fecho d’este
desabafo:
Jovens, que em philosophia estaes fascinados
pelos falsos clarões de perigosas doutrinas; vós que
com os vossos predilectos mestres apenas concedeis
o favor de ''não negar nem affirmar a existencia de Deos''; que eivados de louca presumpção não
admittis a perpetuidade da sobrevivencia individual;
que no delirio de concepções impossiveis
''negando a Divindade divinisaes a materia''; vós,
que por effeito de taes theorias tendes já pervertido
o sentimento do bello em todas as ordens da
natureza; vós, que em litteratura tocastes à ultima
depravação do gosto; vós, para quem os archetypos
classicos são velharias despreziveis, porque lhes
ignoraes as riquezas, que o douto pó de seculares
camadas occulta aos vossos versateis olhares; vós,
que pareceis querer arrancar o trigo para plantar
o joio; respeitae ao menos a fórma da expressão:
não seja o vosso grito «''Delenda grammatica!''»<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />{{d|157}}</noinclude>''da oração''; e não á pessoa, a quem, e com quem
falamos; ''o que é attentado contra a logica, construcção abominavel, monstruosa locução, ridicula affectação do dizer e do escrever, cinca imperdoavel, torpe solecismo, erro palmar, emfim, vicio grammatical digno da ferula dos Orbilios!!''
''Reflecti'' que taes variações do pronome ''reflexivo''
são tambem ''reflexivas''.
Uma supplica á mocidade seja o fecho d’este
desabafo:
Jovens, que em philosophia estaes fascinados
pelos falsos clarões de perigosas doutrinas; vós que
com os vossos predilectos mestres apenas concedeis
o favor de ''não negar nem affirmar a existencia de Deos''; que eivados de louca presumpção não
admittis a perpetuidade da sobrevivencia individual;
que no delirio de concepções impossiveis
''negando a Divindade divinisaes a materia''; vós,
que por effeito de taes theorias tendes já pervertido
o sentimento do bello em todas as ordens da
natureza; vós, que em litteratura tocastes à ultima
depravação do gosto; vós, para quem os archetypos
classicos são velharias despreziveis, porque lhes
ignoraes as riquezas, que o douto pó de seculares
camadas occulta aos vossos versateis olhares; vós,
que pareceis querer arrancar o trigo para plantar
o joio; respeitae ao menos a fórma da expressão:
não seja o vosso grito «''Delenda grammatica!''»<noinclude></noinclude>
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A adicionar {{nop}} para quebra de parágrafo.
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''Reflecti'' que taes variações do pronome ''reflexivo''
são tambem ''reflexivas''.
Uma supplica á mocidade seja o fecho d’este
desabafo:
Jovens, que em philosophia estaes fascinados
pelos falsos clarões de perigosas doutrinas; vós que
com os vossos predilectos mestres apenas concedeis
o favor de ''não negar nem affirmar a existencia de Deos''; que eivados de louca presumpção não
admittis a perpetuidade da sobrevivencia individual;
que no delirio de concepções impossiveis
''negando a Divindade divinisaes a materia''; vós,
que por effeito de taes theorias tendes já pervertido
o sentimento do bello em todas as ordens da
natureza; vós, que em litteratura tocastes à ultima
depravação do gosto; vós, para quem os archetypos
classicos são velharias despreziveis, porque lhes
ignoraes as riquezas, que o douto pó de seculares
camadas occulta aos vossos versateis olhares; vós,
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<noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />158</noinclude>A linguagem é sem duvida o traje do pensamento; mas não sujeiteis ao capricho da moda as vestes das vossas idéas, como o fazeis com as roupas do vosso corpo.<noinclude>{{traço}}</noinclude>
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Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/Sestros litterarios
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{{dhr|2em}}
Quer v. fazer a honra á minha pobre {{sc|Henriqueta}} de reapparecer no mundo mais ataviada; dei o meu consentimento, mas confesso-lhe que o fiz constrangidamente. No ultimo quartel da vida parece-me leviandade reprehensivel dar á luz mais frivolidades; comtudo dei o sim, não tornarei com a minha palavra atraz.
Sou com estima
{{Dhr}}
{{bloco direito|align=center|offset=10em|De v.
veneradora respeitosa
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Redigia eu a ''Revista Universal Lisbonense'' (ha quantos annos la vai isto!) quando pelo correio do Norte entrei a receber uma série de curiosos artigos, escriptos em portuguez-portuguez, em portuguez do Minho, sobre crenças populares e superstições d'aquella provincia, sem mais assignatura
que o modesto cryptonymo — {{sc|Uma obscura portuense}}. De tão bom senso eram cheias, e de tão elegante simplicidade, além de vernaculas e graciosas, aquellas paginas, nem eram bem paginas, aquellas conversações de aldeia em serão desenfastiado, que desejei, como toda a gente, saber d'onde procediam.
Em mim não era só curiosidade; fui sempre um grande farejador de bons talentos litterarios. D'onde me vem ares de algum, que por modestia, ou outro qualquer motivo, se recata, só se eu não posso é que não afurôo as moitas até dar com elle, e constrangel-o a ir tomar o seu posto e preencher<noinclude></noinclude>
ssyew1a7vn4n4zt5nrmksa4lw1v41fa
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Redigia eu a ''Revista Universal Lisbonense'' (ha quantos annos la vai isto!) quando pelo correio do Norte entrei a receber uma série de curiosos artigos, escriptos em portuguez-portuguez, em portuguez do Minho, sobre crenças populares e superstições d'aquella provincia, sem mais assignatura
que o modesto cryptonymo — {{sc|Uma obscura portuense}}. De tão bom senso eram cheias, e de tão elegante simplicidade, além de vernaculas e graciosas, aquellas paginas, nem eram bem paginas, aquellas conversações de aldeia em serão desenfastiado, que desejei, como toda a gente, saber d'onde procediam.
Em mim não era só curiosidade; fui sempre um grande farejador de bons talentos litterarios. D'onde me vem ares de algum, que por modestia, ou outro qualquer motivo, se recata, só se eu não posso é que não afurôo as moitas até dar com elle, e constrangel-o a ir tomar o seu posto e preencher<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />VIII</noinclude>entre os seus pares o seu destino, accrescentando com a sua gloria, e com o incentivo de um exemplo mais, a herança das lettras patrias.
Bati mato; dispuz laços; amiudei reclamos; ajudou-me a fortuna. Depois de muito escapar-se-me d'entre mãos, como as sombras nos Elysios, que obstinadamente se esquivavam á luz do mundo, apprehendi a final, mau grado seu, o formoso espirito, cujo mysterio me desatinava. Homem o haviam suspeitado muitos; que era dama apostava eu; e ganhei. Não podia deixar de ser: nós outros podemos arremedar a simplicidade amavel; tão nativa e genuina só ellas a possuem. Preso-me eu de ser o mais fiel depositario de segredos; mas os d'esta especie pesam-me grandemente, tanto no gosto de fallar, como na consciencia, e talvez tambem um poucoxinho no amor proprio.
Eu estava pouco mais ou menos como Cicero, que, se lhe facultassem os deuses peregrinar pelas espheras celestes, e contemplar as maravilhas que por lá vão, com o onus de não desabafar d'esses prazeres communicando-os a seus amigos, só para si não os queria. Novas diligencias para se me consentir denunciasse ao publico o meu precioso descobrimento (o publico e eu até hoje temos sido muito bons amigos) recresceram n'este segundo empenho, e maiores, as difficuldades; mas venceram-se emfim a poder de esforços, e eu tive o desvanecimento de pregoar aos nossos escriptores o nome da nova Clorinda, que tão gentil campeava<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{D|IX}}</noinclude>de viseira calada por entre elles. Déra-a e creara-a a boa cidade do Douro. Vivia no remanso campestre, já de Moreira, já de Leça da Palmeira; chamava-se Maria Peregrina de Souza. Estava quebrado o encantamento. A historia litteraria tinha mais uma gloria feminina para registar; em hora boa a registou; os annos que seguiam até hoje não tem feito senão accrescentar-lhe o lustre. O ver-se conhecida não inspirou á nossa escriptora nem vaidade, nem cobardia. Tinha trabalhado, estudado, e produzido, sem ambição; como a silveirinha emboscada no vallado cria sem tracto de homens, e só por mercê do ar, da alva, do sol, e das estrellas, o seu verde e os seus botões, as suas flores e os seus fructos. Era assim de sua natureza. Continuou como principiara, e como ha de ir já agora até ao fim. Compõe como conversa, como pensa e como sente; sente com a delicadeza de mulher; discorre com a sisudez de moralista desenrugado; falla sem arrebiques affectados, mas deliciosa de ingenuidade; e é tudo isto e só isto o de que lhe formam debaixo da penna, sem ella o cuidar, os seus versos e as suas prosas, as suas narrativas e os seus discursos, as suas correspondencias, os seus artigos volantes, os seus voluminhos que ella não cataloga, nem conta, nem cita, nem relê, nem recorda por ventura.
E tambem, pergunto agora: de que havia ella de ter nem presumpção nem acanhamento? as suas obras não as fez ella; fizeram-se-lhe por si. Sairam-lhe do animo como a camphora sáe do {{hífen|lou|loureiro}}<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />X</noinclude>{{hífen-fim|reiro|loureiro}}, que nunca aprendeu chymicas, nem physiologias vegetaes. Se se visse n'uma ilha deserta escrevia o mesmo nas primeiras folhas largas que topasse com o summo da primeira flôr córada que visse à mão. E' como os gabos ao rouxinol! nem que a pobre avesinha soubesse, quando canta para si de noite, aos eccos da sua Thebaida frondosa, que está fazendo musica de arroubar os Rossinis e desesperar os Verdis; musica elle!... aquillo é o seu fallar; quando muito serão lá scismas dos seus amores.
Ha sete annos achando-me eu no Porto, nas minhas suadas e pouco abençoadas lidas para a redempção christã da escola primaria, lembrei-me em bem de ir visitar pela primeira vez aquella boa amiga em Moreira, onde ella então residia feliz entre seu pae, e sua irmã. Fui por uma bella tarde de domingo. Acompanhava-me o meu amigo, e meu collaborador no Curso Normal Portuense, José de Macedo Araujo. Chegamos ao descair da tarde; as duas irmãs, e seu pae, um respeitavel ancião, familia entre patriarchal e Gessnerica, assim como a vivenda, receberam-nos com alvoroço cordial, como se avistassem depois de tempos esquecidos parentes e companheiros de sua creação. Eu por mim sentia o mesmo para com aquelles tres corações de ouro de uma especie já de muito perdida nas cidades grandes. Ao cabo de um quarto de hora já eu comprehendia o encanto que se expira de quantas linhas manam da penna da nossa escriptora: o juizo, o saber, e a<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{D|XI}}</noinclude>lhaneza do pae, o conforto da casinha tão hospedeira, a amenidade e o recato do sitio, o concertado e harmonico da familia, o antigo do trato, cortez sem exagerações, franco sem alardo, todo aquelle conjuncto havia de ter dado por força a um engenho bem fadado aquillo que eu admirara de longe sobre o papel, e que renovado agora na conversação viva já me não maravilhava.
As circumstancias da vida de um escriptor contém integralmente as razões de ser do seu pensamento e do seu estylo. Se alguem duvidasse, com mil exemplos se lhe provara. Tem a fortuna seus laboratorios, que só ella sabe, dos quaes, por agregações fortuitas de cousas ás vezes tenues e impalpaveis, sáem, por umas alchimias providenciaes, indoles de muito diversos e oppostos grãos de merecimento; pouco mais ou menos como debaixo da terra a natureza, com um gaz e uns requisitos que só ella sabe, fabrica ora o carvão, ora o diamante. Por isso é que a educação primeira, aquella que se calcula e dirige á vontade, e est'outra educação que depois de adultos, vimos recebendo dos homens e dos successos, bem podiam reivindicar para si a folha e folha quantos louros factuamente nos cingimos, e tambem carregar com a imputação de muito e muito mal que se nos attribue.
Repeti, e amiudei visitas aos alegres penates de Moreira; eu já tambem fôra aldeão e serrano por annos largos no presbyterio de S. Mamede da Castanheira do Vouga. Tive portanto todo o aso<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|118}}
{{lh|3em}}</noinclude>{{hífen-fim|panhavam|Acompanhavam}} seu corpo o padre Simão, que de longe a longe cessava de psalmear para enxugar os olhos; o negro, que chorava e gemia sempre, e Augusto, que seu pae mandara cumprir este acto de caridade, e que se sentia commovido com a magoa d'aquelle negro, e a apparição e morte da mysteriosa desconhecida. Desde esse dia tomou José debaixo da sua protecção, o que foi muito do gosto de Julio.
Todos os dias de madrugada ia o negro ao cemiterio rezar e chorar; e de noite tambem lá ia alguem ás vezes; o que deu logar a boatos d'almas do outro mundo.
Foi uma noite o padre Simão tambem lá. E diziam depois que tinha ido requerer a alma penada, e que satisfizera as suas exigencias, porque desde esse dia nunca mais, fóra d'horas, se avistou vulto ou abantesma no cemiterio.
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<noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|117}}
{{lh|3em}}</noinclude>ignorem sempre as culpas e desgraças de sua mãe... Ella morreu ha muito... agora só está aqui uma viandante desconhecida que... vai dar contas a Deus.
Henriqueta tinha ido enfraquecendo, e a final ficou muda com os olhos fitos em Julio, com expressão de grata affeição, que pouco a pouco se foi enfraquecendo.
Julio, que estava contemplando immovel e angustiado aquella mudança, não pôde conter-se mais tempo, e lançando-se sobre o corpo inanimado da sua culpada e infeliz esposa, deu largas á sua dôr. Uma mão amiga lhe puxou por um braço, e uma voz debil e commovida pronunciou estas palavras:
— Não é aqui o logar do snr. Julio. O que aqui tinha a fazer, está feito. Vá para seus filhos. Este logar é só para mim agora.
Era o padre Simão, que fallava. Julio deixou o corpo quasi inanimado, e saiu precipitadamente.
{{tracejado}}
Dois dias depois enterrava-se a pobre desconhecida no cemiterio da aldeia. {{hífen|Acom|Acompanhavam}}<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />XII</noinclude>e vagar para reconhecer que no genero de vida d'aquella mulher tão boa, tão amavel, e quasi feliz, se ha mulheres felizes, se continha sufficiente explicação de muita parte da sua escripta; mas o que estava presente, com ser muito e optimo, ainda me não satisfazia.
Quem vê passar por um sitio ameno um rio puro e crystallino, pensa por força no d'onde viriam rir-se-lhe alli aguas tão formosas. Nos intervallos das praticas litterarias e saborosas leituras dos nossos serões, fui a pouco e pouco procurando e colhendo na fonte noticias dos primeiros dias de tão bella vida, de que já então me appetecia deixar por escripto alguma memoria As investigações alli começadas, prosegui-as depois com maior diligencia, e inteirei-as agora. Colhi pouco em verdade; pois se elle o que havia era pouquissimo! e tão simples, tão simples, que todo o artificio de discurso lhe desdiria. (Afortunada ainda assim a que passa dias que tão pouco deixam para
narrar.)
{{ch|ii}}
Viviam na cidade do Porto no principio d'este seculo Antonio Ventura de Azevedo e Souza, honrado commerciante, e sua mulher D. Maria Margarida de Souza Neves. Com os laços do consorcio se lhes reforçaram os do parentesco e da {{hífen|con|convivencia}}<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{D|XIII}}</noinclude>{{hífen-fim|vivencia|convivencia}} infantil; eram primos e quasi irmãos; suas
avós tinham sido irmãs. Não se enraizava nem enxertava a familia em carcomidas fidalguias provincianas. Contentava-se com a nobreza do pae Adão. Vivia abastadamente da agricultura; mas no tracto das virtudes singelas e amaveis, que nos campos se ériam como os fructos, grangeara largamente bemquerenças e veneração. Bons morgados aquelles que a ninguem lesam, nem ha força humana que os desvincule. Para não derramarmos historia para fóra do nosso pequenino assumpto, indiquemos só, como genio que cifrou em si as qualidades solidas e sympathicas, hereditarias e frequentes na familia, o irmão d'aquellas duas avós do nosso casal. Chamava-se Antonio José Francisco; podera ter accrescentado Moreira, que era o appellido da familia, assignado ainda pelo pae, José Francisco Moreira; porém contentou-se com aquillo. Era pois Antonio José Francisco, abbade na freguezia rural de S. João de Canellas, a uma legua do Porto, um philosopho religioso, um homem d'estes que o são para as cousas do ceo e para as do mundo, e sabem conciliar ás mil maravilhas os interesses passageiros com os eternos. Era verdadeiramente o pastor do seu rebanho. Ainda se não fallava em juizes de paz, e já elle o era; instituira-o Deus; todos o reconheciam como tal. Havendo dissidencias na freguezia, sujeitavam-se quasi sempre os desavindos á sua decisão; se por acaso algum teimoso ia por diante com as suas pretensões, o nosso abbade só<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />XIV</noinclude>protegia a parte que tinha razão, e o fraco contra o forte. Os juizes attendiam-lhe em tudo como a varão que sabiam incapaz de falsear a consciencia. Era parente seu o Bispo Conde de Coimbra, D. Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho.
O nome do abbade de S. João de Canellas, Antonio José Francisco, vive ainda hoje nas memorias e saudades da freguezia, narrando-se d'elle innumeraveis casos que abonam haver possuido no mais alto gráo quantas virtudes e excellencias se podem requerer para um perfeito pastor de almas. Não obstante, enganar-se-ia quem o suppozesse um d'aquelles asceticos exagerados, que teem para si não haver santidade sem bisonhice, nem fervor de espirito senão o que se cobre com andrajos. Conhecia o seu tempo, e sabia que os respeitos attrahidos pela dignidade externa, accrescentam forças ao individuo para melhor levar ávante e ao cabo as emprezas da virtude, que nem sempre são facilimas. Inda hoje os que o viram, que são já poucos, se comprazem de o descrever, o seu parocho, o seu amigo, o seu rei de espiritos, vestido invariavelmente de seu calção de velludo preto, collete muito comprido da mesma droga, casaca de saragoça, cabeção e volta, e na cabeça o seu chapeu à tridentina. Ia-se á cidade, quando para serviço de alguem fazia mister, a cavallo n'uma mula possante, seguido de um criado preto montado n'outra igual. Era um prototypo, que Balzac folgaria de ter encontrado para o descrever por {{hífen|miu|miudo}}<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{D|XV}}</noinclude>{{hífen-fim|do|miudo}}, assim como o seu rosto veneravel, e a sua caracteristica residencia; era emfim um parocho de quem Lamartine ainda poderia colher alguma poesia, depois de escripto o Jocelyn.
Tinha o abbade o mais extremoso affecto a suas irmãs, dado não fosse da sua indole o manifestal-o por melindres e carinhos; os de fóra tinham de lh'o adivinhar, ou aguardar pelos lances decisivos para lh'o reconhecerem, que lá n'esses nunca elle se desmentia.
O amor do bom padre, tanto mais intenso quanto mais dissimulado, não parou nas irmãs; abrangeu inteiro aos filhos d'estas, um dos quaes foi Antonio Ventura de Azevede e Souza. Brincava este ainda creança no passal, diante dos olhos e do coração do abbade; do abbade todo ufano lá por dentro de ver como Deus lhe abençoara a velhice com tal sobrinho. Se lhe não desejaria elle as maiores ditas! a maior de todas para cordeirinho tão candido, era offerecer-se ao altar, antes que o turbilhão do mundo o arrebatasse. Sentia-se velho, e toda a alma se lhe allumiava, só de fantasiar que outro elle, o filho de sua irmã, havia de ficar com a herança de tanta benevolencia, como
a que elle andara semeando por aquelle povo, e com o seu proprio grangeio a havia de accrescentar. Depois elle, o velho, não havia de viver sempre; e bom era, antes que o espeque da casa se acabasse de comer do caruncho, e a deixasse pendida ou arruinada, acudir-lhe com esteio novo, e
cortado em tão boa lua, como para a vida {{hífen|eccle|ecclesiastica}}<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />XVI</noinclude>{{hífen-fim|siastica|ecclesiastica}} o é a bemdita da meninice. O sobrinho estava por tudo; não só resignado, mas gostoso. Namorava-o aquella poesia da egreja com imagens e tudo, a que havia de chamar sua; as sedas agaloadas que levaria debaixo do pallio; as visitas de pousada em pousada ao folar no domingo de Paschoa; e tambem um pouco o cavalgar na mula grande, e correr mundo até ao Porto, com a figura do rei Belchior do presepio atraz de si. Como hortelão curioso, que rega, torce, decota, puxa, espalma, e interlaça o arbusto docil, de que já traz architectado na idéa um caramanchão em que ha de dormir á sombra as sestas regaladas do domingo, assim ia o abbade affeiçoando cada vez mais o gosto, as idéas, a educação e a instrucção do mancebinho para o santo alvo das suas posthumas ambições. Por muito que fosse ministro de Deus o padre, não dispunha Deus n'este negocio, como elle lhe propunha.
O pau, que se principiara a talhar para um futuro devoto, não houve remedio senão empregal-o em mais profano uso. Arranjos de familia exigiram que o sacramento das ordens se trocasse no do matrimonio; tenho não pesaria muito ao iniciado clerigo a metamorphose; vicejava então em toda a pompa da edade; poesia bem outra das poesias infantis o senhoreava; a prima que o ceo lhe dava como presente especial para sua noiva, era formosa, gentil e discreta, além de bonissima; merecia-o; mereciam-se ambos. As duas mães estavam encantadas com esta nova prisão, que ia ainda {{hífen|tor|tornal-as}}<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{D|XVII}}</noinclude>{{hífen-fim|nal-as|tornal-as}} mais irmãs, com esta troca de joia por joia, que a ambas enriquecia. O abbade mesmo, unindo as mãos, recebendo e abençoando os votos de tão gentis creaturas, e tão feitas uma para a outra, houve de pensar, mas que o não dissesse, que havia cousa mais deliciosa que administrar ao proximo tal sacramento: era recebel-o.
Derrubada assim a primeira esperança, logo, talvez n'aquelle mesmo acto, surdiu outra mui natural no espirito do abbade, a quem não soffria a paciencia que a boa da sua egreja houvesse de passar a mãos estranhas, que poderiam deszellar-lh'a. Depois aquelle campanario, as andorinhas d'aquelles beirados, as arvores e as pedras contadas do passal, tinham-se acostumado tanto á boa gente do sangue d'elle, que por força haviam de estranhar se vissem por alli caras novas, e ouvissem outras fallas. Foi pois a sua idéa que o primeiro filho que viesse a lume do consorcio, seria creado para a abbadia; lá que havia de vir, não duvidava elle; tamanha era a fé que na benção tinha posto. Avisinhava-se o tempo de se lhe realisar a prophecia do desejo. A hora suspirada allumia o thalamo da esposa. Exultam as duas mães. Suspira o abbade. O seu projectado successor saiu uma menina. Que remedio já agora senão querer-lhe muito! Deu-lhe no baptismo o melhor nome que soube, o unico de todos os bellos nomes que por mais que se multiplique e envelheça é sempre bello, sympathico e poetico. Maria é a heroina da nossa pequena<noinclude>{{D|2}}</noinclude>
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